sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Inteira

Eu sou medrosa. Tenho medo do futuro chegar e eu não saber pagar as contas. Tenho medo de perder pessoas, de ganhá-las, de acreditar demais e de não conseguir confiar. Tenho medo de envelhecer. Perder meus traços jovens, meus cabelos castanhos, meus movimentos ágeis, minhas ideias rebeldes, meu inconformismo, minha vontade de liberdade, minha coragem. Tenho essa incrivel e detestável mania de guardar todas as mágoas e disfarçá-las ao longo de muito tempo e depois explodir com todas as forças, assustando todo mundo. É horrível, eu sei.
Eu sou um pássaro do tipo dócil, entro em gaiolas facilmente e por livre e espontânea vontade. Digo que gosto de estar ali e realmente gosto, porque enquanto a decisão de estar ali for somente minha, não me sentirei presa. Mas assim, de um dia pro outro, alguém fecha a portinhola e me prende lá dentro, e aí eu começo a me debater entre as grades e saio voando. E, outra vez, assusto as pessoas. "Não era aquela ave mansa que adorava ficar quietinha no canto esquerdo do poleiro, o tempo todo?" Era.
Tudo isso porque, de repente, eu era e não sou mais. De repente, eu tava andando pelas grades e, no instante seguinte, voando pelo céu. Porque é assim comigo. Eu não costumo ser, mas estar. Eu não sei permanecer, porque preciso da mudança. Preciso da escolha, dos vários caminhos, das possibilidades. Preciso da fuga, tanto quanto preciso de um lugar para voltar. Preciso de espaço, tanto quanto preciso de companhia. Preciso do tempo, tanto quanto quero passá-lo o máximo com quem amo. Não dá pra explicar. Não dá pra entender. Por isso, não peço que compreendam. 
Se me proíbem de querer, é quando mais quero, porque não admito ordens, não por arrogância ou rebeldia, apenas por experiência. Sei o que é melhor pra mim, aprendi a decidir isso sozinha há um bom tempo. Eu vou sempre fazer o contrário do que me mandarem, porque não aceito que mandem em mim. Viro tempestade quando me querem chuvisco. Não por maldade, por gostar de ser do contra, mas por vontade de ser eu e só eu a tomar as decisões do que serei hoje, do que farei com a minha vida. Soa errado, soa estranho, soa prepotente, mas é tão da minha natureza, tão sentimental, tão meu jeito.
Sou desejo de ficar, ânsia de sair por aí sem rumo. Sou vontade de ser livre e medo da liberdade. Pés fincados no chão até as canelas, e cabeça tão alta que ultrapassa a mais alta das nuvens. Raízes no ar, já me disseram. Fome de viajar, vontade de casar e morar no campo. Me perder pelo mundo, me encontrar numa rua de um bairro qualquer de uma cidadezinha calma. Ânsia do amor, fetiche pela independência. 
Sou transição. Vivo andando, correndo, as vezes paro por anos, e depois saio voando. Sem ordem, sem planos, sem qualquer tipo de critério. Sou trânsito, fico onde me abriga por quanto tempo me agrade. Vocês me querem em um lugar só, sendo uma pessoa só, mas eu sou o mundo todo aqui dentro. Um animal selvagem. Uma ave migratória. Um grão de areia. Eu sou meio cigana. Eu sou meio mudança. Eu sou meio um monte de coisas, mas esse monte de coisas é que me faz ser inteira.