sábado, 30 de março de 2013

Ponte

Foi assim que eu descobri que a vida não consiste em felicidade constante. Os momentos de alivio, alegria e satisfação são meros momentos; apenas curtos períodos de tempo que nunca chegam a durar 24 horas. Nós somos constantemente depressivos e, as vezes, felizes. Como se felicidade existisse só para o 'estar' e não para o 'ser'. Mas a verdade é que todo mundo quer ser feliz. Aqueles que dizem estar à espera da morte só estão, na realidade, à procura da paz que ela pode trazer; à procura da alegria que se sente quando recomeçamos. Ninguém quer morrer por morrer, ninguém quer tristeza ou se afundar num poço de lágrimas sem fim. Ninguém gosta disso. O fato é que, quando dizemos estar cansados, estamos só usando palavras comuns para não termos que explicar toda a angústia que, as vezes, nos consome. E mesmo que dispensemos todos a nossa volta, o que na verdade queremos é ajuda, uma mão para segurar a nossa e um abraço que não irá nos soltar. Uma pessoa que não nos deixe cair no abismo dentro de nós mesmos, e não deixe isso tudo transbordar. Porque a felicidade conjunta é a única que permite um estado contínuo, é a única que oferece uma ponte de travessia quando a única coisa que se vê pela frente é uma queda infinita.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Certezas

Aí tava de noite já, e, por mais que ainda estivéssemos ali, vivendo aquilo, parecia tudo estar congelando lentamente, virando memória enquanto acontecia, lembrança boa que mata a gente de saudade depois e que já estava me matando desde aquela hora. E eu vi que esses pares de olhos, logo esses que sempre tentei fazer sorrir, de repente estavam se afogando em lágrimas. Foi quando descobri porquê nunca consigo escrever pra vocês e sobre vocês. Raras vezes pude colocar em palavras esse nosso amor de alma, de coração, e nunca fiz isso de maneira exímia. Hoje, no entanto, percebi que só sei escrever sobre dúvidas, inseguranças, agonias particulares, inquietudes e desassossegos. Não escrevo sobre certezas, porque elas são consistentes demais, certas demais, então como poderia escrever sobre o meu sentimento por vocês?
A cada abraço meu coração ficava apertado, mas aprendi a não mostrar fraqueza nunca. Por isso, mesmo com o choro querendo sair, não saiu. Mesmo com um desespero pedindo pra vir à tona, não consegui deixar. Desembestei a falar justamente porque havia silêncio profundo dentro de mim, havia uma dor, um peso absurdo. Olhei cada rosto com o estômago enjoado, e entrei no ônibus totalmente desnorteada.
E, de tantas coisas que deveria e queria ter dito, não disse nada. E o abraço que eu quis que fosse mais longo não durou tanto porque meus braços cederam. Entendem a loucura que bateu em mim naquela hora? Eu não sabia o que dizer, o que fazer nem como olhar pra vocês. Eu não sabia como agir. Porque não quero virar apenas saudade na vida de vocês, não quero virar lembrança, foto no porta-retrato. Entrei em pânico em pensar que as deixo aqui e que tanta vida que temos pela frente pode nos reservar mais distância, outros caminhos e novas amizades. E  que pode ser que eu esteja indo em vão, e sacrificando a presença de cada uma só pra quebrar a cara ali na frente. Pode ser que nada dê certo e que eu volte com uma mão na frente e outra atrás. Meu Deus! pode ser tanta coisa!
Mas aí eu lembrei que não as deixo aqui, não. Levo junto comigo. Porque cada conselho trocado, cada piada engraçada demais pra caber em um simples riso, cada coisa que aprendemos umas com as outras, tudo que vivemos, vai sempre estar comigo, não como memória apenas, mas como algo que vai me ensinar a enfrentar o dia-a-dia. E, nesse pequenos detalhes, vamos nos lembrar, e rir ao pensar na piada antiga, e sentir saudade, mas uma saudade que sabe que é temporária. Afinal, pra onde eu poderia ir? Nem que eu fosse para o outro lado do mundo, ainda viveríamos no mesmo planeta, e que barreiras há pra quem realmente tem vontade de estar junto? 
Que distância seria capaz de afastar, também, nosso coração, nossos pensamentos, nossa amizade? Nenhum lugar é longe demais pra não poder ser visitado, nenhum tempo é longo demais que não possa ser interrompido por uma viagem rápida, só pra dizer Oi e perguntar como vai a vida.
Parei de surtar só quando lembrei de tudo isso. E lembrei que tudo que somos e vivemos e sentimos umas pelas outras não passa de uma certeza, pura e simples, constante e permanente. Certeza como poucas, ou nenhuma, que tenho o privilégio de ter na vida. Certeza que carrego no peito e alivia essa saudade antecipada, acalma essa alma tão perturbada e me permite seguir em frente, não mais achando que as deixo para trás, mas sabendo que seguimos juntas, apenas por estradas diferentes que, quem sabe um dia, ainda se cruzem outra vez. Porque, no final, as coisas sempre se ajeitam, não é?

quarta-feira, 27 de março de 2013

Amores instantâneos

Acho que temos todos muitos amores na vida, e temos total direito de tê-los, juntos, separados, ao mesmo tempo e misturados. Minha pele ama a sua, de tão macia, de tão quente que é. Meus olhos amam o cabelo do moço que sempre passa por mim, tão solto, tão leve. O cheiro do rapaz que está agora do meu lado é simplesmente o melhor do mundo, meu olfato ama seu aroma, e eles casam-se. Meus braços amam o abraço dele, e só o dele é tão forte, tão apertado e tão protetor; só o dele me faz caber inteira. Meus olhos amam te ver, pela sua beleza, pelo seu sorriso, pela sua altura e jeito de caminhar. Meus ouvidos são loucamente apaixonados pela voz desse menino, este que passou rindo.
Eu amo tanto, e tantos. Amo de tantas maneiras, de tantos jeitos. Eu amo alguns com os olhos, outros com as mãos.. tantos com tantas explicações diferentes. Bato o olho pelo vidro do ônibus e me apaixono perdidamente pelo garoto dos fones de ouvido. Imagino minha vida inteira ao lado do vendedor simpático daquele loja cara.
Mas meu coração, esse é só de um, porque sou pequena e só cabe um alguém aqui dentro. Meu coração é só seu. Posso ter olhos amantes da beleza, ouvidos casados com diferentes sons e mãos apaixonadas por tantas peles diferentes. Mas nada disso me toca fundo, porque o que chega e me encanta, atravessa minha pele e encontra meu coração, que abre a passagem pra minha alma. E isso é só seu, meu amor. E eu nem sei quem você é ainda, mas sei que é seu, e tá aqui guardado pra você.
O amor do coração e o deleite da alma, só pertencem a ti. E por esse amor, meus braços são contagiados e passam a te amar, meus olhos, meus ouvidos e tudo passará a ser mais aguçado na sua presença. E é tão injusto que, não contente com o coração, você me queira inteira pra si! Porque você não me quer ainda, não me achou ainda, não me conhece ainda, mas parece que faz questão que eu te queira desde agora, sem nem saber se quero sua pele morena ou branca, seus cabelos negros ou loiros, seus olhos claros ou escuros. Sem nem saber como você é, mas já amando seu jeito de ser.

terça-feira, 26 de março de 2013

Metade*

Eu não sei como te contar isso, porque não sei sua reação. Aliás, eu sei exatamente o que você vai fazer e vai ver é por isso mesmo que não te conto nada. Perco a coragem de dizer, toda vez que penso em tentar. Acho que vai ser só uma surpresa, nada mais que um "ah, que pena". Por isso não sei anunciar que vou partir. Porque cada parte de mim vai estar implorando silenciosamente que você me impeça de ir, ou me deixe ir na certeza de que vai me esperar. Quando eu enfim disser o que tenho pra dizer, cada célula do meu corpo vai estar torcendo pra que você me peça pra ficar, e vai ver você não pede só porque sabe que eu fico, se pedir.
Eu não sei como te dizer adeus, como escrever que eu nunca mais vou ter sobre o que te escrever. Não sei como vou fazer com as palavras, já repetidas, que insistem em procurar seus olhos para lê-las e perceber que são pra você. Não sei como vou conseguir escrever sobre outra coisa, porque não faz sentido continuar falando de você se vamos estar tão longe, mais distantes do que já somos, com vidas totalmente opostas. E eu não vou conseguir nunca mais falar de outro rapaz como eu me falo de você, e escrever tanta coisa bonita para outro alguém, e dizer todas essas palavras.
O que vou fazer com todo esse amor? Você vai seguir sua vida e, no dia seguinte, não vai lembrar mais de mim. Mas e eu? Eu que jurei que casava contigo num dia como outro qualquer. Eu que jurei te aceitar, te amar e trocar todas as paixões divertidas do mundo pra ter só você junto comigo. Eu que até aceitava parar de ser doida pra virar gente normal ao seu lado.
Não sei pra onde meus passos vão querer seguir agora, se eu gostava tanto de andar num caminho que eu sabia que cruzava com o seu. Eu que perdi o rumo tantas vezes, e todas essas vezes me esbarrei nos seus passos. Em quem vou esbarrar nas ruas de uma cidade desconhecida? Você não vai estar em nenhuma esquina, esperando pra encontrar comigo ao acaso.
Nenhum lugar vai despertar em mim o desejo secreto de te achar na multidão, sem querer, numa coincidência sem cabimento. Porque você não vai estar em nenhuma loja, nenhum restaurante vai conhecer seu cheiro, nenhuma rua vai sentir teus pés passeando sobre ela e eu vou andar por aí feito menina perdida, sem saber pra onde ir e sabendo que em nenhum lugar você vai estar presente.
Como você espera que eu aja quando conhecer um novo rapaz, solto por aí? Eu vou baixar os olhos pra tentar não encontrar o olhar dele e reparar que é diferente do seu. Vou tapar os ouvidos pra não constatar que é uma voz diferente da sua. Eu vou ser uma maluca, entende? Não quero que seja assim, não quero te deixar pra trás e, fazendo-se isso muito necessário, não quero me deixar junto.
E como posso nos separar, depois de tanto verbo que gastei pra juntar? Mesmo juntando só na minha cabeça, já não sei como estar sozinha dentro de mim mesma, porque você é praticamente metade disso tudo. Não sei onde vou estar quando for a hora de ir, na metade que está partindo ou na metade que ficou aqui e que você nunca soube que era sua.


*  
" Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio 
Estou em milhares de cacos, eu estou ao meio 
Onde será que você está agora? "

segunda-feira, 25 de março de 2013

Ana e o mar

Eu queria escrever pra você, pra dizer que aprendi a lidar com seu jeito desapegado que as vezes enjoa de tudo, depois morre de saudade de novo. Porque sei que você me lê, como eu te leio, e que a gente se conhece na escrita, se reconhece nas nossas palavras tão bobas, tão loucas, nos sentimentos parecidos. E eu sei que você vai saber que esse aqui é pra você, menina.
Aprendi a gostar da sua voz meio irritante, meio engraçadinha, mas tão sua. E eu quis escrever porque, sabe, eu tenho essas duas amigas da vida, da alma e do coração e ela sempre me bastaram, e sempre vão me bastar. Você tem seus grudes, que eu sei, que você não desgruda nunquinha. Mas, depois de altos e baixos, distâncias e proximidades, eu descobri que gosto de você bem aí, alcançável, não tão perto quanto elas, eu sei, mas nunca longe demais. E gosto de mim bem aqui, nem sempre grudada, mas nunca tão  desgrudada assim.
A gente sempre se estranhou, talvez ainda se estranhe um pouco e, quem sabe, não seja essa a graça da nossa amizade. De repente, a gente se ama, meu bem, eu amo suas mãozinhas geladas e seu cabelo enrolado, mais ainda quando ele tá curto, e de repente a gente se estranha de novo, e tá bom pra mim que seja assim, tá ótimo. De repente você, estando exatamente onde está, sendo exatamente quem é, permanece em lugar privilegiado em mim, num lugar só seu, que eu sei que vai ser sempre só seu porque você é muito única pra ocupar outro lugar.
Eu com minhas fiéis escudeiras, você com suas preferências, e ambas se esbarrando num sentimento bonito, leve e descontraído, numa amizade que nunca morre, porque não consigo não gostar de você, menina. E como não gostar das nossas conversas meio desesperadas? Porque temos sempre muita coisa pra falar, e falamos demais, e nossos amores de nome igual estão sempre nos deixando loucas. E, feito loucas, rimos e queremos chorar e ficamos tontas com tantas voltas que a vida tá dando na gente, quase gritando "olé" quando se trata do coração. 
Mas quero que você saiba que to feliz de te ver, te abraçar, te ouvir. Feliz com seu cabelo mais curto, suas bochechas que nunca diminuem, seus braços apertáveis. Feliz demais por saber sobre as suas coisas e quero sempre saber o que eu sei que não é tudo, todos seus segredos, mas que me deixa te dizer pra parar de ser boba, mesmo sabendo que você é sempre meio boba, meio mole, meio você num nível que eu não quero que mude nunca. Com seu jeito leve de escrever, que nunca vai me fazer acostumar e vai me encantar pra sempre, eu quero todo o bem do mundo pra você. Todo o amor, todas as coisas bonitas e as canções mais melodiosas, todas as coisas que eu não sei explicar, mas são tão você que espero que sua vida esteja repleta delas. 
Eu deixo você ficar longe, no seu espaço, e deixo você enjoar de mim e do meio jeito rápido de falar, mas só promete que nunca vai pra muito longe, nunca vai pra onde eu não consiga te ver, nem te saber, nem te apertar, nem te abraçar e gritar que tava com saudade. Nunca vai pra muito longe do meu coração, não, tá? 

domingo, 24 de março de 2013

"Tá louca?"

Foi escrevendo muito sem querer dizer nada que aprendi a ser assim, meu bem. Você me pergunta se estou louca, mas sabe que é apenas uma retórica, porque as coisas sempre aconteceram de forma estranha comigo por perto. Fazendo o que não queria que você me visse fazer, acabei me revelando e te deixei saber que gosto dos seus cabelinhos de anjo. Sempre faço tudo errado, ao contrário, do avesso, mas você sabe, né? Será que sabe mesmo, ou só finjo que sabe pra poder dormir pensando que seu pensamento talvez esteja em mim também? Mas acho que desconfia, pelo menos, se eu não sei ser sutil, porque a transparência é característica da alma. Tantas caras e bocas e palavras escapulidas devem ter te feito ver algo além de alguém normal em mim. Espero que seus olhos possam ter enxergado algo além de amizade também, mas não menos amizade, vai ver é amizade demais e acaba virando isso. E eu estou pensando demais outra vez enquanto você fala algo sobre não saber qual área da sua carreira você pretende seguir. Só que acho que não fui discreta, de novo, quando tentei me ater às palavras que você estava dizendo porque de repente seu silêncio foi tão grande que meus pensamentos silenciaram também. Só você consegue essa proeza de calar minha mente afobada. Aí parei de viajar sozinha pelos meus mundos imaginários e seus olhos estavam tão grandes naquele dia, que mergulhei neles, fundo demais, tenho que dizer. E de repente estava chovendo e acho que eu não reagi como as pessoas costumam reagir quando estão tomando chuva e soou estranho outra vez minha tentativa de parecer alguém normal. Quando suas palavras voltaram a ecoar, parecia que mil anos tinham se passado enquanto sua pupila muito preta me olhava curiosa, intensa e indecifrável. Queria que você tivesse me enxergado naquele dia, só que seus olhos sempre parecem esquecer de prestar muita atenção quando se trata de mim, mas não posso te culpar, nem eu me dou atenção com você por perto.
"Não, é o meu normal."

sábado, 23 de março de 2013

Profissão não é escolha, é aceitação

É mais difícil quando não acreditam em você, porque isso faz com que você também deixe de acreditar em si mesma. E não digo quanto a sua familia e amigos apenas, mas quanto ao seu país também. Não aceitam que você possa ser bom em um área que, no Brasil, é muito fraca.
Mas a questão é: até onde seu sonho chega? Quanto vale fazer o que você ama?
Se existir, no mundo, alguma coisa que pague o prazer de estudar para ser algo que você já sabe que é, então você não é isso, simplesmente. Nunca foi, nunca quis realmente ser. Porque quando a gente quer mesmo, nada pode mudar isso, não existe preço no mundo. Nem um salário mais alto, nem trabalhar 5 horas por dia no lugar de 15, nem falta de incentivo do governo e, menos ainda, falta de reconhecimento.
Lógico, somos humanos, queremos ser reconhecidos e vistos pelo que fazemos. Mas será que fazemos isso, ou somos isso? Eu acho que você só pode se dar bem em uma profissão se você for ela. Porque quando se trata disso, não é simplesmente algo que te interessa, ou algo que tá prazer; é algo que te completa, que faz com que você seja exatamente quem você é. Isso, pra mim, é o cinema. Isso é a medicina para alguns, o direito para outros. É o que são, não o que fazem. 
Esse negócio de escolher profissão é pra quem não se importa com nada além do salário, não liga de fazer o que tiver que fazer desde que isso resulte em uma conta bancária bem gorda ao fim do mês. Porque a realidade é que você não escolhe nada, você nasce e cresce e já é assim desde sempre. Minha vida, desde que me entendo por gente, se resume às artes. Não porque eu quis me envolver com elas, até porque nunca me envolvi, ou porque alguém da minha familia gosta, até porque ninguém é chegado na área, ou por qualquer coisa do tipo. Não foi uma decisão. 
Eu sou o cinema e, felizmente, isso pode ser uma profissão e, consequentemente, uma fonte de renda. Mas, se não houvesse salário algum, se essa profissão não existisse, ou se eu trabalhasse em qualquer outra área, eu continuaria sendo o cinema em pessoa, entende? Não se trata de nada além do que eu já sou, e eu respeito isso. Pretendo me aprimorar nisso, e não ir atrás de algo para exercer apenas. Porque eu não vou exercer o cinema, eu vou viver ele, eu vou ser ele.  Não é minha vontade, meu sonho, nem nada parecido. É o simples fato de poder assumir quem sou e sempre vou ser. Não é uma profissão, ou uma escolha, ou uma opção. É um verbo. Não é sobre trabalhar. É sobre existir. A partir do momento que você perceber quem é, você vai saber o que fazer, sem dúvidas, sem medo de errar, você vai saber e descobrir que, na verdade, você sempre soube, só não quis aceitar.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Morrendo

Ontem eu morri. O ar foi parando de entrar nos meus pulmões não importava com quanta força eu o puxasse, a cabeça rodava em todas as direções e os olhos por mais abertos que estivessem só podiam ver a escuridão nauseante. As mãos geladas e suadas pareciam já não fazer parte do meu corpo e meu coração pulsava devagar, com dificuldade, como se pudesse silenciar a qualquer momento, sem aviso prévio. Apaguei. Ao fundo, umas vozes distantes chamavam meu nome, mas eu não conseguia responder, nem prestar atenção no que diziam, nem me mexer, nem pensar em nada. Era só o infinito que eu sentia, e não era reconfortante. Fui morrendo e a sensação era tão dolorosa que me paralisou. Depois de algum tempo percebi que ninguém ia me acordar, me chacoalhar até que eu voltasse à luz, porque era eu quem tinha que fazer isso. Parei comigo mesma, me concentrei como nunca antes, e me mandei parar de surtar. Você não vai morrer, sossega, fica calma, respira. Se concentre em respirar, sem pressa e sem pressão. Só respire.
E assim eu ressuscitei. Abri os olhos e um borrão de cores misturadas me deu bom dia. Abri os olhos e, apesar do alívio de estar abrindo-os novamente, senti vontade de fechá-los outra vez quando eles não te acharam. Abri os olhos e vi que morri sozinha. Tudo que consegui sentir ao acordar não foi a melhora, nem o alívio, mas o vazio. Eu morri e você nem tomou nota, nem viu, nem sentiu, nem mesmo soube. Morri de novo quando percebi isso, e permaneço morrendo. Permaneço sozinha.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Fica em paz, poesia.

Aí eu acordei e ouvi dizerem que você tinha dormido pra sempre. E todo mundo falando sobre o poeta que morreu, e todo mundo falando sobre o drogado que se matou. E eu não sei de nada disso, porque, de repente, eu não te conhecia. Ninguém te conhecia. Porque o que eu sabia tão bem durava o tanto que durava a sua canção, e era sempre algo de amor, algo de luta, de vida, revolução, calmaria. Sua voz rouca contava muito mais do que as palavras que saíam da sua boca permitiam, e através dela sua alma fluía e quase entrava na gente. As canções eram como ler o livro da sua vida. Todo mundo te conhecia e agora você parte como um estranho, porque sem sua voz e as suas melodias, as vezes tão suaves, as vezes tão alteradas, você não era ninguém. Como um anônimo eu te assisti durante toda a cobertura jornalística. Não podia ser você. Não pode. Porque ainda coloco suas músicas pra tocar e te conheço de novo, e penso que não é verdade. Como você morreu, se continua vibrando tão vivo através de cada nota? Não morreu o cara que escreveu a primeira música que eu gostei de ouvir, quando atingi idade suficiente pra escolher minha trilha sonora. Não morreu porque a canção ainda toca nos meus ouvidos, mesmo através do silêncio que se fez com a notícia do plantão. Como se um coração ainda pulsasse no seu peito, a gente não consegue sentir a distância que a vida e a morte gostam de impor. Porque a gente ainda te ouve, e te lembra cantando, e não é só lembrança, de repente, é verdade, tão perto, tão tocável, como pode estar tão longe assim? Eis a resposta: não está. Em algum lugar, Deus-sabe-onde, você está, mas é como se tivesse dado um jeito de se dividir em mil pedaços e se fazer morar em cada um de nós que te conheciam tão bem. Tão vivo que nem preciso dos olhos fechados pra te ver. Eu ia dizer pra ir em paz, mas você tinha a paz dentro de si, e escolheu ficar com a gente, porque você ficou, tenho certeza, pelo menos, da minha parte. Tá tão vivo dentro de mim que quase sinto dois corações pulsando, então fica em paz, mas fica. Uma vez você disse que ia mudar tudo que não te convém e que não sabia fazer poesia. Mas você não sabia mesmo, nunca soube. Porque você não é o poeta, você é a poesia e poesia não morre, seu bobo, nunca te avisaram, não?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Tortura

Todas as noites eu deito e pergunto pra Deus o porquê de tanta coisa, de tanto tempo de espera, de tantos dias sempre tão difíceis. Todas as noites, deito torta na cama e fico ali deixando as lágrimas rolarem até que meus olhos sequem. Durmo depois de uns trinta ou quarenta minutos, fecho os olhos jurando que, dessa vez, eu vou desistir. Dessa vez, eu vou fazer o que sei que não devo, parar de tentar fazer acontecer e esquecer que, um dia, eu fui a menina toda certinha e responsável. Eu deito e durmo acreditando que não aguento mais e sabendo que essa noite vai ser a última fazendo a coisa certa, porque no dia seguinte vou levantar e virar o mundo de ponta cabeça e piorar o que já está ruim, já que não tem como melhorar. Mas aí eu acordo e olho pro céu, e ele está azul de novo, e eu me pergunto porquê. Levanto e está tudo do mesmo jeito que deixei ontem, fora do lugar e do avesso, mas não consigo ver o fim do túnel, como pensei estar vendo na noite anterior. Não sei até que ponto isso é bom, porque, as vezes, essa coisa de tirar a esperança de uma pessoa e depois querer devolver me parece muito com uma forma de tortura, e eu to muito cansada de ser torturada.

terça-feira, 19 de março de 2013

Carona

Eu aceito a carona, desde que seja pra bem longe daqui. Pra bem longe de mim mesma. Se você disser que vai me levar pra onde possa haver apenas crepúsculos alaranjados, um céu azul num dia, rosado no outro, um amanhecer friozinho e ensolarado, uma noite estrelada, uma cidadezinha com casas cheias de pequenas luzes amarelas que fazem parecer natal; se você me pegar pela mão e me fizer rir tanto, ou chorar tanto, que eu esqueça o motivo de estar tão angustiada, eu vou. Pra onde quer que seja esse lugar, se ele for me salvar dessa loucura toda que está me pressionando, eu aceito. Porque se eu ficar vou morrer louca dentro de mim mesma. Morrer afogada nessa tempestade que se tornou a minha vida. Então diz que você vai me salvar, e não vai permitir que eu morra aqui sozinha, coberta por toda essa sujeira. Vai ser meu bote salva vidas, minha boia, meu pedaço de chão firme, farol, porto seguro. Eu aceito qualquer coisa, desde que seja inteira e permanente, porque eu preciso de mais que um ombro, eu preciso de um corpo inteiro e um olhar sincero o suficiente pra me fazer saber que não estou sozinha, nunca mais vou estar. Preciso de mais que um par de ouvidos ou lábios que me aconselhem. Algo melhor do que uma mão pra me puxar. Preciso de braços pra não me deixar ir novamente, duas pernas para me ajudar a caminhar, um coração próximo ao meu e uma certeza que cada batida será perfeitamente ouvida porque nunca vai estar longe demais, nunca mais.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Trilha só nossa

Eu cantaria Clarice, já não sou mais normal que as letras dela e, de todos os loucos do mundo, eu quis você, porque gostei do seu papo e do ser perfume. Ouviria seus lábios entoarem Beautiful Girl toda vez que eu te pedisse pra ficar comigo. Trocaríamos Stand by me quando a noite chegasse e, com os olhos tão próximos de um beijo, eu estaria imaginando as notas de I won't give up, porque te olhar é como ver um céu estrelado. Deitada do seu lado, você sussurraria bem baixinho no meu ouvido Every breath you take, já que vive me assistindo viver. Eu te puxaria para um dança ao som de He is we, porque você sabe que All about us me emociona, me faz pensar que somos, de fato, só nós dois no mundo. Ao por do sol, Here comes the sun estaria tocando baixinho nos nossos corações que passaram por longos e frios invernos. Na praça que costumamos deitar pra olhar as estrelas, depois da cidade já ter ido dormir, nossa trilha é Depois da meia noite porque a gente fica rindo como se o mundo fosse perfeito. Ao amanhecer, Los hermanos para nos embalar o dia, Marcelo e Mallu até a hora da Janta pra dizer que caberá ao nosso amor o eterno. Cazuza para não deixar nosso tempo parar e Frejat por termos a quem amar. Para encantar nosso canto, a gente viveria na casa pré-fabricada, caetaneando no sol de quase dezembro, como se soubéssemos que o mundo fosse acabar hoje e estivéssemos apenas dançando porque estranho mesmo seria se eu não me apaixonasse por você. 

domingo, 3 de março de 2013

Para o senhor amor

Então, por favor, senhor amor, sai do meu coração. Afinal, qual é sua função aqui? Você que sempre teve o bom senso de se dividir em dois corpos, tá fazendo o quê aqui nesse meu coração solitário? Não tá vendo que sua grandeza não cabe em mim sozinha? Porque o mundo todo sente metade da sua potência, já que a outra metade costuma estar na pessoa em quem você se reflete. Então qual foi o motivo de você vir inteiro pra mim? Cadê minha metadinha nessa negociação? Eu não aguento você inteiro, amor. Eu não aguento sentir tudo isso sozinha. Será que, por obséquio, dá pra me apresentar para o cara que vai compartilhar e dividir um pouco desse peso comigo? Ou será que, caso isso seja utópico demais na minha condição, dá pra pegar suas coisas e ir embora, senhor amor? Se mandar, vazar, dar no pé, sumir, morrer? Será que dá pra me deixar em paz e ir cantar em outra rádio essas músicas melosas que eu nunca, antes, gostei? Não sei amar sozinha, não gosto de amar sozinha, e não quero amar sozinha.
Por isso, só me resta te mandar embora, senhor amor. Vai e trata de não voltar aqui sozinho novamente, porque eu só te quero se for acompanhado, se for pra me amar também, não só pra ser amado.

sábado, 2 de março de 2013

Quem fica

Minha vida não é sapucaí pra chegarem achando que podem sambar 45 minutos nela, e depois ir embora. Meu coração não é terreno pra montar circo, que fica só enquanto está lucrando; que canta, toca, encanta, depois pega a estrada. Eu não sou aeroporto pra embarcarem e desembarcarem em cima de mim quando bem entenderem.
As vezes, acho que fui feita à lápis, porque só isso justifica a facilidade das pessoas de me apagarem de suas histórias, me tirarem de suas páginas como se eu fosse descartável.
Dessa vez, no entanto, sou eu que estou indo embora. E quero ver quem vai vir junto e quem vai dar adeus pela janela do avião, quem vai segurar a barra de fazer essa travessia comigo e quem vai virar as costas para nunca mais ver. Quero ver quem vai remar comigo até o fim e quem vai pular fora ao primeiro sinal de água no barco. Quem permanece e quem nunca esteve ao meu lado. Quero ver quem me abraça e dá adeus, e quem me abraça e pede pra avisar quando chegar. Estou louca pra ver isso: quem vai esquecer que, um dia, posso voltar, e quem vai me ligar de vez em quando pra saber se eu vou demorar muito. Quem fica comigo e quem ficou pra trás.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Algo de amor

Depois de achar que era tudo coisa de filme, a gente vai rir e perceber que, é, talvez não seja tão fácil, mas é bem menos difícil juntos. Porque eu, com todos meus argumentos feministas, vou levantar e preparar um café do jeito que você gosta e não vou cansar de fazer isso nunca, porque seu sorriso sonolento vai me fazer ter vontade de vê-lo todos os dias. E, como não poderia ser diferente se tratando de mim, vou acordar e pegar a câmera, e filmar seu jeito de sonhar até que você abra os olhos e eu possa tirar um milhão de fotos da sua cara amassada. Vou te mandar trocar a camisa, porque essa não está combinando, um beijo rápido na porta, e olhos que te olham como quem diz pra voltar logo, porque eu vou vir correndo. Tudo isso porque vai ser amor. Amor quando chover, quando abrir sol e quando não conseguirmos pagar as contas. Amor para amar com a barba mal feita, de terno ou pijama, cabelo molhado, preso ou bem escovado.
Porque, se a gente ama, a gente não cansa. Não cansa do mesmo café todos os dias, no mesmo horário, não cansa do beijo de bom dia, do despertador ao lado da cama e dos horários a cumprir. Porque todo mundo me enjoa as vezes, mas amor é saber surpreender mesmo com a rotina. É ter alguém que possua algo de novo mesmo nos hábitos antigos. Algo de inédito nas palavras, ainda que sejam repetidas, algo de diferente no jeito de olhar, de ser. Ter alguém que preserve algo de novo no jeito de amar, sem nunca deixar de ser o bom e velho amor, porque eu ainda acredito nisso, e eu espero encontrar alguém que também acredite.