quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sobre o amor




Tenho escrito tanto sobre amor, porque ele me intriga. É tão concreto, e tão abstrato ao mesmo tempo, que me confunde. Amor é tão bonito, tão selvagem, tão maluco. E não há quem não morra um pouco de amor. Porque amar é um absurdo sem tamanho! É ver azul, onde tem marrom. Enxergar beleza em tudo, em todos. Acreditar no mundo, em si mesma, nas pessoas. Perder a noção do tempo, da vida e nem ligar. 
Amar é pular de um precipício escuro e medonho. Primeiro você não quer pular, desiste e dá meia volta. Aí bate uma vontadezinha de sentir aquela sensação de queda livre, e você volta para a beira do buraco, mas exigindo equipamento de segurança. Depois você toma coragem, pega impulso, corre até a borda e pára. Pensa bem, respira fundo, aperta bem o paraquedas, checa tudo de novo o equipamento e verifica seus batimentos cardíacos. Então você dá uns 5 passos pra trás e pensa: agora eu vou! E você corre e pula. Sente frio na barriga, medo, emoção, felicidade instantânea e esquece de pensar. Vai caindo precipício abaixo e esquece de abrir o paraquedas também. Daí você morre.
Amor é isso. Cair todo dia de um penhasco, e querer pular de novo no dia seguinte. Morrer todos os dias, e gostar de morrer, e querer continuar morrendo, e ressuscitar só pra morrer de novo.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pobre mundo rico



As vezes, parece que o mundo vai se englobar inteiro, mastigar todas as pessoas e cuspi-las universo a fora. Porque é o que eu faria, se fosse o mundo. Eu jogaria tudo para alto e expulsaria das minhas terras todo esse absurdo de gente egoísta. O mundo não tem suporte para aguentar tudo isso e nunca vai ter. Ele não foi criado para ser destruido. Não foi criado com a intenção de assistir a si mesmo virar um ponto de guerra, de competição, de selvagerias. Porque, com toda essa tecnologia, com toda essa evolução da humanidade, as pessoas estão transferindo seu direitos e suas próprias felicidades em troca de dinheiro. Então, eu penso, se antes usávamos apenas parte de nossos cérebros, agora não o usamos mais, simplesmente? Porque é a única justificativa que eu encontro. E, pior, talvez não usem mais o coração, a alma. Daqui a dez anos, talvez, nascerão todos desprovidos de sentimentos, todos selvagens brigando por comida num planeta dominado pela lei do mais forte.
Daqui a dez anos, talvez, você terá um robô para contar histórias para seu filho dormir. Terá uma máquina para conversar com ele, e distraí-lo enquanto você trabalha. Daqui a dez anos, quem sabe, você contrate uma pessoa só para abraçá-lo quando ele pedir, afinal, você não pode perder tempo, porque tempo é dinheiro.
As pessoas estão esquecendo que é o hoje a base do amanhã. Estão esquecendo de se dedicar àquilo que mais importa, porque o que fica não é a casa que você comprou, o carro que você trocou ou a produção que você teve no mês. O que vai ficar são seus ensinamentos, o cuidado que teve ou deixou de ter com quem você ama, a educação e o respeito que teve por essas pessoas, e a humildade que as ensinou a ter. Quem vai ficar para fazer o mundo andar amanhã, é o filho que você acaba de entregar nos braços da empregada. O que fica é o modo como você se dirige à ele e o modo como o deixa se dirigir a outra pessoa. É a criança que passou oferecendo bala no semáforo. O que fica é o jovem, na esquina, perdido e mal vestido.
O que fica não é você, seu egoísmo, sua coleção de sapatos ou sua conta bancária. É o que você ofereceu, o que disse, o que sentiu e fez com que sentissem. Porque as empresas vão falir um dia, ou vão acabar se engolindo. O dinheiro vai cair, vai deixar muito gente louca, vai fazer com que muitos se matem. Mas o amor não morre, não falha, não fali. O amor não sucumbi, não se vende e não pode ser substituído, transferido.
O mundo precisa de mais gente que sente e que quer fazer sentir. Mais gente disposta a se doar, e não apenas a receber. Mais gente que queria amar, e não apenas ser amado. Mais gente que goste de ajudar, não apenas ser ajudado.
O mundo precisa de mais verdade. Precisa de mais força de vontade. O mundo precisa de mais mãos estendidas, e menos braços cruzados.
Eu vejo as pessoas correndo atrás de deveres, mas não vejo ninguém fazendo a parte que realmente as cabe, que realmente precisa ser feita. A fila do banco está cheia apenas de um lado: no caixa do saque. Ninguém passa perto da ala dos depósitos. E a conta bancária do boldrini está zerada, e as crianças das ong's estão passando fome por falta de contribuições, e os idosos dos abrigos estão passando frio, porque tem gente que prefere ver coberto no lixo do que esquentando alguém. A fila do INSS está dobrando a esquina, porque todo mundo quer receber. E ninguém passa pela porta de pagamentos. Ta todo mundo parado na fila, que não anda nunca. Todo mundo de mão estendida, cara fechada, pronto para pegar o salário. Mas estender a mão cheia, para esvaziá-la, ninguém quer. Mesmo quando não se trata de dinheiro.
A questão é que ninguém quer amar, ninguém quer abraçar, ninguém quer fazer. Tá todo mundo esperando  é pra ser amado.
E você? Quando estende suas mãos é para dar, ou para receber? Porque o que eu vejo é que, quanto mais os bolsos enchem, mais o mundo fica rico, e mais as pessoas ficam pobres.

sábado, 12 de maio de 2012

O meu problema



Acontece que eu jogo video game, e embora todos os homens do planeta digam que acham isso demais numa garota, é mentira. Eles não suportam saber menos de games do que nós, muito menos perder pra nós.
Acontece que eu, realmente, de verdade, falo o que penso. Tentei inúmeras vezes manter a boca fechada, mas as vezes, tipo sempre, escapa. Embora os homens também digam que gostam de sinceridade, eles detestam.
Acontece que eu gosto de futebol, e torço para meu time, e morro de vontade de ir no estádio, e adoro jogar. E todo homem adora se exibir mostrando que sabe nomes de lances e regras do jogo. Eles detestam quando percebem que não podem ensinar nada que a menina já não saiba.
Acontece que eu quero trabalhar, pagar minhas contas e cuidar da minha vida. E homem nenhum acha legal que sua garota seja independente, ainda que eles nunca admitam.
Acontece que eu não sou meiga, delicada, e não falo mansinho, e não é por maldade. Eu sou intensa, densa, um abismo de sentimentos, um mar de emoções, uma montanha russa de sensações loucas. E homens não gostam de meninas profundas, e meninas profundas não gostam de caras rasos.
Acontece que eu sou mulher, também tenho minhas paixões por sapatos, roupas, acessórios e pelo Jhonny Depp. E ser assim não me faz mais ou menos infantil.
Acontece que eu realmente vou à luta se vejo alguma injustiça. Ponho minha cidadania em prática, e exerço o papel de quem quer e exige uma sociedade decente, no mínimo.
Acontece que eu me visto assim. Pense você o quiser, ria da minha cara, me chame de estranha. Eu gosto e não vou deixar de gostar, nem de usar, nem de achar bonito.
Acontece que eu falo gírias demais, as vezes, sem querer. E não vou ficar me policiando porque marmanjo quer que eu fale "feito mocinha".
Acontece que eu amo meus all star, sejam velhos, sujos, novos, brancos, altos ou baixos. Amo meus saltos 15 cm. E não vou ficar usando sapatilha porque é mais feminino.
Acontece que vestidos colados, saias minúsculas e decotes desnecessários não me deixam a vontade. E não ligo se ser assim vai fazer com que menos olhos passem por mim, porque eu não saio atrás disso.
Acontece que eu faço o que faço, gosto do que gosto e tenho princípios e valores fixos. Não me envergonho do que sou, não me faço parecer diferente.
Acontece que eu tenho opiniões, idéias, pensamentos, sentimentos. Se não concordo, não concordo.
Acontece que tudo isso é coisa que todo homem fica falando que gosta em mulher. Só que acontece que homem é tão mentiroso, que engana a si mesmo.
E, por isso e por tantas outras coisas, eu provavelmente não vou ser amada, nem pedida em casamento, nem serei objeto de declarações de amor. Porque homem nenhum sabe lidar comigo, com a minha espontaneidade, com meu sarcasmo insultante e minha falta de jeito pra cor-de-rosa. Homem nenhum aguenta o fato de eu, quase sempre, ser a pessoa que faz as piadas sujas e as pessoas rolarem de rir com meu humor negro.
O meu problema, na realidade, é esse. Ser muito mulher para não ter medo de dar a cara a tapa e declarar, em alto e bom som, que tenho meu lado muito macho.