segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Confissões

No fundo, no fundo, a gente sempre sabe quem é. Pode demorar, pode disfarçar, mas você descobre, mais dia, menos dia, quem mora aí dentro, o que pensa, o que quer, o que faz e seus motivos. Eu sei quem sou, mas me escondo de mim mesma por medo, por receio, por vergonha, por raiva. Quero coisas que não deveria querer. Gosto de quem não deveria gostar e penso o que não é pensável para alguém como eu.
Sou menina de família, desde os 12 vivo dentro da igreja, no início por pressão, depois por curiosidade e, mais tarde, por escolha. Sou criada em casa, com a família sempre perto, sempre próxima. Moça direita, como dizem, focada nos estudos, não tem tempo pra mais nada, não quer saber do que as garotas da idade dela querem. Menina de ouro, um anjo, mal sai de casa.
Não sei se fui eu que me fiz assim, me moldei pra caber na minha família meio conservadora e agradá-los, ou se me fizeram ser assim. Aceitei, em todo caso, quem sou ou deveria ser, gosto até. E, tem dias, que sou mesmo, de corpo, alma e coração, essa menininha que pintaram em mim, mas não é sempre. 
Até hoje, nunca toquei nesse assunto porque não quero desapontar ninguém, nem a mim mesma. Criei um modelo de ser humano para me espelhar, me inspirar, e não quero, de modo algum, descobrir que sou incapaz de me tornar essa pessoa que sonhei. Incapaz de seguir todas as regras às quais eu mesma impus, incapaz de viver de modo o mais santo possível. Porque a verdade é que eu realmente escolhi estar dentro da igreja, me fazer caber na doutrina, seguir os ensinamentos. E coloco isso como uma meta a cumprir, porque de fato quero cumprir, não por obrigação, mas por amor ao Deus que conheci.
Acontece que não sou, de todo, reservada como deveria para uma "boa moça". Eu era sim, mas não mais. Sinto muito por isso, pai. Sinto muito, pastor. Sinto muito, igreja. Sinto muito, família. Mas não sou mais desse jeito. Hoje gosto de ir à baladas de vez em quando, somente pelo prazer de dançar, ouvir músicas divertidas e rir com meus amigos. Gosto de uma ou outra bebida, de vez em quando, apesar de não conseguir beber inteira e detestar o gosto do álcool. Gosto de estar em boa companhia, seja ela quem for, como for. Gosto das minhas roupas rasgadas, e shorts e batom vermelho. Gosto de um rapaz que conheci e de estar com ele. Gosto de lutar pelos direitos feministas porque sei muito bem como é se sentir primida pela sociedade machista, que me faz andar com medo pelas ruas. 
Se isso faz de mim uma péssima pessoa, eu lamento, muito mesmo. Porque meu amor por Deus só aumenta a cada dia, minha vontade de ajudar o próximo também, porque cresci com essa ideia, e hoje são valores, princípios muito importantes pra mim. A única diferença que essas poucas mudanças me trouxeram foi um amor próprio que nunca existiu. Um reconhecimento que posso ser feliz também, vez ou outra, no meio dessa jornada difícil que é a vida.
Não quero ser julgada e apedrejada por isso, não deixei de querer as mesmas coisas, ou de ter os mesmos objetivos. Sou exatamente a mesma pessoa de antes, só que agora numa versão um pouco mais leve, um pouco mais feliz. E, pra ser sincera, nas minhas conversas com Deus, não sinto, de forma alguma, repreensões, nem decepções da parte dEle. Sinto amor, como sempre senti. Porque meu coração ainda é o mesmo, posso dançar até amanhecer, beber um drink ou outro, falar umas besteiras com meus amigos, mas minha essência continua exatamente a mesma. Porque eu sou sincera com Ele, não faço nada disso por ostentação, ou luxúria ou vaidade, faço apenas por me sentir bem. Ele parece saber muito bem disso, não se afasta, não se oculta, apenas continua ao meu lado porque sabe que, se eu não fosse exatamente como sou hoje, essa "desviada" que vocês chamam, eu estaria enganando a mim mesma., já que Ele sempre soube quem sou e nunca deixei de ser. Prefiro dizer a verdade, prefiro ser coerente. Quero parar de me sabotar e me esconder. Quero me ser apenas.
É isso que eu gostaria que você soubessem. Acredito que não sou menos cristã por isso, e espero de coração que Deus continue me guiando por caminhos que agradam a Ele, porque estes têm me agradado também. Não sabia que poderia ser feliz nesse mundo passageiro e horrível em que vivemos, mas posso, e não é pecado algum ser feliz se a base dessa felicidade toda é o amor do Pai, e, pra mim, ainda é.

Um comentário:

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)