terça-feira, 28 de maio de 2013

Receita errada

Eu sou a tragédia inteira, a comédia, o drama, a ficção científica. Eu sou o choque, o susto, o absurdo. Sou a explosão nuclear, a calmaria desértica, o vendaval, a tempestade em alto mar. Eu sou a extremidade, o penhasco, a queda. Mas não sou complicada, porque sou prática. Sou assim e digo que sou, sem rodeios, sem mimimis, curta e objetiva. Não tenho dons, nem nada muito único. Até pensei, uma vez, que talvez pudesse ser alguém diferente, ser boa em alguma coisa. Mas não sei, e sei disso.
Acho que não vou virar nada, sabe? Igual quando a gente faz um bolo e ele explode, faz de novo e ele não cresce, faz de novo e ele fica duro. Aí a gente percebe que a receita só pode estar errada.
Acho que eu sou meio assim, tenho algum ingrediente faltando, algum item em excesso, não fui dissolvida direito. Porque não viro nada nunca. E, lógico, tenho medo disso, ou me encontro nisso. Provavelmente porque sou muito determinada a ser indecisa, não sei se isso é o que eu sou ou o que fazem pensar que sou.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Não fossem os danos, não seria eu"

A primeira perda me ensinou que a morte é definitiva. As perdas seguintes me mostraram que o tempo não cura a dor da ausência. Com meu primeiro coração partido aprendi que as pessoas mentem e o primeiro sonho destruído me tirou fora da minha órbita natural.
Fui morar longe da única amiga que eu tinha, e hoje sei que distância não interfere em amizades verdadeiras. Na quinta série eu tinha apenas uma amiga, porque meus colegas de classe tiravam sarro do meu cabelo que tive que cortar curtinho por motivos muito pessoais, e diziam que eu parecia um menino. Foi nessa época que começaram a me chamar de estranha, e a primeira impressão é a que fica então sou vista assim até hoje por todos que me conheceram dessa época em diante.
Com 12 anos soube que já não era mais criança e comecei a ler meu primeiro livro significante: Harry Potter. No sétimo ano de escola o primeiro amor platônico surgiu, me fazendo descobrir mais tarde que eu era alvo de piadas dele. Aos 14 fui transferida para a rede pública de ensino, e me surpreendi com um dos melhores anos da minha vida. Depois que minha melhor amiga parou de falar comigo sem motivos, descobri que absolutamente todas as pessoas vão te fazer sofrer um dia.
As lágrimas que eu vi cair através do espelho me fizeram pensar que era fraqueza. Fui deslocada a adolescência inteira. Minhas expectativas se frustraram em 90% das vezes que as depositei em alguém ou alguma coisa. Passei muito tempo pensando que carregava alguma maldição, ou que a vida não gostava de mim. Comecei a ficar com medo quando percebi que nunca tinha sorte com dados, com perguntas alternativas, com sinais de pedestre, com ônibus e com todas as coisas que dependiam de sorte.
Aos 15 consegui passar no vestibulinho só na quinta chamada, mas perdi a primeira semana de trote e fui, mais uma vez, alvo de piadas durante todo o primeiro ano de ensino médio. Gostei de alguém que me queria só para exibir para os amigos. Fiz amizades que serviram apenas enquanto era conveniente para elas. Fui odiada por alguns professores enquanto outros viviam me chamando pra conversar por acharem que eu estava tendo problemas demais com nota. Quase repeti de ano, passei com duas pendências que teriam que ser sanadas no ano seguinte. Quem eu acreditava ser o único amigo homem que teria na vida simplesmente tornou-se outra pessoa, me decepcionou, e me fez ver que ninguém muda, apenas revela o que nunca deixou de ser.
Mais gente parou de falar comigo e passou a me ignorar sem razão. Fui parar na diretoria na primeira vez que fiquei pra fora de uma aula na minha vida inteira. Comecei a ler cada vez mais livros pra fugir da minha realidade e parei de acreditar que um dia seria normal e boa em alguma coisa. Passei para o terceiro com mais duas pendências, fiz alguns novos amigos que, mais tarde, também esqueceram de mim. Tive crises, uma atrás da outra, por não achar que seria capaz de concluir o segundo grau e de passar no vestibular.
Todo mundo me perguntava qual seria minha faculdade, e isso me deixava louca porque nada parecia se encaixar em mim. Descobri a existência da faculdade de cinema e vi uma pequena chance de, talvez, reconstruir o primeiro sonho que tive na vida, mas ninguém gostou muito da idéia quando contei. Fiz dois anos de curso pré-vestibular e passava tardes inteiras na sala de estudos, perdia finais de semana com simulados e estudei tanto que quase me esqueci pra quê estava fazendo isso e quis morrer quando não vi resultado nenhum de tanto esforço, me senti inútil e ri de mim mesma por achar que seria diferente do que sempre fui e tão normal quanto qualquer pessoa que estuda e tira nota.
Arrumei minhas malas e disse adeus à quem eu amava e ainda amo, aos poucos que agora são menos ainda. Disse adeus para mais um sonho e vim atrás de algum conforto, algum porto seguro que permitisse que minha vida instável se firmasse em algum lugar, em algum coração, só para variar. Pela janela do avião desejei com todas as minhas forças que aquele para quem tanto escrevi pudesse ser feliz e que, talvez, pudéssemos nos encontrar num futuro não tão distante assim. 
Na verdade, depois de tantos tropeços e quedas e perdas e curvas, continuo sendo a menina estranha, continuo deslocada, continuo com pouquíssimos amigos e continuo exatamente a mesma. Só que agora com bagagem adicional, com aprendizados que demoraram para criar raízes em mim. E não seria quem sou hoje se não fosse todas essas coisas que me faziam ser quem era antes, porque são delas que sou feita, das muitas ruins, das poucas boas e da paçoca que nunca gostei e não sei porquê comia.  E o forrobodó e o salpicão e as receitas da minha mãe, o creme de dormir da nivea e a argila nas costas do meu pai.  Eu não seria assim, tão estranha, meio maluca e cheia de medos, eu não seria louca e exagerada e um pouco autista e viajada. Não seria hoje tão criticada por ser assim, não fosse a vida que levei e, me desculpe, mas não sou culpada.
Se não fosse tudo isso, e vocês que me deixaram, vocês que ficaram e os que foram embora. As dores que me mataram e as pessoas que me ajudaram e os corações partidos na estrada e o longo caminho sem linha de chegada. Não fosse Deus, e o tanto que chorei, e os meus tantos erros, os estranhos acertos, o excesso de azar, e o amor excessivo e a vontade de que fosse totalmente diferente. Não fosse exatamente como foi, não seria eu.

* Música do título

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Alívio

Pode acontecer muita coisa ainda, né? Tipo, qualquer coisa. Acho que a gente sempre tem essa sensação, porque todos os dias são uma história, começo, meio e fim. E depois começa de novo e nunca acaba. Então por mais difícil e complicada que ande a vida, sempre tem outro dia, e nesse outro dia a gente sempre vai ter uma crençazinha que, sei lá, vai que alguma coisa enfim acontece, não é mesmo? 
Afinal, não tem como todos os dias serem os piores dias da sua vida, em um ou outro vai parecer que o mundo voltou a fazer sentido e, por pior que seja a fase, é só você atravessá-la. As vezes as noites em casa, sozinha, sejam até divertidas se você deixar o Camelo cantar ao fundo uma daquelas melodias dançantes e viajantes dele.
Porque tem hora que tá tudo dando errado mesmo, mas se você olha pra janela, num segundo de céu, nada mais parece tão problemático. Você troca um olhar com alguém na rua, e esse alguém sorri, e tudo fica bom de repente. Um música boa dessa desperta a felicidade sem você nem perceber. Entende? Eu sinto assim, pelo menos. 
Tanta beleza no mundo, acaba que tem sempre alguma coisa que fica visível, de um jeito ou de outro, e ameniza a dor dos dias difíceis. Num céu azul bonito como esse de agora ou na risada engraçada de alguém desconhecido, na melodia de um canção qualquer que sempre me faz dançar meio estranho quando estou sozinha. É nisso que eu me perco, e me desfaço do peso que insisto em levar. Nisso meu coração pára de chorar na mesma hora e parece que floresce, meus olhos dançam com o ritmo, o sorriso engrandece com a leveza e a alma agradece a gentileza.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O poder de um abraço

Eu me acostumei a não ser cuidada, mas sempre cuidar. E, tão longe dos poucos amores que me restaram, foi estranho estar dentro de um abraço despretensioso e amigável outra vez. Estranho de um jeito bom. Porque veio de alguém que mal conheço, alguém com quem convivi por uns 7 ou 8 dias, que fez uma sala de 15 alunos morrer de rir durante cada minuto desses dias compartilhados. 
E lá estava eu, no período entre aulas, com meu livro na mão, olhando para o mar, viajando por alguma galáxia distante, como sempre, quando ele chegou do meu lado e, com o braço no meu ombro, me apertou num abraço tão gentil, tão bem humorado, terminando com um beijo no alto da minha cabeça que recostava em seu ombro e um bom dia seguido do diminutivo do meu nome. Ao olhar pra ele encantada com tamanha simpatia e assustada com essa proximidade que ninguém que conheço gosta muito, ele sorria como se não existisse tristeza no mundo.
Pensem como quiserem, mas me senti tão maravilhada ali, como se pudesse haver amor ao próximo outra vez. Ha quanto tempo um bom dia não passava de duas palavras pronunciadas em voz baixa e com um rosto sério? Ha quanto tempo alguém não me desejava um bom dia, como se desejasse realmente que meu dia fosse bom? Ha quanto tempo alguém não me abraçava sem motivo, por pura espontaneidade?
Sou boba, tudo bem, sei disso. Me encanto por qualquer flash de gentileza que vejo, e ali transbordou gentileza, transbordou beleza no meu coração ao ver a felicidade simples e sem motivos de alguém que carrega o mundo nas costas e sempre acha a vida de uma graciosidade sem tamanho. Ele sorria, sempre, a todo momento, e abraçava todo mundo e achava tudo sempre bom e eu quis abraçá-lo forte quando percebi isso. Como se aquele pequeno gesto matinal dele tivesse aberto todas as portas do meu coração e deixado o sol entrar, aquecendo todos os cômodos dentro de mim que permaneciam congelados.
Foi só um abraço, no fim das contas, e ele nem notou o quanto aquilo me tocou. Porque, pra mim, foi uma espécie de poesia, uma melodia lenta e bonita, um sorriso encantado e leve que tomou conta de mim e que eu nunca pensei que fosse capaz de reproduzir novamente. Foi só um momento rápido e descontraído entre colegas, mas, pra mim, foi beleza, crença renovada nas pessoas; foi amor. Foi como ser feliz outra vez; como ser humana.



* Não tem nada a ver com o dia do abraço. Foi só uma coincidência feliz.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Comunicado

Você que, de tempos em tempos, invade meu blog e apaga textos meus. 
Você que disse que estaria sempre ao meu lado e sumiu na primeira oportunidade. 
Você que estendeu a mão na beira do penhasco e, no último minuto, me deixou cair. 
Você que prometeu. Você que nunca quis cumprir suas promessas. 
Você que fala para todo mundo que sou chata e estranha e não sabe como alguém me suporta. 
Você que passou meses ao meu lado, tratando como amiga, e não olha mais na minha cara. 
Você que não sabia viver sem mim e não me atende mais. 
Você que disse que ficaria e foi embora. 
Você que tanto me amava e ama mais uns vinte.
Você que diz estar com saudades e não responde minhas mensagens. 
Você que me quer para casar até encontrar uma garota mais bonita.
Você que não pára de pensar em mim e some aos sábados a noite. 
Você com quem eu poderia contar sempre e nem sei mais onde está. 
Você que fala comigo só quando não tem mais ninguém pra conversar. 
Você que me deixa no banco de reservas para quando suas companhais mil vezes mais descoladas não te quiserem. 
Você que me ignora aos finais de semana, e corre para os meus braços nos domingos de chuva. 
Você que quer tudo de mim e não dá nada de si. 
Você que já não sei quem é, não sei se um dia soube e não quero mais saber.
A todos vocês um comunicado: podem me tirar o que escrevo, o que sinto, o que falo. Podem me tirar os sonhos, as vontades, a força. Podem arrancar lágrimas até secarem. Mas não podem me tirar o que sou e nem o que já fiz. No fundo, vai ser sempre eu aqui dentro, triste, feliz, decepcionada ou louca de pedra. Continuo sendo eu, estando no chão ou no céu, e nada muda o que senti ao fazer as coisas boas que sei que fiz. Não tem como mudar o que já está feito, nem o que já foi sentido e vivido. Porque nada muda essa verdade, ninguém tira essa essência, nem me impede de ser o que nunca deixei de ser: exatamente quem sou. Lidem com isso.

domingo, 19 de maio de 2013

Ler

Ler e, de repente, estar no meio de uma batalha. E, de repente, entrar num reino encantado. Ler e esquecer que o mundo é essa feiúra toda, e se teletransportar para mundos mágicos. Ler e ser tudo que você quer ser, porque não existe impossível nos livros. Ler e poder amar e ser amado, e fazer amigos Elfos, e conhecer todos os mares, todos os reis e rainhas, todas as criaturas que não existem nessa realidade boba que vivemos. Porque isso aqui é muito raso pra pessoas como eu, ninguém enfrenta o mal, ninguém parte em  aventuras perigosas, em buscas malucas. Ninguém se encanta. Ler e sentir tudo que está sendo lido. E chorar, e rir, e amar, e sofrer. Ler e, dentro de você mesmo, viver.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Crescemos. E agora?

De repente a gente tá dirigindo e fazendo 20 anos. Estamos deixando de ter aquela bochecha grande e vermelha, aquele olhar ansioso, a fala rápida e urgente de quem quer revolução e nos transformando em rostos adultos, com um ar mais sereno, uma expressão mais calma, um jeito mais estável de ser.
Assim, sem nem perceber, fomos deixando de acreditar que poderíamos ser tudo que quiséssemos e mudar um mundo inteiro. Deixando de enjoar de tudo depois querer de volta, amar pra sempre e esquecer em dois dias. 
Meu Deus, acho que crescemos! Vocês, rapazes, deixaram de ter aqueles poucos fios de barba espalhados e espaçados no rosto, deixaram também de falar meio desafinado porque a voz ainda estava em processo de ajuste, deixaram de ser magrelo e desengonçados e comer feito elefantes. Agora vocês estão altos, com o rosto cheio de marcas de gilete, a voz grave e o cabelo despenteado, porque não usam mais gel. Nós, meninas, não cabemos mais na categoria "meninas", porque somos mulheres, quase sempre maquiadas e arrumadas.
Onde que vamos parar desse jeito? O que a gente faz agora? Confesso, estou com medo. Tenho medo porque, mesmo hoje, já perdi tanto do que acreditava, já abandonei muito das coisas que sonhava e de quem era. Eu tinha convicções, talvez utópicas e revolucionárias, mas cheias de vontade de fazer alguma coisa útil para a sociedade. A gente tinha sede de mudança, vontade de viver tudo que há para viver. E, hoje, nós carregamos um comodismo que me incomoda, um tal de querer da vida só o mínimo que se pode ter e nunca buscar mais. Nossas vontades que se resumiram a ter um bom emprego e encontrar uma pessoa legal pra viver ao lado. 
Isso tudo me cansa, me enjoa e me dá um nervoso absurdo. Óbvio que tenho dias de descrença total também, em que só consigo pensar num futuro igual àquele que nossos pais tiveram, mas isso não é futuro, isso é reviver um passado. Porque, no fundo, eu ainda quero fazer um intercâmbio, entrar em mil cursos diferentes e gritar bem alto quando vir algo errado. Eu quero tudo que queria aos 16 anos, só que agora quero fazer disso uma verdade, uma realidade, porque tenho poder pra isso, tenho condições.
Não é só isso. A gente está crescendo e ficando chato, e não vendo tanta graça em ir num barzinho com música boa, e não achando mais tão legal se reunir na casa de alguém para comer uma pizza, e tendo preguiça de passar 10 horas jogando banco imobiliário. A gente cresceu e ficou velho, e perdeu aquela falta de preocupação, o excesso de vontade de quebrar as regras e chegar em casa tarde, mesmo tendo que acordar cedo no dia seguinte.
Não que eu não queira ser responsável, mas acho que a gente anda se levando muito a sério. E aí a responsabilidade fica pesada e o juízo que nossos pais tanto nos pediam vira um fardo, que nos impede de sair um pouco da rotina, de vez em quando. Porque a gente era leve, lembra? Éramos descontraídos e bobos e jovens de um jeito tão bom, tão forte, tão vivo. Éramos felizes independente da vida que levávamos em casa ou das situações pelas quais tínhamos que passar.
Eu gostava dessa nossa bagunça. Porque não fazíamos absolutamente nada de errado, mas qualquer coisa diferente já era aventura pra nós. Hoje a gente senta numa cadeira cheios de postura e elegância, e eu adorava quando a gente se largava em qualquer canto, muitas vezes no chão, e cruzava as pernas de qualquer jeito. Sinto falta de quando não existia isso de sermos adultos e donos de nosso próprio nariz. Sinto falta de correr atrás do ônibus, porque agora todo mundo tem carro. Sinto falta de quando a gente era adolescente e queria fazer 18 logo, e podia falar e fazer e vestir o que quiser. 
Eu sinto falta da gente, que vivia grudado, rindo de qualquer besteira, falando mais que a boca, comendo tudo que via na frente e acreditando que a vida era um absurdo engraçado. Sinta falta da nossa intensidade, nossa verdade, de deitar na grama, um no colo do outro, e sentir como se fossemos infinitos e eternos. Sinto falta de me sentir jovem e gigantesca, como se o tamanho do mundo não fosse suficiente para a grandeza dos nossos corações, das nossas vontades, das nossas vidas. Como se nada pudesse nos impedir de fazer qualquer coisa e tudo ao mesmo tempo, porque o tempo estava do nosso lado. Sinto falta de saber tudo e ter muito a dizer ao mundo e achar que nunca vou ser diferente.

sábado, 11 de maio de 2013

Show de horrores

É assim comigo também, desculpa. Posso ser tudo no mundo, posso ter todos os defeitos, mas quero a única coisa que todo ser humano quer de verdade: felicidade. Pura e simples.
Não tô pedindo um carro zero na garagem, nem uma casa com piscina, nem pra passar na universidade mais concorrida do mundo. Não tô pedindo dinheiro, sabe, nem roupa de marca, nem sapatos novos, nem uma coleção de all stars. Eu só quero que, quando alguém me perguntar se sou feliz, eu não tenha que pensar, respirar fundo e dizer sim apenas porque tenho comida na geladeira e teto pra morar. Eu quero olhar bem pra quem perguntou e rir, e dizer: mas é claro, e muito. Ou talvez apenas dizer sim, sem hesitar. Entende o que eu digo? 
Porque tá tudo errado isso que dizem que é você quem escolhe a felicidade, como se dependesse de alguma decisão sua, como se a culpa de ser infeliz fosse do próprio infeliz. É como culpar a vítima por ter sido assaltada, é ridículo. Ninguém escolhe isso, não, gente. Ninguém quer acordar e lembrar que não é feliz.
E esse tempo todo eu quis escrever de um tudo aqui, eu quis fazer aqueles textos bonitos que dão uma impressão que a vida é boa, ou que trazem algum tipo de conforto e esperança. Eu quis transformar em palavras todos os sentimentos bons e inventar histórias legais e inteligentes e cheias de reflexões e "moral da história". Mas só sai essa cachoeira de desabafos contínuos e repetitivos. Só sai essa droga toda que tá entalada em mim e nunca sai inteira, nunca acaba. E, me perdoem se isso os ofende, mas não vou pedir desculpa. 
Não vou me desculpar por estar péssima e tendo dias ruins todos os dias da semana, nem por estar me sentindo assim, nem por estar escrevendo e dando ênfase à essa dor toda. Suas mentes estão completamente livres e desimpedidas de pensar o que quiserem. Podem me chamar de dramática, exagerada, ou o que acharem melhor. Não ligo. Não tenho que justificar e explicar pra ninguém as coisas pelas quais passei e tenho passado e vou bater nessa tecla em cada texto que escrever até o dia que essa sensação sair de mim. 
Vou insistir em escrever essa angústia toda enquanto ela não passar. Escrevo todos os dias, se for preciso. Não obrigo ninguém a ler, nem me importo se leem ou não. Eu só quero cuspir toda essa sujeira pra fora, vomitar todas essas mágoas e dores e feridas e dúvidas. E vou continuar cuspindo e vomitando até não ter mais nada pra sair. Porque eu quero ser feliz uma vez na vida e me sentir inteira, completa, realizada, satisfeita e nem precisa ser as quatro coisas juntas. Eu preciso disso e, bem lá no fundo, acho até que mereço ser feliz, mas não sou e já faz tanto tempo desde que fui que já não sei mais se lembro como é e não acredito que um dia vou ser. Perdi a capacidade de crer em qualquer coisa que faça a vida parecer melhor que um show de horrores.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Escolhas

Com tantas escolhas na vida, é meio óbvio que, mais cedo ou mais tarde, você vai escolher errado. Sei disso, mas confesso que meu caso é um tanto quanto especial, porque, até hoje, não acertei o passo nem uma única vez. Acho que tenho certa predileção por estradas longas e sinuosas, vai ver meu cérebro não consegue se decidir entre duas opções e acaba que o subconsciente decide sozinho por aquela que for a mais compatível com as escolhas anteriores - a pior. Resumindo: eu tenho um caso sério com o azar.
Não importa quanto tempo gaste pesando prós e contras, nem quantos dias tenha para pensar e repensar e pensar de novo. Sempre vou para o mesmo beco sem saída e isso já é do conhecimento de todo mundo. A diferença é que hoje eu finalmente estou descobrindo o propósito disso, ou acho que estou.
Uma das vezes que te olhei bem, realizei o quanto queria deixar-me conhecer por você. O quanto queria que meus detalhes estivessem na ponta da sua língua, prontos a serem disparados, e cada gesto meu estivesse fotografado na sua memória. Mas hoje me dei conta que não posso ser conhecida por ninguém se eu mesma não faço ideia de quem seja. Porque mudo muito de opinião, de vontades e de sonhos, mudo muito de sentimento, de sensação, entende? E quem é o eu permanente? O que é que me compõe sempre, em todas as ocasiões, imutável?
A partir daí entendi que tive que escolher tudo errado só para poder chegar nesse túnel sem saída e dar de cara comigo mesma, me encontrar sozinha pra ver se paro de me evitar e, finalmente, me conhecer e me aceitar. E agora, meu bem, aqui estou eu, longe de tudo que sempre quis manter próximo e perto de quem tentei afastar todos esses anos. Aqui estou comigo mesma, sem ter pra onde correr, sem ter com quem fugir e tendo que me encarar nua e crua, com todas as boas e más notícias que carrego, qualidades, defeitos, manis e tiques.
Entendo, finalmente, que jamais poderia ser conhecida por qualquer pessoa sem, antes, conhecer a mim mesma. Ou reconhecer. Estou me tornando completa, porque parei de ocultar as coisas que não queria que me pertencessem, meus sentimentos e pensamentos e jeitos de ser. Sou todas essas maluquices juntas, num dia chuva, n'outro sol, e, as vezes, ambos. E sou de forma estranha, desconexa e completamente diferente do que pensei que era, mas ainda assim, sou. 
Não quero mais deixar meus motivos e razões de lado, nem esconder minhas mágoas e guardar toda a tristeza só pra mim, porque não cabe tudo isso no meu peito. Não vou mais engolir todas as faltas e desculpas e nem acatar todas as ordens e nem aceitar todas as condições, porque amor também é próprio, e só agora vejo isso. Se eu mesma não me amava o suficiente para achar que merecia ser amada, como poderia querer o seu amor? 
Mas acontece que agora voltei a existir, não só carne e osso, mas coração também, aquele mesmo que cortei em mil pedaços e distribuí por aí para quem quisesse e quem nem se importava, como um panfleto qualquer que a maioria das pessoas joga no chão, ou no banco de trás do carro. Juntei cada fragmento desses que andava perdido no bolso de um paletó, ou numa caixinha de veludo no fundo do armário, num lixo de praça, e reconstituí o original. Tudo isso para ser inteira de novo, para ser eu outra vez, sem tentar me diminuir ou me redimir de crimes que nunca cometi. Tudo isso para que, um dia, quando terminar essa fase de auto conhecimento, possa voltar e fazer a escolha certa, e você possa ver em mim o que nunca conseguiu ver de tanto que escondi: eu.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Primeira pessoa

Não sei falar de mim em terceira pessoa, porque sou muito íntima de mim mesma. Falar do que sou é pessoal demais, e exige que eu assuma o papel de me ser. Não sei me descrever assim, como algumas pessoas fazem, "ela é paulista e gosta de chocolate". Ela quem? Ela eu? Então por que ela, e não eu? Entende? Ela torna o que sou muito distante de mim, e me sou de um jeito tão completo e inteiro e próximo, que não dá pra ser duas. Não somos ela e eu aqui dentro, só cabe uma, só cabe eu. Então não dá pra falar dela, sabe? Porque não sei quem é, sei só quem sou e sou primeira pessoa.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Sozinha

Não foi fácil atravessar toda uma tempestade pra chegar aqui e não ter calmaria. Não foi fácil descobrir o que descobri e saber do que sei agora. Mas vai ver era esse o intuito, não é mesmo? Talvez eu tenha vindo pra cá pra parar de fantasiar em cima de coisas que nunca existiram, parar de inventar desculpas para o descaso de quem mais eu queria atenção. Não tem problema.
Doeu no começo, e foi a maior dor da minha vida, como se, de repente, tivesse arrancado meu coração sem dó e pisoteado nele. Doeu demais, como se não fosse acabar nunca, mas nada dura pra sempre, né? Depois de um mês sofrendo por uma ferida exposta e incurável, acho que comecei a fechá-la aos poucos, entre uma lágrima e outra, e fiz os curativos. 
Eu sei que toda vez que tocarem nela vai arder, mas não vai abrir ou sangrar mais, porque dei pontos no corte e apertei bem o fio. O que vai ficar é uma cicatriz que vai me lembrar da dor, mas vai me impedir de criar expectativas outra vez. Porque, quem sabe, eu não tenha que estar exatamente aqui, dolorida, mas ciente da realidade. Quem sabe isso tudo não foi uma armação da vida para me fazer acordar e ver que sigo sozinha.
Confesso, não foi fácil chegar nessa conclusão também. Demorei para aceitar que toda essa longa estrada que percorri foi apenas para me fazer perceber isso: que carrego minhas próprias bagagens e pesares e não tenho com quem dividi-los. Doeu isso também, mas estou me recuperando.
O choque inicial começou a passar só hoje, ainda chorei um pouco, admito, mas foi só porque sei de toda a verdade agora e ela não é bonita. Mas o que importa é que sequei as lágrimas, entende? Não fiquei como das outras vezes esperando alguém fazer isso por mim. Aceitei que não há mais ninguém além de mim e agora tudo que eu quero é aprender a lidar comigo mesma, me amar, me cuidar e me levar a todos os lugares que, um dia, quis ser levada por alguém. 
Não estou dizendo que vai ser bom, porque me conheço o suficiente pra saber que vou olhar para trás umas trezentas vezes e vou querer voltar umas seiscentas, e vou chorar muito ao longo do trajeto e pensar em desistir umas mil vezes. Mas, no fim das contas, vou seguir em frente sozinha mesmo e aprender a fazer isso da melhor forma. Vai ser assim porque acabo de decidir que cansei de sofrer, porque ninguém aguenta tanta chuva, tantos dias nublados. Ninguém aguenta viver desse jeito, não, e eu vivi por quase 20 anos. Aprendi minha lição.
O que eu quero agora? Encontrar um meio de me adaptar à essa nova vida. Um jeito de conviver comigo mesma sem ficar louca. Minha meta ainda não inclui ser feliz, porque isso está muito distante da minha atual realidade, mas com certeza inclui ser inteira. Passei a vida acreditando ser uma metade quebrada e sem encaixes, uma incapaz sem futuro mendigando por um pouco de amor, mas chega. Alguma coisa dentro de mim deve ter sido feita direito, e, se não, vou endireita-la eu mesma. 
E, se nada der certo outra vez, de uma coisa tenho certeza: eu ainda me tenho. Posso não ter mais ninguém, mais nada, mas tenho a mim. Muitas vezes, confesso, mais atrapalho que ajudo, mais me critico que elogio, mas sou minha própria companhia, boa ou ruim, e me aceito desse jeito, porque sozinha comigo não existe mentira, nem expectativa nem decepção. 
Sou eu e apenas eu, com todas minhas dores e verdades, com todo o amor que distribui tão intensamente para quem não soube o que fazer com ele. Vou aprender a caminhar novamente, e a sonhar, e a acreditar em coisas que hoje não consigo. Vou aprender, vocês vão ver, porque meus primeiros medos tive que superar sozinha, meus primeiros erros consertei sozinha, primeiros problemas foram resolvidos sem ajuda e minhas primeiras decepções tive que lidar e carregar sozinha também. Consegui todas as vezes, não foi? Então, não vai ser diferente dessa vez.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Marcha ré

É extremamente difícil escrever dessa vez. Porque eu sei que tem toda uma expectativa, tem toda uma vontade de ler felicidade e realização nas minhas primeiras linhas depois que vim parar aqui. Não queria desapontá-los, e sinto muito por isso.
A verdade é que não está mais fácil, e não faço ideia do motivo que me fazia pensar que estaria. Acho que acreditei tanto em algo que quis que fosse verdade, que esqueci de manter os pés no chão. Porque, se eu tivesse sido racional, não veria solução alguma, já que nunca existiu solução, mas como a realidade era dolorosa demais pra aceitar preferi fechar os olhos pra ela. Quis acreditar que tinha uma luz, um único caminho, uma única saída. Me agarrei com tanta veemência nessa hipótese que, dentro de mim, passou a ser certeza. Era só pegar minhas coisas e me mandar e, não mais que de repente, num estalar de dedos, eu seria feliz outra vez, depois de tantos anos, porque eu só queria estar em casa, e casa pra mim é estar com quem eu amo. Pensei que bastaria.
Não foi o que aconteceu. E, talvez, se eu não tivesse feito questão de me esconder da verdade que estava se esfregando na minha cara, não doesse tanto. Porque a decepção, agora, me parece mais dolorosa do que aceitar a realidade que eu tanto negava. Será que essa mania de sempre fazer escolhas erradas vai durar pra sempre?
A diferença é que essa escolha vinha com muitas consequências e eu, cega e burra, não cogitei a possibilidade de dar tudo errado e as consequências serem ruins. Porque sempre foi tão comum as coisas darem errado comigo que achei que, dessa vez, poderia dar certo. Mas, mais uma vez, me enganei.
E agora não posso voltar. Dei um passo muito grande, fechei e tranquei a porta que deixei pra trás. Não tenho como voltar, não tenho nem mesmo para onde voltar. E, sabe, estou com muito medo de recomeçar torto desse jeito, mais medo ainda de não estar recomeçando coisa nenhuma, mas engatando a marcha ré e retrocedendo para a mesma vida que sempre tive e nunca consegui mudar. Tudo porque nunca pensei que estar com alguém que amo fosse completamente diferente de estar com alguém que me ame.

" Você diz não saber o que houve de errado e o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria."

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Verdades, mentiras e futuros previsíveis

A verdade é que a verdade dói, e não há analgésico que amenize. E tantas verdades existem por aí, prontas para serem disparadas na cara de alguém distraído que não pediu pra ouvi-las. Tantas mentiras também. Não sei qual das duas pode ser mais letal para quem acaba de despertar para a vida, ou para a realidade.
Porque, em cada esquina que dobrei, não obtive sucesso. Sempre foram ruas sem saída que encontrei, sempre becos sujos, mal frequentados e pouco iluminados com promessas de belas avenidas. Sempre mentiras, mas as verdades não foram mais bonitas que elas.
E agora estou caminhando um pouco cautelosa, e meus pés doem, e só não paro porque estou com preguiça. Mas eu sei que, mais na frente, vou cruzar com vários alguéns vindo na direção contrária. Algum, eu sei, vai acabar escolhendo o mesmo lado que eu na calçada, e vamos parar frente a frente, nos esbarrar e pedir desculpas. E depois que a gente pára, é preciso coragem pra voltar a andar. A antiga lei da inércia, sabe? Então, e tenho certeza que isso tudo vai acontecer, porque a vida é tão clichê e nós, tão previsíveis, vamos nos interessar pela mesma coisa. Simples na teoria, tão difícil na prática. Porque eu não vou te dizer de cara, assim, que tenho bagagem pesada nas costas. Não faz meu tipo falar logo a real, tipo "Prazer, sou um problema". E você não vai me falar de primeira que não tem paciência pra meninas malucas feito eu. Vamos descobrir isso tudo da pior maneira. Sempre assim.
Será que dá pra pular essa parte? Tipo atravessar a rua ou entrar em algum desses becos e me esconder, pra não ter que chegar nesse ponto? No ponto que vamos nos conhecer? Melhor deixar tudo como está, porque sozinha comigo mesma, pelo menos, não há expectativa e, consequentemente, decepção.
Você nunca vai poder me consertar e me fazer inteira de novo, porque sou fragmentada e errada e torta das piores maneiras possíveis e eu sei que vou te bagunçar com as minhas psicoses e pesadelos durante a noite. Nunca vou conseguir ser alguém o suficiente pra ser alguém na vida de alguém. Então pra quê se arriscar desse jeito? Já sei onde esse caminho termina, já conheço o fim dessa história e não tenho mais paciência pra revivê-lo. Me tornei incapaz de ser amada, meu bem, entenda. Quando a gente se cruzar, se esbarrar e se interessar pelas mesmas coisas, eu simplesmente vou apertar sua mão, prazer conhecer, e seguir em frente, porque isso é o que eu sou agora, e não é algo que você queira por perto. Nem eu me quero por perto.