quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Criminosa



Eu passo tanto tempo reclamando que ninguém me ouve, ninguém me vê. Mas hoje eu fui abençoada por uma luz de sabedoria, e acho que descobri porque as coisas me parecem tão ruins. Eu acho que, enfim, entendi que ninguém tem obrigação de nada. Ninguém tem obrigação de me amar, de ouvir minhas lamúrias ou de estar presente sempre que eu precisar. Eu descobri que ninguém tem obrigação de me fazer ficar feliz sempre que eu estiver triste.
Se tem uma pessoa que pode me salvar, e me fazer seguir em frente quando eu não estiver mais aguentando, sou eu mesma. Não são meus amigos, meus primos, irmãos, pais, parentes ou amores. Ninguém, além de mim mesma, tem que me salvar da escuridão e me fazer levantar sempre que eu cair. Essa tarefa é exclusivamente minha. Porque, apesar de tudo, estamos todos sozinhos nesse mundo. Ninguém vai te conhecer como você se conhece, por mais que você queira acreditar na existência de uma pessoa que vai te amar tanto a ponto de prestar atenção em cada detalhe mínimo seu, sabemos que não existe. Ninguém vai se importar com seus problemas tanto quanto você se importa. E não é porque não te amem ou não gostem de você, é simplesmente porque cada um tem suas dores e fardos para carregar.
O seu e o meu fardo, os seus e os meus problemas, somos nós quem temos que resolver; mais ninguém. Podemos ajudar uns aos outros, mas é tolice e egoísmo esperar que alguém resolva tudo por você. Esperar que uma pessoa te levante quando você tropeçar, te segure quando você desabar e te faça sorrir quando você estiver chorando é exigir demais de um simples ser humano como você, que também tem dificuldades como as suas. Acho que devemos parar de exigir tanta atenção e querer que todo mundo nos faça sempre feliz. É nossa essa missão, somos nós que temos que nos aguentar, nos resolver e nos fazer prosseguir. Então vamos parar de cobrar isso dos outros. Nossa felicidade não depende deles, assim como nossos sorrisos..ninguém tem obrigação de fazer coisa alguma por nós. O dever de respirar, existir e me fazer feliz é meu e eu reconheço isso. Então de hoje em diante eu prometo tentar parar de cobrar o mundo pelas coisas que eu devo. Prometo parar de culpar inocentes, porque a criminosa aqui sou eu e a vitima é minha própria felicidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Degradê



Eu sorri com seu jeito bobo de querer parecer bom em tudo. Essas coisas que só ele sabe fazer. Chegar sem avisar, me tirar do chão antes que eu possa reclamar, e me beijar antes que eu pense em contestar. Eu sorrio de pensar nas peripécias e artimanhas dele, nas brincadeiras bobas, no riso fácil que ele traz, nas piadas mal contadas e nas loucuras que ele insiste em fazer mesmo sem saber direito o que está fazendo. Eu sorrio e nem sei porquê, já que essas besteiras não me fascinariam nada em outro cara. Eu sorrio e rio com gosto de lembrar como não éramos nada compatíveis.
Quando eu o conheci, não achava que funcionaria. Ele era do tipo malandro, que curte um pagode, vive numa bossa nova e veste algum tipo de havaí. Eu tinha uma convicções mais plenas, mais sérias. Ouvia uns gritos guturais e vestia uma brisa básica. O nome dele era americano e eu era italiana, ele gostava de sushi e eu detestava comida sem sal. Ele vivia me fazendo tirar os pés do chão e sonhar alto demais, eu vivia puxando os pés dele para a Terra novamente e lembrando-o da realidade. Era uma páreo duro. Não soava como se fosse 'opostos se atraem', porque não éramos totais opostos. Mas tinha um tom de falta de motivos para estarmos juntos. Falta de acasos, de concordância. Só o que tínhamos em comum era a única característica que tínhamos em diferença. E até agora eu me pergunto como fazíamos isso dar certo.  
Hoje costuma ser melhor. Antes era preto e branco, disputando um mesmo espaço. Hoje é cinza claro e cinza escuro coexistindo num degradê charmoso. Talvez não haja explicação mesmo, mas ele me garante que sempre há. Na verdade, tanto faz. Por que quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração além dele? Quem mais posso querer, se sou eu o fôlego dele e é ele quem me tira o ar? Se eu sou a gravidade que o prende ao mundo e ele é o furacão que me faz voar? E eu que sempre digo que não existe razão.