domingo, 6 de abril de 2014

Âncora

Eu abro um livro qualquer, leio até não conseguir mais. Coloca uma música alta. Pulo na piscina, corro até o mar. Eu afogo nisso tudo, pra não me afogar em mim. Me afogo no que me distrai, pra não afogar nas lágrimas que fazem cair. Todos os dias.
Elas sempre caem de alguma forma. Mas se não fujo delas, eu morro sufocada. Você não as impede, ninguém as impede, porque ninguém as vê. Se vê, não liga.
Não aprendi a navegar ainda, sou uma eterna âncora e você vive me jogando no mar. E eu vivo a afundar porque a única boia que poderia me salvar é o amor, mas você não me ama e aí eu vivo morrendo afogada.

sábado, 5 de abril de 2014

O que vocês não entendem

O trauma vira rotina quando você cresce. Você não, desculpem homens. Corrigindo: quando você, mulher, cresce. Começa com uns 10 anos, com um assovio, um "linda" e uns olhares nojentos. Daí pra frente só piora, e já dá pra ouvir uns "gostosa" ou "te chupo toda". E aí você cresce e seu corpo não é mais seu, porque ele tem que vestir o que a sociedade acha que ele tem que vestir. E ai de quem não seguir a regra da vestimenta. Um short na rua? Inaceitável, tá pedindo, gosta de se mostrar. Uma saia então, é porque você quer dar, sem exceção, sem nem escolher pra quem, o primeiro que passar a mão na tua bunda serve. Calça, ok, não mostra as pernas, mas é justa? Se for, é porque você quer ser cantada, você gosta, né?
É assim a vida inteira. E eu tenho 20 anos, e minha vida inteira foi assim. "Não fique sozinha com homens em casa", "Não aceite bebida de ninguém", "Não beba", "Não use short/saia na rua", "Não saia a noite", "Não seja bonita", "Não se arrume". Em outras palavras? Não seja mulher. Não seja educada, porque um bom dia pode despertar o interesse de alguém e a culpa é do seu bom dia. Não seja prestativa, porque dar uma informação a um desconhecido pode fazer ele gostar demais de você. Entende?
Não, vocês não entendem. O que é sexo hoje em dia né? O cara poderia estar matando, roubando, comendo criancinhas e ta aí, assediando uma mulher, obrigando-a a transar com ele. Que mal há nisso, não é mesmo? Ela vai até gozar, se ele for bom, certo? Afinal, porque as mulheres reclamam tanto disso se elas fazem com outros caras? Por que elas tem tanto nojo de um cara na rua gritando putarias, cheio de tesão? Deveria ser uma honra um homem desconhecido sentir atração por você.
Não, vocês não entendem. O medo, o nojo, o pavor, o trauma. Vocês não entendem o choro preso na garganta por se sentir um objeto, o sentimento de inferioridade e impotência. Nunca vão entender. Ter medo de sair de casa, não só porque pode perder o celular ou a vida, mas, além disso, perder a dignidade, o respeito.
Não, homens, vocês não entendem. Nenhum de vocês. O misto de raiva, mágoa e trauma que sobra de um simples fiufiu na rua. A sensação de medo quando você olha pra trás e vê um homem te seguindo ou como você corre sem nem saber pra onde. O pavor quando alguém segura seu braço e não solta, e te beija sem permissão, te agarra goela a baixo. Os hematomas no joelho que te lembram de quando você caiu correndo daquele homem, ou no braço que não te deixam esquecer do cara que te segurou e não quis soltar naquela festa. As lembranças de cada violência sofrida, verbal, física ou psicológica. E a culpa que é totalmente sua, sempre, no final de todas as ocasiões. Mas vocês nunca vão entender.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Agonizando

Guardo o silêncio, pra não destilar veneno. Apesar de tudo, eu os amo. Amo mesmo quando me magoam, quando me ignoram, quando me excluem. E amo tanto a ponto de não conseguir usar palavras que possam os ferir de alguma forma, ainda que mereçam ouvir, ainda que as palavras sejam verdadeiras. Guardo o silêncio, engulo seco a decepção, a raiva, o choro. Implodo, pra não causar danos à ninguém.
Mas canso, porque sou humana, e meu coração deve ser pequeno e frágil demais, porque se entristece muito fácil com atitudes e palavras desnecessárias. E, um dia na vida outro na morte, acabo soltando algumas verdades não ditas por não aguentar mais engolir tudo isso. E me arrependo, e me sinto culpada, e peço desculpa, e tudo volta a ser como era antes. E dói da mesma forma como doía antes.
Algo tem que estar errado, porque atenção não se exige. Amor não se implora. E eu faço as duas coisas diariamente. Porque tenho muito defeitos, mas falta de amor, de atenção, de cuidado, nunca foi um deles. Então não sei porque eu não posso simplesmente encontrar alguém na minha vida que me faça sentir amada. Alguém que posso gostar de ouvir as batidas do meu coração, como eu gosto de ouvir a de vocês. Alguém que me escute mais e preste atenção em mim. Me olhe dormir como eu os olho sempre que posso. Não precisa me dar nada mais, só me dê o que eu dou. Só faça por mim o que eu faço por você. Basta. Eu só preciso de alguém que seja recíproco, porque amar mais machuca, amar demais machuca mais ainda, mas amar sozinha é agonizante e eu ando agonizando por tempo demais.