sábado, 29 de dezembro de 2012

Sobra sua falta

Os anos passam e as pessoas simplesmente não cansam de me perguntar se sinto sua falta. Não cansam de me lembrar que eu não te esqueço nem por um segundo. Parece que não conseguem assimilar que é exatamente pelo fato de termos passado tão pouco tempo juntas que eu sinto mais ainda essa falta, sua e nossa.
No dia que te vi pela ultima vez, as pessoas carregavam flores, me abraçavam sem emoção nenhuma e vestiam preto. Fazia sol e um céu maravilhosamente azul, e me peguei ouvindo uma conversa que acontecia perto de mim e que era sobre mim, pois achavam que eu estava em um transe absurdo demais pra ouvir qualquer coisa. Ouvi alguém dizer que, obviamente, eu também sentiria sua falta, mas, dentre eles, eu seria a menos afetada por isso, já que todos ali haviam convivido mais com você do que eu. E, sabe, ouvir aquilo doeu tanto e eu já estava tão dolorida! Foi o maior absurdo que tive que ouvir naquele dia e, até hoje, ecoa nos meus ouvidos.
Será que nunca vão entender que, cada dia que eu atravesso, cada mínimo instante, cada batida no relógio, é um momento que eu poderia ter tido com você pra ser lembrado mais tarde? Será que não notaram que, enquanto eles matam a saudade recordando as memórias em que você estava presente, eu simplesmente não tenho como diminuir essa saudade, porque não tivemos tempo de ter essas lembranças? Será que não compreendem que lembrar dos momentos que não tive com você dói mais do que lembrar dos que tive? Será que, nem por um instante, passa pela cabeça dessas pessoas o tanto de coisa que eu queria ter vivido com você, e não pude? O tanto de pergunta que eu queria ter feito, e não consegui?
Tive que ouvir dizerem e repetirem que todo mundo sentia mais sua perda do que eu. Tive que ver menosprezarem minha dor por acharem que sentir saudade das lembranças com você machucava mais do que não ter essas lembranças todas.
Mas esqueceram que todos os dias eu vou precisar de você e não vou ter. Todos os dias, eu vou querer te contar alguma coisa nova, e não vou poder. Esqueceram que, quando chegar minha vez de acumular lembranças, você não fará parte delas. Nem ao menos lembraram que, talvez, só talvez, eles perderam uma amiga, uma cunhada, uma irmã, enquanto eu estava perdendo aquela que me ensinaria a viver, da mesma forma me ensinou a andar, e comer e falar. 
Eu perdi aquela que me orientaria antes de sair, que me ligaria trinta vezes pra saber se estou bem, que me esperaria com o almoço pronto, chamaria minha atenção quando fizesse algo errado; aquela que notaria quando eu estivesse triste, feliz ou diferente, porque me conheceria de verdade, desde as rugas na minha teste até o formato dos meus dedos. Eu perdi uma parte significante do futuro que poderia ter. E, mesmo assim, ainda ouço todos os dias as pessoas me perguntarem se lembro de você! Se sinto sua falta! É loucura perguntarem isso, porque cada dia que passa é como se eu te perdesse novamente. É como se aquela dor daquele dia viesse a tona outra vez e todos os dias eu te visse indo embora de novo.
Talvez, se tivéssemos tido tempo de acumular memórias, tirar mais fotos juntas, ter mais conversas. Se você tivesse tido tempo de me responder todas as perguntas que surgiram durante as muitas fases da minha vida, se eu tivesse tido tempo de te conhecer como pessoa, como mulher, como amiga. Talvez se tivéssemos mais história juntas não doesse tanto e nem todos os dias, se pudéssemos ter passado por mais situações, sobrasse hoje só saudade, não dor. Mas não foi assim.
Por isso, hoje, sobrou mais que simplesmente falta. Sobrou amor, tristeza, poucas lembranças, muita saudade. Sobrou essa dor que não vai virar cicatriz nunca, porque, cada dia que eu acordar, vou viver alguma coisa que queria ter vivido com você, e vou lembrar, e vai doer. Sobrou essa falta que nunca vai ser preenchida. E, sabe, por mais que digam, que ouçam e que vejam, ninguém, além de uma única pessoa no mundo, nunca vai saber do que eu estou falando. Ninguém nunca vai conseguir imaginar o tamanho desse buraco que ficou em mim e naquela que perdeu o mesmo tanto que eu. Ninguém. Porque não foi simplesmente te perder que doeu e ainda dói, mas te ver sofrer por anos e anos, e sofrer junto e te ver tentando evitar meu sofrimento, e sofrendo mais ainda. Ninguém nunca vai ter a mínima ideia do que aconteceu com a gente ali, das palavras ditas e não ditas, dos silêncios meus e seus, das lágrimas quentes enxugadas uma pela outra e que ninguém nem ficou sabendo, dos olhares que sabiam como isso ia acabar. Nunca vão conseguir ter noção da dimensão de tudo isso. Ninguém nunca vai saber como é pra mim, como foi e como eu sei que vai ser pro resto da vida, porque o que vai sobrar neles é saudade, mas, em mim, vai sobrar isso que ninguém nunca vai diminuir ou curar, vai sobrar sua falta em todos os cômodos da casa, em todos o cantos do mundo, em todos os dias da minha vida.

Lifehouse - From where you are

2 comentários:

  1. Você sabe que ninguém tem palavras depois de ler isso. Como se você pegasse todas e as encaixasse de maneira perfeita. Mas não são as palavras. São os sentimentos das entrelinhas que saem do seu coração e vem a tona pelos (meus) olhos cheios de lágrimas. Sua mãe, em algum lugar, está muito orgulhosa pelo talento da caçulinha dela :)
    Tem coisa que a ente não entende, mas tem coisas que são certas: ela está com você de uma maneira diferente. E para compreender isso tem de ser muito grande e forte, Brendinha, como voce!

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    1. Ah, mari, eu gosto tanto quando as nossas palavras falam assim. Quando as suas me fazem sentir o que você está sentindo, e as minhas levam meu sentimento até você. Eu gosto porque faz parecer que não estou tão sozinha em sentir tudo isso.
      Mas eu poderia escrever um texto desses todos os dias, talvez mais de uma vez por dia, porque esse sentimento não passa nunca, ele só aumenta. Eu gostaria que ela nunca pudesse ler tudo isso, pra nunca saber o tanto de dor que cada palavra dessas carrega.
      Acho que agora ela não está mais comigo, porque agora ela é parte de mim. Ela é o jeito que eu gosto do café, sempre muito quente. Ela é o meu gosto por ler, minha mania de passar a mão pelo cabelo, a cor dos meus olhos e o formato do meu rosto. Ela é o que sobrou dela em mim.
      Não sou grande e forte, aliás, acho que sou justamente o contrário. Mas não tem problema porque, se eu continuar a parecer com ela assim, um dia vou ser grande e forte também, tenho certeza.

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