quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Pra dar sorte



Eu fui criada assim: sempre dois parabéns por aniversário, porque um era meu e outro era do meu vô. Algumas vezes, para fazer graça, eu apagava a vela dele e ele a minha, e então eu avançava para a terceira idade, e ele retornava à adolescência. Os presentes nunca eram apenas para mim, nem apenas para ele. Tudo era dividido: o bolo, nas vacas magras, era compartilhado e, nas vacas gordas, duplicado.
Acostumei a ter duas velas, uma azul e outra rosa. Acostumei a trocar olhares risonhos e envergonhados com ele enquanto todos batiam palmas e cantavam para nós. Acostumei a abraçar não só para receber as felicitações, mas também para desejá-las. Acostumei a segurar a faca do bolo sempre com a mão dele em cima da minha e a ouvir ele cantando do meu lado "pom pom pom pom", enquanto todos batiam palmas. Acostumei também com o som da gaita dele, instrumento nunca estudado, mas que ninguém no mundo nunca vai saber tocar bonito daquele jeito, tocar tocando a gente como ele fazia.
Esse ano, porém, foi diferente. Não comemoramos em casa, não cantamos duas vezes e não havia velas. Não desejei feliz aniversário para ninguém, só agradeci. Não pude olhar para ninguém durante o parabéns, e sorrir da situação. Não presenteei ninguém. Dessa vez eu cortei o bolo sozinha, e me pareceu muito difícil fazê-lo. Dessa vez, teve apenas um primeiro pedaço e foi só pra comer, porque ninguém perguntou se era pavê. Dessa vez eu não fiz duas idades, 17 e 79 anos, nem 18 e 80 anos, porque dessa vez eu fiz só 19 e eu sei que vou ter que me acostumar com isso de agora em diante. Mas eu queria ter feito 81 também. E isso me entristeceu um pouco. Isso me fez lembrar que eu sempre gostei de fazer aniversário acompanhada e não ser a única atrás da mesa do bolo. Dessa vez, a gaita estava em casa, guardada numa caixa, e não emitia som nenhum.
Dessa vez, quando o parabéns começou, eu corei de leve e sorri, mas não foi a mesma coisa porque eu corei sozinha. Na hora de cortar o bolo solitário, minha mão ficou frouxa e eu quase quebrei a tradição. Comecei o corte de cima mesmo. Depois disso, enquanto terminavam de distribuir os pedaços de bolo, eu pensei comigo mesma, desejando dar um pulinho no passado: "Quando será que vamos cantar parabéns juntos de novo, hein?", e, surpreendentemente, a resposta me veio: "Eu sou peão, eu lá sei? Mas corta de baixo pra cima, que dá sorte".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)