terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sobre você

A primeira frase acho que já foi. E agora a segunda. Será que chego na terceira? Acho que dessa vez consigo, porque as vezes me parece fácil substituir você por algumas palavras, mas veja bem, já te inclui no texto sem nem terminar o primeiro parágrafo. Como faço? Comecei fingindo que ia ser diferente, mas nunca é. Eu sempre falo de mim, e de você, e de nós e de como o resto do mundo gira em torno disso. E de como as crianças na áfrica torcem pela gente, e como os publicitários do mundo todo inspiram sua criatividade em você. Em como todos os outdoors gritam que a gente nasceu pra existir junto.
To pensando em você, e aceitando o fato que os padres e pastores e bispos pregam que eu não sei falar sobre outro assunto que não te inclua; e sabendo que o mundo só está em crise porque estamos separados e que os EUA vão entrar em guerra se continuarmos longe um do outro. E assim eu comecei já me complicando, te explicando que não sei usar palavras que não são sobre você. To sabendo que é demais, que tá um exagero só, que tá tudo gritando e morrendo sufocado de tanto que eu aperto tudo pra caber no espaço que é você dentro de mim. E tem mais você do que eu.
Agora eu parei, de verdade, e eu paro toda vez. Hoje eu vou falar sobre qualquer outra coisa, mas todas as coisas e outras coisas clamam, pedem, imploram e choram pra eu falar sobre você. E sou boba, lembra? Não sei dizer não. A plantinha do seu Orfeu, que tem sido uma ótima amiga, me sussurrou que você era o assunto preferido dela, e as laranjas da quitanda da esquina, sem que a Dona Vilma escutasse, confessaram que queriam te ler mais vezes nas minhas linhas. E elas sabem que você está nas minhas linhas, entrelinhas, frases, rabiscos, escritos e palavras soltas. E isso acontece não porque eu sou louca, acredite, mas porque ta todo mundo querendo te saber, porque o mundo todo só se importa com você e dane-se todo o resto.
Já avisei que temos outras coisas para nos preocupar, tipo a violência, a fome e a greve dos setores públicos, mas não me ouvem. Só querem saber de você, e como está bagunçado seu cabelo hoje, e com quem você anda falando, e que musica tocou no seu instrumento grave e como acordou. As eleições aí, e eles me perguntando com que roupa você vai estar, em quem vai votar, e o que quer fazer amanhã. Mas não vou usar tudo isso de espaço e gastar tudo isso de tempo te escrevendo, já avisei, porque, apesar do planeta viver em sua função, eu tenho consciência que a vida não é só escrever sobre você. Eu tenho mais o que fazer, aliás. Eu tenho mais sobre o que escrever, inclusive.
Dessa vez, eu sei, eu prometo, juro e afirmo, não vou escrever pra você porque escrever serve pra alimentar sonhos, e eu detesto me iludir. Escrever é afirmar que sente, mas eu não quero sentir mais nada. Não vou escrever pra não parecer a maluca do parque que, em vez da machadinha, tem um lápis na mão. Não vou escrever pra não parecer louca e estranha demais. 
Dessa vez eu vou lá fazer o almoço que já devia estar pronto a horas; vou lá passar a roupa que se acumula faz mais de uma semana; vou lá fazer as mil e uma coisas que deveria estar fazendo e você não deixa, e o mundo me impede de tanto que quer ouvir falar de você.
Se eu disser que talvez, quem sabe, pode ser que eu meio goste de você, o que você faz? Acho que foge, que corre, que morre, porque eu sou essa mania toda de achar que posso ser especial no seu coração. Essa mania de pensar que escrevo algo que valha a pena ser lido, algo que não seja sobre você e seus problemas, e suas veias e seus poros.  Essa mania de achar que posso ser normal. Mas não sou. E acho que gosto de você. Olha a tragédia! Eu, no seu lugar, teria medo de mim. Não vou escrever, agora eu parei, sério. Não vou escrever porque já estou escrevendo. Não vou escrever porque, droga, já escrevi.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Morrer de arte

Tenho certa repulsão pelas pessoas as vezes, pelas suas crueldades, e sujeiras e nós. Não nego, não, porque seres humanos são mesmo complicados. Mas quando esqueço de ver a parte feia, me emociono com esses seres. Ouço uma musica bonita, e tenho dores no coração de tanta felicidade instantânea. Vejo as artes: poesias, músicas, pinturas e belezas que essas mãos tão falhas e tão humanas foram capazes de criar, e fico encantada. Porque, para fazer arte, é preciso um coração tão delicado a ponto de sentir os mais leves e sutis sentimentos, e isso é tão raro entre nós! Por isso, escrevo sobre essa magia que, vez ou outra, invade os poucos corações nobres que ainda circulam e batem por aí. 
Vejo, ouço e sinto as pessoas, e seus corações, e suas canções e suas formas de se expressar. E tenho vontade de chorar. Um choro de alma, um choro de gratidão e felicidade por ter sido tão forte e delicadamente tocado. Um choro de amor, de beleza excessiva, de excesso de poesia. Um choro de quem reconhece que a humanidade é suja e podre, mas, vez ou outra, sabe ser pura também.
Quando vejo uma pessoa expressando sentimentos verdadeiramente, sinto leveza na alma. Porque a arte é isso, libertação de espírito e não há quem não morra um pouco disso. Eu, por exemplo, morro bem mais que só um pouco, e morro diariamente, e morro feliz, porque não há felicidade maior que morrer de arte.

domingo, 11 de novembro de 2012

Somente nos cinemas

Eu quero agora uma mudança. Rasgar esse roteiro porco e sujo que escrevi pra ter uma vida mediana e insossa, e escrever tudo outra vez, do começo.
Vou começar pelos meus amores - ou falta deles. Mas eu quero amor que acontece junto e de repente. Um amor que possa nascer das risadas que daremos juntos ao pôr-do-sol; das madrugadas que iremos virar andando pelas praças mal iluminadas da cidade feito dois perdidos, e ouvindo e cantando com o Renato que somos tão jovens. Que possa nascer das lágrimas derramadas e, um pelo outro, enxugadas. Que esse choro típico da idade de quem acha que o mundo vai acabar amanhã possa, na presença do outro, virar o riso comum e incontrolável e alto que carregam as pessoas jovens demais para entender a vida. Que nasça um amor de uma amizade despreocupada, leve e rápida, daquelas que quando você bate o olho na pessoa já sabe que vai gostar dela e, depois de dois minutos de conversa, gosta tanto que quer ser melhor amigo. Que o amor consiga nascer em saídas divertidas em grupo, nos trocadilhos bobos e nas piadas tão sem graça que nos farão rir. Que haja aquele momento de risada tão alta e forte, seguido do momento que pararemos para pegar ar, olharemos um para o outro, e caiamos na gargalhada outra vez.  Que possa começar a existir sem que percebamos, primeiro se parecendo apenas com muita simpatia, alguns toques de sintonia, depois com amizade, mais tarde com carinho, amanhã com um gostar absurdo da presença do outro e no futuro com um não conseguir estar longe. Que venha fácil e espontâneo como uma risada, que é fundamental. Porque amor nada mais é que conseguir rir junto toda hora, todo momento, qualquer instante, de qualquer coisa. Amor é engraçado porque é absurdo.
Eu busco um amor que eu não encontre e reconheça de cara, mas que aconteça sem aviso. Que eu o conheça assim, como quem não quer nada e que não haja segundas intenções à primeira vista. Que possamos ser apenas pessoas legais no inicio para que haja espontaneidade nas palavras, no ser e no estar. Que comecemos sem perceber que começamos, apenas sendo nós mesmos e esquecendo de tentar agradar. E que, ao longo de abraços em manhãs tristes e chuvosas, através de sorrisos em tardes ensolaradas na praia e por meio de gargalhadas incontidas nas noites que passaremos dançando até o amanhecer nas avenidas da cidade dormente, possamos ir nos descobrindo e nos gostando até que, sem querer, troquemos um desses beijos bonitos, que não estavam escritos para acontecer, que não foram programados por nenhum dos dois.
Que a partir daí possa haver leveza e simplicidade, e possamos deixar acontecer como tem que acontecer, sem interferir, sem forçar, sem pressionar.  Até que possa nascer amor conjunto, de mesma intensidade, com mesma frequência, em dois corações. Brotar amor, para que possamos regá-lo com tudo que há de bonito. E crescer aos poucos como aconteceu com o gostar. 
Eu quero esse amor, mesmo que, no fim, ele não vire amor e continue sendo essa coisa bonita que é sentir algo bonito por alguém. Não importa. Eu só não quero continuar vivendo esse livrinho que escrevi pra viver; esse livrinho que vive inventando sentimento onde não pode existir, seja em mim, seja em outra pessoa.  Esse livrinho que tá sempre planejando demais, criando expectativa onde não cabe esperança. Cansei de viver essa historinha morna que nunca me deixa amar e ser amada, esse filminho de sessão da tarde que sempre acontece de um começar gostando, e tentar fazer o outro gostar, e planejar, e querer induzir um sentimento. Cansei disso, porque nunca gostei desse negócio de fazer alguém gostar de você. Quero um amor para o qual eu não precise ficar dando provas do quanto sou amável, e que não tenha necessidade de me mostrar o quanto eu posso gostar dele.
Mas não sei se esse roteiro que estou tentando escrever hoje pode se adaptar para algo mais real que uma sala de cinema, um palco de teatro. Porque lendo tudo assim, rápido, me pareceu muito uma comédia romântica com uma trilha sonora do rock brasileiro dos anos 80 e 90, daquelas que passam no Telecine Pipoca e acontecem nas inúmeras temporadas de Malhação. Ainda que não eu não queira um senhor principe montado em seu cavalo branco, ainda que eu não me importe com esse romantismo meloso e inexistente, e ainda que eu não seja uma mocinha que espera ser salva da torre, esse roteiro está se parecendo muito com um filme água-com-açúcar.
Acontece que, no cenário atual que eu construí para minha vida, qualquer pedacinho de chão que haja mãos dadas, qualquer risada muito larga e natural e conjunta ou qualquer sentimento que possa ser mútuo já parece conto de fadas demais pra mim, com direito até à final feliz e "Coming soon" escrito na frente. Coisa de cinema, não de vida real. Coisa para os outros, nunca pra mim. Sabe aquela frase que vemos quando um filme entra em cartaz?  Então, acontece que amor assim, pelo visto, é só assim, somente nos cinemas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Tempo perdido

Nós somos jovens e acidentes acontecem, e pessoas morrem e fazemos umas merdas de vez em quando. Falamos demais, de menos ou ficamos em silêncio e nenhuma dessas coisas fazemos em momentos apropriados. Queremos o tempo todo sair da rotina, temos ânsia de viver como se fossemos morrer amanhã, de experimentar como se tudo fosse degustável, de não apenas assistir a vida. Queremos ir pra todos os lugares do mundo ao mesmo tempo. Dormimos muito e tentamos ao máximo ficar acordados pra não perder nada da vida. Viramos noites, desviramos dias, colecionamos olheiras, mas isso não nos preocupa porque somos jovens, e isso é mais experiência pra por na bagagem. Não nos condene, não nos culpe, não nos julgue. Vocês já foram jovens também, então porque repreendem tanto isso tudo que já fizeram? Será que esqueceram como era boa a sensação de andar descalço na rua enquanto a cidade está dormindo? Como era bom o gosto da risada, enquanto vocês e seus amigos se apertavam pra caber no mesmo carro?
Nós somos jovens, com muito juizo, mas muito mais vontade de viver. Somos jovens, cheios de dúvidas sobre o amanhã, cheios de certezas sobre a vida. Cheios de saudade da infância e cheios de vontade do futuro. Temos nosso próprio caminho para seguir e, definitivamente, não pretendemos seguir os passos de vocês, por melhores e mais corretos que esses tenham sido. Queremos formar novas pegadas na areia, pisar onde ninguém mais ousou, falar o que nunca foi dito e fazer o que ninguém teve coragem ainda. Sonhamos com uma sociedade cheia de regras, para que possamos quebrar todas. Gostamos de ser exceção, fazer diferença, lutar pelo que acreditamos. E acreditamos em muitas coisas que vocês também acreditavam e que, hoje, nem se lembram mais. Gostamos da musica porque ela nos leva a lugares que só a imaginação pode criar. Amamos a liberdade porque ela é a única que confia que saberemos criar nossos próprios limites. Somos muitos. Apaixonados pelas artes, porque ela nos permite expressar o que vocês tanto reprimem, nos permitem falar o que vocês não querem ouvir, e fazer o que não fazem. Gostamos da noite, do sereno, da calçada e das risadas entrecortando o Renato Russo em suas melodias que não saem dos nossos ouvidos. Mas crescemos, e perdemos a vida, e perdemos o tempo, porque o tempo passou. Éramos tão jovens!
Esses nossos atuais, sérios e adultos tons pastéis estão enjoando, estão desbotando. Da tempestade que éramos, viramos essa brisa. Mas eu quero o furacão, que bagunça tudo. Preciso me bagunçar um pouco, porque to organizada demais. To responsável demais, e gostei tanto de passar a madrugada na rua, deitada no chão, como se o mundo não importasse. Como fazíamos quando eramos jovens, e despreocupados, e inconsequentes, e com ânsia de mudar o mundo. Lembra?
E hoje fiquei velha, e o trabalho não me deixa cantar, me cegam os olhos essa sociedade passiva. E onde foi parar nosso tempo? Nossa coragem pra arriscar?
Éramos tão fortes, tão poéticos, tão simples, tão felizes ao acreditar no amanhã, ou ao não pensar nele. E quanto tempo faz que não paramos para sentar na calçada e discutir nossos planos para o futuro? Quanto tempo passamos sem sentir o sereno da noite mergulhar em nossas peles quentes como se não houvesse futuro algum? Quanto tempo passamos perdendo o tempo que nos perdeu? Temos tanto tempo a perder ainda! Desde que sejamos sempre jovens, e nos percamos da perda de perder tempo perdido, tudo vai ser novo, porque somos jovens, tão jovens, então vamos viver esse juventude! Porque perder nosso tempo eterno sendo jovens não é tempo perdido, é tempo vivido.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

[Muda]nça

Eles correm por todos os lados, vencem tantos obstáculos e, por alguns, deixam-se cair. O caminho ora fica torto, ora fica louco. Todo o mundo corre atrás, mas ninguém liga de verdade. E não importa que chova, que molhe, que corra, que chore. A vida segue, o tempo continua, porque o mundo não pára de girar e girar e girar, e tudo gira junto, e tudo fica do avesso. Quando abrem os olhos, e tudo é paraíso de novo, e a água é límpida novamente, e as flores são aromas outra vez, e o sol começa a nascer. Até que, talvez, chegue a tempestade. Até que, quem sabe, venha o furacão. Porque as belezas acabam, e tudo fica triste só para que, no instante seguinte, possamos sorrir, as vezes mais, as vezes nem tanto. Mas o sol sempre aparece, mas o céu é sempre azul, mas as nuvens sempre choram. Pra ver se vira o tempo, e fica do avesso e atravessa o mar pra chegar no deserto. E tudo vira nada, porque tudo é muito e nada é muito pouco. Aí chega o que não foi, e cai o que nunca parou em pé. Até que começa a mudar, porque mudança muda e muda tanto que acaba ficando mudada. Acaba ficando assim: igual. Assim, muda.


Não sei mais escrever e nada tá fazendo sentido nenhum, se é que algum dia já fez. Sinto muito.