domingo, 9 de dezembro de 2012

Para meu amigo imaginário de papel

Eu desfiz meu facebook. Aliás não cheguei a cancelar a conta, só tirei praticamente todas as informações e as fotos, e abandonei. Tirei um peso das costas, confesso, porque toda essa tecnologia estava me afetando de alguma forma que não sei explicar. Toda essa coisa que esta tornando os seres cada vez menos humanos, cada vez mais distantes uns dos outros e, cada dia que passa, mais alienados à vida que não seja virtual, estava me tirando do meu centro de equilíbrio, que nunca foi muito equilibrado. 
Foi bom me distanciar dessa robotização em massa, reconheço, mas agora só o que me restou foi você. Agora parece, e talvez não apenas pareça, que só tenho esse único amigo pra me ouvir, me ler ou fornecer seu silêncio e seu ombro, que vem em forma de folhas em branco e um lápis bem apontado, como quem diz: vai, desabafa, fala tudo, estou ouvindo - escreve tudo, estou lendo. Sendo assim, somos nós dois agora, a sua brancura querendo minha palavra e a minha escrita querendo sua brancura.
Quero te contar que não tenho nada de muito bom pra falar. Hoje foi um dia tão dificil quanto aqueles dias que a gente acha que não vai acabar nunca, e que parece que não tem mais nada pra dar errado. Mas não deu nada errado, ou quase nada. Só que o que deu certo é algo que me dói, e não é pouca dor. Lembra quando eu te disse que estava com um medo absurdo de sofrer outra vez? Então.. aconteceu. E eu não perdi o medo disso piorar, nem ganhei coragem pra enfrentar o que já está acontecendo.
Quero te dizer que tudo tem um limite, mas parece que esqueceram de marcar no meu rótulo até onde ia o meu. E aí, sem parâmetro algum para saber quando parar, o mundo vem jogando mais e mais sujeira em mim. E vai tornando minha carga mais e mais pesada. E eu não sei até onde vai isso, porque sei que já ultrapassei todos os limites, já estou bem além do que foi previsto para mim se tivesse uma etiqueta correta.
Tá todo mundo dizendo que a gente sempre aguenta mais do que acha que pode, mas eu sou fraca. E, além de fraca, me enganei absurdamente. Achava que tinha um coração do tamanho do mundo pra conseguir sentir tanto, mas a verdade é que meu coração é pequeno demais, não cabe toda essa dor, não cabe tudo que, teoricamente, devia caber. Por isso, talvez, vive transbordando sentimento pelos olhos; vive derramando palavras nessa folha branca. Porque não cabe. 
E não tá cabendo, de novo, todo esse medo, essa saudade, esse aperto. Não tá cabendo na garganta todo esse nó e eu estou sufocando com ele. Ontem, as roupas que eu tentei passar foram novamente para o cesto de passar roupas, porque meus olhos regaram todos os tecidos que eu tentava alisar. Minhas lágrimas geladas amassaram novamente toda a roupa que o ferro quente passou com o maior cuidado.
Não cabe esse tanto de água salgada em mim, não cabe esse tanto de amor, esse tanto de dor, esse tanto de adeus. Quero dizer que vou dormir sozinha a partir de hoje, e vai ser bom poder chorar sem ter que abafar com o travesseiro. Mas vai ser triste acordar sem bom dia.
Eu queria que você tivesse braços agora, pra me abraçar bem forte e não soltar. Pra me segurar sobre os pés um pouquinho, porque não estou conseguindo fazê-lo sozinha. Mãos para afastar meus cabelos que já estão grudados no meu rosto molhado. Dedos para enxugar minhas bochechas vermelhas. Eu queria que você tivesse um ombro largo que coubesse minha cabeça, porque meu pescoço não está dando conta de equilibrá-la. E que você pudesse ter um colo que me coubesse inteira nele, só pra eu poder me embolar em você e tentar manter unido os pedaços do meu corpo que estão querendo desmoronar pela rua. Eu queria que você existisse agora, ou que eu voltasse a ser um pouco mais crente nas fantasias que sempre gostei de inventar.
Quero dizer que escutei chorar a pessoa que me resta nesse mundo, outra vez, e que isso me doeu tanto, porque sempre me dói, que chegou a ser uma dor física, ao mesmo tempo que era uma dor da alma. Não aguentei. Sucumbi ao soluço desesperado de quem tem um caroço tão grande na garganta que, se não soluçar, morre engasgado. Perdi o ar durante os primeiros segundos, perdi o senso, o chão. E fiz tudo isso no silêncio absoluto. Ninguém percebeu minha agonia, parada ali, sentada comportada no sofá. Acho que morri mais um pouco naquele momento, porque o ar eu até recuperei, mas o chão e o senso me abandonaram pra sempre.
Quero te dizer que não sei o que estou fazendo mais e tenho medo de me jogar dessa janela justamente por não conseguir mais julgar o que isso significa ou significará. Quero te dizer que te escrever foi tudo que me restou e eu espero que não seja em vão e que você me responda de alguma modo, em algum lugar.
Porque tenho medo de você não existir nunca, e ir embora mesmo assim, porque essa coisa de me deixar virou moda e parece que só essa dor absurda ainda não aderiu à ela.
Então, por favor, amigo imaginário de papel, não siga esse padrão você também. Não me deixe aqui sozinha também, acompanhada apenas desse buraco pra me consolar. Não me deixei só com as minhas pernas pra me sustentar, porque elas também estão sucumbindo, junto com todas as coisas que me faziam continuar em frente.

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