quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sinto, logo escrevo



Eu ando escrevendo muito. Muito mais que sempre escrevi, e, ironicamente, na época mais corrida, mais ocupada da minha vida. Não que eu esteja deixando de estudar pra escrever, nem deixando a prioridade de passar no vestibular. Eu escrevo de madrugada, escrevo enquanto estudo gramática. Eu escrevo onde der, e quando tiver uma brechinha. Porque, se eu não escrever, eu não durmo, eu não sonho, eu não consigo pensar, eu mal respiro. Se eu parar de escrever, eu morro. 
Escrever, pra mim, não é como era para os parnasianos: estética, forma, perfeição e realidade. Escrever é simplesmente o sinônimo de sentir, é fantasia, é arte pura, abstrata, fascinantemente absurda e inexplicável. Não dá pra ter um coração, e não escrever. Não dá pra pensar, e não escrever. Não dá pra ser, pra viver, pra se emocionar, pra se expressar, pra sentir, sem escrever. Não existe existir sem escrever. E eu ando dando meus pulos, arrumando tempos improváveis e inconstantes e curtos, para não me perder de mim e esquecer da minha origem. Porque eu nasci da arte. 
Ando na rua, e a cor do farol me toca. Subo as escadas, e a vista, no ultimo degrau, me inspira. Converso com alguém, e as palavras corriqueiras e sem peso e fáceis, me emocionam. Eu vivo o tempo todo assim, ligada à vida e prestando máximo atenção em seus detalhes, porque tenho consciência suficiente para saber que ela é sopro e que o momento você perde no segundo que pisca os olhos. Tenho consciência que o instante, o agora, o já, é a eternidade e acaba no mesmo tempo que começa. E isso me faz viver assim, saboreando cada pedaço de cor que aparecer no céu, degustando cada tom de voz, cada formato de pedra da calçada. 
Passo pela vida, admirando tudo nela, tentando captar o o máximo que puder, pra não partir achando que perdi as belezas. Por isso, não dá pra não escrever. Não dá pra não tentar explicar um pouquinho, descrever um bocadinho que seja desse poema que é existir. Talvez eu seja meio romântica de achar que tudo é tão aproveitável, tão palatável, tão tocável. Mas não sei não escrever quando vejo um céu azul; não sei não escrever quando vejo bondade, quando sinto que estou num ambiente de pessoas sensitivas. Não sei escrever sem sentir, nem sentir sem escrever. Porque ambos andam juntos, de mãos dadas. Casam-se. 
Não é apenas um conjunto de palavras editadas, porque quando a inspiração me toma, não dá tempo de editar, vai tudo simplesmente saindo e meus dedos começam a tremer de tanto que eu aperto o lápis no papel, na pressa de registrar o sentimento intenso e rápido, com medo que ele se esvaia antes que possa degustá-lo, transformando-o em palavras. É bem verdade que quase nunca dá para ser fiel ao que senti, porque as palavras tão humanas e falhas criadas pelo homem, jamais traduziriam tão belos e divinos sentimentos, criação do Criador. Mas, vez ou outra, chego perto. 
Não decido ou escolho temas, não fico gastando cérebro pensando no que vou escrever hoje, porque não preciso. A escrita, quando é de verdade, ela acontece. Seja com nova ou velha ortografia, seja considerado bom, ruim, inteligente ou clichê. Não existe isso de não saber sobre o quê vai dizer o seu texto. Não existe pensar em escrever, porque não é algo racional. Escrever é puramente emocional, quando se dá conta, já escreveu. Quando percebe, já estão lá as linhas, as vírgulas e o conjunto de palavras. Não preciso de gente me dizendo o que falar. 
As vezes, passo tempos sem escrever, não porque deixei de sentir, mas porque o sentimento não está pronto ainda pra transbordar. E eu respeito isso. Eu respeito o tempo da escrita, o tempo que ela exige, o tempo da inspiração, e o tempo que meu coração pede. Até porque, se a ordem não vem de dentro de mim, não sei escrever. Fico só olhando para o papel feito analfabeta e achando graça naquela brancura sem personalidade dele. Pra mim, escrever é isso. É sentir demais, e deixar-se sentir. É deixar-se ser tocada pelas sensações mínimas, pelo menor dos sentimentos, as vezes tão leves, feito pluma, que, se não estiver prestando muita atenção ou estiver muito distraída, não se percebe. E perde-se o momento, o instante, o sentir.
Eu escrevo sobre isso, e não escolho fazê-lo. Eu simplesmente deixo-me sentir. Deixo a imaginação livre, o coração silencioso para ouvir a mais baixa das vozes.Eu sinto, e escrevo. Bem, mal, errado, estranho. Pelo simples fato de escrever. Sem porquês, sem direções, sem pensar sobre isso. Porque, na escrita, é o coração quem manda. O cérebro só repete em forma de letra. Assim, rápido, fácil e sem enrolação. Quando se vê, a arte já foi feita, o sentimento já foi consumido pelo coração até a ultima gota e a magia aconteceu. Nasceu a escrita.

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