segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Simplesmente complicado

Eu fiquei te olhando e te medindo, analisando os risquinhos da sua boca, o contorno da sua orelha média de lobo preso, que carrega um brinco de argola justinho do lado esquerdo. Não canso de olhar para ele, que agora brilha mais que qualquer coisa no mundo. Já reparou como ele não é perfeitamente circular? Acho que você o amassou de tanto deitar em cima da carteira lotada de livros lá da biblioteca. Na verdade, acho que vou se amassou todo naquela mesa, com as pernas meio soltas, querendo cair do pauzinho em que estavam apoiados, e os braços moles e relaxados, escorregando das lombadas da sua mochila. Você acordou depois que sua cabeça bateu no cantinho do espiral da apostila e olhou para mim com aqueles seus olhos vermelhos e perdidos de gato que caiu na água. Me viu segurando um livro que nem lembro o nome, nem sei se era um livro, te olhando.
Eu sei que você repara quando eu fico te analisando assim, observando seus detalhes desconhecidos até mesmo por você. Sei porque, um dia, você me disse que eu era muito lunática e complicada para ser real. Não lembro muito das suas palavras naquele dia, porque usei toda a minha atenção ao modo como sua garganta vibrava enquanto as palavras saíam roucas, desleixadas e, para mim, extremamente confusas. Não que eu não quisesse te ouvir, é justamente o contrário. Eu gosto demais de te ouvir, tanto que chego a nem ouvir direito. Mas eu lembro da parte "Sou só eu, minha voz é só minha voz e meu brinco é só meu brinco, não é brilhante, nem tem um formato singular, e não é nada demais. Porque, raios, você tem que complicar tanto?". Acho que lembro dessa parte porque você disse igualzinho uma passagem de um texto da Tati Bernardi.
Mas não é complicado. É tão simples que não cabe nas palavras. Porque, raios, você tem que achar complicado? Sua voz não é só sua voz, ela é bonita, ela é engraçada, forte, meio despojada com vintage, meio rouca em intervalos de tempo irregulares. E isso é simples de um jeito tão simples que me fascina. Complicado seria se não fosse nada demais, como você diz que é.
Acho que é você o complicado da história e não nego que sou lunática, desatenta e observadora. Mas você devia estar feliz por ter alguém como eu te olhando como eu olho. Devia estar feliz por alguém como eu, que não troca as fantasias e os encantamentos dos livros por qualquer pedaço de gente por aí, fácil assim, estar substituindo tudo isso por alguém como você, que nem se importa e ainda me acha "complicada".

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