quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A cultura do medo

A criação feminina até hoje é assim: só o que sabemos é que devemos ter medo dos homens. Na rua, andar sem nem olhar na direção masculina. Em casa, se houver algum homem trabalhando como técnico ou pedreiro ou seja qual for a função, não ficar sozinha com ele nunca é lei.
Quem lê isso, acha exagero, mas pergunte para qualquer mulher se ela nunca foi orientada a não estar sozinha com um homem estranho. Pergunte se ela, de tanto ouvir que pode ser atacada por um homem, não passou a ter medo deles. Sofremos quase uma lavagem cerebral conforme crescemos, o tempo todo ouvindo que nossa função é fugir, se esconder, viver sempre alerta. Temos horários para sair e para voltar. Temos lugares certos para frequentar e não podemos escolher transitar por aí sem rumo. O tempo inteiro, temos que estar atentas a qualquer movimento suspeito. Andamos com passos rápidos tentando olhar a nossa volta sem que percebam que estamos vigiando.  
Como se não bastasse, ainda não podemos ser feministas, porque todos os homens acham que nós, hoje em dia, não sofremos mais com o machismo. Mas machismo, meus caros, não é só fazer a mulher de dona de casa, como era antigamente. O machismo começa no assovio do rapaz na esquina, como se fossemos algum animal. O machismo está presente no jeito de olhar descaradamente pra nós,  deixando-nos até envergonhadas. Só nós, mulheres, sabemos o quanto, até hoje, ainda sofremos com a sociedade patriarcal, totalmente voltada para os homens e defensora deles.
E o pior é que nos adaptamos tanto a viver assim que algumas de nós mal notam que não é normal você deixar de ir para algum lugar porque vai ter que voltar de onibus a noite e isso é perigoso. Não é normal regular a roupa, o local e o horário, todos os dias. Não é normal uma sociedade machista. Um bando de homens querendo ensinar uma mulher como ela deve se portar, como ela deve agir, o que ela deve falar ou fazer para ser considerada, de fato, uma mulher. 
Hoje, em pleno ano de 2013, é vergonhoso que uma pessoa do sexo feminino não possa sair de casa sem ser desrespeitada. De onde tiraram a ideia que cantada é elogio? De onde surgiu o direito, que todo homem acredita ter, de tocar em um mulher sem que ela concorde com isso? Quem deu autoridade para os homens buzinarem e assoviarem para uma mulher, como se ela fosse um cachorro no meio da rua? 
Não sei o que acontece com os seres humanos que parecem ter a necessidade de controlar uns aos outros, ou através da cor de pele, como era antigamente, ou através do sexo da pessoa. Não é assim que a banda toca, não é assim que fomos feitos pra ser. Não é isso que Deus, um dia, imaginou pra nós: indecência e falta de respeito. E o amor uns aos outros?
Espero que, um dia, todos, homens e mulheres, tomem consciência que viver impulsionado pelo medo de ter seu corpo invadido e desrespeitado não é vida, é sobreviver. E, nessa cultura de medo em que sobrevivemos, ser mulher é como ser culpada de um crime, o qual ninguém cometeu, e do qual nem se tomou nota que foi cometido - um inocente na cadeia, vivendo com medo de ser preso pelo simples fato de ser livre.

Um comentário:

  1. Minha reação é a Admiração! pelo texto e uma pessoal tambem!

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Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)