sexta-feira, 27 de julho de 2012

Autossabotagem

Com tanto assunto no mundo, eu só sei escrever sobre você ultimamente. Logo você, que não dá a mínima e nem o faz por maldade.
Mas eu escrevo sobre você, porque enquanto esses caras legais, divertidos e bonitos me abraçam, eu penso que trocaria todos esses pares de braços fortes pelo seus braços magrelos. Enquanto eu rio de uma piadinha boba de um cara descolado, eu penso em como até o silêncio me faria rir muito mais, desde que fosse o seu. Eu até chego a comentar com alguma amiga sobre o sorriso encantador do moço da esquina, falo do cara bonito que passou, do estilo do menino que está parado do nosso lado e do perfume que o fulano usa e nos derrete. Mas, enquanto a conversa flui tipicamente, é no seu estilo que eu estou focada. É pela sua beleza realmente bela que meus olhos fraquejam. No seu perfume que me faz ter vergonha de senti-lo, de tão bom, que eu me perco. As vezes eu até começo a me sentir feliz com a presença de algum moço simpático do meu lado, gosto até do papo dele, mas aí me lembro de como era ter você por perto, e fico triste de novo.
Eu escrevo sobre você porque, mesmo quando os melhores caras do mundo passam por mim, é em você que eu estou pensando. Não me importa que eles sejam cavalheiros, românticos, engraçados, atenciosos, bonitos, cheirosos, bem vestidos, companheiros e charmosos. Só o que ecoa na minha mente é que nenhum nunca vai ser melhor que você e seus dentes meio separados. Você e sua camisa que já quase anda sozinha. Você e sua fala mole. Só o que meu coração bombeia para o corpo é que o melhor sorriso sempre vai ser o seu; o melhor cheiro, a melhor voz, o melhor abraço.
Ainda que você não seja padrão de beleza e absolutamente ninguém te ache tão maravilhoso quanto eu, não ligo. Não me importo se você não faz academia, não tem um carro na garagem, não gosta de futebol e não deixa a barba crescer. Sua alma é cachoeira em dia quente, seu coração é céu azul e, pra mim, isso já é até muito. Nem sei se mereço tanto.
Eu acho que não é amor. Porque não conheço você como eu gostaria. Não conheço direito seus tiques, manias e defeitos. Mas desde que te conheci, me propus a aceitar tudo que viesse incluso no seu pacote. Pode não ser amor, mas é um gostar tão sincero e tão bonito. É um carinho que nunca senti antes por alguém. Um gostar que não me machuca, não me faz querer chorar até desidratar, não me deixa louca. Tão saudável, que faz parecer certo. Você me faz tão bem, que parece certo esse quase-amor todo que eu sinto. Mas não pode ser certo, porque, se fosse, seria recíproco, não é? E, pelo que te conheço, eu nunca nem passei pela sua cabeça, nem nos seus sonhos mais absurdos.
Pior que isso, é te ver sendo comigo, assim como você é com todo mundo, simpático, divertido, educado e sempre muito gentil. Mas você não pode ser assim comigo, porque eu sou meio boba. Você não pode ser bom pra mim, porque aí eu vou querer mais ainda me aproximar. Quanto mais bem você me fizer, mais mal estará fazendo, porque, no fim das contas, sabemos que a história termina comigo falando o que sinto, e você se lamentando por não poder corresponder, porque você é tão gentil, que vai querer se desculpar por não gostar de mim também.
Por isso, hoje, eu cheguei tão perto de desistir de você, o que é realmente dificil de se fazer, porque fácil é desistir de alguém que te faz mal, te despreza e não te merece. O que não é nem nunca foi seu caso.
Enfim, por um momento, eu cheguei a aceitar, relutante, os fatos. Mas, por obra do acaso(porque sou boba, mas nem tanto pra acreditar em destino), você falou comigo. E, por um momento, eu fui tão feliz, mas tão feliz, que fiquei triste. Porque quando a felicidade vem assim, rápido e com intensidade, ela vai embora fácil. E eu tenho medo de ser feliz.
Mas eu esqueci disso, naqueles poucos minutos. Esqueci que ia desistir de um impossível "nós". Conversar sobre essas besteiras com você, me faz parecer corajosa e eu fingi que era mesmo. Naquele instante, eu aceitaria que você derramasse café no meu cabelo, eu não ligaria de você me carregar nas costas, eu deixaria você jogar fora todos os meus sapatos. Naquele instante, desistir de você pareceu o absurdo mais ilógico da história da humanidade. E, mesmo agora, já disponibilizando da razão novamente, a ideia de desistir me parece extremamente idiota.
Acontece que você sempre faz isso comigo, sem nem notar. Você sempre quase para de falar comigo, aí eu sempre quase acho que não vai dar certo. E depois eu sempre quase paro de querer gostar de você, e quando eu estou quase conseguindo me convencer, você ressurge e detona com o trabalho árduo de dias e dias. E lá estou eu novamente. Aqui estou eu novamente. Quase querendo desistir, e quase achando graça de mim mesma por fingir que consigo fazê-lo. Só que, não desistir, é autossabotagem, e eu estou tentando me amar um pouco, então por que você não deixa? Por que não decide se vai me amar, ou deixar que, ao menos, eu me ame?

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Nós


A gente combinou de ensinar todo mundo a amar. Combinou, de papel passado, cada par que formaríamos. O trato era que eu reunisse características femininas e você, masculinas. Ambos saberíamos em quem atirar a flecha, e os alvos sempre foram relativamente fáceis. Éramos a ponte de acesso ao amor. A ponte que levava à perfeição imperfeita que é sentir. Éramos o caminho, reto, liso e macio que conduzia às belas canções, aos sorrisos bobos, às pernas trêmulas e borboletas no estômago. Éramos a produção do filme, os bastidores, as mãos que ligam a música quando o momento atinge o climax. Mas aí, um dia, nossas flechas encontraram o mesmo alvo, e acharam que podiam existir assim. E nos fizeram acreditar que podíamos ser não apenas a ponte, mas a estrada toda. Não apenas a flecha, mas o alvo. E eu não sei se podemos tanto assim.
Porque o momento que ajudávamos a construir era fogo, e somos gelo. O cenário que inventamos para que o romance de tantos e tantas acontecesse era conto de fadas, e somos realidade. O amor era e ainda é laço e você e eu, querido, somos nós, atados, amarrados, enrolados. Um pedaço de pano que não serviu para mais nada, se não dar nós e fazê-lo de fuga para o amor dos outros.
E agora esse mesmo amor, que é feito de laços, resolveu nos abraçar e existir e habitar. E eu pensei que, talvez, esse fogo pudesse derreter o iceberg da nossa vida, e esse conto de fadas pudesse ser o nosso refúgio da realidade. Eu pensei que, talvez, pudéssemos aprender e não só ensinar. Talvez pudéssemos amar. E, talvez, quem sabe, possamos construir laço por cima dos nós e deixar de ser nó, e virar apenas laço. Para deixarmos de ser eu e você, e sermos, enfim, nós.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Bobices

É que eu tive medo quando sentei na poltrona do cinema. Eu, e minhas possíveis explicações por estar sozinha, por carregar uma mochila num local inadequado, por estar vestida feito mendiga e por ser um desastre total com pipocas na mão, nos acomodamos incomodadas com o que viria depois. A morte do Jack, as três mexidas na cadeira de trás e a encenação de um amor de filme que faz a gente querer morrer quando acaba de assistir não eram exatamente a terapia relaxante que eu estava precisando.
Inclusive, tive que sair antes de acabar pra ir no banheiro. Logo eu, largar um filme no meio. Logo esse filme. Mas acho que, talvez, fiquei tão sozinha, que o chá gelado não quis permanecer nesse corpo solitário. Ou, por estar me sentindo tão minúscula, devo ter acabado encolhendo mesmo, fazendo o chá transbordar corpo a fora. Tanto faz. Voltei pra sala e fiquei confortável. Só que tudo que eu queria era olhar pro lado e ver alguma coisa mais consolável que uma mochila branca e sem personalidade. Ironizei minha própria situação, horas mais tarde.
Quando a pipoca escorregou da minha mão, eu quis agradecer alguém por ter segurado. Mas acontece que ela caiu, porque a mesma imaginação que fica inventando amor, não foi capaz de materializá-lo. E eu estava vendo o bote salva vidas descer enquanto o Jack ficava pra morrer. E, enquanto todo mundo parava de respirar pelo drama da cena, eu estava agachada limpando o chão de chá com pipoca molhada. Chorei, e todo mundo chorou junto. Pela centésima vez, o Jack estava morrendo e, dessa vez, eu não derramava minhas lágrimas por causa dele. A água escorreu dos meus olhos, porque eu sou boba.
A Rose congelando, o Jack morrendo e a tragédia excessivamente dramática ali, bem no climax. E eu lá, me concentrando pra não derrubar mais nada, pra não fazer mais barulho e não ser chutada pela poltrona de trás, outra vez. Tudo isso acontecendo, e a brilhante conclusão que fiz foi essa. Sou boba. Não do jeito fofo de ser boba. Não charmosamente boba. Mas boba no sentido bem literal mesmo. Besta, tonta, bocó, idiota e, na pior das hipóteses, retardada.
Aliás, há até uma hipótese pior: comum. Porque pensando bem, esse negócio de se chamar de louca e ficar se detonando na internet já virou moda entre as meninas. Todas atrás de um confete bem jogado, só pra alegrar o dia. To sabendo disso, e to me detestando por saber que vou ser comparada com elas. Mas falo sério, acredite quem quiser. Sou boba além do que a minha idade permite. Além do que o mundo permite.
Muita gente sabe disso, alguns mais outros menos. Mas todos têm pelo menos alguma noção da minha bobice aguda, que, convenhamos, tem dia que está insuportavelmente alta.
Eu canso de ser boba, sério. Canso muito, fico P da vida. E eu chorei aquela hora, porque tinha cansado de novo. Tinha cansado das pessoas me encarando no shopping, cansado de ser desastrada, cansado de estar cansada de mim e da minha mochila branca, e do meu curso, e da minha burrice, e da minha besteira de achar que sou algo mais do que essa tragédia. Cansei, até do Jack e suas frases de efeito, e seu amor inexistente e sua morte. E logo eu, amante do romance, logo ali, no meu ambiente preferido, no escuro da arte que mais me toca. Chorei, porque detesto chorar e porque nada mais fazia sentido, nem minha bobice, nem o filme, nem a pipoca, que me parecia meio solitária agora, caída no chão. Chorei porque não fazia sentido ser eu, nunca fez e acho que nunca vai fazer.