quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ser mulher




Ser mulher é ser destratada todos os dias, em todos os lugares. É não poder sair de casa sem ser desrespeitada com palavras nojentas, olhares sugestivos, gestos obscenos, buzinas constantes. Não poder vestir-se como deseja sem ser julgada. Ser mulher é não poder ser simpática e, as vezes, nem mesmo educada, sem despertar interesse que, quase nunca, é recíproco. Ser mulher é não poder ter um cargo digno, uma posição de destaque, sem que ter ouvir que "deu pro chefe"(com essas palavras ainda). É não poder exercer uma profissão e ganhar o mesmo salário que um homem ganharia na mesma função. É ser repreendida pelo pai, pelo irmão, pelo namorado, pelos tios, primos, avôs, amigos e todos os homens que te conhecem.
Ser mulher é não poder andar num onibus lotado, sem ter que aguentar abusos. Ser mulher é ter medo de sair sozinha; é não poder sair de casa depois que escurece, porque isso é "pedir pra ser estuprada". Ser mulher é não poder revidar quando te desrespeitam, pra não ser ainda mais desrespeitada. Não poder andar tranquila, sem ser seguida por olhares ou por pés mesmo. 
Ser mulher é não poder ir para um barzinho, uma balada, uma festa, um restaurante, sem ser bombardeada por julgamentos, rótulos e suposições. É não poder beijar um cara, sem ser taxada de vadia. Ser mulher é não poder dançar, sem que um achem que isso significa um "sim" e te agarrem sem seu consentimento. Ser mulher é não poder fazer uma única besteira no trânsito, coisa que homens fazem todos os dias, sem ter que ouvir te mandarem pilotar fogão. Ser mulher é não poder colocar um short, uma saia ou um vestido enquanto os homens andam sem camisa e com a cueca aparecendo; é não poder dizer sim, sem ser confundida com uma prostituta, e não poder dizer não, sem ouvir que está "fazendo doce."
Ser mulher é não ser levada a sério quando chora, ou fica brava, ou briga e ter que ouvir que é "tpm". 
Ser mulher é não poder fazer várias coisas que homens fazem, e ainda ter que ouvir que "ele é homem" como justificativa. Ser mulher é não poder existir sem se sentir um pedaço de carne; não poder passar por um lugar mais estreito, sem sentir mãos passando por seu corpo e puxando seu cabelo como se você não estivesse ligando. Ser mulher é não poder ser bonita, sem ser vista como burra; é não poder beber, sem ser vista como vulgar; não poder falar gírias, sem ouvir que isso não é coisa de moça. Ser mulher é não poder não querer casar; não poder não querer filhos; não poder rejeitar relacionamento sério mesmo não gostando da pessoa.
Ser mulher é ter que mudar de calçada sempre que vê um homem vindo no sentido oposto, por saber que a chance dele te desrespeitar de alguma forma é de quase 100%. Ser mulher é ter que andar olhando pra baixo, séria, com o corpo inteiro coberto, porque qualquer olhar, qualquer mexida no cabelo, qualquer pedaço de pele à mostra, será mal interpretado e levará a situações que você não consentiu em momento algum e pelas quais será culpada mais tarde. 
Ser mulher é ter que saber cozinhar, passar, lavar e limpar a casa. Ser mulher é ser rotulada a todo momento. Ser mulher é ter que "dar-se ao respeito", mesmo que os homens não mereçam e nem façam o mesmo. Ser mulher é ter que achar normal um cara que fica com várias mulheres e ter que concordar que uma mulher que fica com vários homens é vagabunda. Ser mulher é ter que estar sempre magra, sempre maquiada, sempre bonita e, ao mesmo tempo, não poder estar tão arrumada pra não ser estuprada na rua. Ser mulher é ter que estar sempre depilada, de bom humor, com o cabelo arrumado, a sobrancelha feita e ter um belo par de peitos, um belo par de pernas torneadas, uma cintura fina e unhas sempre impecáveis, pra ser bonita. 
Ser mulher é ter que ouvir que assovios e cantadas são elogios e as mulheres gostam sim porque são egocêntricas. Ser mulher é  ter que andar se escondendo, se encolhendo nos cantos da rua, quase correndo para não ser notada e talvez chegar em casa viva e inteira. É ter que ouvir desde um senhor com idade do seu avô te chamando de "gostosa", até um rapaz que mal saiu das fraldas dizendo "delicia" pra você. Ser mulher é ter que, muitas vezes, chamar o segurança do local porque o seu "não" não é respeitado. Ser mulher é ter que ser feminina e, ao ser, ser chamada de fresca.
Ser mulher é ter que ser flor, no meio de espinhos. É ser muito mais do que simplesmente parece, e ser tratada como muito menos do que é. É não ter culpa de ser desrespeitada e, mesmo assim, chegar em casa sentido nojo de si mesma, sentindo-se imunda.
Ser mulher, nessa sociedade machista, é ter que ser muito mulher e, ao mesmo tempo, não poder sê-lo. É tortura; é decepção. Ser mulher dói, ofende, magoa, irrita; é gostar de ser mulher, mas não querer ser. É saber muito bem ser mulher, e ter que ver a sociedade querendo te ensinar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sobre as Isabela's

Elas sempre chamam Isabela ou variações. Por algum fetiche ou fantasia, ou sonho deles. Mas é sempre Isabela. E elas são bonitas, são legais, são meigas e são o que há de mais apaixonante e encantador. E todos os homens sempre as querem, sujas, molhadas, suadas ou fedidas. As Isabela's são o exemplo de mulher perfeita, e eu não sei de onde veio essa preferência absurda por esse nome. O que eu sei é que toda mulher, agora, quer ser uma isabela. Porque quer ser chamada de Bela, quer ser divertida, charmosa e inteligente, como são as Isabela's dos sonhos deles. Então eu estive pensando se não é esse o motivo de você ainda estar aí, parado, com essa cara de quem não amou. Eu estive pensando se, talvez, não é por isso que você não me ama. Porque eu não sou Isabela. Mas eu mudaria meu nome por você. Se o meu não estivesse a tal altura, eu poderia ser Helena, ou Juliana, ou Maria Eduarda ou só Lia. E, se não houvesse nenhuma que te agradasse, eu sei que ainda teria uma carta na manga. E eu seria Isabela. Porque todo mundo quer uma Isabela, todo mundo ama uma Isabela. Então será que eu também posso ser uma Isabela também? Será que eu posso ser não uma Isabela qualquer, mas a sua Isabela?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O pouco que sei

Me preocupei tanto em mudar o mundo, que esqueci que a principal mudança era aqui dentro. Cabia a mim, e somente a mim. E, em que ponto de loucura me encontrava para, de fato, acreditar que podia salvar alguma coisa? Em que nivel de malquice estava para achar que dava conta disso? Se não posso nem lidar comigo mesma, mal sou capaz de me salvar, de onde tirei essa ideia absurda de consertar tudo a minha volta? Sou eu a peça quebrada da história. A peça fora do lugar. Então porque sempre quis tanto ensinar os outros? O que eu sempre quis ensinar, visto que nada sei? Acho que nunca me toquei que sou eu a errada, a que precisa de lições. Sou eu o defeito, a tragédia, o acidente.
Infelizmente, só percebi isso agora, e não faço ideia do que me levou a pensar que era grande, e forte, e capaz o suficiente para mudar o mundo e fazer tudo que achei que faria, ser tudo que achei que seria capaz de ser. Eu acreditava de verdade na minha força de vontade, acreditava que era grande, do tamanho ou até maior que meus sonhos, sempre utópicos demais. Acreditei ter a capacidade para ser tudo, qualquer coisa. Acreditei que seria unicamente boa em alguma coisa. Mas sou tão pequena, que quase sumo entre a multidão que, um dia, eu quis tanto guiar. Sou tão minúscula quanto os grãos de areia no asfalto, porque sou deslocada também.
E, enquanto todo mundo está estudando, trabalhando e buscando ser alguém, eu estou aqui, olhando para o céu que nunca vai me fazer acostumar com sua beleza, conversando com os animais que sempre fizeram mais sentido que os humanos e tentando, a todo custo, fazer rir quem eu amo. E eu queria ser diferente, ah Deus, como queria! Queria ser orgulho para alguém, não despesa. Queria parar de decepcionar as pessoas que, iludidas, acreditam que eu vá ser algo além desse nada na vida. Eu nunca quis ser decepção/decepcionar ninguém. Nem cansar ninguém com meus falatórios excessivamente preocupados, com meus dramas e exageros e excentrismos e egoísmos. Afinal, todo mundo tem problema, tem dia ruim, e eu não quero alugar ninguém com essas besteiras. Não quero ser sempre a menina problemática, complicada, reclamona. Porque eu sei que quem te ama, tolera seus dias ruins, suas fases ruins, suas crises. Mas eu vivo constantemente assim. Minha vida é uma crise contínua e sem fim, minha fase ruim já dura anos e anos....uma década inteira. E não acho justo cobrar tanta paciência, tanta atenção de alguém que me quer tão bem.
Por isso talvez, acordei daquele antigo sonho que tinha, também utópico, de fazer algo mais importante que esse nada que faço; ser algo mais digno que essa tragédia de erros que sou;saber um pouco mais que esse pouco que sei.
Esse absurdo de nadas que sei fazer. Assumo hoje a real condição que me encontro. Paro de ser romântica, e transformo-me em realista.
Não queria ter que admitir na frente de todos vocês, que pouco ou muito apostaram que um dia eu teria que virar alguma coisa, que essa sou eu. Essa criatura sem nenhum dom, sem nada a acrescentar, sem nada a oferecer.
Prazer, não virei nada. Ou melhor, virei nada, porque nunca fui alguma coisa. A única coisa que sei fazer mesmo é ser fraca e não aguentar o peso do mundo. O meu próprio peso. O peso da vida, da loucura que é existir. Ser fraca. Isso eu sei. Fracassar, também sei.
No fundo mesmo, eu queria que vocês soubessem de tudo isso, só nunca contei por medo de decepcionar demais, tanto a ponto de afastá-los de mim. Eu morreria sem vocês. Eu morro ainda, sempre vou morrer.
Por isso eu os iludi, fazendo-os acreditar que serei alguém na vida, farei algo no mundo. Eu os engano descaradamente cada vez que concordo com esse absurdo sobre um futuro brilhante. Talvez porque seja o pouco que sei fazer, magoar, decepcionar, enganar e fracassar. O pouco que sei ser.
Hoje, aqui estou, escrevendo tudo isso como se fosse compensar minhas faltas e excessos. Escrevendo tudo isso como se fosse uma carta de despedida, e, talvez, seja. 


"Desculpe, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de dizer que andei errado e eu entendo as suas queixas tão justificáveis e a falta que eu fiz nessa semana, coisas que pareceriam obvias até pra uma criança."