sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Não fossem os danos, não seria eu"

A primeira perda me ensinou que a morte é definitiva. As perdas seguintes me mostraram que o tempo não cura a dor da ausência. Com meu primeiro coração partido aprendi que as pessoas mentem e o primeiro sonho destruído me tirou fora da minha órbita natural.
Fui morar longe da única amiga que eu tinha, e hoje sei que distância não interfere em amizades verdadeiras. Na quinta série eu tinha apenas uma amiga, porque meus colegas de classe tiravam sarro do meu cabelo que tive que cortar curtinho por motivos muito pessoais, e diziam que eu parecia um menino. Foi nessa época que começaram a me chamar de estranha, e a primeira impressão é a que fica então sou vista assim até hoje por todos que me conheceram dessa época em diante.
Com 12 anos soube que já não era mais criança e comecei a ler meu primeiro livro significante: Harry Potter. No sétimo ano de escola o primeiro amor platônico surgiu, me fazendo descobrir mais tarde que eu era alvo de piadas dele. Aos 14 fui transferida para a rede pública de ensino, e me surpreendi com um dos melhores anos da minha vida. Depois que minha melhor amiga parou de falar comigo sem motivos, descobri que absolutamente todas as pessoas vão te fazer sofrer um dia.
As lágrimas que eu vi cair através do espelho me fizeram pensar que era fraqueza. Fui deslocada a adolescência inteira. Minhas expectativas se frustraram em 90% das vezes que as depositei em alguém ou alguma coisa. Passei muito tempo pensando que carregava alguma maldição, ou que a vida não gostava de mim. Comecei a ficar com medo quando percebi que nunca tinha sorte com dados, com perguntas alternativas, com sinais de pedestre, com ônibus e com todas as coisas que dependiam de sorte.
Aos 15 consegui passar no vestibulinho só na quinta chamada, mas perdi a primeira semana de trote e fui, mais uma vez, alvo de piadas durante todo o primeiro ano de ensino médio. Gostei de alguém que me queria só para exibir para os amigos. Fiz amizades que serviram apenas enquanto era conveniente para elas. Fui odiada por alguns professores enquanto outros viviam me chamando pra conversar por acharem que eu estava tendo problemas demais com nota. Quase repeti de ano, passei com duas pendências que teriam que ser sanadas no ano seguinte. Quem eu acreditava ser o único amigo homem que teria na vida simplesmente tornou-se outra pessoa, me decepcionou, e me fez ver que ninguém muda, apenas revela o que nunca deixou de ser.
Mais gente parou de falar comigo e passou a me ignorar sem razão. Fui parar na diretoria na primeira vez que fiquei pra fora de uma aula na minha vida inteira. Comecei a ler cada vez mais livros pra fugir da minha realidade e parei de acreditar que um dia seria normal e boa em alguma coisa. Passei para o terceiro com mais duas pendências, fiz alguns novos amigos que, mais tarde, também esqueceram de mim. Tive crises, uma atrás da outra, por não achar que seria capaz de concluir o segundo grau e de passar no vestibular.
Todo mundo me perguntava qual seria minha faculdade, e isso me deixava louca porque nada parecia se encaixar em mim. Descobri a existência da faculdade de cinema e vi uma pequena chance de, talvez, reconstruir o primeiro sonho que tive na vida, mas ninguém gostou muito da idéia quando contei. Fiz dois anos de curso pré-vestibular e passava tardes inteiras na sala de estudos, perdia finais de semana com simulados e estudei tanto que quase me esqueci pra quê estava fazendo isso e quis morrer quando não vi resultado nenhum de tanto esforço, me senti inútil e ri de mim mesma por achar que seria diferente do que sempre fui e tão normal quanto qualquer pessoa que estuda e tira nota.
Arrumei minhas malas e disse adeus à quem eu amava e ainda amo, aos poucos que agora são menos ainda. Disse adeus para mais um sonho e vim atrás de algum conforto, algum porto seguro que permitisse que minha vida instável se firmasse em algum lugar, em algum coração, só para variar. Pela janela do avião desejei com todas as minhas forças que aquele para quem tanto escrevi pudesse ser feliz e que, talvez, pudéssemos nos encontrar num futuro não tão distante assim. 
Na verdade, depois de tantos tropeços e quedas e perdas e curvas, continuo sendo a menina estranha, continuo deslocada, continuo com pouquíssimos amigos e continuo exatamente a mesma. Só que agora com bagagem adicional, com aprendizados que demoraram para criar raízes em mim. E não seria quem sou hoje se não fosse todas essas coisas que me faziam ser quem era antes, porque são delas que sou feita, das muitas ruins, das poucas boas e da paçoca que nunca gostei e não sei porquê comia.  E o forrobodó e o salpicão e as receitas da minha mãe, o creme de dormir da nivea e a argila nas costas do meu pai.  Eu não seria assim, tão estranha, meio maluca e cheia de medos, eu não seria louca e exagerada e um pouco autista e viajada. Não seria hoje tão criticada por ser assim, não fosse a vida que levei e, me desculpe, mas não sou culpada.
Se não fosse tudo isso, e vocês que me deixaram, vocês que ficaram e os que foram embora. As dores que me mataram e as pessoas que me ajudaram e os corações partidos na estrada e o longo caminho sem linha de chegada. Não fosse Deus, e o tanto que chorei, e os meus tantos erros, os estranhos acertos, o excesso de azar, e o amor excessivo e a vontade de que fosse totalmente diferente. Não fosse exatamente como foi, não seria eu.

* Música do título

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