sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Companhia

O cheiro de doce de banana vem da cozinha, e é tão bom e suave e nostálgico que quase posso tocá-lo daqui da sacada do meu quarto, enquanto olho os coqueiros balançando ao som do mar,  ambos iluminados pelo sol das 16 horas. Lembrei de quando minha mãe fazia cuca no final da tarde, do cheiro de café e do gosto de infância. Hoje não tem mais esse gosto, e é incrivelmente estranho pensar que alguém, além de mim, está em casa fazendo algo pra comer, ainda que esteja sendo paga pra isso. 
A verdade é que me acostumei a não depender, não precisar. Acostumei a me virar. Não ter alguém pra tratar dessas pequenas coisas do dia-a-dia. As vezes soava solitário, mas eu nunca tive muito tempo livre pra pensar sobre isso. Mas hoje o céu está de um azul fantástico e a brisa da praia, tão fresca, compensa esse sol quente que ainda agora está fazendo e eu não me sinto mais tão sozinha. Boba que sou, me sinto tão bem acompanhada em dias bonitos como esse que mal noto que permaneço sem ninguém por perto. Tenho gostado bastante de ser assim ultimamente, leve e fácil, cristalina feito água.
Nada ao meu redor mudou, mas eu acho que cresci. Sinto ainda essa imensa falta de ter alguém pra me cuidar, mas já consigo administrar isso. Já posso lidar comigo mesma e com meus dilemas sem ter alguém para me orientar ha muito tempo, mas acho que só agora, neste instante que meu olhar se perdeu na natureza exposta onde minha casa fica, pude aceitar e gostar dessa forma diferente de viver.
Vai ver era por isso que meus pais perdiam a paciência comigo tão fácil quando eu era mais nova. Porque me perco nos detalhes bonitos do mundo e esqueço dos práticos, converso com todo o ambiente ao meu redor e esqueço das pessoas de verdade. Viajei milhas e horas só agora, enquanto meu olhar vagava sem rumo. Tudo isso pelo simples fato que minha vizinha tem um daqueles negócios de pendurar na janela que fazem "tililins" quando tocados pelo vento e me hipnotizam. Tudo isso porque eu amo esse azul que vai virar laranja daqui a pouco, e esse verde do mar, e a melodia do balanço das folhas das árvores, e o cheiro de mato e a primavera inteira. 
Saio de dentro do meu corpo, praticamente, de tanto que me distraio com essas sensações que a cor do dia e o frescor do litoral me trazem. Me perco nessas excentricidades e, sem querer, ignoro o mundo real. E isso é minha companhia. Vivo sozinha e não sou sozinha só por isso, por esses minutos de conexão entre eu e minha imaginação, por esses instantes de troca de energia boa em que sinto só coisa bonita. Até sei que esse jeito incomoda muita gente por aí, mas já não tento esconder, se sou louca e bizarra e desatenta, porque sei que uma coisa não sou mais: só. E companhia, viva ou inanimada, que me faz bem, me faz feliz também.


Acho que não sei se fiz sentido, espero que sim :}

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