sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Porque eu escrevo sobre o amor

Sabe, me desculpa. Você que me lê, ou você que tenta me ler. Sinto muito. Eu digo "me ler" e não "ler o que escrevo" porque eu praticamente me escrevo aqui. E, contudo, não escrevo o que, de fato, tenho vivido. Escrevo apenas o superficial do que sinto; aquilo tudo que é fácil de ser escrito e sentido e colocado pra fora. Escrevo muito, confesso, mas só porque sinto muito e, mesmo o mais superficial dos sentimentos, é muito quando se trata de mim.
Peço desculpas porque sei que alguns olhos caminham pelas minhas linhas procurando assuntos interessantes e frases dignas de fechar a ultima página de um livro. E acabam encontrando isso, esse monte de escrito sobre amores impossíveis, inventados ou reais, e desilusões; tudo muito digno de um diário cuja dona tem 13 anos, acredita em finais felizes e acha que a vida é um romance infanto juvenil. Desculpem por isso. Mas é que essa é a parte mais fácil em mim, e eu não sei mais lidar com dificuldades, não aguento mais ter que lidar com elas - eu fujo do que é difícil. É mais fácil lidar com a menina de 13 anos e seus problemas típicos da idade do que lidar com essa de 19 que vive do avesso.
A vida já tem sido pesada demais durante um longo espaço de tempo e aqui é o único lugar que dá pra pegar mais leve, que dá pra tentar esquecer das coisas tristes e difíceis e tornar tudo um sonho bobo, e é isso que tenho feito. Aqui é uma espécie de fuga, abrigo; um lugar onde eu posso esquecer um pouco das decisões que preciso tomar, escolhas que preciso fazer e barras que tenho que enfrentar. Onde eu posso ser apenas a menininha que não sabe que o mundo está bem longe de ser bom.
É fácil escrever sobre esses amores, porque eu não sou mais tão romântica e iludida quanto era aos treze e, por isso, escrever sobre eles não me machuca. Lido meio friamente, meio calculista e meio distante com toda essa coisa de amor, embora minhas palavras vivam carregadas de romantismo - aliás, acho que isso acontece só porque guardo um vestígio de fantasia infantil de quem assistia "A Bela e a Fera" e chorava quando a fera virava principe, porque gostava mais da fera. Mas hoje em dia, tirando esse pequeno vestígio de ilusão que herdei da infância, sou bem prática com o amor e só compartilho com ele as informações que são estritamente necessárias. Fora isso, o guardo na parte mais rasa de mim, mantido sob vigilância constante só pra não me deixar esquecer de sua existência irreal. 
Na verdade, tem muita coisa que guardo bem mais dentro de mim e que não tem nada a ver com essas paixonites, e que até gostaria de colocar em palavras, mas não dá, não consigo, porque a grande maioria dessas coisas são dores, e felicidades poucas e intensas que me trazem saudade demais, tanto que também acabam doendo no fim. E acontece que depois de alguns tombos doídos, algumas perdas muito grandes e algumas lágrimas gordas, peguei um trauma absurdo de sofrer. Toda e qualquer coisa que possa me magoar eu já descarto, mesmo sem ter certeza, só por precaução.
Aí acontece que eu acabo escrevendo sobre o amor, acabo fantasiando sobre ele e criando um mundo ilusório, um universo paralelo, só pra fugir de tanta sujeira que esse mundo carrega, só pra me distrair um pouco. Escrevo sobre o amor e sobre o quanto ele me detesta e o quanto isso me deixa triste - e realmente deixa. Mas, na verdade, das coisas todas que me entristecem, essa - o amor - é a que menos me afeta. Eu prendo ele lá naquele mundinho que criei e nunca esqueço que ele é só imaginação e aí fica tudo bem; aí ele não me atinge. Mas não dá pra fazer o mesmo com a dor, porque ela é bem mais que imaginação e ela sempre foge dos universos em que a prendo, porque sabe que é realidade e não quer ficar presa em mundos surreais. A dor é sempre mais esperta.
Desculpem por, talvez, não ter sido totalmente sincera até agora, mas é que não dá pra mexer nessas cicatrizes. Não dá pra escrever sobre elas, nem sobre o dia lá fora que me lembra o quanto eu queria poder aproveitá-lo com a pessoa que mais doeu perder, nem sobre os planos para o futuro que me trazem mais dor e aumentam a distância entre a realidade e os meu sonhos, já bem escassos. Não dá pra tocar nesse assunto.
Sinto muito, mas não dá pra falar sobre a menina de 19 anos que está escrevendo e, quase sempre, sendo parcialmente escrita. Não dá pra falar de seus medos reais, de suas angústias e dramas. Por isso falo sobre aquela de 13, que ainda acreditava que o mundo era perfeito e a vida era só amor e chocolate. Porque é fácil falar dela, e de seus sonhos utópicos, e de seus desejos distantes e de seus olhos brilhantes, que sempre acreditavam que tudo podia ser bom e todos podiam ser gentis.
Não dá pra falar dessa que finge ainda estar na adolescência e ainda gostar de sonhar, porque é difícil falar nela. Difícil falar dessa menina que fica escrevendo num blog só pra fingir que é menina ainda, e tem problemas normais de meninas. Difícil ser essa que escreve por não querer sê-la, e querer ser apenas uma menina normal, mas que nunca vai ser normal, porque nem menina mais ela é.. já cresceu além da conta pra receber essa classificação.
Hoje, estou escrevendo para que saibam que não sou essa futileza toda que finjo ser, e nem acho que o mundo se resume em amores e paixonites absurdas - quem dera, aliás - como eu sei que faço parecer em meus textos. Hoje, quem escreve não é a menina de 13 anos, mas a moça de 19. E escrevo só para saberem que realmente queria poder entretê-los com assuntos e textos e palavras divertidos, descontraídos e leves, como fazem os escritores. Mas não tenho esse dom, meu amores, e só eu sei o quanto queria tê-lo. Hoje estou escrevendo e sendo eu mesma, e assumindo a responsabilidade por isso, mas, pela manhã, tenho certeza, já terei voltado para as minhas diversas personagens, me vestido de alguma e voltado a escrever sobre amores. Porque é isso que eu faço e sei fazer: lidar com o fácil, com o que não dói, com o que é fantasia - nunca realidade. Desculpem, mas sou fraca e o mundo é pesado demais pra mim; as coisas muito difíceis eu prefiro largar pra não ter que lidar com elas, e sofrer, e chorar, e sabe-Deus-o-quê, tudo outra vez. Como eu disse, tenho trauma disso. Tenho medo de me escrever como realmente sou, e me ler e descobrir o tamanho do buraco negro que me tornei. Por isso, prefiro não me escrever, consequentemente não me ler e, felizmente, não saber a profundidade dessa cratera.
Desculpem, mais uma vez, mas sou medrosa mesmo, talvez até covarde. Amanhã voltarei a ser a menina apaixonada e a usar palavras fofas, porque não consigo mais ser sincera comigo mesma durante tanto tempo e hoje já esgotei as reservas. Voltarei a viver no mundo encantado e idealizado e não falarei mais dessa feiura que é o mundo real, ou a realidade do meu mundo. Amanhã, eu sei, voltarei a ser a menina apaixonada de treze anos, e não mais esse poço desiludido e amargo de dezenove.
Daqui a pouco, eu volto a falar de amor como se nunca tivesse contado pra vocês que, na verdade, não sou romântica assim. Porque sei que ninguém gosta da dor, nem pra ler, nem pra escrever e menos ainda pra sentir, e eu também não faço questão nenhuma de falar dela, então, nem amanhã, mas hoje mesmo, volto a ser a menininha e escrevo, de novo, sobre o amor.

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