domingo, 18 de junho de 2017

Cartas à Peter Pan

Eu vou morrer sem você. Eu não sei quem eu sou sem você. Eu não sei quais são meus sonhos sem os seus junto. Eu não consigo andar com as mãos soltas. Eu estou perdida e você era a bússola. Mas vida que segue. Entende, querido Peter? Vida que segue, porque ela segue. Ela sempre segue, sabe? E eu sigo com ela, sem nunca entender essa sua necessidade de não me acompanhar.
Meus sonhos e planos e canções e poemas, deixo-os aqui, nesta terra boa de se plantar, porém parto pra vida real pois esta sua terra é boa só pra plantar, e eu nasci pra colher. Eu, cheia de começos e finais e ansiosa por um meio, preciso da colheita, porque ela é a forma mais clara que a vida encontrou de nos explicar o que é a palavra reciprocidade e eu preciso do recíproco também. Eu preciso de tantas coisas, meu bem, e essa sua terra do nunca não vai conseguir suprir tudo isso, infelizmente. Você poderia vir comigo. Eu quis que você viesse comigo. Mas você, Peter pan teimoso, não quer crescer e eu não posso obrigá-lo.
Onde você está agora, querido? Por que nunca me deixou te levar pra terra do sempre? Por que com você tem que ser sempre nunca? Me desgasta. Esse amor me consome, me queima, me mata, me corrói, porque eu sei exatamente o que eu tenho que fazer, meu coração grita pra eu fazer, minha alma, meu pulso, minha paz...tudo grita pra que eu volte ao mundo real, mas tem uma abelhinha que diz no meu ouvido, toda vez que estou prestes a partir, as coisas que você dizia no inicio. Você lembra do inicio né? Você na janela com a mão estendida me pedindo com todas as suas forças pra que eu vivesse, pra que eu seguisse minha própria cabeça, pra que eu baixasse essa guarda e abandonasse a segurança do chão, pra voar com você pela janela. Eu voei, lembra? Voei alto, e foi tão maravilhoso...se você soubesse! Foitão maravilhoso que eu jamais vou conseguir me arrepender de ter batido as asas tão forte.
Eu amo essa sua terra do nunca, eu amei ter voado por ela, amei os sonhos que você me deu, tanto que tive de continuar nela por um bom tempo e gostaria, de verdade, que o mundo real jamais me chamasse de volta. Mas minha alma grita pela liberdade do pra sempre, nunca do nunca. Grita pelo pra sempre finito, aquele ao qual estamos destinados. Aquele pra sempre real, não do seu pra sempre, sempre tão igual. Não sei se você vai entender tudo que digo, mas eu preciso crescer e só Deus sabe o quanto eu queria crescer junto contigo. Eu sou muda, mas meu coração quer florescer, e na sua terra eu não germino. Entende? Eu não germino porque você não me rega, e aí eu morro. Dia após dia, eu morro.
Peter, eu sei que muito ainda há de vir, eu sei que você, mesmo você, haverá de um dia receber o chamado pra florescer também, mas não dá pra te esperar. Não dá porque o mundo me fez adulta rápido demais. Num piscar de olhos, a infância me foi tirada. Numa pulsação interrompida, um respiro que foi ficando lento, um aparelho que parou de bipar para soar contínuo. Ali, naquele momento, o soco no estômago foi tão forte que eu tive que crescer. E, depois de anos, você me aparece com essa sua cara de incrível, me leva pro seu mundo fantástico, me faz apaixonar por tudo que é seu, me tira os pés do chão, arranca borboletas do meu estômago, me faz voltar pra semente, mas nunca me deixa te trazer pro meu mundo. 
Eu sempre soube que meu mundo era mais sombrio que o seu. Eu sempre soube que meu mundo tem tristezas, exige esforço e, no final, não se tem bem o que se quer. Mas eu também sempre soube que é nele que eu devo ficar, ele que me traz a segurança necessária para viver, e eu nunca gostei muito de bambear em cordas soltas, mesmo quando você, trapezista de primeira qualidade, me empurrou para elas. 
Me desculpa por precisar crescer, mas é que eu já tinha crescido, quando dei por mim, estava ao seu lado apenas fazendo de conta, porque já era adulta, mesmo na terra do nunca. Quando dei por mim, já era flor, e você me queria semente. Mas mesmo assim, me perdoa, porque eu te perdôo. Me deixa ser Wendy e existir nas suas lembranças mais bonitas, que eu prometo te deixar ser Peter Pan e viver nos meus melhores sonhos.


Com Amor, Wendy.





Just a dream, just an, ordinary dream
As I wake in bed
And that boy, that ordinary boy
Was it all in my head?



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