quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um pouco de um tanto

Ainda tem tanta coisa bonita pra viver. Tantos corações para partir e tantas pessoas para deixar partirem o seu. Tem tanta dor pra sentir, tanto amor pra compartilhar, tanta lágrima pra cair. Ainda tem tanta gente pra conhecer, tantos lugares pra visitar. Muito ar para suspirar. Muitos quilos para engordar, muitas dietas para fazer. Ainda tem tanta vida pela frente! Tem tanto morrer de rir, de amar, de chorar.  Tanta vida querendo ser vivida, tanta coisa querendo acontecer. E por que não deixar? Por que cansar do pouco que já passou, se ainda tem tanto para passar? Por que se jogar do prédio, se, na esquina dele, o amor da sua vida estava te esperando inconscientemente? Por que cortar os pulsos no banheiro do metrô, se na próxima estação você ia reencontrar um velho amigo? 
Ainda tem tanta história pra ser contada, tanta palavra pra ser escrita. Ainda tem tanto, mas tanto, para ser, e estar e existir. Por que essa mania de querer ir embora se está tão cedo? Por que estar tão saturada de tudo, se o relógio mal começou a tiquetaquear? Por que essa vontade agonizante de desistir se mal chegou a tentar? Por que, meu Deus, achar a morte mais acolhedora se ainda nem chegou a conhecer a vida? Ainda tem tanta palavra pra ser dita e ouvida e gritada e sussurrada. Tanto sangue para o coração bombear. Tanto sono para dormir e sonhar e acordar e realizar.
Ainda tem tanto, e o que nos faz querer mais ainda do que isso? Por que estar sempre insatisfeita? Por que as pessoas sempre querem o que não tem? 
Acho que é porque a vida tem o tempo dela e não se importa se você mudou de opinião quanto ao que quer ter. Deve ser porque, agora que você abriu mão do amor, ele apareceu. Agora que ela resolveu arrumar as malas, e mudar de cidade, e mudar de ares, surgiu uma razão pra ficar. E não é um pouco irônico? Não é um pouco triste quando a vida dá uma dessas?
Agora que a mãe descobriu o quanto pode ser bom seu filho fazer um intercâmbio, e finalmente o deixou ir, ele desistiu. Agora que o pai concordou em colocar sua menininha numa escolinha de futebol, porque ela não quis o balé, ela resolveu que quer fazer luta. Não é um pouco chato esses desencontros? Não é um pouco forte toda essa confusão?
Agora que ele cansou de partir corações e enfim se apaixonou pela menina fora do padrão, com os cabelos curtos e escuros e os olhos castanhos quase amarelos, foi ela quem se mandou e deixou o rapaz com os pedaços do que restou de seu amor. Não é meio clichê? Isso da vida só começar a fazer sentido quando a morte já chegou. É meio absurdo. Um pouco extravagante, não?
Quem quer o que têm quando a vida fornece o que não se quer? Quando a vida quer te dar apenas um pouco de um tanto que poderia?
Tem muito pra viver ainda sim, mas você só vai descobrir isso quando tiver morrido e se, ao menos, você  já soubesse disso, talvez não concordasse em morrer. Não é um pouco doloroso? A vida ser tão bela, e você não conseguir apreciar? Sim, é um pouco injusto também.


"Eu sei que lá no fundo há tanta beleza no mundo,
 eu só queria enxergar. 
As tardes de domingo, o dia me sorrindo, 
eu só queria enxergar."

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