segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Analgésico

Eu tenho uma nuvem. Onde ando ela vem atrás, sempre chuviscando só na minha cabeça. E não é uma metáfora, embora haja um certo duplo sentido, mas chove em mim todos os dias praticamente. Só em mim, só no espaço que eu estou ocupando na calçada. Tempestade forte que cai sobre minha cabeça e nunca deixa meu mar se acalmar, nunca me deixa ancorar e me faz acordar, cada dia, num novo horizonte, sempre cercada de água. Antes, confesso, não sabia diferenciar quais gotas eram do oceano e quais eram dos meus olhos, porque eu não aceitava isso. Como podia fazer tanto sol na vida dos outros e na minha só chover desse jeito? Como podia tanta gente viver feliz e eu viver perdendo pessoas, perdendo essência, só perdendo e nunca ganhando? Tão injusto, tão absurdo.
Só que chega um dia que você cansa de discutir com o destino. Cansa de brigar com os caminhos para os quais foi levada e teve que seguir por falta de opção. Você cansa, talvez, porque cresce, ou porque começa a doer demais esmurrar ponta de faca. Foi quando eu aceitei. Me encarei no espelho e acordei, percebi que isso não ia mudar nunca, então era melhor se conformar logo e seguir em frente. Hoje em dia nem me comovo muito quando os pinguinhos começam a molhar meus cabelos, fazendo-os ficar ainda mais rebeldes, porque parei de dar chilique. Parei de bater o pé com a vida e achar um absurdo tudo ser sempre mais difícil pra mim. Parei de olhar para as pessoas e desejar ser alguém normal como elas. 
Agora eu nem abro mais o guarda-chuva, nem coloca o capuz. Deixo as gotas me tocarem de leve, esqueço o bom senso de chegar seca nos lugares e me permito sentir mansinho o gosto do cheiro da chuva na terra molhada ou no asfalto quente. O problema é quando a nuvem carrega demais e chove não no meu corpo, mas na minha vida, porque não há capa que me proteja das gotas que atingem meu coração, mas aí eu me abraço. Porque também deixei de reclamar das trovoadas do mundo em cima de mim. Me abraço, sozinha comigo mesma como sempre, e me mantenho aquecida por um tempo, até passar o frio.
Tudo isso porque aceitei essa condição, simples assim. Se não posso fazer parar de chover, pelo menos vou tentar me divertir com as poças d'água. Vou fazer o que estiver ao meu alcance, e, embora não possa simplesmente escolher ser feliz, posso escolher tentar. 
As vezes, não nego, tudo pesa demais e eu perco um dia ou dois me permitindo lamentar toda essa tragédia em série, mas no restante dos dias eu me permito sorrir, afinal, que mal pode fazer? De que me adianta sofrer pelo irremediável? Em que me ajuda chorar todo dia, fechar a cara para todo mundo na rua, ser estúpida com o garçom? Não vai melhorar minha vida, nem resolver meus problemas.
É só uma feriada aberta e exposta que não vai fechar nunca, mas que eu posso fazer um curativo em cima, entende? Eu posso tratar. Mesmo que doa todos os dias, mesmo que o peso do mundo mastigue meus músculos e meu coração permaneça sempre aos cacos, no final, ainda vou estar rindo um pouco de tudo isso, porque sorrir é analgésico, não dói, não tem gosto ruim e, se não cura, ameniza. 

sábado, 24 de agosto de 2013

Cega

Mil caminhos a minha frente, mil pessoas por aí que eu sei que gostaria de ter ao meu lado. E, com tudo isso, é só por uma estrada que desejo seguir, só uma única pessoa que quero por perto. Porque gosto do certo, por mais errada que possa ser. Gosto de seguir pela porta mais estreita, porque ela me lembra que estou viva, ela me lembra porquê eu vivo. E amo alguém que tem a mesma vontade que a minha, que tem desejo de andar pelas mesmas ruas. Tudo tão certo, que alguma coisa tinha que dar errada se tratando de mim.
Com tão poucas pessoas em quem posso confiar que não vão me arrastar para esse mundo de novo, não consigo entender porque a vida vive me afastando de você. Por que vive correndo para longe de mim? Eu sei que amo seu cabelo, e a maneira como se veste, os lugares que frequenta e até seu jeito preso de falar. Mas não foi por nada disso que me apaixonei. Foi apenas e simplesmente por você ser quem é. Qualquer corpo que a ti pertencesse, não importaria, desde que, por dentro, fosse você.
Que mais a gente precisa quando tem isso? Quando ama de um jeito puro assim? No meio de tanta gente ligada ao externo, acreditando só na física dos relacionamentos, eu me encontrei te amando sem nem precisar te ver ou te tocar. Sem nem precisar saber se era bonito ou feio. Então me diz por qual motivo é tão difícil me ver da mesma forma? Por que é tão complicado assim de me enxergar?
Tão longe que estou agora, alguma coisa me faz acreditar que não fui feita pra estar distante assim de você. Algum dia eu sei que vou voltar e, quando isso acontecer, você ainda vai estar próximo? Vai estar esperando por alguém que não sabe ainda quem é ou já vai ter encontrado? Porque estou acreditando com todas as minhas forças que essa pessoa sou eu e que a gente só não se encontrou no momento certo ainda. Alguma maluquice na minha cabeça me diz isso e, por mais ilusório que seja, é o único pedaço de você em que posso me agarrar. A única parte que restou.
Então me espera também, de alguma forma, mesmo sem saber por quem está esperando. Espera que um dia eu volto ou você vem pra cá, um dia a gente se esbarra numa esquina de novo e vai ser diferente das outras vezes, vai ter alguma mágica no ar que não tinha antes e seremos, finalmente, o único caminho um do outro. Porque de algum jeito, em algum lugar, a gente vai ter que se reencontrar. Não sei de onde tiro toda essa crença, toda essa fé que isso, um dia, vai acontecer. Vai ver é querer muito que aconteça, vai ver é amar demais pra aceitar esquecer, vai ver sou eu ficando louca e cega, esquecendo completamente que o mundo tem 7 bilhões de pessoas enquanto eu só consigo enxergar você.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sentido

Se faz de uma junção de brisa e sol que eu não sei explicar. Fico leve, flutuo, viajo, reproduzindo melodias na minha cabeça. Exagero que sou na intensidade, sou também no excesso de imaginação. Fechar os olhos e sumir, sentir desintegrar o corpo e virar pó cristalino que voa pela praia sem rumo certo. Sou fácil, é essa a palavra. Levada pelo ar, sinto-me bolha de sabão, formando arco íris, e que se esvai até explodir em gotículas brilhantes. Difícil que me faço em adquirir confiança, fácil me tornei em sorrir boba pra qualquer coisa perdida.
Perdida. Também sou e me encontro nessa perca de mim mesma. Mistura sensitiva de um tudo que toque a alma, tire o centro, deixe só a sensação. De um tudo que me tire a razão, deixe-me puro sentir, toque como toca-se um instrumento, ritmado. Porque sou música também, minha batida ressoa dançante, meu coração bate musical. Qualquer afeto já me afeta, qualquer sorriso já me desperta. 
Poesia que dança frente aos meus olhos ávidos de arte, aguço meus ouvidos que vibram ao timbre da voz que recita mansinho. Minha pele que arrepia ao mais suave encostar. Me desfaço em tons pastéis de cores solares e me refaço em tanta complexidade do mundo, tão simples de se ver. Aprecio e degusto, grama verdinha e terra molhada, inspiro céu azul. E, toda boba, rio, de tanto mar que sou. Porque o infinito cabe no piscar dos olhos e não é pra fazer sentido, é pra ser sentido.