sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Culpas

Dentre as muitas crises que ando tendo, essa está sendo a mais dificil de lidar. Escrevo pra uma página em branco que me olha fria e distante, sem emoções, como eu tenho andado ultimamente. Quase me reconheço nela, apática e branca. Talvez mais tarde piore quando eu começar a ser questionada sobre alguns problemas que, mais uma vez, causei aos outros.
Mas agora, bem agora, eu quero falar aos problemas que causaram a mim, porque muita coisa tem me doído em silêncio. Coisas que , por medo, não exponho. Medo de expor outras pessoas, medo de expor minha forma de não saber lidar com a sociedade, talvez.
Vamos começar do meio porque o começo está muito distante. Eu tive disturbios alimentares. Não sei qual exatamente, não sei o grau (embora não tenha sido muito grave, por motivos óbvios). Eu passava horas sem comer. Horas. E mais horas. Comeu? Comi, claro.
Depois, quando não aguentava mais, eu comia alguma besteira. Depois não sabia lidar com a culpa e vomitava. Afinal, eu não estava no padrão. Eu estava quase 20 quilos acima do meu peso, com depressão e sindrome do pânico, e minha ansiedade me prendendo numa sala escura do trabalho porque eu tinha medo de ir embora. Então eu ligava pra alguém me buscar. Algumas vezes eu desabava de chorar dentro do carro enquanto ninguém sabia o que fazer com isso. Outras vezes eu disfarçava muito bem. Chegava em casa, vomitava, fingia mais um pouco e logo já era a hora de dormir. Tudo isso porque eu precisava chegar num padrão. Eu precisava que as pessoas parassem de me dizer que eu estava gorda, eu precisava que as pessoas me vissem arrumada e me fizessem um elogio qualquer pra eu me sentir algo diferente de uma aberração. Mas as pessoas, bom, elas estão ocupadas vivendo suas vidas. Elas estão focadas nos seus próprios problemas. Elas não percebem.
Então eu continuei. E ninguém notou. E assim os dias se passavam enquanto todas as mulheres do mundo pareciam mais bonitas que eu, todas as mulheres do mundo eram mais interessantes, todas as fotos perfeitas no instagram continuavam cheias de like, e eu cheia de vontade de vomitar. Literalmente.
O quanto isso me afetou? Não sei dizer. Sei que foi preciso muito tempo pra superar, e ainda estou precisando desse tempo, porque dizer que superei seria a maior mentira deste texto, um dos mais honestos que já escrevi. O quanto me afetava ouvir elogios à outras mulheres e não receber nenhum? O quanto me afetava certas brincadeiras em grupos de amigos?  O quanto me afetava os likes e não likes? O quanto me afetava a falta de atração no olhar de quem eu queria que sentisse atração?
Bom, nada disso foi mensurado. Nada disso foi jamais colocado em pauta. É sempre a culpa o que me resta, porque todos que me conhecem sabem muito bem a minha facilidade em abraça-la. Eu fui criada pra isso né? Fui criada pra assumir a culpa. Sempre. Sendo minha ou não. Porque mesmo se não for, ainda é, sabe? Sempre é. Nasceu comigo. O que me revolta é essa minha passividade. É essa minha forma de abraçar essas culpas todas e senti-las e aceita-las. Minhas. Vocês tem razão. Todas minhas.
Teve um outra vez que eu escrevi uma carta me desculpando. Já imaginaram por que uma carta né? Bom, ela seria uma reunião das ultimas palavras que eu pretendia deixar no mundo. E minhas ultimas palavras eu usei pra me desculpar. Perceberam a gravidade? Porque eu ainda não percebi. Ainda mantenho o mesmo costume.
Teve uma outra vez que eu decidi não deixar nada. Se a culpa era minha, o que mais me cabia além da punição? Pois bem. Dessa vez eu não ia deixar cartas, estava decidido.
A terceira vez eu fui meio burra. Veja bem, eu não queria sentir dor, achei formas mais rápidas. Mas e a culpa? Dessa vez foi ela que me convenceu a desistir. Meu medo era o efeito cascata que ia causar. E a culpa seria de quem? Minha, óbvio.
Entendem? Porque eu não entendo. Eu não entendo a minha facilidade em fazer mal a mim mesma. Minha passividade em aceitar todos os males e culpas que me jogam. Minha facilidade em assumir que devo me afastar, mas não por mim, nunca por mim, afinal, foda-se se me faz mal. É sempre pelos outros. A vida, os erros, os acertos. É sempre pelos outros. Na maioria das vezes as pessoas nem sabem o que aconteceu, mas a cupa é minha e eu nem tenho coragem de me impor e dizer que não é. Ok, culpa minha, fiquem tranquilos, não voltará a acontecer. Mas sempre volta, porque não sou eu. Não fui eu a culpada. Não sou eu quem pode determinar se não vai voltar a acontecer porque não fui eu quem fez acontecer. Mas ok. Culpa minha. Não vai voltar a acontecer. É só isso que eu sei dizer, como uma maquininha programada, porque quando chega a minha vez de cuspir os erros das pessoas bem na cara delas, eu engulo. Eu lembro o quão mal me sinto quando jogam as minhas na minha cara e desisto. Não quero ver ninguém se sentindo daquele jeito. Mas eu to sempre me sentindo daquele jeito.

Eu to exausta

domingo, 18 de junho de 2017

Cartas à Peter Pan

Eu vou morrer sem você. Eu não sei quem eu sou sem você. Eu não sei quais são meus sonhos sem os seus junto. Eu não consigo andar com as mãos soltas. Eu estou perdida e você era a bússola. Mas vida que segue. Entende, querido Peter? Vida que segue, porque ela segue. Ela sempre segue, sabe? E eu sigo com ela, sem nunca entender essa sua necessidade de não me acompanhar.
Meus sonhos e planos e canções e poemas, deixo-os aqui, nesta terra boa de se plantar, porém parto pra vida real pois esta sua terra é boa só pra plantar, e eu nasci pra colher. Eu, cheia de começos e finais e ansiosa por um meio, preciso da colheita, porque ela é a forma mais clara que a vida encontrou de nos explicar o que é a palavra reciprocidade e eu preciso do recíproco também. Eu preciso de tantas coisas, meu bem, e essa sua terra do nunca não vai conseguir suprir tudo isso, infelizmente. Você poderia vir comigo. Eu quis que você viesse comigo. Mas você, Peter pan teimoso, não quer crescer e eu não posso obrigá-lo.
Onde você está agora, querido? Por que nunca me deixou te levar pra terra do sempre? Por que com você tem que ser sempre nunca? Me desgasta. Esse amor me consome, me queima, me mata, me corrói, porque eu sei exatamente o que eu tenho que fazer, meu coração grita pra eu fazer, minha alma, meu pulso, minha paz...tudo grita pra que eu volte ao mundo real, mas tem uma abelhinha que diz no meu ouvido, toda vez que estou prestes a partir, as coisas que você dizia no inicio. Você lembra do inicio né? Você na janela com a mão estendida me pedindo com todas as suas forças pra que eu vivesse, pra que eu seguisse minha própria cabeça, pra que eu baixasse essa guarda e abandonasse a segurança do chão, pra voar com você pela janela. Eu voei, lembra? Voei alto, e foi tão maravilhoso...se você soubesse! Foitão maravilhoso que eu jamais vou conseguir me arrepender de ter batido as asas tão forte.
Eu amo essa sua terra do nunca, eu amei ter voado por ela, amei os sonhos que você me deu, tanto que tive de continuar nela por um bom tempo e gostaria, de verdade, que o mundo real jamais me chamasse de volta. Mas minha alma grita pela liberdade do pra sempre, nunca do nunca. Grita pelo pra sempre finito, aquele ao qual estamos destinados. Aquele pra sempre real, não do seu pra sempre, sempre tão igual. Não sei se você vai entender tudo que digo, mas eu preciso crescer e só Deus sabe o quanto eu queria crescer junto contigo. Eu sou muda, mas meu coração quer florescer, e na sua terra eu não germino. Entende? Eu não germino porque você não me rega, e aí eu morro. Dia após dia, eu morro.
Peter, eu sei que muito ainda há de vir, eu sei que você, mesmo você, haverá de um dia receber o chamado pra florescer também, mas não dá pra te esperar. Não dá porque o mundo me fez adulta rápido demais. Num piscar de olhos, a infância me foi tirada. Numa pulsação interrompida, um respiro que foi ficando lento, um aparelho que parou de bipar para soar contínuo. Ali, naquele momento, o soco no estômago foi tão forte que eu tive que crescer. E, depois de anos, você me aparece com essa sua cara de incrível, me leva pro seu mundo fantástico, me faz apaixonar por tudo que é seu, me tira os pés do chão, arranca borboletas do meu estômago, me faz voltar pra semente, mas nunca me deixa te trazer pro meu mundo. 
Eu sempre soube que meu mundo era mais sombrio que o seu. Eu sempre soube que meu mundo tem tristezas, exige esforço e, no final, não se tem bem o que se quer. Mas eu também sempre soube que é nele que eu devo ficar, ele que me traz a segurança necessária para viver, e eu nunca gostei muito de bambear em cordas soltas, mesmo quando você, trapezista de primeira qualidade, me empurrou para elas. 
Me desculpa por precisar crescer, mas é que eu já tinha crescido, quando dei por mim, estava ao seu lado apenas fazendo de conta, porque já era adulta, mesmo na terra do nunca. Quando dei por mim, já era flor, e você me queria semente. Mas mesmo assim, me perdoa, porque eu te perdôo. Me deixa ser Wendy e existir nas suas lembranças mais bonitas, que eu prometo te deixar ser Peter Pan e viver nos meus melhores sonhos.


Com Amor, Wendy.





Just a dream, just an, ordinary dream
As I wake in bed
And that boy, that ordinary boy
Was it all in my head?



sexta-feira, 9 de junho de 2017

Eu sou uma mula empacada. To voltando umas 4 casas nesse tabuleiro da vida pra ver se desempaco. Pra ver se, quem sabe, eu acho a parte de mim que abandonei. Aquela parte que tinha sonhos proprios, aquela parte que não dependia de você nem do seu cheiro nem do som dos seus passos pra ver sentido na vida.
To voltando pra ver se me reencontro e me recomeço. Pra ver se aprendo a me segurar, me cuidar, me amar, sem precisar dos seus braços em volta de mim. Eu não quero mais precisar pegar na sua mão pra dormir segura. Eu não quero mais essa segurança estranha e ilusória. Mas eu quero, sabe? Deus, como eu quero! Eu sou criança teimosa.
Não sei onde eu me perdi. Eu não sei em qual parte desse caminho cheio de experiencias que eu deixei de ser minha pra virar tua. Eu não sei quando foi que eu me dei de presente pra você nem em que parte desse contrato de compra e venda eu concordei em não aceitar devolução. Eu não sei de nada,  porque eu perdi todas as minhas certezas.
A verdade é que eu vou voltar porque todo o caminho a minha frente resulta em você. Eu vou voltar porque meus olhos só enxergam o caminho que cruza com o seu. Volto, porque meus pés não encontram mais o chão, e eu não sei nadar nesse mar. Vou tentar olhar pra trás,  porque na minha frente só existe o futuro que eu quis pra nós.  Mas não existe mais um nós. O plural virou singular, antes nós e agora nó.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sobre eu não ser a mulher da sua vida

[Eu escrevi esse texto ha cerca de dois anos e meio atrás. Hoje, relendo, acrescentando coisas, apagando outras, adaptando pra minha fase atual e tentando entender aquela menina que escreveu, eu percebo que ainda carrego muito dela em mim, porque poucas coisas eu precisei alterar; percebo também que já sabia o desfecho desta história.
Apesar do coração ter endurecido um pouco, se fechando para o que antes me atingia brutalmente, eu ainda carrego essa quantidade absurda de sentimentos. Chamam de drama, mas eu chamo de sentimento. Chamam-me de sensível, de exagero, mas não me acho excessiva. Me vejo humana, num mundo onde muitos perderam essa humanidade, ao mesmo tempo que me vejo idiota. Não sei bem o que fazer com esse tanto de amor que existe em mim, então tento transformá-lo em palavras e deixar fluir. Talvez estale na lingua de quem lê, talvez entale em alguma garganta, ou esquente um coração, talvez não cause nada, mas o que importa é que todo o amor que eu tenho estou enviando na escrita e espero que ela seja sentida por quem lê tanto quanto é por quem está escrevendo.]


Eu não sou. Você me quer pra passar o tempo, pra ver um filme em casa, pra contar seus problemas e seus sonhos que outras pessoas achariam banais. Você me ama só na sua cabeça, porque seu coração não se agita perto de mim. Seu estômago não embrulha. Nem hoje, talvez nem no dia que nos conhecemos. Você me ama hoje, aqui, agora, mas dane-se o amanhã. Você tem preguiça de sair comigo. Você não quer me ver todos os dias e uma semana longe é pouco pra sentir minha falta. Você não tem vontade de fazer algo diferente, de me levar a lugares legais, de se divertir junto comigo. Dançar, sair, beber, comer, rir. Você não liga. Por isso eu sei que não sou a mulher da sua vida.
A problemática reside em: você acha que eu digo tudo isso porque espero muito de você. Tenho 20 anos, meu amor, mas minha cabeça, na maior parte do tempo, é de 40. Tive romances efêmeros, amores passageiros, paixões absurdas e rápidas, mas nenhum deles era o homem da minha vida, então dispensei cada um, porque não me relaciono por simples prazer de se relacionar, passei reto por essa fase. Eu me relaciono por amor, e o amor faz a gente pensar num futuro, num pra sempre.
Você foi o homem da minha vida. Por isso, talvez, foi o único que eu quis apresentar pra familia. Por achar que você um dia seria parte dela. Foi o único que me fez pensar no futuro. Você foi o homem da minha vida até o dia que eu notei que eu nunca fui a mulher da sua. Você me olha e não pensa em para sempre. Você me olha e não me vê, e não se importa em não ver. Você vive o agora comigo, porque nunca ao menos pensou que poderia haver um depois. Tudo isso, sabe por que? Porque você não quer um depois. Não comigo.
Quando a gente quer, a gente pensa em casar, ter dois filhos e um cachorro, sem nem perceber. A gente muda os planos loucos que tinha antes e aceita de olhos fechados passar a vida em um casa simples com uma conta vermelha no fim do mês. Mas você sempre queria mais, planejava coisas que sabia que não poderiam me incluir, pelo menos não por alguns anos.
Quando a gente ama, andar na praça de mãos dadas durante um dia fresco é suficiente. E você me disse certa vez "desculpa, mas eu não vejo graça em ficar na praça". Quando a gente ama, a gente quer sair, viajar, se divertir ao lado da pessoa. Mas você nunca está afim, você nunca quer, você nunca tem dinheiro, mesmo que eu pague.
Desculpa, mas pra mim não dá mais assim. Você teria sido o homem da minha vida, mas te faltou vontade de sê-lo. Você provavelmente não está afim de ser tudo isso na vida de alguém como eu, meio problemática, cheia de traumas e bloqueios e receios. Porque dá trabalho, tem que ter vontade, tem que querer, tem que se esforçar e você vai bocejar de preguiça só de imaginar.
Infelizmente, não deu. E não vai dar nunca mais porque eu não sei remendar laços que já rompi. E não sou mais mulher de voltar atrás em decisão, por isso eu demoro para agir, mas quando decido, não há mais nada a ser feito. Nas minhas orações, eu pedia tanto que você não me deixasse chegar nesse nível, pedi aos céus, a Deus, aos anjos, para não me deixarem tomar essa atitude que meu coração, cansado, pediu pra que eu tomasse. Mas você preferiu assim, você deixou chegar onde chegamos, mesmo que eu sonhasse todas as noites com o dia em que eu iria acordar e você iria dizer algo que me fizesse desistir da ideia de desistir de nós. Mas esse dia nunca chegou.
Todas as vezes que eu chorei perto de você por algum motivo da vida, e seus braços me acolheram tentando me acalmar, será que nunca percebeu que eu estava chorando também por um pouco de nós? Chorando porque sentia que a cada dia te perdia mais, e não podia evitar. Chorando porque talvez assim você quisesse passar mais tempo comigo, mas a gente não precisava se ver todo dia, né?
Você vai sentir falta, muita falta. Dos meus carinhos, dos meus beijos, da minha paciência, meu companheirismo. Mas você só vai entender o que eu to dizendo o dia que você encontrar uma mulher que te faça sentir o que eu sentia com você, que faça você querer casar, de um jeito que nenhuma nunca antes fez, nem mesmo eu. Quando você olhar para uma mulher, e sentir que não pode passar mais nenhum minuto da sua vida longe dela, você vai entender o que eu digo. E o quanto me dói dizê-lo, de tanto que eu quis ser essa mulher. Quando você ver a mulher da sua vida te deixando ir embora porque você não é o homem da vida dela, talvez você me compreenda.
Com tudo isso, eu não quis apontar culpados. Eu quis apontar sentimentos, aqueles sentidos e os não sentidos também. Quem sentiu e quem não sentiu. Quem ainda sente e quem já não sente mais. Com todas essas palavras, eu não quis jamais atacar, como eu sei que você vai achar, eu quis desabafar. Eu quis dizer tudo que tava engasgado e eu jamais conseguiria dizer olhando nos seus olhos, porque doeria demais e meu coração já está despedaçado.
Eu sinto muito, meu amor. Eu sinto muito por mim, por ter sentido muito. Eu sinto muito por nós e eu sinto muito por você. Porque eu sou dessas que sentem muito. E eu sinto muito por isso.


¹ O maior erro, nós sabemos, foi meu. Admito, confesso, e chego a ter ideias suicidas só de lembrar disso. Mas no fundo, apesar de ter errado feio com você, de uma coisa eu tenho certeza: o que aconteceu com a gente foi falta de amor. 
Faltou você me amar como eu te amo. Faltou eu me amar. como eu te amo. Me faltou amor de todas as partes, inclusive e principalmente da minha.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O jogo dos adultos

Eu ainda escrevo eventualmente, mas depois que a gente vira adulto fica meio difícil expressar qualquer sentimento porque nós, adultos, estamos em um jogo. O mundo adulto não é muito receptivo e, com o tempo, a gente acaba aprendendo a esconder mais do que mostrar, a se conter mais do que se dar. Muitas das vezes apenas para não haver danos, porque uma coisa que adultos fazem muito bem é decepcionar uns aos outros, porém algumas vezes a gente se fecha apenas por medo.

Crescer é um pouco absurdo, principalmente para crianças que foram um tanto quanto amorosas demais, sentimentais, intensas, apaixonadas pelas belezas do mundo, das artes, da vida, como eu fui. Para essas crianças é especialmente difícil aceitar o mundo como ele é, cheio de joguinhos. Jogos de interesse, de amor, de amizade, de dinheiro. São jogos que ninguém nunca vence, mas que ninguém pode pedir pra parar de jogar depois que se cresce. Como se fosse um segredo, todos jogam, mas ninguém tem coragem de mencionar o jogo.

Acho que, pra mim, tem sido complicado a adaptação com esse mundo principalmente pela frieza dele. Eu sou quente. Meu calor quer irradiar e abraçar todos ao meu redor, mas as regras do jogo são claras e calculistas. Talvez por isso tem sido particularmente doloroso ver os anos passarem por mim. Os jogadores vão ficando cada vez mais experientes e eu cada vez mais café-com-leite. Eu sou aquela que pede pra sair do jogo porque tá com sono. Eu sou aquela que joga só pra completar a quantidade de gente necessária para jogar. Porque eu odeio esse jogo.

Permaneço sorrindo, fingindo que estou super acompanhando as estratégias e, inclusive, fazendo a minha. Belisco os petiscos e aquela coca-cola que alguém vai acabar batendo a mão e derrubando em cima do tabuleiro (provavelmente eu mesma), enquanto não chega minha vez de jogar. Permaneço lançando os dados, fracassando com meu azar e fazendo piada de mim mesma: "azar no jogo..já sabem né?"
Só que, neste jogo, se você tem azar...bom...você perde, e não pára de perder nunca porque ele só acaba quando você morre.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

É muito difícil lidar com pensamentos suicidas quando você tem mais medo de viver do que de morrer.