domingo, 11 de novembro de 2012

Somente nos cinemas

Eu quero agora uma mudança. Rasgar esse roteiro porco e sujo que escrevi pra ter uma vida mediana e insossa, e escrever tudo outra vez, do começo.
Vou começar pelos meus amores - ou falta deles. Mas eu quero amor que acontece junto e de repente. Um amor que possa nascer das risadas que daremos juntos ao pôr-do-sol; das madrugadas que iremos virar andando pelas praças mal iluminadas da cidade feito dois perdidos, e ouvindo e cantando com o Renato que somos tão jovens. Que possa nascer das lágrimas derramadas e, um pelo outro, enxugadas. Que esse choro típico da idade de quem acha que o mundo vai acabar amanhã possa, na presença do outro, virar o riso comum e incontrolável e alto que carregam as pessoas jovens demais para entender a vida. Que nasça um amor de uma amizade despreocupada, leve e rápida, daquelas que quando você bate o olho na pessoa já sabe que vai gostar dela e, depois de dois minutos de conversa, gosta tanto que quer ser melhor amigo. Que o amor consiga nascer em saídas divertidas em grupo, nos trocadilhos bobos e nas piadas tão sem graça que nos farão rir. Que haja aquele momento de risada tão alta e forte, seguido do momento que pararemos para pegar ar, olharemos um para o outro, e caiamos na gargalhada outra vez.  Que possa começar a existir sem que percebamos, primeiro se parecendo apenas com muita simpatia, alguns toques de sintonia, depois com amizade, mais tarde com carinho, amanhã com um gostar absurdo da presença do outro e no futuro com um não conseguir estar longe. Que venha fácil e espontâneo como uma risada, que é fundamental. Porque amor nada mais é que conseguir rir junto toda hora, todo momento, qualquer instante, de qualquer coisa. Amor é engraçado porque é absurdo.
Eu busco um amor que eu não encontre e reconheça de cara, mas que aconteça sem aviso. Que eu o conheça assim, como quem não quer nada e que não haja segundas intenções à primeira vista. Que possamos ser apenas pessoas legais no inicio para que haja espontaneidade nas palavras, no ser e no estar. Que comecemos sem perceber que começamos, apenas sendo nós mesmos e esquecendo de tentar agradar. E que, ao longo de abraços em manhãs tristes e chuvosas, através de sorrisos em tardes ensolaradas na praia e por meio de gargalhadas incontidas nas noites que passaremos dançando até o amanhecer nas avenidas da cidade dormente, possamos ir nos descobrindo e nos gostando até que, sem querer, troquemos um desses beijos bonitos, que não estavam escritos para acontecer, que não foram programados por nenhum dos dois.
Que a partir daí possa haver leveza e simplicidade, e possamos deixar acontecer como tem que acontecer, sem interferir, sem forçar, sem pressionar.  Até que possa nascer amor conjunto, de mesma intensidade, com mesma frequência, em dois corações. Brotar amor, para que possamos regá-lo com tudo que há de bonito. E crescer aos poucos como aconteceu com o gostar. 
Eu quero esse amor, mesmo que, no fim, ele não vire amor e continue sendo essa coisa bonita que é sentir algo bonito por alguém. Não importa. Eu só não quero continuar vivendo esse livrinho que escrevi pra viver; esse livrinho que vive inventando sentimento onde não pode existir, seja em mim, seja em outra pessoa.  Esse livrinho que tá sempre planejando demais, criando expectativa onde não cabe esperança. Cansei de viver essa historinha morna que nunca me deixa amar e ser amada, esse filminho de sessão da tarde que sempre acontece de um começar gostando, e tentar fazer o outro gostar, e planejar, e querer induzir um sentimento. Cansei disso, porque nunca gostei desse negócio de fazer alguém gostar de você. Quero um amor para o qual eu não precise ficar dando provas do quanto sou amável, e que não tenha necessidade de me mostrar o quanto eu posso gostar dele.
Mas não sei se esse roteiro que estou tentando escrever hoje pode se adaptar para algo mais real que uma sala de cinema, um palco de teatro. Porque lendo tudo assim, rápido, me pareceu muito uma comédia romântica com uma trilha sonora do rock brasileiro dos anos 80 e 90, daquelas que passam no Telecine Pipoca e acontecem nas inúmeras temporadas de Malhação. Ainda que não eu não queira um senhor principe montado em seu cavalo branco, ainda que eu não me importe com esse romantismo meloso e inexistente, e ainda que eu não seja uma mocinha que espera ser salva da torre, esse roteiro está se parecendo muito com um filme água-com-açúcar.
Acontece que, no cenário atual que eu construí para minha vida, qualquer pedacinho de chão que haja mãos dadas, qualquer risada muito larga e natural e conjunta ou qualquer sentimento que possa ser mútuo já parece conto de fadas demais pra mim, com direito até à final feliz e "Coming soon" escrito na frente. Coisa de cinema, não de vida real. Coisa para os outros, nunca pra mim. Sabe aquela frase que vemos quando um filme entra em cartaz?  Então, acontece que amor assim, pelo visto, é só assim, somente nos cinemas.

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