segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tudo certo

Eu te acho bonito, olhando de lado, as vezes de frente, quase sempre pertinho, rosto colado. Eu conto suas sardas e penso que elas ficam perfeitas em você, e deixo até de ter vergonha das minhas. Passo a mão no seu cabelo macio, e viajo pra longe enquanto meus dedos encontram seu próprio caminho em meio aos fios loiros e finos. Você diz que eu subo a guarda, mas a verdade é que ela quase some com você por perto, não sei se porque eu sei que no fundo a gente viaja junto em alguma galáxia louca da nossa cabeça ou se porque você compreende minhas alucinações sem julgá-las.
Eu te acho assim, solto e leve, como uma brisa boa que vem do litoral e me toca devagar. Eu te provo e te gosto até onde me cabe, quase perco o chão e o siso e todo o resto de mim mesma. Me perco no seu beijo suave e selvagem, extremo e intermediário, e poucas vezes me perdi assim. Gosto.
E você sabe de tudo isso, claro, mas eu escrevo só pra constar, pra dizer que há tempos não era bom e fácil estar com alguém, porque comigo as coisas insistem em acontecer sempre do jeito mais difícil. A gente aconteceu sem complicação, e eu gosto assim, desse jeito que é. Sem pretensão, sem intenção. Sem tempo para acabar ou começar ou continuar, perdido no espaço.
Sei que to indo rápido demais, mas não consigo parar porque já pulei desse avião antes mesmo de colocar o paraquedas nas costas e agora só me resta continuar caindo. Sei que deveria pensar se faço, não faço, se vou ou não vou, pensar no que dizer e o que fazer, mas não sei ser assim. Eu vou indo e vou sentindo e vou levando do jeito que o momento se apresenta para mim. É errado, mas eu sou errada e não é nem por maldade. Deus sabe o quanto sou inocente na minha culpa. Sou errada e torta e quanto mais me esforço pra não ser, mais eu sou. E você apareceu no meio dessa minha bagunça e bagunçou mais, e eu sempre tão organizada acabei jogando tudo pro alto. Será que a gente tá tão errado assim? Será que tem maldade no seu olhar bonito, e nas suas palavras e eu to viajando em te ver tão inocente, tão menino? Ir mais devagar ajudaria? Não sei de mais nada. Sei que to voando por jardins que não conheço e pouso neles mesmo assim, e gosto, porque seu jardim, em especial, tem sido bonito de se conhecer.
Quando a gente conta como foi o dia e pensamos no quanto estamos cansados, é bonito, entende? E não precisa ser mais que isso pra ser maravilhoso o nosso encontro. Já é por si só, a gente se olha e melhora o humor e a dor de cabeça, riso que vem fácil.
Quando você beija minha testa e diz pra eu me cuidar. Ou quando eu te mando ir dormir pra acordar cedo. Ou quando a gente dá bom dia e pergunta se o outro dormiu bem. É lindo. Quem precisa de mais palavras, juras ou promessas? Quem precisa complicar? Eu gosto de você aí, aqui, onde você quiser estar. Gosto de te ver quando dá tempo, e conversar quando podemos. Desnecessário um contrato, porque a gente leva a vida do jeito que ela leva a gente e deixa ser o que quiser ser. Errado, certo, culpados nunca, inocentes talvez. A gente gosta, e vai levando. A gente é eu e você, talvez a gente, talvez nenhum desses ou talvez ambos. A gente vive, e viver é bonito, tudo bem por mim. Tudo certo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sobre a falha do seu cabelo

A problemática toda está na falha que tem trás do seu cabelo. As camisas polo também ajudam, o jeito quieto e discreto, a mania de mexer na barba com a ponta dos dedos. O modo casualmente arrumado com que anda por aí, nada parecido com os baianos, a voz baixa e grave, a gentileza de participar das brincadeiras toscas que sempre fazemos ou até a peculiaridade de falar movimentando as mãos excessivamente. Tudo coopera, não nego, tudo tão seu, tão novo pra mim, me agrada, me encanta. Tudo em você me convida, mas a falha no seu cabelo simplesmente me consome, me paralisa, me faz achar que é a coisa mais linda no mundo inteiro. Deve caber certinho meu dedo indicador nela, sabia? Fico imaginando se foi um cabeleireiro desatento que sempre comete a mesma gafe e você nem nota, ou se nasceu assim. Não importa, é lindo esse caminhozinho de rato aí, no meio dos seus fios pretos, curtos e lisos. É linda a sua falha e ela me faz existir.
A verdade é que eu te reconheço por ela, de longe, com chuva, sem óculos, perdido na multidão, entende a insanidade? Não te conheço, falamos o necessário, o educado, o mínimo para alguém de convívio diário. Sei quase nada de você. E sua falha no cabelo é o mundo inteiro pra mim, é o milésimo de segundo que minha mente deixa de pensar no único amor que já penetrou no meu coração. A droga da sua falta de cabelo naquele intermediário entre cabeça e nuca me faz te querer. E eu não posso te querer, porque você ama outra mulher, então seria muito bom que arrumasse logo esse seu corte errado pra me facilitar a vida, mas não, você fica aí exibindo ele como se não fosse algo absurdo.
O pior é que isso me empaca outra vez. Me entala a garganta e impossibilita meu coração de enxergar outras pessoas, prende as borboletas no meu estômago e só solta pra você e seu defeito mínimo. O que mata é sair de uma prisão pra cair em outra. Porque, depois de todo esse tempo que passei sem conseguir achar qualquer pessoa interessante, é você quem me aparece, só para fazer ressurgir em mim a vontade de estar com alguém.
É você e esse seu defeito bobo que me fazem pensar que poderia dar certo um dia, de alguma maneira. Mas eu vou parecer louca se te contar que não durmo mais por causa disso. Vou ser louca aos seus olhos tão bonitos e misteriosos, quando disser que estou perdidamente apaixonada pela entrada do seu cabelo, porque gente normal gosta de sorriso, de corpo, de olhar. Gente normal gosta de jeito, de você, e não da sua falha. Gente normal gosta e é gostado, porque não fica insistindo em quem não dá retorno. Gente normal jamais teria reparado e medido e analisado um pedaço de cabeça sem cabelo. Jamais teria amado loucamente esse erro de cálculo do seu corpo. Mas eu nunca fui normal.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Menino descalço

Num jeito sereno
me calo pro mar
pro abraço do vento
me encanto ao sonhar
sozinha e sem medo
me aquieto, me atento
pro menino descalço
tão sem defeito
apressando o passo
te capto o jeito
desfazendo o aço 
que pulsava no peito
que agora descompassa
te vendo perfeito
vestido de gentileza
pelos meus olhos passa
mão que me aperta
refleti na sua palma
sem querer eu quis
beijar sua alma
pra amar devagar
toda essa graça
mas some no horizonte
cantando um adeus
 ressoa nas ondas
de repente virei só
pouco vejo o que restou
eternidade durou instante
tudo e nada mudou
desapareceu sem avisar
deixou comigo só memória
sentimento que fica no mar
não esqueço tua glória
sentimento que trago ao amar
porque ele vai, mas não demora
ao por do sol, vê se vem,
ei menino, vê se volta.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Confissões

No fundo, no fundo, a gente sempre sabe quem é. Pode demorar, pode disfarçar, mas você descobre, mais dia, menos dia, quem mora aí dentro, o que pensa, o que quer, o que faz e seus motivos. Eu sei quem sou, mas me escondo de mim mesma por medo, por receio, por vergonha, por raiva. Quero coisas que não deveria querer. Gosto de quem não deveria gostar e penso o que não é pensável para alguém como eu.
Sou menina de família, desde os 12 vivo dentro da igreja, no início por pressão, depois por curiosidade e, mais tarde, por escolha. Sou criada em casa, com a família sempre perto, sempre próxima. Moça direita, como dizem, focada nos estudos, não tem tempo pra mais nada, não quer saber do que as garotas da idade dela querem. Menina de ouro, um anjo, mal sai de casa.
Não sei se fui eu que me fiz assim, me moldei pra caber na minha família meio conservadora e agradá-los, ou se me fizeram ser assim. Aceitei, em todo caso, quem sou ou deveria ser, gosto até. E, tem dias, que sou mesmo, de corpo, alma e coração, essa menininha que pintaram em mim, mas não é sempre. 
Até hoje, nunca toquei nesse assunto porque não quero desapontar ninguém, nem a mim mesma. Criei um modelo de ser humano para me espelhar, me inspirar, e não quero, de modo algum, descobrir que sou incapaz de me tornar essa pessoa que sonhei. Incapaz de seguir todas as regras às quais eu mesma impus, incapaz de viver de modo o mais santo possível. Porque a verdade é que eu realmente escolhi estar dentro da igreja, me fazer caber na doutrina, seguir os ensinamentos. E coloco isso como uma meta a cumprir, porque de fato quero cumprir, não por obrigação, mas por amor ao Deus que conheci.
Acontece que não sou, de todo, reservada como deveria para uma "boa moça". Eu era sim, mas não mais. Sinto muito por isso, pai. Sinto muito, pastor. Sinto muito, igreja. Sinto muito, família. Mas não sou mais desse jeito. Hoje gosto de ir à baladas de vez em quando, somente pelo prazer de dançar, ouvir músicas divertidas e rir com meus amigos. Gosto de uma ou outra bebida, de vez em quando, apesar de não conseguir beber inteira e detestar o gosto do álcool. Gosto de estar em boa companhia, seja ela quem for, como for. Gosto das minhas roupas rasgadas, e shorts e batom vermelho. Gosto de um rapaz que conheci e de estar com ele. Gosto de lutar pelos direitos feministas porque sei muito bem como é se sentir primida pela sociedade machista, que me faz andar com medo pelas ruas. 
Se isso faz de mim uma péssima pessoa, eu lamento, muito mesmo. Porque meu amor por Deus só aumenta a cada dia, minha vontade de ajudar o próximo também, porque cresci com essa ideia, e hoje são valores, princípios muito importantes pra mim. A única diferença que essas poucas mudanças me trouxeram foi um amor próprio que nunca existiu. Um reconhecimento que posso ser feliz também, vez ou outra, no meio dessa jornada difícil que é a vida.
Não quero ser julgada e apedrejada por isso, não deixei de querer as mesmas coisas, ou de ter os mesmos objetivos. Sou exatamente a mesma pessoa de antes, só que agora numa versão um pouco mais leve, um pouco mais feliz. E, pra ser sincera, nas minhas conversas com Deus, não sinto, de forma alguma, repreensões, nem decepções da parte dEle. Sinto amor, como sempre senti. Porque meu coração ainda é o mesmo, posso dançar até amanhecer, beber um drink ou outro, falar umas besteiras com meus amigos, mas minha essência continua exatamente a mesma. Porque eu sou sincera com Ele, não faço nada disso por ostentação, ou luxúria ou vaidade, faço apenas por me sentir bem. Ele parece saber muito bem disso, não se afasta, não se oculta, apenas continua ao meu lado porque sabe que, se eu não fosse exatamente como sou hoje, essa "desviada" que vocês chamam, eu estaria enganando a mim mesma., já que Ele sempre soube quem sou e nunca deixei de ser. Prefiro dizer a verdade, prefiro ser coerente. Quero parar de me sabotar e me esconder. Quero me ser apenas.
É isso que eu gostaria que você soubessem. Acredito que não sou menos cristã por isso, e espero de coração que Deus continue me guiando por caminhos que agradam a Ele, porque estes têm me agradado também. Não sabia que poderia ser feliz nesse mundo passageiro e horrível em que vivemos, mas posso, e não é pecado algum ser feliz se a base dessa felicidade toda é o amor do Pai, e, pra mim, ainda é.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

" Learning to walk again "

Eu não sei, na verdade, se é fantasia ou realidade o que ando vivendo. Um mundo inteiramente desconhecido abrindo suas portas pra mim, ou apenas mais uma vertente do que eu já vivi, vista de um ângulo diferente. Sei que dá medo, porque não consigo ver nada a minha frente e vou andando às cegas. Como quando a gente vai subir uma escada estranha e pisa umas três vezes no próximo degrau antes de subi-lo pra ter certeza que está firme o suficiente pra nos aguentar. Dá aquele friozinho na barriga, sensação de insegurança, por nunca sabermos o que o próximo passo nos reservará.
É assim pra mim agora, uma eterna escada de degraus desconhecidos, que as vezes me cansa e me faz sentar sozinha no escuro querendo voltar, e as vezes me dá uma curiosidade absurda que quase subo correndo e esqueço de verificar se vou cair ou não, se a tábua está quebrada ou inteira.
Vai ver isso é o futuro. Aquele pelo qual tanto esperei enquanto estive estagnada no passado. Vai ver sou eu, finalmente, seguindo rumo a algum lugar, qualquer que seja. Acho que sou eu seguindo em frente e talvez o medo seja por isso. Não sei qual foi a última vez que me movimentei em direção a alguma coisa, nem qual foi a última vez que investi numa caminhada com um objetivo, principalmente objetivos próprios. Então é claro que me apavora, mas também me encanta. Quem é essa nova você, tão corajosa, que anda aqui dentro de mim?
A vida agora não parece mais leve, nem menos difícil, mas parece aceitável. Porque eu bem sei das minhas crises absurdas, que me fazem entrar em desespero e me embolar dentro de mim mesma procurando abrigo de tudo e de todos, mas também sei da minha determinação estranhamente nova para me controlar e continuar andando. Bem sei que perdi, em algum passado distante, minha força de vontade para correr atrás das minhas próprias ambições, mas, em algum lugar aqui dentro, tem que ter sobrado um pouquinho de amor pelos sonhos que tive um dia. E eu aceito isso hoje, ainda que saiba que amanhã não estarei tão receptível à toda essa mudança repentina que aconteceu. 
O que me salva é que minha vida é uma eterna e incessante mudança repentina, tanto que virou costume já. E eu posso estar aprendendo a lidar com essa nova versão de mim mesma. Posso estar aceitando a certeza de que tudo acaba, só porque descobri que tudo é infinito dentro dessa finitude inevitável. Tudo acaba virando memória, aprendizado ou mesmo dor. Porque acaba, mas não morre, não dentro da gente, vai ver nem mesmo acaba, só se transforma.
Acho que posso estar me iludindo de novo, porque isso é o que faço de melhor. Acho que posso não ter certeza mesmo de nada e vai ver é essa a beleza: não saber. Mas tanto faz, entende? Eu vou seguindo cautelosa com esse novo caminho, curiosa com as novas oportunidades e inteira comigo mesma, desde que aprendi que querer companhia não me faz necessitar dela pra ser feliz. Sigo seguindo, nem sempre tão otimista, nem sempre tão conformada. Mas o que é permanente aqui, não é mesmo? A mudança toda não é privilégio apenas do mundo ao meu redor, também sou mutável, e a resposta de hoje é a dúvida de amanhã, nada é certo. 
Então eu sigo, com medo, com vontade, curiosa e apavorada ao mesmo tempo, sem me preocupar tanto com a falta de iluminação dessa escadaria, ou com o fato de não conseguir enxergar um palmo à frente do meu nariz, porque não preciso saber pra onde estou indo, só preciso ir. Só preciso lembrar que ninguém vive parado, como eu estive tantos anos, porque viver é movimento. A vida é essa louca mudança, e eu quero continuar mudando; essa louca andança, e eu quero aprender a andar também. Quero aprender a andar de novo.
 " I think I lost my way
Getting good at starting over
Everytime that I return
I'm learning to walk again
I believe I've waited long enough
Where do I begin? "(Foo Fighters -Walk)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Frequência cardíaca

A sua voz me acalma, me cala por um instante eterno que cabe no piscar dos meus cílios. Você canta, e fala do tal passarinho, e quem voa sou eu, com seu ritmo descompassando meu pulsar. Ela que tem ciúmes do meu lado, sei que voaria também se não amarrasse nos pés o peso do coração, mas sei que nós dois vamos dar um jeito de libertá-la um dia desses.
Porque agora eu amo quando seus olhos verdes tão tão meigos me olham com sapequice e você começa a cantarolar as suas músicas tão boas que as fiz minhas. Amo essa leveza, essa sutileza, a sensação delicada de se estar flutuando quando seus lábios começam a vibrar a melodia.
Dentre todas as brincadeiras e piadas sujas que trocamos em três, quatro ou cinco pessoas, a pureza do seu coração se destaca nas horas certas, e é o momento que eu mais gosto de estar ao seu lado. Porque fiz amizade assim, não tão rápido, mas de um jeito simples e bonito, devagar, quase poético. E amo, amo sim, nem um pouco parecido com o amor que sinto por ela, a ciumenta boba que guarda um coração conhecido por poucos e que não consigo mais me imaginar sem, mas amo desse jeito abstrato, descontraído e bonito.
Suas sobrancelhas grossas e aloiradas, e suas roupas sempre muito bem postas. Adoro tudo. E sua amizade tem sido assim, uma canção dessas que me fazem viajar pra sempre, num infinito mundo particular, como aquela música que você me mostrou dizendo que parece eu. Foi tão surreal a verdade naquela letra que duvidei que um dia alguém me enxergasse tão assim, tão dentro de mim, tão eu que nem eu mesma poderia descrever. Foi lindo, porque você é lindo, e não me canso nunca de te dizer isso.
Talvez esteja muito cedo pra te escrever, mas qualquer dia desses, quem sabe, você descobre que sou boba assim. Eu só queria mesmo dizer que conhecer você foi me conhecer, e aprender a me gostar foi aprender a amar sua presença também. Você me sossega, desassossegada que sou, e nas suas asas de passarinho amarelo eu encontro a simetria perfeita de um homem com alma de menino. E amizade suave assim, é uma ou duas vezes na vida que a gente encontra, é você e a menina das palavras, dos cabelos cacheados, mãozinhas geladas e voz irritante. É o moço-passarinho e a menina do mar as poesias que apareceram na minha vida,
Amizade assim, de música, palavra e poema, de se reconhecer na canção que o outro canta, de conexão. Amizade de alma. É você, é ela, somos nós, não melhores amigos, nem mesmo próximos, mas sintonizados na mesma frequência: a cardíaca.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Titular

Me escolhe. Dentre todas elas, fica comigo. Me acolhe, deita minha cabeça em seu peito. Me abraça sem pedir permissão. Briga comigo, grita que eu sou louca. Mas, pelo amor de Deus, sente algo por mim. Qualquer coisa. Qualquer pouco que nos afaste da indiferença; que te mantenha longe do descaso. Sente por mim alguma coisa mais forte do que o que você sente por todas as outras pessoas. Só sente.
Pega minha mão, fecha meus olhos, me toca mansinho e me mostra um caminho. Seguro meu lado controlador, prometo, vai na frente, eu deixo. Acha uma flor, me leva pra qualquer onde que me faça gostar de ser levada. Não me deixa guiar, não, porque sou sempre eu. Vamos variar, dessa vez você conduz, eu até te deixo me cuidar, até deixo você apagar a luz. Largo minha teimosia, derreto um pouco meu coração de gelo. Mas diz que vem, não me pede pra vir. Diz que sabe onde vamos, não me pede pra escolher. Diz que sabe onde me levar pra me deixar feliz, não me pergunta minhas preferências.
Me prefere, porque meu exagero no individualismo não é tão forte pra que, vez ou outra, eu não queira ser a pessoa preferida de alguém. E, se for pra ser menos que isso, prefiro nem ser nada, cansada que me encontro de gente que não dá prioridade e me joga pra escanteio. Se for pra ser segundo lugar na sua lista, não serve. Banco de reservas outra vez? eu passo. Porque agora meu preço é outro, meu cachê subiu e só entro em campo novamente se for pra ser titular, se for pra vestir a camisa, se for pra ser de quem é meu também, se for para amar.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Companhia

O cheiro de doce de banana vem da cozinha, e é tão bom e suave e nostálgico que quase posso tocá-lo daqui da sacada do meu quarto, enquanto olho os coqueiros balançando ao som do mar,  ambos iluminados pelo sol das 16 horas. Lembrei de quando minha mãe fazia cuca no final da tarde, do cheiro de café e do gosto de infância. Hoje não tem mais esse gosto, e é incrivelmente estranho pensar que alguém, além de mim, está em casa fazendo algo pra comer, ainda que esteja sendo paga pra isso. 
A verdade é que me acostumei a não depender, não precisar. Acostumei a me virar. Não ter alguém pra tratar dessas pequenas coisas do dia-a-dia. As vezes soava solitário, mas eu nunca tive muito tempo livre pra pensar sobre isso. Mas hoje o céu está de um azul fantástico e a brisa da praia, tão fresca, compensa esse sol quente que ainda agora está fazendo e eu não me sinto mais tão sozinha. Boba que sou, me sinto tão bem acompanhada em dias bonitos como esse que mal noto que permaneço sem ninguém por perto. Tenho gostado bastante de ser assim ultimamente, leve e fácil, cristalina feito água.
Nada ao meu redor mudou, mas eu acho que cresci. Sinto ainda essa imensa falta de ter alguém pra me cuidar, mas já consigo administrar isso. Já posso lidar comigo mesma e com meus dilemas sem ter alguém para me orientar ha muito tempo, mas acho que só agora, neste instante que meu olhar se perdeu na natureza exposta onde minha casa fica, pude aceitar e gostar dessa forma diferente de viver.
Vai ver era por isso que meus pais perdiam a paciência comigo tão fácil quando eu era mais nova. Porque me perco nos detalhes bonitos do mundo e esqueço dos práticos, converso com todo o ambiente ao meu redor e esqueço das pessoas de verdade. Viajei milhas e horas só agora, enquanto meu olhar vagava sem rumo. Tudo isso pelo simples fato que minha vizinha tem um daqueles negócios de pendurar na janela que fazem "tililins" quando tocados pelo vento e me hipnotizam. Tudo isso porque eu amo esse azul que vai virar laranja daqui a pouco, e esse verde do mar, e a melodia do balanço das folhas das árvores, e o cheiro de mato e a primavera inteira. 
Saio de dentro do meu corpo, praticamente, de tanto que me distraio com essas sensações que a cor do dia e o frescor do litoral me trazem. Me perco nessas excentricidades e, sem querer, ignoro o mundo real. E isso é minha companhia. Vivo sozinha e não sou sozinha só por isso, por esses minutos de conexão entre eu e minha imaginação, por esses instantes de troca de energia boa em que sinto só coisa bonita. Até sei que esse jeito incomoda muita gente por aí, mas já não tento esconder, se sou louca e bizarra e desatenta, porque sei que uma coisa não sou mais: só. E companhia, viva ou inanimada, que me faz bem, me faz feliz também.


Acho que não sei se fiz sentido, espero que sim :}

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Quando frases de livros fazem sentido

Eu vim pra milhares de quilômetros longe do seu cabelo liso e preto e suas camisas xadrez, mas acho que deixei minha pele aí, porque não sei mais sentir nenhum toque sem achar que é uma agressão, como se meus músculos estivessem expostos. E não te descarto, vai ver, por isso. Te deixei minha pele, e meu coração também. Com tantos outros sorrisos que pudessem me encantar por aqui, acho que esqueci meus olhos nos seus bolsos. E qualquer pouco que você sinta por mim, já faz minhas pernas tremerem. Olha que idiota que eu sou, feito uma pomba a ciscar migalhas que você joga sentado no banco da praça. Achando isso quase que suficiente, achando que você esqueceu de me dar parabéns no meu aniversário e não cogitando a possibilidade de ter sigo ignorada. Com tanta gente aí fora que eu sei que gostaria de gostar, me encontro entalada, empacada num sentimento que existe só em mim e do qual não consigo me desfazer. Sentimento gordo que ocupa todo o espaço dentro de mim e, egoísta, não me deixa sentir mais nada por ninguém. Olho pro espelho e me dou um tapa na cara, perguntando-me como posso ser tão estúpida e aceitar tão pouco. O reflexo responde com outro tapa na cara em forma de palavras, já lidas em algum livro, ouvidas em algum filme: "A gente aceita o amor que acha que merece."

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Feliz

Eu tô do avesso, porque a vida me chacoalhou tanto que acabou me virando inteira. Tô de ponta cabeça, longe de onde estava, distante de quem fui um dia. E, adivinha só, me encontrei. Desse jeitinho mesmo: do contrário. Me descobri bem aqui, toda torta, mas toda eu.
Tão bom chegar ao fim dessa longa jornada e poder começar uma nova, com pouca bagagem, com fé e coragem, com leveza. Tão bom saber que existo desse forma consistente, sem tanto medo, mas com medidas equilibradas, apesar das doses extras de exagero. Tudo isso porque parei de complicar as coisas.
Aprendi a aceitar de um jeito bom, encarar pelo lado positivo, enxergar a parte bonita da situação. Aprendi a desapegar, seguir em frente. Porque no fim das contas, a infelicidade vinha de mim, da minha mania de querer mais amor do que podem e querem me dar, do meu vício no realismo quase pessimista ao olhar para a vida e para as pessoas e do meu extremo exagero na preocupação com quem não dá feedback. 
Agora sou leve assim, não porque deixei de me importar, mas porque parei de perder noites de sono com o que não me traz nenhuma paz. Parei de escutar a ala pessimista das minhas vozes internas que sempre diziam pra não acreditar em um "eu te amo", ou para não me iludir com algum gesto bonito, porque era tudo mentira, tudo passageiro, tudo falso. Parei com essa desconfiança toda porque, na verdade, se o que me dizem e o que me fazem não for sincero, pouco importa, recebo de braços abertos, de coração aberto e o mal só volta pra quem o faz. Eu me permiti ser feliz, entende? Amar, aceitar, não esperar, conformar e desapegar. Aprendi a conjugar cada verbo com seu devido valor, nem mais nem menos.
Tudo isso porque ontem fiz 20 anos, mas envelheci uma década desde os 19. Cresci, como quem de um dia pra o outro entende o sentido da vida e deixa de se descabelar por bobagens. Amadureci, não por obrigação, mas de forma espontânea, porque tava na hora, porque eu merecia essa trégua de mim mesma, eu merecia ser feliz, enfim.
E, no fim das contas, sabe o que eu fiz com aquele euzinho que, toda vez que algo ou alguém te faz sorrir, ele te diz pra voltar pra realidade, por os pés no chão e não se iludir? Então, eu aprendi a ignorar. Porque felicidade é permissão, é escolha. Permitir-se sorrir por qualquer gentileza boba, sem intenção, sem pretensão. Permitir ser feliz independente se chove ou se faz sol. Simples assim, tão natural quanto a luz do dia, tô feliz. Ainda que tantas situações na minha vida estejam totalmente erradas e desorganizadas, tô de bem comigo mesma, por pura decisão, por pura teimosia, capricho ou por pura vontade. Tô feliz. 

sábado, 7 de setembro de 2013

Tragédia de erros

Não é auto descoberta. Já sei quem sou, mas insisto em me provar a todo momento. Vai ver é isso que tá me deixando bagunçada. Essa necessidade de desafiar à mim mesma, de querer sempre me colocar no meu lugar, e achar que meu lugar é cada vez mais pra baixo. Vai ver é você que me faz ser mocinha e vilã ao mesmo tempo e me confunde, trocando de papel a toda hora.
Não sei o que é, pra ser bem sincera. Não sei se sou eu perdida outra vez, ou se é porque, de fato, nunca nem me encontrei. Talvez seja o avesso de mim mesma esfregando na minha cara que não consigo ser essa mulher que achava que seria. Logo eu, que envelheci duas décadas nos últimos anos, acho que fracassei em alguns pontos. 
Porque, como se não bastasse todas as vezes anteriores, hoje eu me olhei no espelho e o reflexo me disse a mesma coisa de sempre, pra parar de sonhar tão alto, porque não mereço. Não mereço porque quebrei as regras ontem, como sempre faço, e ultrapassei os limites com os quais me cerco. De novo. Nunca vou merecer o tanto que quero, se sempre que estou perto de um nível equilibrado de sensatez, escorrego e caio no chão de novo, e perco o siso, perco o trabalho duro dos meses que passei andando em linha reta. Nunca vou merecer você.
Vai ver o erro está em mim, sempre em mim, que miro nos alvos sempre muito inalcançáveis. Inatingíveis pra essa gente boba igual eu. E faço questão de permanecer errando nos mesmos pontos, caindo nos mesmo buracos ainda que sei exatamente onde estão, só pra mostrar pra mim mesma que jamais vou chegar nesse patamar de merecer as pessoas que gosto e os sonhos que carrego, jamais vou conseguir andar sem cair. Erro de propósito, pra lembrar que sou torta, sou quebrada, e que nada jamais vai me fazer inteira ou merecedora o suficiente de um futuro bom; pra não me deixar esquecer que, não importa quanto tempo passe agindo corretamente, sempre vou ser falha e tropeçar em alguma parte do caminho e ter que voltar ao início.
Mas com tanta conta pra pagar, quem sou na fila da crise existencial, né? Com tanto problema pra resolver, até parece que o que sinto vai ganhar algum destaque na minha lista de preocupações. Porque quando eu acordar no dia seguinte, serei apenas a mesma menina maluca de sempre, com a mochila pesando nas costas, o medo absurdo no coração misturado à certeza de nunca ser boa o bastante pra você,  a desconfiança nos olhos e essa insatisfação ao olhar pro espelho outra vez e lembrar que ainda sou a mesma. A mesma tragédia de erros.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Analgésico

Eu tenho uma nuvem. Onde ando ela vem atrás, sempre chuviscando só na minha cabeça. E não é uma metáfora, embora haja um certo duplo sentido, mas chove em mim todos os dias praticamente. Só em mim, só no espaço que eu estou ocupando na calçada. Tempestade forte que cai sobre minha cabeça e nunca deixa meu mar se acalmar, nunca me deixa ancorar e me faz acordar, cada dia, num novo horizonte, sempre cercada de água. Antes, confesso, não sabia diferenciar quais gotas eram do oceano e quais eram dos meus olhos, porque eu não aceitava isso. Como podia fazer tanto sol na vida dos outros e na minha só chover desse jeito? Como podia tanta gente viver feliz e eu viver perdendo pessoas, perdendo essência, só perdendo e nunca ganhando? Tão injusto, tão absurdo.
Só que chega um dia que você cansa de discutir com o destino. Cansa de brigar com os caminhos para os quais foi levada e teve que seguir por falta de opção. Você cansa, talvez, porque cresce, ou porque começa a doer demais esmurrar ponta de faca. Foi quando eu aceitei. Me encarei no espelho e acordei, percebi que isso não ia mudar nunca, então era melhor se conformar logo e seguir em frente. Hoje em dia nem me comovo muito quando os pinguinhos começam a molhar meus cabelos, fazendo-os ficar ainda mais rebeldes, porque parei de dar chilique. Parei de bater o pé com a vida e achar um absurdo tudo ser sempre mais difícil pra mim. Parei de olhar para as pessoas e desejar ser alguém normal como elas. 
Agora eu nem abro mais o guarda-chuva, nem coloca o capuz. Deixo as gotas me tocarem de leve, esqueço o bom senso de chegar seca nos lugares e me permito sentir mansinho o gosto do cheiro da chuva na terra molhada ou no asfalto quente. O problema é quando a nuvem carrega demais e chove não no meu corpo, mas na minha vida, porque não há capa que me proteja das gotas que atingem meu coração, mas aí eu me abraço. Porque também deixei de reclamar das trovoadas do mundo em cima de mim. Me abraço, sozinha comigo mesma como sempre, e me mantenho aquecida por um tempo, até passar o frio.
Tudo isso porque aceitei essa condição, simples assim. Se não posso fazer parar de chover, pelo menos vou tentar me divertir com as poças d'água. Vou fazer o que estiver ao meu alcance, e, embora não possa simplesmente escolher ser feliz, posso escolher tentar. 
As vezes, não nego, tudo pesa demais e eu perco um dia ou dois me permitindo lamentar toda essa tragédia em série, mas no restante dos dias eu me permito sorrir, afinal, que mal pode fazer? De que me adianta sofrer pelo irremediável? Em que me ajuda chorar todo dia, fechar a cara para todo mundo na rua, ser estúpida com o garçom? Não vai melhorar minha vida, nem resolver meus problemas.
É só uma feriada aberta e exposta que não vai fechar nunca, mas que eu posso fazer um curativo em cima, entende? Eu posso tratar. Mesmo que doa todos os dias, mesmo que o peso do mundo mastigue meus músculos e meu coração permaneça sempre aos cacos, no final, ainda vou estar rindo um pouco de tudo isso, porque sorrir é analgésico, não dói, não tem gosto ruim e, se não cura, ameniza. 

sábado, 24 de agosto de 2013

Cega

Mil caminhos a minha frente, mil pessoas por aí que eu sei que gostaria de ter ao meu lado. E, com tudo isso, é só por uma estrada que desejo seguir, só uma única pessoa que quero por perto. Porque gosto do certo, por mais errada que possa ser. Gosto de seguir pela porta mais estreita, porque ela me lembra que estou viva, ela me lembra porquê eu vivo. E amo alguém que tem a mesma vontade que a minha, que tem desejo de andar pelas mesmas ruas. Tudo tão certo, que alguma coisa tinha que dar errada se tratando de mim.
Com tão poucas pessoas em quem posso confiar que não vão me arrastar para esse mundo de novo, não consigo entender porque a vida vive me afastando de você. Por que vive correndo para longe de mim? Eu sei que amo seu cabelo, e a maneira como se veste, os lugares que frequenta e até seu jeito preso de falar. Mas não foi por nada disso que me apaixonei. Foi apenas e simplesmente por você ser quem é. Qualquer corpo que a ti pertencesse, não importaria, desde que, por dentro, fosse você.
Que mais a gente precisa quando tem isso? Quando ama de um jeito puro assim? No meio de tanta gente ligada ao externo, acreditando só na física dos relacionamentos, eu me encontrei te amando sem nem precisar te ver ou te tocar. Sem nem precisar saber se era bonito ou feio. Então me diz por qual motivo é tão difícil me ver da mesma forma? Por que é tão complicado assim de me enxergar?
Tão longe que estou agora, alguma coisa me faz acreditar que não fui feita pra estar distante assim de você. Algum dia eu sei que vou voltar e, quando isso acontecer, você ainda vai estar próximo? Vai estar esperando por alguém que não sabe ainda quem é ou já vai ter encontrado? Porque estou acreditando com todas as minhas forças que essa pessoa sou eu e que a gente só não se encontrou no momento certo ainda. Alguma maluquice na minha cabeça me diz isso e, por mais ilusório que seja, é o único pedaço de você em que posso me agarrar. A única parte que restou.
Então me espera também, de alguma forma, mesmo sem saber por quem está esperando. Espera que um dia eu volto ou você vem pra cá, um dia a gente se esbarra numa esquina de novo e vai ser diferente das outras vezes, vai ter alguma mágica no ar que não tinha antes e seremos, finalmente, o único caminho um do outro. Porque de algum jeito, em algum lugar, a gente vai ter que se reencontrar. Não sei de onde tiro toda essa crença, toda essa fé que isso, um dia, vai acontecer. Vai ver é querer muito que aconteça, vai ver é amar demais pra aceitar esquecer, vai ver sou eu ficando louca e cega, esquecendo completamente que o mundo tem 7 bilhões de pessoas enquanto eu só consigo enxergar você.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sentido

Se faz de uma junção de brisa e sol que eu não sei explicar. Fico leve, flutuo, viajo, reproduzindo melodias na minha cabeça. Exagero que sou na intensidade, sou também no excesso de imaginação. Fechar os olhos e sumir, sentir desintegrar o corpo e virar pó cristalino que voa pela praia sem rumo certo. Sou fácil, é essa a palavra. Levada pelo ar, sinto-me bolha de sabão, formando arco íris, e que se esvai até explodir em gotículas brilhantes. Difícil que me faço em adquirir confiança, fácil me tornei em sorrir boba pra qualquer coisa perdida.
Perdida. Também sou e me encontro nessa perca de mim mesma. Mistura sensitiva de um tudo que toque a alma, tire o centro, deixe só a sensação. De um tudo que me tire a razão, deixe-me puro sentir, toque como toca-se um instrumento, ritmado. Porque sou música também, minha batida ressoa dançante, meu coração bate musical. Qualquer afeto já me afeta, qualquer sorriso já me desperta. 
Poesia que dança frente aos meus olhos ávidos de arte, aguço meus ouvidos que vibram ao timbre da voz que recita mansinho. Minha pele que arrepia ao mais suave encostar. Me desfaço em tons pastéis de cores solares e me refaço em tanta complexidade do mundo, tão simples de se ver. Aprecio e degusto, grama verdinha e terra molhada, inspiro céu azul. E, toda boba, rio, de tanto mar que sou. Porque o infinito cabe no piscar dos olhos e não é pra fazer sentido, é pra ser sentido.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Quando não é amor

Nunca foi do meu feitio julgar as pessoas. Jamais gostei de pensar em como eu sou melhor porque faço mais, amo mais, me entrego mais. Abomino esse tipo de atitude, esse sentimento de autoafirmação.
Acontece que, pra mim, amor não tem meio termo. Ou você ama ou não ama. Um beijo de boa noite, um "eu te amo" dito algumas vezes na semana e presentes caros em datas especiais não é amor. É só um jeito estranho de gostar, que eu nunca vou entender. Talvez não seja nem gostar, mas apenas um comodismo somado com um esforço mínimo para manter perto quem você sabe que vai fazer falta se for embora, não pela ausência, mas pelas coisas que ficarão sem alguém para fazê-las por você. Arrisco-me a dizer que isso se chama egoísmo.
Deixar a outra pessoa falar sozinha e não prestar atenção em nem uma palavra não é amor. Nunca tentar entender o lado dos outros e achar que está sempre certo e é sempre a vítima injustiçada também não é amor. Não aceitar que certas atitudes magoam e bater o pé por orgulho não pode ser amor. Porque o amor não é orgulhoso, lembra? Não é vaidoso, não é ciumento. Amor não é egoísta, mas radicalmente o contrário. 
Quem ama se doa mais para o alvo de seu amor do que para si mesmo. Quer antes a felicidade do outro do que a sua própria. Quem ama entende, ouve, perdoa, acolhe e cede mesmo quando a pessoa amada não merece. Não tem preguiça de fazer o que for preciso pra ver sorrir quem se ama. Porque amor não é lógico, não é  colocar a si mesmo em primeiro lugar. Amor é prioridade. É dar preferência antes de qualquer coisa, abrir exceção quantas vezes forem necessárias. Não conseguir sentir raiva, nem mesmo mágoa por muito tempo. Amor é cuidar, se interessar, querer estar não simplesmente perto, mas próximo, e perceber a diferença entre um e outro. Amor é mais que presença, é companhia. Porque amor não é ser amado. Amor é amar, sem esperar algum retorno por isso, sem ter vergonha de fazer de tudo por quem se ama.
Falhas todos nós temos. Erros, todos cometemos. Mas amor é reconhecer isso, relevar, aceitar. Não venha querer me dizer que ama se não consegue conversar 5 minutos com a tão amada pessoa, porque fica entediado, porque acha chato e fútil tudo que se trata dela. Não venha me dizer que ama quando prefere todas as outras companhias do mundo. Não venha falar de amor pra mim se não consegue nem estar sozinho comigo por alguns poucos instantes sem arranjar algo mais divertido pra fazer. 
Não culpo, não julgo, não falo mal. Só digo isso pedindo apenas que reconheça. Não é amor. Pronto. Simples assim. Pra que ficar falando que é, se não é? Pelo simples prazer de machucar o coração alheio? Porque se for, realmente, além de não ser amor, é ódio.
Ninguém tem obrigação de amar ninguém, não, meu chapa, mas todos deveriam se sentir na obrigação SIM de serem justos e sinceros uns com os outros. É o mínimo que se pode fazer por alguém: ser coerente. Parar de criar expectativas ao dizer que sente algo que não sente e parar de fazer a pessoa esperar por gestos que só fariam por ela quem realmente a ama. Ser honesto, ter caráter, ter coragem, ter vergonha na cara. Só isso. Assumir quando é amor mesmo que ele se demonstre nas suas ações e confessar quando não é. Isso se chama decência.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pensamentos soltos em noites solitárias

Com a cabeça pesada de tanta coisa fica difícil dormir e escrever parece impossível quando se tem muito a dizer, o que é extremamente engraçado. A verdade é que o silêncio parece que fala melhor quando a gente fica tão barulhento por dentro.
Tem um tambor dentro de mim, um saxofone, um violino e um baixo. Solos de guitarra ecoando nos meus ouvidos. Todos os instrumentos entoando não em notas, mas em palavras. É uma gritaria sem fim, e não há travesseiro que diminua esse volume absurdo de pensamentos. Me cubro e descubro sem parar, enquanto alguma memória me atravessa. Um flash, uma ideia solta na noite, uma consciência inconsciente que, na verdade, gosto de estar sozinha, mas sinto falta de não estar. Nada que faça muito sentido passa pela minha cabeça, menos ainda no meu coração.Virou tudo uma baderna aqui dentro, e a madrugada só me bagunça ainda mais.
Por isso, talvez, lembrei de umas coisas que não deveriam ser lembradas. Pensei em como era bom não pensar em nada. Pensei em como era alto o som do meu coração batendo ritmado demais, afinal nunca foi tão compassado assim. Agora acho que estou normal, e não acho nada bom. Faz muito tempo já desde que tomei chuva por vontade própria, fechei os olhos durante alguma canção ou senti minhas pernas tremerem, meu estômago virar jardim de borboleta. Faz tempo desde a última vez que meu coração quis pular do peito. E eu sinto falta dessa adrenalina, dessa emoção, misto de medo e ansiedade. Eu sinto falta de sentir como se estivesse viva, porque nem mesmo o susto de cair ou tropeçar tenho tido. Não quebro um copo há um bom tempo já, tanto que acho que enferrujei meu lado desastrado.
A voz sem muito uso também está enrouquecendo, porque acho que não consigo mais falar da boca pra fora. Preciso ter algo útil para dizer, mas sempre tenho e, mesmo assim, nunca digo. O silêncio se tornou amigo pra todas as horas e me acolhe como uma novata, cheio de pompas. Me sinto confortável assim, só observando e guardando pra mim as maluquices que se passam na minha cabeça. O difícil é dormir desse jeito, o difícil é conversar. Difícil mesmo é alguém gostar de gente quieta assim, ou eu gostar de qualquer gente por aí, já que presto atenção demais nos outros e acabo descobrindo suas falhas antes mesmo de serem anunciadas. Acabo tendo preguiça das pessoas, preguiça de suas vidas e assuntos entediantes e iguais.
Somos tomos assim, tão rasos, tão prováveis e previsíveis que perdemos totalmente a graça. Conviver comigo mesma já é chato o suficiente, sabe? Não preciso de mais histórias, porque já tenho muitas e não gosto de nenhuma delas, nem de como começam e nem de como terminam. Não me parece surpresa nenhuma qualquer coisa que possa acontecer daqui pra frente e histórias só são divertidas quando nos surpreendem.
A verdade é que não há mais nada que me faça brilhar os olhos, encantar a alma. Não há mais nada que faça meu coração mudar de ritmo, nem aquela música que me fazia dançar sozinha, nem aquele antigo amor que me dava náuseas de nervoso quando estava perto. Hoje eu sorrio com muito menos frequência e não acho que seja de todo ruim, porque só estico meus lábios para o que realmente me traz essa vontade.
Porque esse negócio de amor, ódio, remorso, felicidade ou ciúmes é tudo a mesma ladainha de sempre, o mesmo jeito de sentir, e sorriso pra mim é mais que qualquer uma dessas coisas. É entrega. É olhar para algo ou alguém e ver algum tipo de beleza, enxergar alguma espécie de bondade escondida, sem considerar que somos racionais. Sem pensar muito, mesmo para alguém pensante como eu. Sorrir é sorrir. De um jeito tão simples que nem posso explicar, só sei que queria fazer com mais frequência pra ver se paro com a insônia e começo a sonhar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Presente

Seu nome vai virar saudade na minha boca, vai estalar na minha língua toda vez que eu tentar imitar sua fala presa. Eu vou lembrar você pra sempre e dos seus trejeitos, e vou continuar gostando de tudo, mas não sinto mais seu cheiro, entende? Acho que consegui atravessar você, mesmo que tenha levado um empurrãozinho para isso acontecer. 
Confesso que era cômodo pra mim se a gente tivesse dado certo porque, agora, vai ficar complicado essa coisa de encontrar alguém pra me fazer crescer e querer ser sempre melhor como você fazia inconscientemente. Vai ser complicado achar alguém que se encaixe nas minhas crenças e princípios como você se encaixava. Mas a gente já deu o que tinha que dar, a gente deu em nada e eu parei de insistir. 
Porque a verdade é que eu já estou em outra, não outro amor, mas outra página da minha vida. Eu mudei e você deixou passar tempo demais. Nos perdemos, no fim das contas. É uma pena, eu sei. Mas agora tem um par de braços me oferendo o abrigo que você nunca foi pra mim. Tem um par de olhos me olhando como se fosse a garota que seus olhos nunca enxergaram. 
Ele nunca vai ser como você, porque eu não vou conseguir gostar de alguém da mesma forma, olhar com os mesmos olhos. Mas é ele que me faz rir, mesmo sem querer. É ele que gosta do meu cabelo, e não liga pro meu rosto sem maquiagem, e não se importa com minha cara de sono. É nele que me encontro espontânea, sem medos, sem máscaras pra me esconder.
Então, mesmo com todo esse amor que mantive por você, como posso recusar esse afeto que me cerca? Como posso me fechar pra alguém que está tão receptivo e me abrir pra você, que nunca se importou? A gente tem que aprender um dia, sabe? E eu to aprendendo que não se pode ter tudo na vida, e vale mais gostar de quem gosta da gente também. 
Eu queria que fossem seus braços magrelos, suas mãos calejadas dos acordes tão conhecidos. Mas não é, e só o que eu posso fazer agora é me acostumar à outras mãos, maiores e mais gordinhas que as suas. Outros abraços, outro jeito de falar, outra cor de cabelo, um tom de olho mais claro que o seu. Vou acostumar, vou aceitar e, se Deus quiser, vou saber gostar também. Porque ele chegou na minha vida e se fez presente, nos dois sentidos da palavra, enquanto você acabou virando passado de tanto se recusar a ser futuro.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Cheia de restos

Eu sou exagero. E todo mundo sabe disso no mesmo instante que me conhece. Meu riso é escândalo, meu choro é soluço. Silêncio é abismo dentro de mim. Não sou de metades, de meias verdades, de poucas palavras. Chego e falo, pelos lábios ou pelos olhos. Muitas vezes pelas caras. 
Minha confusão não nasce em mim, mas em quem não me traz segurança. Quem não gera confiança me tira do foco, me enche de insônia. Porque eu sou essa tempestade toda. Quero sem precisar, com precisão de marinheiro. E quando não, deixo ir. Desnecessário segurar o que não fica com os dois pés, por vontade, por querer. Só gosto do que fica de propósito, não acredito em coincidência, detesto comodismo.
Por isso confusa não é palavra que me descreve, mas que agregam à mim. E já dizia antes que uma mulher insegura não pensa duas vezes, ela segue com a vida, porque de inseguro já basta ter que viver. Eu tô seguindo, não paro por orgulho ou por dignidade. Não paro, na verdade, porque sei que é insistir no erro. Não sei porque não paro, mas não paro.
Comigo ou você vem e fica, ou nem se aproxima. Não sou menina de andar na corda bamba, não sou mulher de esperar ligação. Não sou boneca de pano e minha decisão é uma só. Esse negócio de ficar cheia de dúvidas não é pra mim, resolvo logo e trato de retomar meu rumo. Porque não sou de meios sentimentos. 
Eu olho numa direção só meu bem, ando firme com quem anda firme comigo. Não desvio minha atenção por nenhum braço sarado que passe, nenhum perfume mais gostoso. Não gasto atenção olhando para os lados se o que escolhi está na minha frente. Então não aceito que façam isso comigo.
Meu passo é do tamanho da minha perna, nem um centímetro a mais. E não vou aceitar nada menos do que eu mesma estou disposta a dar, nada menos eu aceito, nada mais eu exijo. Sou exagero, lembra? Então não me venha com pouquísses, porque não aguento mais sobras de amor, de saudade, amizade e de atenção. De restos eu já estou cheia.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Indiferentes

Só que eu tenho preconceito com gente bonita. Me desculpa, sei que é ridículo, mas é a verdade. Vai ver por isso não gostei do seu papo, seu perfume eu nem senti, charme você não tem e seu groove não impressionou. Seu jeito de ser bonito e simpático demais, seus assuntos muito inteligentes e seu modo de falar como quem sabe muito das coisas me deixou um pouco embaraçada, porque eu quis muito rir de tudo isso e da forma como você queria mostrar quão bom era em tudo. 
Algo me diz que eu fiz caras estranhas, como sempre faço, porque meu pensamento tem conexão direta com minhas expressões, não consigo controlar, mas será que foi por isso que você também não foi com a minha cara? Tudo bem, não curti seu jeito descolado e você não gostou do meu jeito fora dos padrões. 
Mas peraí, é meio estranho esse negócio de reciprocidade acontecendo comigo, não é? Geralmente sinto o oposto do que sentem por mim e, repara na sorte, dessa vez fui correspondida. Só que a palavra sorte parece deslocada fazendo parte do meu vocabulário. E se, de repente, foi azar de novo? Faz mais sentido se tratando de mim. E se foi azar a gente ter se desgostado tanto assim em tão pouco tempo? 
É muito confuso tudo isso, sabe, sendo você tão convencido e cheio de frases de efeito sem profundidade nenhuma. Difícil acreditar que algum afeto pudesse surgir entre nós, mas mesmo assim seus defeitos talvez combinem mais comigo que essa tal de sorte. Afinal, são 19 anos convivendo com o azar, e apenas um encontro nosso. 
Aliás, como você conseguiu ser tão chato em apenas algumas horas hein? Porque, meu amigo, você se superou! Fiquei até surpresa com a rapidez com que peguei cisma. Sei que tenho esse defeito com gente bonita, mas você bateu recorde, rapaz. E eu quis te dizer o quão patético foi você indo pegar o carro com a desculpa de "acertar ele na vaga" depois de uma hora que já estávamos ali, e depois do estacionamento ter esvaziado consideravelmente. Entende? Temos vinte anos na cara, meu bem, a coisa mais normal do mundo é dirigir, isso não te faz melhor do que ninguém, apenas faz com que eu te ache um babaca por me achar tão interesseira ou materialista a ponto de querer me impressionar com um carro. 
Reparou nas diferenças gritantes de interesses? Além do meu preconceito com sua beleza, os motivos que você quis me dar para te achar maduro foram os mesmos que me levaram a crer que na sua infantilidade. Vai ver começamos com o pé esquerdo, ou a gente é assim mesmo, eu estranha que não curto mauricinhos e você playboy que passa longe de esquisitas. Ou, ainda, a gente só se desencontrou nessa pressa de se encontrar. A gente se perdeu logo que se achou e não sei se isso tem conserto. 
A questão é: continuo acreditando na sua inteligência forçada e, tenho certeza, você na minha intensidade chata e quem sabe não era pra ser assim mesmo, né? Porém, com tudo, todavia, de todos que foram alvo de algum sentimento meu, você, pelo menos, foi o único decente o suficiente pra me retribuir. Talvez isso já seja um começo, no fim das contas. Talvez essa seja a resposta: reciprocidade. Quem diria? Você, tão cheio de sorte e o azar tão cheio de mim. Iguais ou diferentes? tão orgulhosos que somos, diríamos indiferentes.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Esquina

Eu sei que de algum modo você faz de propósito. Não conscientemente, mas tenho certeza que tem um motivo estranho que te faz sempre vir falar comigo no mesmo instante que decido parar de falar com você. Como se soubesse que fosse perder todo o amor que quis te dar e corresse para me impedir. Aí eu fico confusa porque, minutos depois de ter escolhido te esquecer, você reaparece pra me lembrar da sua existência, e eu paro de ter certeza de qualquer coisa. Você só pode estar fazendo de propósito!
Dessa vez, no entanto, seus esforços foram em vão, porque meu coração ficou um pouquinho decepcionado demais com sua falta de atenção que sempre acontece no primeiro momento, mesmo que suas palavras viessem responder minhas mensagens alguns dias depois. Era tarde demais, e eu senti algo se quebrar aqui dentro, ainda que você tivesse parado de me ignorar. Tarde demais. Quem diria quem esse dia chegaria, não? Consegui finalmente sair do ciclo vicioso que era querer te amar num dia e querer te esquecer no outro? Talvez.
É que ainda dói um pouquinho, não nego, e ontem meus olhos ficaram meio úmidos quando pensei no quanto estou decidida dessa vez, no quanto sei que não vou voltar atrás como costumava fazer. Fiquei meio triste quando lembrei que agora acabou qualquer mínima esperança, mas não tão triste por pensar que acabou também essa dúvida sem fim. Pode ter acabado o pouquinho de felicidade que gostar de você me trazia, só que acabou também a decepção com seu descaso. É bom e ruim, ao mesmo tempo, mas no fim é bom tirar esse peso das minhas costas, tirar você do centro da atenções e liberar esse espaço interno pra caber outra pessoa.
Até meu coração parece que se conformou. Agora ele não fica mais brigando comigo pedindo pra eu parar de me afastar de você. Agora ele entendeu, aceitou e concluiu que a gente só vai ser feliz se te deixar ir embora de vez. Por que tem tanta gente aí fora, sabe? Ontem mesmo um rapaz viu em mim algo que seus olhos nunca viram e, mesmo que ainda não consiga dar atenção à nenhum outro homem, pelo menos essa atenção também não é mais sua. Eu retomei o foco, entende? O foco em mim mesma.
Sei que prometi não escrever mais pra você, mas é tão bom saber que consigo te manter no pensamento, sem te manter no coração. Te dirigir palavras sem necessariamente derramar sentimento nelas. Porque pensar nas vezes em que nos esbarramos nas esquinas do centro não me dá mais vontade de voltar no tempo só pra te reencontrar. Se eu voltasse, talvez virasse para a rua da esquerda e não para a direita, talvez a gente nem se visse. Pensar nesse nosso ponto de encontro tão peculiar, agora, só me faz acreditar que a vida, ao nos colocar sempre numa esquina, só queria me mostrar que você não é o único caminho e eu sei que não é. Agora eu sei.

domingo, 23 de junho de 2013

O mar não cura

Com o tempo, você perde o poder da palavra. Todas as angústias foram ditas, as dores compartilhadas e as mágoas contadas para quem as gerou. E não resolve. Não cura, não ameniza, não diminui. Não muda, entende? É quando as lágrimas estão cansadas de brotarem de uma mesma fonte. É quando você pára de tentar falar, de tentar colocar pra fora o mesmo sentimento acumulado, porque sabe que já não traz benefícios. Talvez forme uma ambiente mais pesado, um pouquinho de culpa da outra parte e, raramente, até um pedido de desculpas bem rápido. Você perdoa, porque sempre perdoa. E no dia seguinte tudo volta a ser como era antes, como se nada tivesse sido dito, como se nada estivesse errado. 
Mas a gente cansa. Eu, você e qualquer um que tenha um pouquinho de amor próprio. E não estou dizendo que a gente cansa de perdoar, ou de se magoar apenas, mas a gente cansa também de tentar falar. Todas as vezes que te perguntam porquê desse seu mau humor, porquê essa cara feia, você não tem mais vontade de dizer, porque você cansou de buscar palavras para falar com quem não dá o devido valor à elas. E aí você vira aquela pessoa emburrada e azeda que fica de "frescura". Você vira a chata, mas eu sei que você não é chata, nem gosta de estragar o clima com suas respostas curtas e objetivas e um bico do tamanho do mundo. Eu sei disso. Só que você é sozinha, e pessoas sozinhas vão ficando silenciosas, vão perdendo a vontade de rir e de fazer rir.
Eu gostava tanto de fazer qualquer coisa que arrancasse gargalhadas de quem estava a minha volta! Eu gostava de imitar personagens de desenho animado e cantores de bandas bregas. Eu gostava é de descontrair um pouco o clima, deixar todo mundo a vontade na minha presença. Mas não sou mais assim, perdi o encanto, a magia, perdi essa inocência. Porque com o tempo você vai deixando de ter esse bom humor incondicional, não por vontade, nem por escolha ou de propósito, mas pelo fato de que não há retornos, e você se sente péssima por esperá-los. Eu não fazia nada disso esperando algo em troca, mas quando você se doa demais e ama demais, é muito difícil continuar sendo assim sem um incentivo, sem a certeza que está fazendo certo ou que alguém está, ao menos, aceitando esse amor. 
E você se pergunta pra onde vai tudo isso, tantas palavras engasgadas na sua garganta e que você tem que engolir diariamente pra não fazer sofrer justamente quem é culpado da situação toda. Justamente quem tirou a sua essência de você. Você poupa essa pessoa, sabe por que? Por amor. Porque você ama antes de se amar, antes de se querer de volta. E quando finalmente você consegue abrir a boca pra dizer algo em sua defesa os ouvidos parecem que se fecham, porque só ouvem aquilo que lhes é conveniente. 
Aí volta tudo de novo, e as palavras todas se perdem dentro do silêncio que se fez em seu coração. E as vontades de contar, de desabafar, de abrir o jogo e esclarecer as coisas, simplesmente somem. Pra quem você vai dizer tudo isso, se ninguém quer ouvir? Pra quem você vai correr? É quando você se cala e se transforma nessa amargura toda, e se esconde dentro de si mesma procurando um tal de abrigo, um tal de consolo que te impeça de enlouquecer de vez e que, todo mundo sabe, nunca veio e nunca virá. Não adianta mais escrever, não adianta mais falar, não adianta mais nada e olhar o mar não traz mais nenhuma paz, porque nem ele, em toda sua imensidão, é capaz de curar.

"Sabe o que ela me falou? Que eu sou uma menininha chorona, que fica se lamuriando porque o mundo não me dá aquilo que eu acho que mereço. Olha pra mim! Ela tem é razão." (Malu - Sangue Bom)

terça-feira, 18 de junho de 2013

"Não quero ser como vocês. Eu não preciso mais. Eu já sei o que eu tenho que saber"

Nas ruas me acham muito certa, muita santa, "cega pela religião", "alienada pela fé". Na igreja, sou a errada, a desviada. Burguesa para simpatizantes da esquerda, revolucionária para os conservadores. Mas eu cansei de ser julgada por tudo isso. Para mim, chega!
Sou cristã e feminista ao mesmo tempo, SIM. Sei combinar muito bem as duas coisas sem que uma precise necessariamente anular a outra. Sei não aceitar normas sem fundamento impostas pela igreja, e sei não apoiar causas defendidas pelo feminismo e que eu não concordo. 
Não sou seguidora de igrejas, religiões ou pastores, porque sigo a Cristo. Não ando cegamente atrás de movimentos ou partidos, porque corro atrás do que me traz o senso de justiça e igualdade.
Sou apenas eu e meus ideais. Eu defendendo só o que acredito. E acredito em Deus e nos seus mandamentos, sigo o que Jesus disse e faço por amor e não por obrigação, sigo Cristo e não doutrinas. Acredito que o machismo tem que acabar porque ele me oprime, ele dita como eu devo me vestir, me comportar, com quem devo falar e onde devo ir, qual horário devo sair. Sou contra a legalização da maconha porque o brasileiro não tem senso, nem educação nem respeito pelo próximo como as pessoas na Holanda, onde a droga é liberada em até 100g/dia/pessoa. Sou contra um cara sair com 10 garotas no mesmo dia, bem como sou contra uma mulher sair com 10 homens, mas defendo até o fim o direito deles de fazê-lo. Sou a favor da legalização do casamento gay(que já aconteceu), porque nosso estado é laico e as pessoas têm livre arbítrio. Se Deus deu-nos o direito de escolha, porque nós, meros seres humanos, acreditamos ter o poder de anular esse direito uns dos outros?
Sou contra a imposição dos meus ideais para os outros porque acredito que "As coisas loucas deste mundo foram criadas para confundir as sábias" e só Deus pode julgar quem está certo e quem está errado. Se um gay está pecando, ele pode muito bem ser perdoado porque TODOS NÓS pecamos. Se um gay peca por ser homossexual, você peca por se embebedar, o outro peca por se drogar, fulano peca por ter sexo fora do casamento, ciclano peca por desrespeitar o próximo em vez de amá-lo, beltrano peca porque contou uma "mentirinha" a toa. Deu pra entender? Todos pecamos e nem por isso somos hostilizados uns pelos outros na igreja, já que Deus nos perdoa diariamente se nós nos arrependermos. Por que então existe essa "repulsa" contra o homossexual? Se vocês todos fossem coerentes, pelo menos, tratariam eles como tratam a si mesmos: como pecadores que somos. TODOS.
Acredito em partes na religião evangélica, em parte nos movimentos políticos, em parte nos ativistas da causa animal e ambiental, em parte nas feministas. A única crença absoluta é nos meus valores e princípios, coisas próprias que fui criando ao longo do tempo e que resgatam um pouquinho de cada um desses grupos citados e junta tudo de uma maneira coerente.
Isso tudo não porque sigo o que está moda, não porque vou colocar alguma hashtag no final desse texto escrito "feliciano não me representa", mas porque, de fato, alguém que mistura religião com política não me representa mesmo. Não porque vou julgar quem não fizer parte da marcha pra Jesus.
Entendem a diferença? Não estou atrás dos ideais pregados por conjuntos de cristãos ou frentes feministas ou grupos ativistas. Porque todos esses movimentos acreditam fielmente em apenas um lado da moeda, e eu, meus caros, acredito que a moeda tem dois lados e ambos são dignos de serem ouvidos, já que o errado pra você é o certo pra mim e vice e versa. Não somos deuses, não somos maiores uns que os outros.
Então façam um favor e parem de me rotular como "evangélica hipócrita" ou "rebelde sem causa" só porque eu vou para as ruas lutar pelos meus direitos tanto quanto pelos direitos dos outros, inclusive dos negros, inclusive dos gays, inclusive das mulheres, inclusive dos animais. Parem de encher meu saco e dizer que não sou feminista só porque sou contra a legalização do aborto, salvo em casos específicos de risco de vida e anencefalia. Não torrem minha paciência querendo me classificar. Eu não estou no mundo para fazer parte de massa nenhuma, porque só obedeço ao que acredito. Podem propagar mil causas, porque vou continuar seguindo apenas as minhas próprias causas, apenas o que acho digno e justo de ser seguido. Não me encaixo em nenhuma dessas divisões e não entendo porque, raios, essa mania de acreditar que tudo tem que ter um rótulo. Sou eclética desde as músicas que ouço até as opiniões que defendo, porque ouço boas canções, independente de que estilo musical sejam, e apoio aquilo que me comove, que me toca, que faz sentido, independente de qual organização isso faça parte. 
Estou cansada de ouvir julgamentos, cansada de ver dedos apontados para mim e de ter que ficar explicando e justificando meus pontos de vista que não se enquadram para uma cristã, nem para uma ativista, nem para uma mulher. Não tenho que fazer sentido pra vocês, nem tenho que agradá-los, porque sei que estou fazendo muito sentido para a única opinião que me importa e isso já está de bom tamanho. Pra mim basta que eu me enquadre em minhas próprias crenças.

*Título: Capital Inicial - Fátima

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Em frente

Agora sou só eu comigo mesma e a dúvida de saber se o caminho é o certo, ou se a escolha é a melhor. Eu e o que quero ser e como pretendo viver e para onde vou, todos trancados num quarto até nos resolvermos. No que ainda tenho que melhorar, quantos dias ainda restam para chorar, quantos passos nesse labirinto até acertar e encontrar a porta?
Tantas coisas deixadas pra trás, quantas ainda hão de vir? Tanta gente que perdi, quantos ainda hei de ganhar? Tudo que sei é continuar, dia após dia, mesmo que sem um roteiro para seguir. Continuo meio que às cegas, acreditando no distante tão próximo, abstrato tão tocável, crendo que vou achar um mapa e vou saber decifrá-lo.
As vezes eu paro de andar e sento e penso em desistir, em voltar, em morrer por ali mesmo. Mas quem pode prever e adiantar os acontecimentos? Quem pode detê-los? As vezes sigo acreditando que vou encontrar uma estrada bonita e ser feliz só de caminhar através dela. Abro os olhos e estou outra vez indo para onde não sei ir, não sei chegar, não sei se é um lugar ou um estado de espírito.
Entre lágrimas desesperadas e silêncios profundos, alguns poucos risos perdidos, me deparo com os pés ainda movimentando-se, involuntariamente, como se tivessem vida própria e decidissem por si só que manteriam o passo. Não sei onde me levam, não faço ideia do porquê me levam. Passo por muitos espinhos, asfaltos quentes, florestas sombrias e, vez ou outra, por campos e vales cheios de beleza e magia, cheios de encanto. E continuo, mesmo sem saber. Sei, apenas, que sou carregada para um horizonte que não consigo enxergar. E tenho medo de nunca chegar a algum lugar ou de chegar e não ser bem recebida.
Tem muito medo em mim, mas ele não me pára, não consegue impedir minhas pernas de se movimentarem, porque acho que a coragem ainda é maior. Não tenho controle nenhum sobre nada, todos dentro de mim escolhem sozinhos suas próximas ações e só o que eu sei é que não sei o que me espera, mas vou em frente e se houver felicidade, eu estou dentro. Vou e enfrento. Porque, no fim de tudo, só existe um único caminho que realmente importa: aquele que faz sorrir. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

" Pra que esse nosso egoísmo não destrua nosso coração "

Quando nossos olhos se cruzam, será que você vê as dores que trago no coração? Será que vê minhas cicatrizes, meus amores e minhas perdas? Ou apenas desvia o olhar? Quando cedo meu lugar no onibus para a senhora das sacolas de supermercado, será que ela vê minha sinceridade ao cedê-lo? Será que ela vê que não o faço por obrigação ou apenas educação, mas por gentileza e por gosto de ser gentil? Será, aliás, que existe mais alguém no mundo que sente esse prazer que sinto ao fazer algum tipo de bem, ainda que pequeno? 
Será que essas tantas histórias, entrelaçadas de alguma forma, são visíveis no meio dessa multidão? Tanta gente sofrendo por tantos motivos, tanta gente rindo sem razão alguma. Tanta gente existindo e quem se importa com seus problemas e suas alegrias? Quem quer saber da vida dos outros, quando já se tem a própria para dar conta? Mas o mundo vai virar um lugar tão feio se a gente continuar se afastando assim!
Que me custa perguntar à moça ao lado se está tudo bem com ela? É esforço demais ajudar um deficiente a atravessar a rua, quando eu mesma já vou fazer isso de qualquer forma? Não somos perfeitos, sei bem, mas também sei que podemos ser tão mais educados e gentis uns com os outros. Basta olhar para o próximo e, por um instante, trocar de lugar com ele, e sentir suas dores e rir de suas felicidades como se fossem suas. Basta ter um pouquinho de amor no coração e olhar para fora de si mesmo. Um sorriso para um desconhecido pode mudar o dia dele. Um bom dia ajuda a encarar a vida. Não dói ser simpático. Ser agradável não mata. 
Não tenha vergonha de ser legal com os outros, mesmo que eles não sejam com você. Vergonha é algo para se ter quando olhamos um mendigo com fome, uma grávida em pé, um senhor no fim da fila, e não fazemos nada. Vergonha é a indiferença diante do sofrimento alheio. Então faça bem às pessoas ao seu redor porque, as vezes, um estímulo é tudo que elas precisam para repassar esse bem. Não use desculpas esfarrapadas para não agir como um ser humano, não se esconda através dessa máscara do individualismo, não se proteja dos seus iguais porque ninguém está aqui para se atacar. Estamos aqui para compartilhar, pra nos doar e, quem sabe, resgatar um pouco de altruísmo que ainda nos resta. Temos que aprender que certos modos não são apenas convenções para se viver bem em sociedade, mas demonstração de respeito e cuidado com o próximo porque, amanhã, o próximo a precisar de ajuda pode ser você. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Desculpa a repetição de tema, mas é que eu ainda não sei o que fazer com o dia 11 de junho. Tudo fica meio estranho, e eu me sinto exposta de um jeito desconfortável, como se todos me olhassem. Me sinto assim, meio sem saber pra onde ir, pra quem correr. Não sei onde colocar minhas mãos, ou com quem conversar, o que dizer. 
Não sei direito como existir hoje. Acho que nunca vou saber.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Nota mental

Seguir em frente não significa que as coisas estão bem. Estou escrevendo agora só pra lembrar mesmo de tudo que acaba de passar pela minha cabeça, sabe como é, carrego um mundo dentro da minha mente. Você continua sendo amável com a vida, não é? Acho que é característica nossa, pena não termos notado esse fato em comum. Mas cada um de nós tem um peso, e um jeito próprio de carregá-lo. Cada um tem seu jeito de lidar, sabe? Consigo imaginar qual é o seu.
Eu pediria desculpas, se isso pudesse fazer com que tudo se resolvesse. Eu ficaria aqui, longe e perto da dor e do amor ao mesmo tempo. Eu me calaria, permaneceria sozinha. Eu morreria. Mas nada disso vai adiantar. Distâncias seguras para não machucar nenhum de nós - justificativas que já acostumei a usar. Talvez eu volte, mas o regresso também não trará benefícios. Não posso aceitar agora oportunidades que já passaram. Eu as perdi.
Quantos caminhos ainda restaram? Estou certa que são muitos, mesmo não sabendo muito bem para onde levam. Se eu for pra longe, posso te visitar um dia desses do futuro? Se ficar aqui, vai me esquecer pra sempre?
Eu voltaria também, mas as portas se fecharam quando fui embora. Estaríamos apenas nos enganando em uma sala lotada de becos sem saída, no fim das contas. Não seria tão ruim se soubéssemos exatamente o que dizer um ao outro ou quais palavras usar pra falar que não temos nada para falar. Acho que faria sentido pra mim todo e qualquer silêncio, seria como uma calmaria um pouco mais triste, porque a certeza impossibilita a gente de se manifestar, porém poderia soar desconfortável pra você. Não tem problema, eu cresci, eu sei das coisas como são e não são tão fáceis assim. Entendo, porque a gente aprende a aceitar né? A gente tem que aprender, mais cedo ou mais tarde. 
Mesmo assim, a música sempre toca no rádio, no celular de alguém próximo, sempre dá um jeito de chegar aos meus ouvidos, quase de propósito, e tenho a impressão que quase chega aos seus também. Como se para me lembrar de não esquecer disso nunca. Na verdade, de todas as coisas que lembro, algumas que aconteceram e outras que imaginei, consigo manter longe dos pensamentos só as que não te envolvem de alguma forma. As outras estão sempre presentes e me mantem navegando em um mar o qual sempre te vê em alguma das terras à vista. 
Ainda não sei de onde vem isso, se um dia vai acabar, mas se te enxergo de tão longe, talvez, você me enxergue também, ora afundando, ora boiando e, vez ou outra, nadando. E por que permanece longe dos meus braços e ao alcance dos meus olhos? São respostas ainda muito difíceis pra quem começa a questionar, sei disso, mas ouvi dizer que tudo tem um motivo para acontecer, não é? acho que você também teve motivo pra ter me acontecido e mantenho isso como lembrete em minha mente. Você agora é uma nota mental que me diz todos os dias, no mesmo horário, que coincidência é sorte demais e sorte não existe e se a gente acontece como acontecemos é por alguma razão.

domingo, 2 de junho de 2013

A selva é aqui

Eu sou a sensibilidade em pessoa. Ou era, pelo menos. Uma voz um pouco mais firme, um pouco mais alta, me fazia tremer dos pés à cabeça. Um palavra mais dura me magoava. Brigas então, eram como guerras, me desesperavam e eu sempre achava que faziam com que parecêssemos animais selvagens disputando espaço. Costumava fugir, me esconder só de perceber o começo de bate-boca. Tinha completo pavor de discussões e qualquer indício de grosseria. Achava de uma insensibilidade absurda, uma violência sem tamanho, como se as pessoas gostassem de ferir umas às outras, como se houvesse um prazer em provar que está certo na base do grito. Porque nunca gostei disso, nunca gostei de causar a mínima dor mesmo a quem nunca fui com a cara. Acho falta de humanidade, falta de caráter, de respeito. Olhava para a pessoa e pensava em como uma palavra ou um gesto poderia magoá-la, como ela iria se sentir, como eu me sentiria se fosse comigo. Mas você apanha tanto de todos que, um dia, aprende a bater também. Aprende sem querer, guiada apenas por instinto de sobrevivência e até se assusta com o pequeno monstro que se formou dentro de você. Aprende porque, embora seu coração nunca se canse de levar pancada e esteja sempre pronto para o próximo round, seu cérebro age por conta própria e, vendo que apenas o escudo não é suficiente, adquire também uma espada, pronta para atingir quem quer que tente se aproximar outra vez. E é muito triste isso da gente se desfazer de um pouco do amor que há dentro de nós pra caber proteção. É triste a gente ter que se proteger uns dos outros, como se fossemos nos devorar a qualquer instante. E o pior é que, de todas as coisas que animais selvagens podem fazer uns com os outros por diferentes razões, nenhuma se compara àquilo que nós, humanos racionais, fazemos com frequência apenas por prazer: partir corações. A selva, na verdade, é aqui; os selvagens, na verdade, somos nós.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Receita errada

Eu sou a tragédia inteira, a comédia, o drama, a ficção científica. Eu sou o choque, o susto, o absurdo. Sou a explosão nuclear, a calmaria desértica, o vendaval, a tempestade em alto mar. Eu sou a extremidade, o penhasco, a queda. Mas não sou complicada, porque sou prática. Sou assim e digo que sou, sem rodeios, sem mimimis, curta e objetiva. Não tenho dons, nem nada muito único. Até pensei, uma vez, que talvez pudesse ser alguém diferente, ser boa em alguma coisa. Mas não sei, e sei disso.
Acho que não vou virar nada, sabe? Igual quando a gente faz um bolo e ele explode, faz de novo e ele não cresce, faz de novo e ele fica duro. Aí a gente percebe que a receita só pode estar errada.
Acho que eu sou meio assim, tenho algum ingrediente faltando, algum item em excesso, não fui dissolvida direito. Porque não viro nada nunca. E, lógico, tenho medo disso, ou me encontro nisso. Provavelmente porque sou muito determinada a ser indecisa, não sei se isso é o que eu sou ou o que fazem pensar que sou.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Não fossem os danos, não seria eu"

A primeira perda me ensinou que a morte é definitiva. As perdas seguintes me mostraram que o tempo não cura a dor da ausência. Com meu primeiro coração partido aprendi que as pessoas mentem e o primeiro sonho destruído me tirou fora da minha órbita natural.
Fui morar longe da única amiga que eu tinha, e hoje sei que distância não interfere em amizades verdadeiras. Na quinta série eu tinha apenas uma amiga, porque meus colegas de classe tiravam sarro do meu cabelo que tive que cortar curtinho por motivos muito pessoais, e diziam que eu parecia um menino. Foi nessa época que começaram a me chamar de estranha, e a primeira impressão é a que fica então sou vista assim até hoje por todos que me conheceram dessa época em diante.
Com 12 anos soube que já não era mais criança e comecei a ler meu primeiro livro significante: Harry Potter. No sétimo ano de escola o primeiro amor platônico surgiu, me fazendo descobrir mais tarde que eu era alvo de piadas dele. Aos 14 fui transferida para a rede pública de ensino, e me surpreendi com um dos melhores anos da minha vida. Depois que minha melhor amiga parou de falar comigo sem motivos, descobri que absolutamente todas as pessoas vão te fazer sofrer um dia.
As lágrimas que eu vi cair através do espelho me fizeram pensar que era fraqueza. Fui deslocada a adolescência inteira. Minhas expectativas se frustraram em 90% das vezes que as depositei em alguém ou alguma coisa. Passei muito tempo pensando que carregava alguma maldição, ou que a vida não gostava de mim. Comecei a ficar com medo quando percebi que nunca tinha sorte com dados, com perguntas alternativas, com sinais de pedestre, com ônibus e com todas as coisas que dependiam de sorte.
Aos 15 consegui passar no vestibulinho só na quinta chamada, mas perdi a primeira semana de trote e fui, mais uma vez, alvo de piadas durante todo o primeiro ano de ensino médio. Gostei de alguém que me queria só para exibir para os amigos. Fiz amizades que serviram apenas enquanto era conveniente para elas. Fui odiada por alguns professores enquanto outros viviam me chamando pra conversar por acharem que eu estava tendo problemas demais com nota. Quase repeti de ano, passei com duas pendências que teriam que ser sanadas no ano seguinte. Quem eu acreditava ser o único amigo homem que teria na vida simplesmente tornou-se outra pessoa, me decepcionou, e me fez ver que ninguém muda, apenas revela o que nunca deixou de ser.
Mais gente parou de falar comigo e passou a me ignorar sem razão. Fui parar na diretoria na primeira vez que fiquei pra fora de uma aula na minha vida inteira. Comecei a ler cada vez mais livros pra fugir da minha realidade e parei de acreditar que um dia seria normal e boa em alguma coisa. Passei para o terceiro com mais duas pendências, fiz alguns novos amigos que, mais tarde, também esqueceram de mim. Tive crises, uma atrás da outra, por não achar que seria capaz de concluir o segundo grau e de passar no vestibular.
Todo mundo me perguntava qual seria minha faculdade, e isso me deixava louca porque nada parecia se encaixar em mim. Descobri a existência da faculdade de cinema e vi uma pequena chance de, talvez, reconstruir o primeiro sonho que tive na vida, mas ninguém gostou muito da idéia quando contei. Fiz dois anos de curso pré-vestibular e passava tardes inteiras na sala de estudos, perdia finais de semana com simulados e estudei tanto que quase me esqueci pra quê estava fazendo isso e quis morrer quando não vi resultado nenhum de tanto esforço, me senti inútil e ri de mim mesma por achar que seria diferente do que sempre fui e tão normal quanto qualquer pessoa que estuda e tira nota.
Arrumei minhas malas e disse adeus à quem eu amava e ainda amo, aos poucos que agora são menos ainda. Disse adeus para mais um sonho e vim atrás de algum conforto, algum porto seguro que permitisse que minha vida instável se firmasse em algum lugar, em algum coração, só para variar. Pela janela do avião desejei com todas as minhas forças que aquele para quem tanto escrevi pudesse ser feliz e que, talvez, pudéssemos nos encontrar num futuro não tão distante assim. 
Na verdade, depois de tantos tropeços e quedas e perdas e curvas, continuo sendo a menina estranha, continuo deslocada, continuo com pouquíssimos amigos e continuo exatamente a mesma. Só que agora com bagagem adicional, com aprendizados que demoraram para criar raízes em mim. E não seria quem sou hoje se não fosse todas essas coisas que me faziam ser quem era antes, porque são delas que sou feita, das muitas ruins, das poucas boas e da paçoca que nunca gostei e não sei porquê comia.  E o forrobodó e o salpicão e as receitas da minha mãe, o creme de dormir da nivea e a argila nas costas do meu pai.  Eu não seria assim, tão estranha, meio maluca e cheia de medos, eu não seria louca e exagerada e um pouco autista e viajada. Não seria hoje tão criticada por ser assim, não fosse a vida que levei e, me desculpe, mas não sou culpada.
Se não fosse tudo isso, e vocês que me deixaram, vocês que ficaram e os que foram embora. As dores que me mataram e as pessoas que me ajudaram e os corações partidos na estrada e o longo caminho sem linha de chegada. Não fosse Deus, e o tanto que chorei, e os meus tantos erros, os estranhos acertos, o excesso de azar, e o amor excessivo e a vontade de que fosse totalmente diferente. Não fosse exatamente como foi, não seria eu.

* Música do título

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Alívio

Pode acontecer muita coisa ainda, né? Tipo, qualquer coisa. Acho que a gente sempre tem essa sensação, porque todos os dias são uma história, começo, meio e fim. E depois começa de novo e nunca acaba. Então por mais difícil e complicada que ande a vida, sempre tem outro dia, e nesse outro dia a gente sempre vai ter uma crençazinha que, sei lá, vai que alguma coisa enfim acontece, não é mesmo? 
Afinal, não tem como todos os dias serem os piores dias da sua vida, em um ou outro vai parecer que o mundo voltou a fazer sentido e, por pior que seja a fase, é só você atravessá-la. As vezes as noites em casa, sozinha, sejam até divertidas se você deixar o Camelo cantar ao fundo uma daquelas melodias dançantes e viajantes dele.
Porque tem hora que tá tudo dando errado mesmo, mas se você olha pra janela, num segundo de céu, nada mais parece tão problemático. Você troca um olhar com alguém na rua, e esse alguém sorri, e tudo fica bom de repente. Um música boa dessa desperta a felicidade sem você nem perceber. Entende? Eu sinto assim, pelo menos. 
Tanta beleza no mundo, acaba que tem sempre alguma coisa que fica visível, de um jeito ou de outro, e ameniza a dor dos dias difíceis. Num céu azul bonito como esse de agora ou na risada engraçada de alguém desconhecido, na melodia de um canção qualquer que sempre me faz dançar meio estranho quando estou sozinha. É nisso que eu me perco, e me desfaço do peso que insisto em levar. Nisso meu coração pára de chorar na mesma hora e parece que floresce, meus olhos dançam com o ritmo, o sorriso engrandece com a leveza e a alma agradece a gentileza.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O poder de um abraço

Eu me acostumei a não ser cuidada, mas sempre cuidar. E, tão longe dos poucos amores que me restaram, foi estranho estar dentro de um abraço despretensioso e amigável outra vez. Estranho de um jeito bom. Porque veio de alguém que mal conheço, alguém com quem convivi por uns 7 ou 8 dias, que fez uma sala de 15 alunos morrer de rir durante cada minuto desses dias compartilhados. 
E lá estava eu, no período entre aulas, com meu livro na mão, olhando para o mar, viajando por alguma galáxia distante, como sempre, quando ele chegou do meu lado e, com o braço no meu ombro, me apertou num abraço tão gentil, tão bem humorado, terminando com um beijo no alto da minha cabeça que recostava em seu ombro e um bom dia seguido do diminutivo do meu nome. Ao olhar pra ele encantada com tamanha simpatia e assustada com essa proximidade que ninguém que conheço gosta muito, ele sorria como se não existisse tristeza no mundo.
Pensem como quiserem, mas me senti tão maravilhada ali, como se pudesse haver amor ao próximo outra vez. Ha quanto tempo um bom dia não passava de duas palavras pronunciadas em voz baixa e com um rosto sério? Ha quanto tempo alguém não me desejava um bom dia, como se desejasse realmente que meu dia fosse bom? Ha quanto tempo alguém não me abraçava sem motivo, por pura espontaneidade?
Sou boba, tudo bem, sei disso. Me encanto por qualquer flash de gentileza que vejo, e ali transbordou gentileza, transbordou beleza no meu coração ao ver a felicidade simples e sem motivos de alguém que carrega o mundo nas costas e sempre acha a vida de uma graciosidade sem tamanho. Ele sorria, sempre, a todo momento, e abraçava todo mundo e achava tudo sempre bom e eu quis abraçá-lo forte quando percebi isso. Como se aquele pequeno gesto matinal dele tivesse aberto todas as portas do meu coração e deixado o sol entrar, aquecendo todos os cômodos dentro de mim que permaneciam congelados.
Foi só um abraço, no fim das contas, e ele nem notou o quanto aquilo me tocou. Porque, pra mim, foi uma espécie de poesia, uma melodia lenta e bonita, um sorriso encantado e leve que tomou conta de mim e que eu nunca pensei que fosse capaz de reproduzir novamente. Foi só um momento rápido e descontraído entre colegas, mas, pra mim, foi beleza, crença renovada nas pessoas; foi amor. Foi como ser feliz outra vez; como ser humana.



* Não tem nada a ver com o dia do abraço. Foi só uma coincidência feliz.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Comunicado

Você que, de tempos em tempos, invade meu blog e apaga textos meus. 
Você que disse que estaria sempre ao meu lado e sumiu na primeira oportunidade. 
Você que estendeu a mão na beira do penhasco e, no último minuto, me deixou cair. 
Você que prometeu. Você que nunca quis cumprir suas promessas. 
Você que fala para todo mundo que sou chata e estranha e não sabe como alguém me suporta. 
Você que passou meses ao meu lado, tratando como amiga, e não olha mais na minha cara. 
Você que não sabia viver sem mim e não me atende mais. 
Você que disse que ficaria e foi embora. 
Você que tanto me amava e ama mais uns vinte.
Você que diz estar com saudades e não responde minhas mensagens. 
Você que me quer para casar até encontrar uma garota mais bonita.
Você que não pára de pensar em mim e some aos sábados a noite. 
Você com quem eu poderia contar sempre e nem sei mais onde está. 
Você que fala comigo só quando não tem mais ninguém pra conversar. 
Você que me deixa no banco de reservas para quando suas companhais mil vezes mais descoladas não te quiserem. 
Você que me ignora aos finais de semana, e corre para os meus braços nos domingos de chuva. 
Você que quer tudo de mim e não dá nada de si. 
Você que já não sei quem é, não sei se um dia soube e não quero mais saber.
A todos vocês um comunicado: podem me tirar o que escrevo, o que sinto, o que falo. Podem me tirar os sonhos, as vontades, a força. Podem arrancar lágrimas até secarem. Mas não podem me tirar o que sou e nem o que já fiz. No fundo, vai ser sempre eu aqui dentro, triste, feliz, decepcionada ou louca de pedra. Continuo sendo eu, estando no chão ou no céu, e nada muda o que senti ao fazer as coisas boas que sei que fiz. Não tem como mudar o que já está feito, nem o que já foi sentido e vivido. Porque nada muda essa verdade, ninguém tira essa essência, nem me impede de ser o que nunca deixei de ser: exatamente quem sou. Lidem com isso.

domingo, 19 de maio de 2013

Ler

Ler e, de repente, estar no meio de uma batalha. E, de repente, entrar num reino encantado. Ler e esquecer que o mundo é essa feiúra toda, e se teletransportar para mundos mágicos. Ler e ser tudo que você quer ser, porque não existe impossível nos livros. Ler e poder amar e ser amado, e fazer amigos Elfos, e conhecer todos os mares, todos os reis e rainhas, todas as criaturas que não existem nessa realidade boba que vivemos. Porque isso aqui é muito raso pra pessoas como eu, ninguém enfrenta o mal, ninguém parte em  aventuras perigosas, em buscas malucas. Ninguém se encanta. Ler e sentir tudo que está sendo lido. E chorar, e rir, e amar, e sofrer. Ler e, dentro de você mesmo, viver.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Crescemos. E agora?

De repente a gente tá dirigindo e fazendo 20 anos. Estamos deixando de ter aquela bochecha grande e vermelha, aquele olhar ansioso, a fala rápida e urgente de quem quer revolução e nos transformando em rostos adultos, com um ar mais sereno, uma expressão mais calma, um jeito mais estável de ser.
Assim, sem nem perceber, fomos deixando de acreditar que poderíamos ser tudo que quiséssemos e mudar um mundo inteiro. Deixando de enjoar de tudo depois querer de volta, amar pra sempre e esquecer em dois dias. 
Meu Deus, acho que crescemos! Vocês, rapazes, deixaram de ter aqueles poucos fios de barba espalhados e espaçados no rosto, deixaram também de falar meio desafinado porque a voz ainda estava em processo de ajuste, deixaram de ser magrelo e desengonçados e comer feito elefantes. Agora vocês estão altos, com o rosto cheio de marcas de gilete, a voz grave e o cabelo despenteado, porque não usam mais gel. Nós, meninas, não cabemos mais na categoria "meninas", porque somos mulheres, quase sempre maquiadas e arrumadas.
Onde que vamos parar desse jeito? O que a gente faz agora? Confesso, estou com medo. Tenho medo porque, mesmo hoje, já perdi tanto do que acreditava, já abandonei muito das coisas que sonhava e de quem era. Eu tinha convicções, talvez utópicas e revolucionárias, mas cheias de vontade de fazer alguma coisa útil para a sociedade. A gente tinha sede de mudança, vontade de viver tudo que há para viver. E, hoje, nós carregamos um comodismo que me incomoda, um tal de querer da vida só o mínimo que se pode ter e nunca buscar mais. Nossas vontades que se resumiram a ter um bom emprego e encontrar uma pessoa legal pra viver ao lado. 
Isso tudo me cansa, me enjoa e me dá um nervoso absurdo. Óbvio que tenho dias de descrença total também, em que só consigo pensar num futuro igual àquele que nossos pais tiveram, mas isso não é futuro, isso é reviver um passado. Porque, no fundo, eu ainda quero fazer um intercâmbio, entrar em mil cursos diferentes e gritar bem alto quando vir algo errado. Eu quero tudo que queria aos 16 anos, só que agora quero fazer disso uma verdade, uma realidade, porque tenho poder pra isso, tenho condições.
Não é só isso. A gente está crescendo e ficando chato, e não vendo tanta graça em ir num barzinho com música boa, e não achando mais tão legal se reunir na casa de alguém para comer uma pizza, e tendo preguiça de passar 10 horas jogando banco imobiliário. A gente cresceu e ficou velho, e perdeu aquela falta de preocupação, o excesso de vontade de quebrar as regras e chegar em casa tarde, mesmo tendo que acordar cedo no dia seguinte.
Não que eu não queira ser responsável, mas acho que a gente anda se levando muito a sério. E aí a responsabilidade fica pesada e o juízo que nossos pais tanto nos pediam vira um fardo, que nos impede de sair um pouco da rotina, de vez em quando. Porque a gente era leve, lembra? Éramos descontraídos e bobos e jovens de um jeito tão bom, tão forte, tão vivo. Éramos felizes independente da vida que levávamos em casa ou das situações pelas quais tínhamos que passar.
Eu gostava dessa nossa bagunça. Porque não fazíamos absolutamente nada de errado, mas qualquer coisa diferente já era aventura pra nós. Hoje a gente senta numa cadeira cheios de postura e elegância, e eu adorava quando a gente se largava em qualquer canto, muitas vezes no chão, e cruzava as pernas de qualquer jeito. Sinto falta de quando não existia isso de sermos adultos e donos de nosso próprio nariz. Sinto falta de correr atrás do ônibus, porque agora todo mundo tem carro. Sinto falta de quando a gente era adolescente e queria fazer 18 logo, e podia falar e fazer e vestir o que quiser. 
Eu sinto falta da gente, que vivia grudado, rindo de qualquer besteira, falando mais que a boca, comendo tudo que via na frente e acreditando que a vida era um absurdo engraçado. Sinta falta da nossa intensidade, nossa verdade, de deitar na grama, um no colo do outro, e sentir como se fossemos infinitos e eternos. Sinto falta de me sentir jovem e gigantesca, como se o tamanho do mundo não fosse suficiente para a grandeza dos nossos corações, das nossas vontades, das nossas vidas. Como se nada pudesse nos impedir de fazer qualquer coisa e tudo ao mesmo tempo, porque o tempo estava do nosso lado. Sinto falta de saber tudo e ter muito a dizer ao mundo e achar que nunca vou ser diferente.