quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Reflexo

Eu sou um poço de sentimentos, grande e fundo, mas minhas águas são cristalinas e termais. Te enlaçam num toque suave, aconchegante e despretensioso.
Já fui gelo, mas derreti e virei isso. Feito a água: sou reflexo. Me olha que eu te olho de volta, me toca que eu te absorvo, mas se você mergulhar sem autorização, eu te afogo.



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A saudade mesmo só vem depois porque, na hora, o que acontece é o choque. A falta vai vir conforme os dias passam, e, de repente, todo mundo vai notar um lugar vazio à mesa, um espaço a mais no sofá que, antes, nem cabia todo mundo. A fala típica em determinadas ocasiões vai dar lugar ao silêncio, porque todo mundo tem sempre alguma frase clássica e única, e ninguém vai se atrever a repeti-la porque não vai soar igual. Algumas piadas bobas só tem graça se ditas por aqueles lábios específicos.
E a receita preferida já não vai ter o mesmo sabor, e ninguém vai conseguir fazer aquele bolo com o mesmo gosto. A música que sempre pedia pra tocar outra vez vai passar despercebida porque não há mais quem goste tanto assim pra ouvir duas vezes.
E então, onde era barulho vira silêncio. E o silêncio que era conforto virou vazio. A dor da saudade é bonita, mas a dor da falta tem gosto de floral: quer ser consolo pro corpo, mas toca na primeira parte dele já amargando a alma.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Culpas

Dentre as muitas crises que ando tendo, essa está sendo a mais dificil de lidar. Escrevo pra uma página em branco que me olha fria e distante, sem emoções, como eu tenho andado ultimamente. Quase me reconheço nela, apática e branca. Talvez mais tarde piore quando eu começar a ser questionada sobre alguns problemas que, mais uma vez, causei aos outros.
Mas agora, bem agora, eu quero falar aos problemas que causaram a mim, porque muita coisa tem me doído em silêncio. Coisas que , por medo, não exponho. Medo de expor outras pessoas, medo de expor minha forma de não saber lidar com a sociedade, talvez.
Vamos começar do meio porque o começo está muito distante. Eu tive disturbios alimentares. Não sei qual exatamente, não sei o grau (embora não tenha sido muito grave, por motivos óbvios). Eu passava horas sem comer. Horas. E mais horas. Comeu? Comi, claro.
Depois, quando não aguentava mais, eu comia alguma besteira. Depois não sabia lidar com a culpa e vomitava. Afinal, eu não estava no padrão. Eu estava quase 20 quilos acima do meu peso, com depressão e sindrome do pânico, e minha ansiedade me prendendo numa sala escura do trabalho porque eu tinha medo de ir embora. Então eu ligava pra alguém me buscar. Algumas vezes eu desabava de chorar dentro do carro enquanto ninguém sabia o que fazer com isso. Outras vezes eu disfarçava muito bem. Chegava em casa, vomitava, fingia mais um pouco e logo já era a hora de dormir. Tudo isso porque eu precisava chegar num padrão. Eu precisava que as pessoas parassem de me dizer que eu estava gorda, eu precisava que as pessoas me vissem arrumada e me fizessem um elogio qualquer pra eu me sentir algo diferente de uma aberração. Mas as pessoas, bom, elas estão ocupadas vivendo suas vidas. Elas estão focadas nos seus próprios problemas. Elas não percebem.
Então eu continuei. E ninguém notou. E assim os dias se passavam enquanto todas as mulheres do mundo pareciam mais bonitas que eu, todas as mulheres do mundo eram mais interessantes, todas as fotos perfeitas no instagram continuavam cheias de like, e eu cheia de vontade de vomitar. Literalmente.
O quanto isso me afetou? Não sei dizer. Sei que foi preciso muito tempo pra superar, e ainda estou precisando desse tempo, porque dizer que superei seria a maior mentira deste texto, um dos mais honestos que já escrevi. O quanto me afetava ouvir elogios à outras mulheres e não receber nenhum? O quanto me afetava certas brincadeiras em grupos de amigos?  O quanto me afetava os likes e não likes? O quanto me afetava a falta de atração no olhar de quem eu queria que sentisse atração?
Bom, nada disso foi mensurado. Nada disso foi jamais colocado em pauta. É sempre a culpa o que me resta, porque todos que me conhecem sabem muito bem a minha facilidade em abraça-la. Eu fui criada pra isso né? Fui criada pra assumir a culpa. Sempre. Sendo minha ou não. Porque mesmo se não for, ainda é, sabe? Sempre é. Nasceu comigo. O que me revolta é essa minha passividade. É essa minha forma de abraçar essas culpas todas e senti-las e aceita-las. Minhas. Vocês tem razão. Todas minhas.
Teve um outra vez que eu escrevi uma carta me desculpando. Já imaginaram por que uma carta né? Bom, ela seria uma reunião das ultimas palavras que eu pretendia deixar no mundo. E minhas ultimas palavras eu usei pra me desculpar. Perceberam a gravidade? Porque eu ainda não percebi. Ainda mantenho o mesmo costume.
Teve uma outra vez que eu decidi não deixar nada. Se a culpa era minha, o que mais me cabia além da punição? Pois bem. Dessa vez eu não ia deixar cartas, estava decidido.
A terceira vez eu fui meio burra. Veja bem, eu não queria sentir dor, achei formas mais rápidas. Mas e a culpa? Dessa vez foi ela que me convenceu a desistir. Meu medo era o efeito cascata que ia causar. E a culpa seria de quem? Minha, óbvio.
Entendem? Porque eu não entendo. Eu não entendo a minha facilidade em fazer mal a mim mesma. Minha passividade em aceitar todos os males e culpas que me jogam. Minha facilidade em assumir que devo me afastar, mas não por mim, nunca por mim, afinal, foda-se se me faz mal. É sempre pelos outros. A vida, os erros, os acertos. É sempre pelos outros. Na maioria das vezes as pessoas nem sabem o que aconteceu, mas a cupa é minha e eu nem tenho coragem de me impor e dizer que não é. Ok, culpa minha, fiquem tranquilos, não voltará a acontecer. Mas sempre volta, porque não sou eu. Não fui eu a culpada. Não sou eu quem pode determinar se não vai voltar a acontecer porque não fui eu quem fez acontecer. Mas ok. Culpa minha. Não vai voltar a acontecer. É só isso que eu sei dizer, como uma maquininha programada, porque quando chega a minha vez de cuspir os erros das pessoas bem na cara delas, eu engulo. Eu lembro o quão mal me sinto quando jogam as minhas na minha cara e desisto. Não quero ver ninguém se sentindo daquele jeito. Mas eu to sempre me sentindo daquele jeito.

Eu to exausta

domingo, 18 de junho de 2017

Cartas à Peter Pan

Eu vou morrer sem você. Eu não sei quem eu sou sem você. Eu não sei quais são meus sonhos sem os seus junto. Eu não consigo andar com as mãos soltas. Eu estou perdida e você era a bússola. Mas vida que segue. Entende, querido Peter? Vida que segue, porque ela segue. Ela sempre segue, sabe? E eu sigo com ela, sem nunca entender essa sua necessidade de não me acompanhar.
Meus sonhos e planos e canções e poemas, deixo-os aqui, nesta terra boa de se plantar, porém parto pra vida real pois esta sua terra é boa só pra plantar, e eu nasci pra colher. Eu, cheia de começos e finais e ansiosa por um meio, preciso da colheita, porque ela é a forma mais clara que a vida encontrou de nos explicar o que é a palavra reciprocidade e eu preciso do recíproco também. Eu preciso de tantas coisas, meu bem, e essa sua terra do nunca não vai conseguir suprir tudo isso, infelizmente. Você poderia vir comigo. Eu quis que você viesse comigo. Mas você, Peter pan teimoso, não quer crescer e eu não posso obrigá-lo.
Onde você está agora, querido? Por que nunca me deixou te levar pra terra do sempre? Por que com você tem que ser sempre nunca? Me desgasta. Esse amor me consome, me queima, me mata, me corrói, porque eu sei exatamente o que eu tenho que fazer, meu coração grita pra eu fazer, minha alma, meu pulso, minha paz...tudo grita pra que eu volte ao mundo real, mas tem uma abelhinha que diz no meu ouvido, toda vez que estou prestes a partir, as coisas que você dizia no inicio. Você lembra do inicio né? Você na janela com a mão estendida me pedindo com todas as suas forças pra que eu vivesse, pra que eu seguisse minha própria cabeça, pra que eu baixasse essa guarda e abandonasse a segurança do chão, pra voar com você pela janela. Eu voei, lembra? Voei alto, e foi tão maravilhoso...se você soubesse! Foitão maravilhoso que eu jamais vou conseguir me arrepender de ter batido as asas tão forte.
Eu amo essa sua terra do nunca, eu amei ter voado por ela, amei os sonhos que você me deu, tanto que tive de continuar nela por um bom tempo e gostaria, de verdade, que o mundo real jamais me chamasse de volta. Mas minha alma grita pela liberdade do pra sempre, nunca do nunca. Grita pelo pra sempre finito, aquele ao qual estamos destinados. Aquele pra sempre real, não do seu pra sempre, sempre tão igual. Não sei se você vai entender tudo que digo, mas eu preciso crescer e só Deus sabe o quanto eu queria crescer junto contigo. Eu sou muda, mas meu coração quer florescer, e na sua terra eu não germino. Entende? Eu não germino porque você não me rega, e aí eu morro. Dia após dia, eu morro.
Peter, eu sei que muito ainda há de vir, eu sei que você, mesmo você, haverá de um dia receber o chamado pra florescer também, mas não dá pra te esperar. Não dá porque o mundo me fez adulta rápido demais. Num piscar de olhos, a infância me foi tirada. Numa pulsação interrompida, um respiro que foi ficando lento, um aparelho que parou de bipar para soar contínuo. Ali, naquele momento, o soco no estômago foi tão forte que eu tive que crescer. E, depois de anos, você me aparece com essa sua cara de incrível, me leva pro seu mundo fantástico, me faz apaixonar por tudo que é seu, me tira os pés do chão, arranca borboletas do meu estômago, me faz voltar pra semente, mas nunca me deixa te trazer pro meu mundo. 
Eu sempre soube que meu mundo era mais sombrio que o seu. Eu sempre soube que meu mundo tem tristezas, exige esforço e, no final, não se tem bem o que se quer. Mas eu também sempre soube que é nele que eu devo ficar, ele que me traz a segurança necessária para viver, e eu nunca gostei muito de bambear em cordas soltas, mesmo quando você, trapezista de primeira qualidade, me empurrou para elas. 
Me desculpa por precisar crescer, mas é que eu já tinha crescido, quando dei por mim, estava ao seu lado apenas fazendo de conta, porque já era adulta, mesmo na terra do nunca. Quando dei por mim, já era flor, e você me queria semente. Mas mesmo assim, me perdoa, porque eu te perdôo. Me deixa ser Wendy e existir nas suas lembranças mais bonitas, que eu prometo te deixar ser Peter Pan e viver nos meus melhores sonhos.


Com Amor, Wendy.





Just a dream, just an, ordinary dream
As I wake in bed
And that boy, that ordinary boy
Was it all in my head?



sexta-feira, 9 de junho de 2017

Eu sou uma mula empacada. To voltando umas 4 casas nesse tabuleiro da vida pra ver se desempaco. Pra ver se, quem sabe, eu acho a parte de mim que abandonei. Aquela parte que tinha sonhos proprios, aquela parte que não dependia de você nem do seu cheiro nem do som dos seus passos pra ver sentido na vida.
To voltando pra ver se me reencontro e me recomeço. Pra ver se aprendo a me segurar, me cuidar, me amar, sem precisar dos seus braços em volta de mim. Eu não quero mais precisar pegar na sua mão pra dormir segura. Eu não quero mais essa segurança estranha e ilusória. Mas eu quero, sabe? Deus, como eu quero! Eu sou criança teimosa.
Não sei onde eu me perdi. Eu não sei em qual parte desse caminho cheio de experiencias que eu deixei de ser minha pra virar tua. Eu não sei quando foi que eu me dei de presente pra você nem em que parte desse contrato de compra e venda eu concordei em não aceitar devolução. Eu não sei de nada,  porque eu perdi todas as minhas certezas.
A verdade é que eu vou voltar porque todo o caminho a minha frente resulta em você. Eu vou voltar porque meus olhos só enxergam o caminho que cruza com o seu. Volto, porque meus pés não encontram mais o chão, e eu não sei nadar nesse mar. Vou tentar olhar pra trás,  porque na minha frente só existe o futuro que eu quis pra nós.  Mas não existe mais um nós. O plural virou singular, antes nós e agora nó.