sábado, 5 de abril de 2014

O que vocês não entendem

O trauma vira rotina quando você cresce. Você não, desculpem homens. Corrigindo: quando você, mulher, cresce. Começa com uns 10 anos, com um assovio, um "linda" e uns olhares nojentos. Daí pra frente só piora, e já dá pra ouvir uns "gostosa" ou "te chupo toda". E aí você cresce e seu corpo não é mais seu, porque ele tem que vestir o que a sociedade acha que ele tem que vestir. E ai de quem não seguir a regra da vestimenta. Um short na rua? Inaceitável, tá pedindo, gosta de se mostrar. Uma saia então, é porque você quer dar, sem exceção, sem nem escolher pra quem, o primeiro que passar a mão na tua bunda serve. Calça, ok, não mostra as pernas, mas é justa? Se for, é porque você quer ser cantada, você gosta, né?
É assim a vida inteira. E eu tenho 20 anos, e minha vida inteira foi assim. "Não fique sozinha com homens em casa", "Não aceite bebida de ninguém", "Não beba", "Não use short/saia na rua", "Não saia a noite", "Não seja bonita", "Não se arrume". Em outras palavras? Não seja mulher. Não seja educada, porque um bom dia pode despertar o interesse de alguém e a culpa é do seu bom dia. Não seja prestativa, porque dar uma informação a um desconhecido pode fazer ele gostar demais de você. Entende?
Não, vocês não entendem. O que é sexo hoje em dia né? O cara poderia estar matando, roubando, comendo criancinhas e ta aí, assediando uma mulher, obrigando-a a transar com ele. Que mal há nisso, não é mesmo? Ela vai até gozar, se ele for bom, certo? Afinal, porque as mulheres reclamam tanto disso se elas fazem com outros caras? Por que elas tem tanto nojo de um cara na rua gritando putarias, cheio de tesão? Deveria ser uma honra um homem desconhecido sentir atração por você.
Não, vocês não entendem. O medo, o nojo, o pavor, o trauma. Vocês não entendem o choro preso na garganta por se sentir um objeto, o sentimento de inferioridade e impotência. Nunca vão entender. Ter medo de sair de casa, não só porque pode perder o celular ou a vida, mas, além disso, perder a dignidade, o respeito.
Não, homens, vocês não entendem. Nenhum de vocês. O misto de raiva, mágoa e trauma que sobra de um simples fiufiu na rua. A sensação de medo quando você olha pra trás e vê um homem te seguindo ou como você corre sem nem saber pra onde. O pavor quando alguém segura seu braço e não solta, e te beija sem permissão, te agarra goela a baixo. Os hematomas no joelho que te lembram de quando você caiu correndo daquele homem, ou no braço que não te deixam esquecer do cara que te segurou e não quis soltar naquela festa. As lembranças de cada violência sofrida, verbal, física ou psicológica. E a culpa que é totalmente sua, sempre, no final de todas as ocasiões. Mas vocês nunca vão entender.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)