domingo, 30 de dezembro de 2012

O meu normal

Eu achei que poderíamos ser normais juntos, algumas mensagens durante o dia e uma ligação. Uma rotina. Eu não acharia ruim, porque seria um dia-a-dia normal também. Mas não sou normal. Desculpa, amor, mas não sei deixar de ser estranha assim. Me bate essa bobice e fico meio louca, todos os dias, sem hora marcada. Esse é meu normal.
Falo rápido demais e, de repente, esqueço onde estava, fico em silencio e não tenho vontade de abrir a boca novamente. Choro em situações bizarras e dou risada de tragédias, e tento não fazer isso, mas escapa sempre. Tento não me ser, mas eu sempre escapo de mim mesma e do meu controle nada controlado. Vou acabar te enlouquecendo também. Porque quis tanto ter alguém por perto, que vou acabar sozinha.
As coisas são assim pra mim, acontecem ao contrário. Por isso tenho medo de querer tanto te fazer feliz. E se eu fizer o oposto? Tenho medo de te querer por perto, porque, quanto mais quero, menos perto você me parece estar. Então foge, mas se eu te pedir pra fugir, será que você fica?
Acho que nunca vou ser diferente desse abismo de maluquices que eu sou. O pais das maravilhas perde feio pra mim, a Terra do nunca passa longe. A minha terra de imaginação é atravessando Nárnia, depois da Terra média, passando por Hogsmead, percorrendo o mar da Ilha de Berk. E mais alguns dias de caminhada. E eu sempre vou ser metade, porque a outra parte de mim estará navegando nesse universo maluco da minha cabeça. Metade de mim estará sempre no mundo além do mundo da Lua. Porque o mundo da lua é pouco pra mim.
E eu quis tentar ser normal, pra ver se você não assustava tanto comigo. Eu quis parecer uma menina pra você, não um ET, só pra ver se você não fugia. Me vi querendo que o meu normal pudesse se encaixar no seu. Queria parar de ter tanta palavra na cabeça, pra que você acreditasse quando minto que não passo noites em claro tomando café e escrevendo compulsivamente. Não é nem a escrita que é compulsiva, no fim das contas, acho que sou eu. E acho que tentei não ser eu pra não parecer louca pra você, mas acho que você sabe que, quando eu tento ser normal, acabo sendo mais bizarra ainda. Acho que não consigo disfarçar tanto, acho que as pessoas sempre vão notar que tem algo muito errado em mim, algo que talvez nem seja errado, mas que, com toda certeza, não é comum. E não importa o quanto dizem que isso é bom, que é legal ser diferente. Porque não acho legal ser diferente se ser diferente é ser sozinho. 
Gosto de ser sozinha, mas não o tempo todo, não pra sempre, não se não puder ser sozinha junto com você. Mas essa é a maluquice, entende? E não tem cura que me torne a mulher que você um dia quis ao seu lado porque ainda não inventaram remédio pra esse meu normal anormal, essa minha loucura bizarra. A mesma loucura que um dia quis pedir pra sua normalidade excessiva um cantinho em você, só pra não morrer louca.

"Eu queria tanto que você não fugisse de mim, mas se fosse eu, eu fugia." 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Sobra sua falta

Os anos passam e as pessoas simplesmente não cansam de me perguntar se sinto sua falta. Não cansam de me lembrar que eu não te esqueço nem por um segundo. Parece que não conseguem assimilar que é exatamente pelo fato de termos passado tão pouco tempo juntas que eu sinto mais ainda essa falta, sua e nossa.
No dia que te vi pela ultima vez, as pessoas carregavam flores, me abraçavam sem emoção nenhuma e vestiam preto. Fazia sol e um céu maravilhosamente azul, e me peguei ouvindo uma conversa que acontecia perto de mim e que era sobre mim, pois achavam que eu estava em um transe absurdo demais pra ouvir qualquer coisa. Ouvi alguém dizer que, obviamente, eu também sentiria sua falta, mas, dentre eles, eu seria a menos afetada por isso, já que todos ali haviam convivido mais com você do que eu. E, sabe, ouvir aquilo doeu tanto e eu já estava tão dolorida! Foi o maior absurdo que tive que ouvir naquele dia e, até hoje, ecoa nos meus ouvidos.
Será que nunca vão entender que, cada dia que eu atravesso, cada mínimo instante, cada batida no relógio, é um momento que eu poderia ter tido com você pra ser lembrado mais tarde? Será que não notaram que, enquanto eles matam a saudade recordando as memórias em que você estava presente, eu simplesmente não tenho como diminuir essa saudade, porque não tivemos tempo de ter essas lembranças? Será que não compreendem que lembrar dos momentos que não tive com você dói mais do que lembrar dos que tive? Será que, nem por um instante, passa pela cabeça dessas pessoas o tanto de coisa que eu queria ter vivido com você, e não pude? O tanto de pergunta que eu queria ter feito, e não consegui?
Tive que ouvir dizerem e repetirem que todo mundo sentia mais sua perda do que eu. Tive que ver menosprezarem minha dor por acharem que sentir saudade das lembranças com você machucava mais do que não ter essas lembranças todas.
Mas esqueceram que todos os dias eu vou precisar de você e não vou ter. Todos os dias, eu vou querer te contar alguma coisa nova, e não vou poder. Esqueceram que, quando chegar minha vez de acumular lembranças, você não fará parte delas. Nem ao menos lembraram que, talvez, só talvez, eles perderam uma amiga, uma cunhada, uma irmã, enquanto eu estava perdendo aquela que me ensinaria a viver, da mesma forma me ensinou a andar, e comer e falar. 
Eu perdi aquela que me orientaria antes de sair, que me ligaria trinta vezes pra saber se estou bem, que me esperaria com o almoço pronto, chamaria minha atenção quando fizesse algo errado; aquela que notaria quando eu estivesse triste, feliz ou diferente, porque me conheceria de verdade, desde as rugas na minha teste até o formato dos meus dedos. Eu perdi uma parte significante do futuro que poderia ter. E, mesmo assim, ainda ouço todos os dias as pessoas me perguntarem se lembro de você! Se sinto sua falta! É loucura perguntarem isso, porque cada dia que passa é como se eu te perdesse novamente. É como se aquela dor daquele dia viesse a tona outra vez e todos os dias eu te visse indo embora de novo.
Talvez, se tivéssemos tido tempo de acumular memórias, tirar mais fotos juntas, ter mais conversas. Se você tivesse tido tempo de me responder todas as perguntas que surgiram durante as muitas fases da minha vida, se eu tivesse tido tempo de te conhecer como pessoa, como mulher, como amiga. Talvez se tivéssemos mais história juntas não doesse tanto e nem todos os dias, se pudéssemos ter passado por mais situações, sobrasse hoje só saudade, não dor. Mas não foi assim.
Por isso, hoje, sobrou mais que simplesmente falta. Sobrou amor, tristeza, poucas lembranças, muita saudade. Sobrou essa dor que não vai virar cicatriz nunca, porque, cada dia que eu acordar, vou viver alguma coisa que queria ter vivido com você, e vou lembrar, e vai doer. Sobrou essa falta que nunca vai ser preenchida. E, sabe, por mais que digam, que ouçam e que vejam, ninguém, além de uma única pessoa no mundo, nunca vai saber do que eu estou falando. Ninguém nunca vai conseguir imaginar o tamanho desse buraco que ficou em mim e naquela que perdeu o mesmo tanto que eu. Ninguém. Porque não foi simplesmente te perder que doeu e ainda dói, mas te ver sofrer por anos e anos, e sofrer junto e te ver tentando evitar meu sofrimento, e sofrendo mais ainda. Ninguém nunca vai ter a mínima ideia do que aconteceu com a gente ali, das palavras ditas e não ditas, dos silêncios meus e seus, das lágrimas quentes enxugadas uma pela outra e que ninguém nem ficou sabendo, dos olhares que sabiam como isso ia acabar. Nunca vão conseguir ter noção da dimensão de tudo isso. Ninguém nunca vai saber como é pra mim, como foi e como eu sei que vai ser pro resto da vida, porque o que vai sobrar neles é saudade, mas, em mim, vai sobrar isso que ninguém nunca vai diminuir ou curar, vai sobrar sua falta em todos os cômodos da casa, em todos o cantos do mundo, em todos os dias da minha vida.

Lifehouse - From where you are

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sem coração

Deixei o coração na gaiola. Me arrumei, e fui passear pela vida. Porque sem coração é mais fácil sorrir, é mais fácil ser leve. Sem coração é fácil não pensar muito, não sentir muito, não chorar muito.
Deixei o coração em casa, trancado a sete chaves, pendurado numa gaiola, porque caminhar na rua me pareceu melhor assim, menos pesado. Eu pude sentir o vento no meu rosto e pude contar meu passos até a calçada. Pela primeira vez, eu pude olhar tudo a minha volta, ouvir uma música, sentir um perfume e não morrer um pouco; e não me afogar de saudade.  Eu pude sair de casa tranquila, sem achar que cada passo meu deixa um pedaço de mim espalhado por onde ando. Eu andei pela rua e vi um amor antigo, e não balancei, e vi um amor atual, e não chorei, e encontrei uma ex amiga, e não morri. Porque as pessoas insistem em dizer que, sem o coração, nós morremos. Mas a verdade é que, sem coração, viver me pareceu a coisa mais fácil de se fazer.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Moreno

Moreno, que antes não fazia diferença nenhuma pra mim, me parece uma palavra boa agora. Uma palavra que deveria ser seu nome, de tão sua que é. Moreno, palavra suculenta, boa de falar, boa de se ouvir, boa de pensar. Moreno da pele bronzeada, dos braços que serão fortes algum dia, porque hoje já apontam seus primeiros músculos. E, como todo moreno que se preze, do sorriso brilhante, eu diria até um pouco encantado, do olhar miúdo, mas nunca apagado.
A nossa troca de ironias e brincadeiras só despertou mais curiosidade em quem, mesmo antes, já sentia uma certo clima estranho no ar. A dúvida do bem-me-quer-mal-me-quer fez surgir um mistério palatável, de quem não sabe se investe na causa ou abandona o júri.
Em alguns instantes a pele arrepiou, a proximidade causou desafio em quem já estava pagando pra ver no que ia dar e, na verdade, ainda está. Foi sintonia, química, não sei nomear. Sei que fui embora com jeito maroto, sorriso bobo no rosto, e você ficou, me acompanhando com cara de criança que vai fazer arte. Ambos deixando um gosto de quero mais no outro e sem saber o quê queremos mais, se não tivemos nada.
Oportunidade não faltou, vontade acho que também não, mas sobrou marra. Essa mania de querer pagar pra ver, que eu percebi que você também tem. Não trocamos nem números, nem redes sociais, nem contato nenhum, na ânsia de ver quem ia ceder primeiro, porque ambos queriam se ver novamente, mas ninguém admitia. Por isso, talvez, foi tão bom gastar tempo conversando, foi tão bom não ter forçado uma situação. 
Foi bom que essa minha pele que o sol agride não encontrasse essa sua que o sol massageia, e ficasse só na vontade. Foi bom o seu beijo que eu não roubei, naquela hora que paramos muito perto um do outro, lembra? Porque agora ele tá guardado comigo e no gosto que eu sei que ficou em você, moreno. O beijo que não roubei, agora, está te pedindo pra ser roubado, me pedindo pra roubar e com mais vontade de acontecer e, quem sabe, ainda acontecerá.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Novo ano, novo angulo

Nós não nascemos naturalmente ruins, pelo contrário. Nascemos sim na condição humana e falha, mas quase puros. O que nos corrompe é o mundo, mas a culpa não é dele por nos corromper. A culpa é nossa por nos vender assim, tão barato, quando fomos comprados por um preço tão alto.
Tem muita coisa que eu posto aqui e não é verdade absoluta. As vezes, algum sentimento me invade e eu o escrevo como se realmente sentisse aquilo e tal coisa fizesse parte de mim. Mas, muitas vezes, não é assim que eu me sinto. Muitas vezes, o sentimento é temporário, passageiro e incompleto, não faz parte dos meus dias, não é gerado por mim mesma. Muitas vezes, é um sentimento ruim. Contudo, também não é mentira que, de fato, o sinto, ainda que apenas naquele momento. Não é mentira que, naquele instante, eu me corrompi.
Por milésimos de segundos, eu permiti que algo ou alguém desequilibrasse o que eu tenho por dentro e me tirassem do controle próprio, invadindo meu coração no curto espaço de tempo que o deixei desprotegido. Somos humanos, afinal, e nem sempre conseguimos manter a nós mesmos sob os limites que nos impomos. As vezes, muitas vezes aliás, saímos um pouco do nosso centro, perdemos um pouco da nossa vigilância constante sobre o que fazemos. E é quando acontecem os erros que não queríamos ter cometido. Os erros que sabíamos que seriam erros, mas que, por segundos que perdemos o auto controle, cometemos mesmo assim. Por esse erros, eu sei, muitas coisas acontecem, muitas pessoas se afastam. Por esse erros, enfrentamos consequências proporcionais e que sempre julgamos injustas. Mas, afinal de contas, continuam sendo erros. E pagaremos por eles. Afinal, quem deseja o bem para os outros, está adquirindo esse bem para si mesmo, assim como quem deseja o mal.
Não culpo Deus, ou meus familiares, ou meus amigos. Ou até culpo, mas sei que o faço só pra tentar ignorar o fato que a verdadeira culpada sou eu.
Tive muitas experiências com pessoas que me causaram maus sentimentos e maus pensamentos. Infelizmente permiti que me causassem isso, abri a guarda, deixei-os passar até atingirem seu alvo. Conseguiram de mim o pior: o desprezo, a mágoa, a raiva. Demorei tempos para retornar ao meu estado normal, sóbrio e consciente. Demorei tempos para conseguir olhá-los e sentir por eles algo mais nobre que o ódio. Demorei para me recuperar da condição de corrupta.
Demorei sim, mas consegui, e não por mérito meu, não sozinha. Foi quando eu estava já tão saturada e tão rodeada de sentimentos ruins, que achava que não saberia mais como ser amável, gentil e doce com alguém. Foi quando eu me perdi a tal ponto que o autocontrole se perdeu também, e toda e qualquer coisa que encostava em mim tinha o poder de me manipular, fosse para o bem, fosse para o mal - mas era sempre para o mal porque o bem não manipula, o bem contagia. No fim das contas, eu não tinha mais salvação; estava imersa nessa sujeira que o mundo me empurrou goela a baixo e eu engoli.
Acreditem ou não, alguém acreditou em mim ainda. Alguém elaborou uma maneira impensável, absurda e totalmente fora dos padrões para me arrancar de todo esse esgoto que me cobria. E, por mais que me amassem, não foi minha familia. Por mais que gostassem de mim, não foram meus amigos.
Foi alguém que eu conhecia de nome, e achava um tanto ilusório, um tanto distante, um tanto belo, abstrato e inalcançável. Foi Deus, e foi com uma sutileza tão grande que só podia ser Ele.
Agora é a hora que metade dos que estão lendo isso fecham as páginas, mudam de assunto, e perdem o interesse e a curiosidade para ler o restante do texto. Eu sei, porque eu também era assim. Falar de Deus me constrangia, me entediava e, de certo modo, me enfurecia. Por que as pessoas insistiam tanto em falar dEle? Por que não podiam apenas deixá-Lo lá, quieto, e viverem suas vidas?
Mas a resposta para tantas perguntas, descobri por obra dEle mesmo. Não fui atrás, em momento algum, de ler a Biblía, ou de ir à igreja. Não corri atrás de Deus e nem me interessei mais por Ele. Até porque, como disse, eu estava coberta por uma camada de escuridão, e estava afundando nessa escuridão cada vez mais.
Mas acontece que, em sua obra grandiosa, eu estava inclusa, e todos nós estamos. E a obra não pára na metade, porque ela é perfeita. Aconteceu que, me vendo tão perdida, Ele veio me buscar e me despertar, e depois de tanto relutar, eu me permiti vê-Lo. E, por um momento, meu olhos puderam ver algo que não fosse trevas, minha vida pode tornar-se algo além de tragédias em série. Por um momento, eu vi a luz que me tirou daquela escuridão, eu senti as mãos que me puxaram para a superfície. E, naquele momento, eu sabia que era Deus, só que não podia compreender como alguém como eu merecia ser resgatado daquela maneira. Eu, ainda um pouco cega pra vê-Lo, um pouco surda para ouvi-Lo, não entendia que tipo de compaixão era essa, que tipo de amor era esse que me alcançava no mais profundo dos mares, no mais poluído e fundo dos oceanos.
Hoje, graças a essa missão de salvamento organizada na minha vida, tenho um ser habitando em mim, e é ele quem me controla. Desde que permiti que esse ser assumisse o controle, não tive mais problemas de abrir a guarda porque não eram mais as minhas forças falhas e corruptíveis que estavam no poder, mas forças sobrenaturais e perfeitas, sem brechas, sem frestas. Hoje, graças a Deus e ao amor que Ele demonstrou ao ir me buscar no mais fundo dos poços, eu posso dizer que sou livre para desfrutar dos sentimentos mais bonitos e desejá-los mesmo àqueles que não gostam de mim.
Hoje tenho a capacidade de me aproximar dos maus sentimentos, sentir até o gosto deles e, ao invés de ser corrompida por estes, transformá-los e repassá-los em forma de bem.
Talvez ninguém acredite nessas palavras quando digo que nunca, antes, tive intenção de ser transformada. Nunca busquei ou pedi a misericórdia de Deus, mas ele me concedeu mesmo assim. Ele entrou dentro da minha casa, mesmo eu não abrindo a porta. Ele falou comigo mesmo eu o ignorando. Quebrou barreira por barreira que eu colocava em sua frente, até chegar em meu coração. Tudo isso só pra me salvar e me mostrar que havia sentido em viver, havia um caminho, havia alguém que aliviaria a dor de viver num mundo como esse; havia algo além de pular do oitavo andar deixando apenas um bilhete.
Como eu disse no inicio, ainda posto, faço e falo coisas que não são, de todo verdade, e não são, inteiramente, mentira. Coisas que me, na maioria das vezes, ainda é fruto dessa corrupção, porque, na condição fraca e pecadora que me encontro, não tenho o poder de ser santa todo o tempo. Mas, com esse ser habitando em mim, popularmente conhecido como Espírito Santo, eu recebo nova graça, novo perdão e nova chance todo o tempo. Deus sabe que você, eu e toda a humanidade não vamos deixar de errar, mesmo conhecendo-O e sabendo seu caminho, porque a gente tem mania de pegar atalho. E ele sabe disso, sabe de nossas fraquezas e falhas, e, por isso, renova sua graça todos os dias para que possamos, todos os dias, nos renovar também e nos tornar o mais próximo de santos, mais próximos dEle e de seu amor.
Eu sei que a maioria das pessoas não acredita que Deus tenha feito tanto coisa boa por uma pessoa, sendo que o restante do mundo passa fome, morre de doenças cruéis e vive em constantes guerras. Mas a questão é que Deus tem feito todas essas maravilhas na vida de todos nós, só que alguns preferem não ver. Alguns acham mais fácil fechar os olhos para não ter que encarar a verdade, não ter que admitir que também foram corrompidos. Por isso, agora que está chegando um novo ano, tentem ajustar o angulo pelo qual vocês têm visto as coisas. Será mesmo que tudo que aconteceu e foi julgado ruim, teve realmente resultados ruins? Será mesmo que você não tem nada a agradecer? Mesmo os que passam fome, permanecem doentes ou perdem toda uma familia, tem algo a agradecer. Será que não é você que está vendo só o que quer ver?
Não pensem que a minha vida é melhor que a de vocês e que, por isso, é fácil pra mim ter o que agradecer. Pelo contrário. Atravessei por fases na minha vida que não achei que seria capaz. Perdi pessoas extremamente importantes, tive que vê-las sofrer inúmeras vezes e vi sofrer os que ficaram também. Vi pessoas que eu amava e ainda amo terem que se afastar, algumas ficaram doentes, algumas passaram por experiências de quase morte. Além disso, estou no segundo ano de curso pré-vestibular, pago com muito esforço, e acho que ainda não vou conseguir entrar no curso que desejo.
Não foram poucas as vezes que chorei. Não foram banais os motivos. E os momentos que pensei estar no fundo do poço foram predominantes em relações aos momentos tranquilos da minha vida.
Mesmo assim, ou por isso mesmo, não me desfaço da presença de Deus, alguns podem dizer que é porque nunca perdi, de fato, tudo que tinha, mas, mesmo assim, mesmo perdendo tudo e até a vida, tenho tanto a agradecer que não posso ignorar isso.
As vezes, ainda me esqueço de mudar o angulo de visão e insisto em ver só o pior da situação também, mas estou aprendendo. Passarei a vida aprendendo a lidar com isso. Mas, depois que Deus veio até mim e eu permiti que Ele me mostrasse suas maravilhas, tenho tido a oportunidade de escolher. Escolher de qual modo desejo ver o que esta acontecendo. Escolher se quero caminhar pelo mundo e permitir que este me afogue num mar de sujeiras novamente, ou se quero seguir pela estrada mais estreita e mais dificil, mas que ao invés de me afogar em suas águas, vai acalmar a tempestade para que eu atravesse o mar andando sobre ele. E eu escolho Deus. Todos os dias, essa é a minha escolha; Ele é a minha escolha.
Hoje, eu espero que essas palavras não voltem vazias. Eu espero que isso tudo que eu estou tentando dizer possa mostrar o quanto Deus quer te dar essa escolha também, e quer te dar visão nova para que seus olhos enxerguem além do que o mundo pode te mostrar.
Resta a você a decisão: se vai permitir que Deus ajuste seu angulo de visão, ou se vai continuar vendo o caminho através de lentes distorcidas, que te levarão por atalhos que, desde Chapeuzinho Vermelho, todos sabemos que conduzem a morte.

PS: Falar de Deus pra vocês que me lêem não é nenhuma obrigação, não é nenhum fardo, nenhuma vergonha. Falar de Deus pra vocês é o maior prazer que eu posso ter e o máximo de amor às outras vidas que posso demonstrar, porque compartilhar desse amor perfeito é a melhor coisa que posso fazer por vocês. Espero que aceitem isso como um presente de natal adiantado, e que essas palavras que escolhi tanto para tentar traduzir tudo que Deus tem feito possam, de fato, tocá-los.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Pra você não ler

Eu cheguei a planejar, sabia? Cheguei a pedir pra que Deus planejasse comigo quando percebi que você não era um desses que se encontra a todo momento. Comecei a idealizar um caminho em que nos esbarrássemos, assim, sem querer. O problema, talvez, tenha sido o fato que eu quis me esbarrar em você. Eu procurei suas pegadas, seus passos, não apenas deixei que eles surgissem no caminho. Mas planejar sempre dá nisso, porque traz expectativa, e depois vira frustração. Eu deveria saber. Mas eu quis que fosse você, e não me importei se havia mais alguém. Eu achei que poderia ser eu, achei que deveria ter sido você, quis que tivéssemos sido nós.
Será que eu deveria ter esperado acontecer, no lugar de querer fazer acontecer? Será que se eu não quisesse tanto tropeçar nos seus passos, você acabaria tropeçando nos meus? Será que se eu não tivesse tentando tanto estar perto de você, eu estaria agora?
No começo, eu investi sabendo que era ilusão, utopia. Investi para passar o tempo, talvez, ou por até acreditar de alguma forma bem distante que, afinal, pudéssemos virar algo mais. No fim, parei de investir não por vontade própria, mas porque a vida me pareceu muito determinada quando decidiu me afastar de você, mesmo que já não fosse mais tão impossível assim eu te alcançar. Eu estou indo embora agora que você me pareceu chegar.
Quando me dei conta da partida, quis pedir pra Deus não me levar pra longe, mas não pedi para não ser ingrata, porque é boa a vida que me foi oferecida longe de você. Mas é longe de você, então não dá pra ser tão boa assim.
Um tempo atrás, comecei a pedir tanto que você pudesse me ver como eu te vejo, comecei a querer tanto que nossas caminhos se juntassem e, ironicamente, parece que isso se tornou próximo de acontecer justo quando eu tive que manter distância. Justo agora, que eu estou dizendo adeus, você parece receptivo a um Olá. 
Não desisti de você, todas as vezes que disse que o faria. Na verdade, acho que não desisti nenhuma vez, embora tenha prometido fazê-lo inúmeras vezes. Mas não desisti porque não consegui. Não consegui porque a gente não desiste do que vale a pena. Mas agora, como vou fazer se não abrir mão de você? Vou viver das nossas fotos antigas? Vou respirar das nossas conversas escassas e rápidas através da tela do computador? Meu coração vai bater em função de poucos minutos que talvez percamos para nos cumprimentar nas redes sociais? E o restante da semana, o que eu vou fazer? E durante as outras 23 horas do dia? Como vou poder viver, se não desistir de você? 
Talvez, se você soubesse o bem que me fez naquele dia de chuva que nos encontramos sem querer e paramos pra conversar. Se você soubesse o quanto eu tinha chorado na noite anterior, perdido todas as horas de sono molhando o travesseiro e segurando o coração pra não explodir. Se você soubesse o quanto eu não quis levantar, colocar uma roupa e ir para onde os estudos falam mais alto e só o fiz por obrigação. Se você tivesse reparado nos meus olhos inchados e vermelhos, e entendido que estavam assim porque não veriam mais suas sobrancelhas grossas e pretas, seus braços magrelos e seu cabelo bagunçado. Talvez se soubesse o quanto toda essa angústia sumiu só durante a hora que passamos conversando na calçada, não ligando para a chuva que nos molhava aos poucos. Talvez você me achasse louca, mas talvez percebesse que eu não entrei a toa no seu caminho. E que, hoje, vou sair dele por força maior, apenas.
Não tive tempo de dizer que gostei de você quando te conheci, que gostei mais quando você resolveu sentar sempre perto e estar sempre nos trabalhos em grupo, que gostei muito quando descobri que éramos ambos guiados pela mesmo fé e que, talvez, tenha começado a amar quando conseguíamos nos ver. Não tive tempo de te contar que, um belo dia, me peguei pedindo pra Deus cuidar bem de você. 
Quando eu achei que tivesse chegado o momento de te dizer tudo isso, descobri o quanto poderia ser cruel dizer tudo isso porque descobri que eu estaria indo pra longe em breve. Ao mesmo tempo que senti que gostar de você não era mero planejamento meu, mas parte de um plano maior, tomei conhecimento que os planos da vida já eram outros.
Mas hoje eu queria ter coragem de te dizer que você vale muito a pena, e que gosto muito mais de você do que pensava que gostaria de alguém, e que, se eu estou indo, é porque não tenho outra escolha. Se estou indo é porque, talvez, Deus tenha planos melhores e maiores pra você, e eu não esteja inclusa neles. Porque quis tanto ficar, talvez, eu esteja indo embora. Hoje eu queria te ver, e conversar como se eu não estivesse indo pra longe, e te ouvir me contar sobre seus planos, e te chamar de chato, e poder jogar o jogo da dança que você disse que jogaria comigo, lembra? Eu queria poder ficar dançando lá com você, e esquecer do amanhã, esquecer do depois e fingir, só essa noite, que o mundo acabaria e a gente ainda estaria dançando.
Não vou levar um pedaço de você comigo para que, um dia, quando você encontrar alguém que te mereça, possa se doar inteiro, com todas as partes. Vou e te deixo aqui sem saber que estou te deixando aqui, porque você nem sabia que tinha uma parte sua comigo. Vou e, antes de ir, escrevo isso tudo pra você não ler porque, se ler, vai perceber que é um adeus, e vai querer se despedir, e eu não vou aguentar te ver me dando adeus. Escrevo tudo isso pra você não ler e não querer me abraçar com esse seus braços que eu não consigo mais soltar depois. Vou sem te dizer que vou sentir sua falta, mas vou. 
Quando eu for, talvez você nem perceba que é um adeus e, se perceber, tomara que note também que esse adeus vem carregado disso tudo que eu tanto quis te dizer, mas não pude. Esse adeus vem carregado do quanto eu quis que fosse você. Mas eu vou e peço pra Deus me dar força suficiente pra conseguir ir para onde você não estará; peço pra Deus que cuide dos seus passos, que vão seguir por essa estrada distante do mar pelo qual eu terei que remar. 
Peço também que, nesse mar profundo e salgado, nesse oceano imenso pra onde a vida me arrastou, eu possa saber me guiar e me aquecer sem ter que lembrar de você, que eu possa saber nadar pra outra direção que não seja a sua e que, se for pra afogar, eu possa lembrar de me afogar no mar e não em você, porque morrer afogada em água me parece menos doloroso do que morrer afogada em todo esse amor que ficou em mim, e que você nem tomou nota.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Sem vírgulas

Eu quero a certeza, não mais o famoso talvez. Porque a minha sanidade vem da convicção do dia de amanhã. Não, eu não gosto de muitos planos, agendas e horários a cumprir, mas eu gosto de saber onde estou indo para poder escolher um roupa adequada. Eu gosto de conhecer o chão onde irei pisar para me certificar de que não há pedras nesse caminho. Para turbilhões de perguntas minhas, eu quero apenas uma resposta sua. Única, firme e sincera. Porque talvez e quase são palavras que abrem muitas possibilidades e permitem que nossa imaginação tome o controle à frente da razão. E de exagerada, dramática e indecisa, basta eu. Portanto eu quero apenas o que for definitivo, decisivo e completo, sem frestas, exceções ou ressalvas. Sim ou não. Respondido sem dramas, sem vírgulas. Objetivo e indolor. Pode ser?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Bifurcação

Eu quero parar de puxar assunto, de inventar desculpas pra gente se ver. Eu quero parar de forçar a barra; parar de esperar ansiosamente pela sua respostas nas redes sociais. Quero parar de parar de respirar quando te vejo. Parar de não querer te largar quando você me abraça. Parar de prolongar conversas que não te interessam nem um pouco.
Eu quero que você queira conversar comigo. Quero te ver inventando motivos pra me ver também. Eu quero ser uma escolha sua, não uma comodidade. Eu quero que você decida que me quer na sua vida, não que apenas aceite que eu te queira na minha.
Porque é meio triste isso de gostar sozinha. É meio solitário quando a gente se abraça e você afrouxa os braços devagar, meio sem jeito, porque eu sempre esqueço que tenho que te soltar.
É meio humilhante quando estamos conversando, e eu sempre estou mais empolgada que o normal, mais risonha que o normal, mais tagarela que o normal. Porque, perto de você, eu sempre estou me sentindo uma tonta, porque sei que estou forçando demais, sem querer. Sempre estou me sentindo profundamente infantil, absurdamente boba.
Por isso, quando eu disse que ia embora, foi só para ver se você tentava me impedir. Se expressava algum tipo de diferença ao me ver partir. Só para sentir sua mão segurando meu braço, me obrigando a permanecer ali. Eu disse adeus para te ver rindo da minha cara, por saber que não me deixaria ir a lugar algum e que eu mesma não conseguiria sair de perto de você. Eu até arrumei minhas malas e cheguei a dar alguns passos na direção da porta, e fui andando. E não parei por orgulho, mesmo estando chocada por ninguém ter entrado na minha frente e trancado a porta. Girei a maçaneta fazendo bastante barulho, pisei forte os primeiros degraus, caminhei devagar pra dar tempo de ser alcançada. Então eu continuei, olhando pra trás vez em quando e não vendo nada além de uma poeira solitária.
Eu fui embora, e você nem notou. Não senti suas mãos me impedindo, não ouvi suas risadas e nem vi seus olhos me implorando para voltar.  E mesmo agora as conversas tornaram-se escassas, porque foram indo para o ralo e eu parei de afastá-las com o rodo. E os abraços, que sempre foram rápidos e frouxos, extinguiram-se porque você, certamente, não via mais necessidade deles. E a saudade que você disse que ia sentir quando nos despedimos, lembra? Você não sentiu. Será que, as vezes, sente? Será que, as vezes, pelo menos, lembra? E as perguntas que eu te fiz você ouviu, mas não respondeu.
Por isso também, talvez, parei de procurar seus olhos, porque eles já não me vêem mais e não sei se algum dia o fizeram. Parei de sentir seu perfume, seu toque, porque você se afastou de tal forma que já não te alcanço. Parei de te procurar, porque já não te encontro. Parei de ir embora todo dia e também de ficar parada, estou agora numa bifurcação entre a estrada que me leva embora pra sempre e a estrada que me mantem nunca perto o bastante de você. 
E mesmo aqui, nessa encruzilhada absurda, não parei de escrever para você, mesmo que escondida, porque não escrever seria o mesmo que não sentir nada, e não posso mentir desse jeito pra mim mesma. Porque as palavras que eu nunca te disse ainda estão na garganta, virando nó, lutando para chegar aos seus ouvidos e encontrando apenas um vazio ao lado.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um pouco de um tanto

Ainda tem tanta coisa bonita pra viver. Tantos corações para partir e tantas pessoas para deixar partirem o seu. Tem tanta dor pra sentir, tanto amor pra compartilhar, tanta lágrima pra cair. Ainda tem tanta gente pra conhecer, tantos lugares pra visitar. Muito ar para suspirar. Muitos quilos para engordar, muitas dietas para fazer. Ainda tem tanta vida pela frente! Tem tanto morrer de rir, de amar, de chorar.  Tanta vida querendo ser vivida, tanta coisa querendo acontecer. E por que não deixar? Por que cansar do pouco que já passou, se ainda tem tanto para passar? Por que se jogar do prédio, se, na esquina dele, o amor da sua vida estava te esperando inconscientemente? Por que cortar os pulsos no banheiro do metrô, se na próxima estação você ia reencontrar um velho amigo? 
Ainda tem tanta história pra ser contada, tanta palavra pra ser escrita. Ainda tem tanto, mas tanto, para ser, e estar e existir. Por que essa mania de querer ir embora se está tão cedo? Por que estar tão saturada de tudo, se o relógio mal começou a tiquetaquear? Por que essa vontade agonizante de desistir se mal chegou a tentar? Por que, meu Deus, achar a morte mais acolhedora se ainda nem chegou a conhecer a vida? Ainda tem tanta palavra pra ser dita e ouvida e gritada e sussurrada. Tanto sangue para o coração bombear. Tanto sono para dormir e sonhar e acordar e realizar.
Ainda tem tanto, e o que nos faz querer mais ainda do que isso? Por que estar sempre insatisfeita? Por que as pessoas sempre querem o que não tem? 
Acho que é porque a vida tem o tempo dela e não se importa se você mudou de opinião quanto ao que quer ter. Deve ser porque, agora que você abriu mão do amor, ele apareceu. Agora que ela resolveu arrumar as malas, e mudar de cidade, e mudar de ares, surgiu uma razão pra ficar. E não é um pouco irônico? Não é um pouco triste quando a vida dá uma dessas?
Agora que a mãe descobriu o quanto pode ser bom seu filho fazer um intercâmbio, e finalmente o deixou ir, ele desistiu. Agora que o pai concordou em colocar sua menininha numa escolinha de futebol, porque ela não quis o balé, ela resolveu que quer fazer luta. Não é um pouco chato esses desencontros? Não é um pouco forte toda essa confusão?
Agora que ele cansou de partir corações e enfim se apaixonou pela menina fora do padrão, com os cabelos curtos e escuros e os olhos castanhos quase amarelos, foi ela quem se mandou e deixou o rapaz com os pedaços do que restou de seu amor. Não é meio clichê? Isso da vida só começar a fazer sentido quando a morte já chegou. É meio absurdo. Um pouco extravagante, não?
Quem quer o que têm quando a vida fornece o que não se quer? Quando a vida quer te dar apenas um pouco de um tanto que poderia?
Tem muito pra viver ainda sim, mas você só vai descobrir isso quando tiver morrido e se, ao menos, você  já soubesse disso, talvez não concordasse em morrer. Não é um pouco doloroso? A vida ser tão bela, e você não conseguir apreciar? Sim, é um pouco injusto também.


"Eu sei que lá no fundo há tanta beleza no mundo,
 eu só queria enxergar. 
As tardes de domingo, o dia me sorrindo, 
eu só queria enxergar."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Porque eu preciso disso e de tudo, e de tanta coisa mais. Fiquei muda quando chegou a hora que eu finalmente quis que alguém me visse chorando. Fiquei seca. Não sei mostrar fraqueza por outra fonte que não seja a palavra escrita. E ninguém mais lê hoje em dia.
Vou vivendo do que convém, fazendo o que me agrada, morrendo louca pelos cantos empoeirados de uma casa sem cantos. Nada ia mudar. Fui achando tudo tão tanto faz, tão qualquer coisa está bom. Porque o que não é editado parece sempre loucura? Eu sei, mas acho que gosto de não explicar demais, porque isso tira a essência do que se quis dizer. Se não houvesse o ponto e a vírgula, talvez, também parecesse loucura. Mas tem, e eu queria que tivesse tanto mais. Talvez tornasse mais fácil, talvez fosse igual. Nada ia mudar. É o que acontece quando a gente sonha demais? Parece que o mundo deixa de girar e começa a cambalear para todos os lados, derramando seus mares nas galáxias próximas, cuspindo o pólen das flores no universo, como se fossem lixos. Delicados grãos jogados ao espaço.
Contei piada em vez de chorar, quando fiquei muda, lembra? Acho que esqueci como era ser consolada. Acho que não gosto de ser consolada, mas acho que quis, aquele instante. Acho que, as vezes, ainda quero.
E pra não morrer querendo ouço esses blues de bar que fechou e me deixou trancada pra limpar a sujeira. E ainda sinto que estou limpando essa sujeira, mas parece que ela nunca fica menos suja.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um obrigada ao Objetivo

Ontem foi um dia difícil porque tive que ver todos vocês, cumprimentar apenas os que são próximos e fingir que era uma dia comum, enquanto, na verdade, eu queria poder abraçá-los e dizer que amei conhecê-los e rever alguns; queria ter podido abraçar mesmo os que mal falavam comigo, ou os que nem sabiam meu nome, afinal, todos contribuíram para o ano que estive aqui. Queria ter dito um adeus bonito, de quem vai morrer de saudades e deseja tudo de melhor, mas não pude. 
Ontem eu fui dizer tchau para as pessoas que se descabelaram comigo durante o ano, para aqueles que perderam noites de sono e tiveram suas manhãs regadas à café, sem que eles percebessem que aquilo era um tchau. Àqueles todos unidos, dia após dia, com um único objetivo em comum - fui dar meu adeus. A esses com quem passei tardes estudando, manhãs reclamando do ar condicionado que estava sempre frio demais, semanas dizendo que ia desistir, e meses jurando que não deixaria a peteca cair. 
Não foi longo o tempo que passamos juntos, um ano é pouco, eu sei, e nem chegou a ser um ano inteiro. Mas foram momentos extremamente intensos, marcantes e decisivos na vida de todos nós. Por isso, vai ver, dá um dorzinha, que de "inha" não tem nada, ao pensar que não os verei mais. Atravessamos esse período,  essa fase que achávamos todos que nunca iria acabar, e o fizemos juntos. 
Tudo parecia infinito, estressante, intenso demais, e agora aqui estamos nós: no fim. Quem diria? Quem diria que eu até sentiria falta dessa loucura toda, desse absurdo que foi o ano, tão desesperador que despertou emoções à flor da pele? Que originou brigas entre quem jurava nunca mais se falar, e no dia seguinte se abraçava. Que deu lugar à risadas, as vezes até de nervoso, que atrapalhavam as aulas de tão altas e fortes. Que formou amizades antes impossíveis, entre pessoas sem nada em comum. Que juntou alguns casais e separou outros.
Parando pra pensar, o que achávamos que fosse ser o pior ano da vida, talvez, tenha sido um dos melhores.  Acho, inclusive, que esse foi o melhor pior ano da minha vida. Um ano que não tivemos classificações, nem crianças por ainda estar na escola, nem adultos por estar na faculdade. Meio termo. Fomos felizes assim, e o bom é que todo tempo estávamos conscientes dessa felicidade. Talvez, por isso, não haja vontade de voltar no tempo, porque não deixamos nada para trás, não deixamos de reconhecer e lembrar-nos a todo momento o quanto éramos felizes. Aproveitamos cada instante, até aqueles em que o tédio e a preguiça de estudar tudo o que tinha estudar tomava conta de todos nós. Sabíamos o valor desses momentos, e que eles seriam vividos apenas uma vez, apenas aquela vez. Por isso, também, a saudade, porque é bom ser feliz e saber que é. 
Talvez a saudade seja maior do que pensamos que seria, mas o que vem pela frente com certeza compensará, afinal, foi pra isso que tanto batalhamos durante esse ano, não foi? Para tomar posse do que está por vir, e vou ficar feliz de vê-los felizes, realizando o que tanto foi sonhado e alcançando tudo que tanto foi buscado. Sei que muitas turmas de cento e poucos alunos ainda passarão, ano após ano, por aquelas mãos cuidadosas, piadas sujas e pegadinhas surpresa dos nossos queridos professores. Mas sei também o quanto a nossa marcou, não apenas a nós, mas cada um desses metres, que não escondiam sua preferência por aquela sala cheia de peculiaridades, como a menina a quem o professor de geografia sempre cedia o microfone nos primeiros minutos de aula, pra que ela cantasse as musicas mais esdrúxulas possíveis; ou como o rapaz que ficava fazendo mágicas na sala de aula, aquele que ganhou notoriedade entre todos no estabelecimento de ensino, conhecido por todos os alunos e professores, que também viviam cedendo minutos da aula para assistirmos às varias apresentações de ilusionismo. 
Marcamos também nos bilhetes que sempre eram únicos, passados de mão em mão até a mão dos professores, como aqueles que os apaixonados pela professora de redação sempre mandavam - o cara do pergaminho, o das flores, o dos versos. Marcamos com a turma do fundo, os apelidos mais engraçados, alguns, inclusive, batizados pelos próprios mestres, e os comentários mais altos e divertidos; os rapazes mais populares de todo o curso, afinal, tínhamos a imitação perfeita do professor mais cruel de todo o prédio, imitação essa reconhecida, até, pelo próprio mestre. E os assovios de fiu-fiu toda vez que a Sophia entrava na sala pra alterar a temperatura do ar, com certeza, viraram marca registrada dessa turma peculiar, que mais parecia uma turma gigante de ensino médio, e não pré vestibulandos. Tenho certeza que as paredes daquele velho Objetivo guardarão essas memórias nossas, ainda que muitos não guardem.
Enfim, acho que fomos felizes, e fizemos aquele lugar mais feliz. Passamos e deixamos marcas, memórias, e não seremos esquecidos, sei disso. Não esqueceremos, também. Foram dias únicos  histórias épicas. E fechamos com chave de ouro esse ano maravilhoso. Meus mais sinceros agradecimentos à vocês que presenciaram meu desespero, minha felicidade, meu estresse e minha força de vontade. À vocês que me viram de short, camiseta e chinelo, coque no cabelo, cara de sono, olheiras típicas de estudante'viram meus choros, minhas risadas e minhas manias. Vocês que presenciaram as aulas em que dormi debruçada sobre os livros, as aulas que matei, as aulas em que tive dúvidas e tirei dúvidas. 
Meu maior e mais gordo "Obrigada" à todos vocês que, pouco ou muito, estiveram comigo nessa jornada que parecia eterna e agora parece que voou. Principalmente à vocês, mestres, que foram muito mais que simples professores; tomaram lugar de psicólogos, amigos e pais, muitas vezes. À Rita de literatura, Marcio de gramática, Nunes (O cruel) de história e Kátia de redação, um obrigada especial porque foram os que mais tiveram que me aturar sempre perguntando, sempre correndo atrás nos corredores, procurando por mais e mais conhecimento que jamais foi negado por eles. Obrigada pela paciência, pela dedicação e por estarem sempre disponíveis, acessíveis e prontos a ajudar. 
Essas são coisas que jamais esqueceremos, e jamais deixaremos que esqueçam, porque, mesmo depois de universitários, sempre voltaremos para rever nossos mestres e aprender mais um pouco com eles, conceitos educativos ou não, tenho certeza. Voltaremos, seguindo o exemplo que vimos ao longo do ano, quando presenciamos muitos ex-alunos que também não conseguiram manter distância desse lugar onde tanto aprenderam, tanto enlouqueceram e tanto sorriram e voltaram só pra matar um pouquinho da saudade dessa época. Com certeza, não seremos diferentes e, quando a saudade apertar, correremos para ver quem tanto nos ajudou, porque existe um laço entre quem ensina, quem aprende e quem aprende em conjunto, e é, com toda certeza, uma das muitas vertentes do amor.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Simplesmente complicado

Eu fiquei te olhando e te medindo, analisando os risquinhos da sua boca, o contorno da sua orelha média de lobo preso, que carrega um brinco de argola justinho do lado esquerdo. Não canso de olhar para ele, que agora brilha mais que qualquer coisa no mundo. Já reparou como ele não é perfeitamente circular? Acho que você o amassou de tanto deitar em cima da carteira lotada de livros lá da biblioteca. Na verdade, acho que vou se amassou todo naquela mesa, com as pernas meio soltas, querendo cair do pauzinho em que estavam apoiados, e os braços moles e relaxados, escorregando das lombadas da sua mochila. Você acordou depois que sua cabeça bateu no cantinho do espiral da apostila e olhou para mim com aqueles seus olhos vermelhos e perdidos de gato que caiu na água. Me viu segurando um livro que nem lembro o nome, nem sei se era um livro, te olhando.
Eu sei que você repara quando eu fico te analisando assim, observando seus detalhes desconhecidos até mesmo por você. Sei porque, um dia, você me disse que eu era muito lunática e complicada para ser real. Não lembro muito das suas palavras naquele dia, porque usei toda a minha atenção ao modo como sua garganta vibrava enquanto as palavras saíam roucas, desleixadas e, para mim, extremamente confusas. Não que eu não quisesse te ouvir, é justamente o contrário. Eu gosto demais de te ouvir, tanto que chego a nem ouvir direito. Mas eu lembro da parte "Sou só eu, minha voz é só minha voz e meu brinco é só meu brinco, não é brilhante, nem tem um formato singular, e não é nada demais. Porque, raios, você tem que complicar tanto?". Acho que lembro dessa parte porque você disse igualzinho uma passagem de um texto da Tati Bernardi.
Mas não é complicado. É tão simples que não cabe nas palavras. Porque, raios, você tem que achar complicado? Sua voz não é só sua voz, ela é bonita, ela é engraçada, forte, meio despojada com vintage, meio rouca em intervalos de tempo irregulares. E isso é simples de um jeito tão simples que me fascina. Complicado seria se não fosse nada demais, como você diz que é.
Acho que é você o complicado da história e não nego que sou lunática, desatenta e observadora. Mas você devia estar feliz por ter alguém como eu te olhando como eu olho. Devia estar feliz por alguém como eu, que não troca as fantasias e os encantamentos dos livros por qualquer pedaço de gente por aí, fácil assim, estar substituindo tudo isso por alguém como você, que nem se importa e ainda me acha "complicada".

domingo, 9 de dezembro de 2012

Para meu amigo imaginário de papel

Eu desfiz meu facebook. Aliás não cheguei a cancelar a conta, só tirei praticamente todas as informações e as fotos, e abandonei. Tirei um peso das costas, confesso, porque toda essa tecnologia estava me afetando de alguma forma que não sei explicar. Toda essa coisa que esta tornando os seres cada vez menos humanos, cada vez mais distantes uns dos outros e, cada dia que passa, mais alienados à vida que não seja virtual, estava me tirando do meu centro de equilíbrio, que nunca foi muito equilibrado. 
Foi bom me distanciar dessa robotização em massa, reconheço, mas agora só o que me restou foi você. Agora parece, e talvez não apenas pareça, que só tenho esse único amigo pra me ouvir, me ler ou fornecer seu silêncio e seu ombro, que vem em forma de folhas em branco e um lápis bem apontado, como quem diz: vai, desabafa, fala tudo, estou ouvindo - escreve tudo, estou lendo. Sendo assim, somos nós dois agora, a sua brancura querendo minha palavra e a minha escrita querendo sua brancura.
Quero te contar que não tenho nada de muito bom pra falar. Hoje foi um dia tão dificil quanto aqueles dias que a gente acha que não vai acabar nunca, e que parece que não tem mais nada pra dar errado. Mas não deu nada errado, ou quase nada. Só que o que deu certo é algo que me dói, e não é pouca dor. Lembra quando eu te disse que estava com um medo absurdo de sofrer outra vez? Então.. aconteceu. E eu não perdi o medo disso piorar, nem ganhei coragem pra enfrentar o que já está acontecendo.
Quero te dizer que tudo tem um limite, mas parece que esqueceram de marcar no meu rótulo até onde ia o meu. E aí, sem parâmetro algum para saber quando parar, o mundo vem jogando mais e mais sujeira em mim. E vai tornando minha carga mais e mais pesada. E eu não sei até onde vai isso, porque sei que já ultrapassei todos os limites, já estou bem além do que foi previsto para mim se tivesse uma etiqueta correta.
Tá todo mundo dizendo que a gente sempre aguenta mais do que acha que pode, mas eu sou fraca. E, além de fraca, me enganei absurdamente. Achava que tinha um coração do tamanho do mundo pra conseguir sentir tanto, mas a verdade é que meu coração é pequeno demais, não cabe toda essa dor, não cabe tudo que, teoricamente, devia caber. Por isso, talvez, vive transbordando sentimento pelos olhos; vive derramando palavras nessa folha branca. Porque não cabe. 
E não tá cabendo, de novo, todo esse medo, essa saudade, esse aperto. Não tá cabendo na garganta todo esse nó e eu estou sufocando com ele. Ontem, as roupas que eu tentei passar foram novamente para o cesto de passar roupas, porque meus olhos regaram todos os tecidos que eu tentava alisar. Minhas lágrimas geladas amassaram novamente toda a roupa que o ferro quente passou com o maior cuidado.
Não cabe esse tanto de água salgada em mim, não cabe esse tanto de amor, esse tanto de dor, esse tanto de adeus. Quero dizer que vou dormir sozinha a partir de hoje, e vai ser bom poder chorar sem ter que abafar com o travesseiro. Mas vai ser triste acordar sem bom dia.
Eu queria que você tivesse braços agora, pra me abraçar bem forte e não soltar. Pra me segurar sobre os pés um pouquinho, porque não estou conseguindo fazê-lo sozinha. Mãos para afastar meus cabelos que já estão grudados no meu rosto molhado. Dedos para enxugar minhas bochechas vermelhas. Eu queria que você tivesse um ombro largo que coubesse minha cabeça, porque meu pescoço não está dando conta de equilibrá-la. E que você pudesse ter um colo que me coubesse inteira nele, só pra eu poder me embolar em você e tentar manter unido os pedaços do meu corpo que estão querendo desmoronar pela rua. Eu queria que você existisse agora, ou que eu voltasse a ser um pouco mais crente nas fantasias que sempre gostei de inventar.
Quero dizer que escutei chorar a pessoa que me resta nesse mundo, outra vez, e que isso me doeu tanto, porque sempre me dói, que chegou a ser uma dor física, ao mesmo tempo que era uma dor da alma. Não aguentei. Sucumbi ao soluço desesperado de quem tem um caroço tão grande na garganta que, se não soluçar, morre engasgado. Perdi o ar durante os primeiros segundos, perdi o senso, o chão. E fiz tudo isso no silêncio absoluto. Ninguém percebeu minha agonia, parada ali, sentada comportada no sofá. Acho que morri mais um pouco naquele momento, porque o ar eu até recuperei, mas o chão e o senso me abandonaram pra sempre.
Quero te dizer que não sei o que estou fazendo mais e tenho medo de me jogar dessa janela justamente por não conseguir mais julgar o que isso significa ou significará. Quero te dizer que te escrever foi tudo que me restou e eu espero que não seja em vão e que você me responda de alguma modo, em algum lugar.
Porque tenho medo de você não existir nunca, e ir embora mesmo assim, porque essa coisa de me deixar virou moda e parece que só essa dor absurda ainda não aderiu à ela.
Então, por favor, amigo imaginário de papel, não siga esse padrão você também. Não me deixe aqui sozinha também, acompanhada apenas desse buraco pra me consolar. Não me deixei só com as minhas pernas pra me sustentar, porque elas também estão sucumbindo, junto com todas as coisas que me faziam continuar em frente.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Porque eu escrevo sobre o amor

Sabe, me desculpa. Você que me lê, ou você que tenta me ler. Sinto muito. Eu digo "me ler" e não "ler o que escrevo" porque eu praticamente me escrevo aqui. E, contudo, não escrevo o que, de fato, tenho vivido. Escrevo apenas o superficial do que sinto; aquilo tudo que é fácil de ser escrito e sentido e colocado pra fora. Escrevo muito, confesso, mas só porque sinto muito e, mesmo o mais superficial dos sentimentos, é muito quando se trata de mim.
Peço desculpas porque sei que alguns olhos caminham pelas minhas linhas procurando assuntos interessantes e frases dignas de fechar a ultima página de um livro. E acabam encontrando isso, esse monte de escrito sobre amores impossíveis, inventados ou reais, e desilusões; tudo muito digno de um diário cuja dona tem 13 anos, acredita em finais felizes e acha que a vida é um romance infanto juvenil. Desculpem por isso. Mas é que essa é a parte mais fácil em mim, e eu não sei mais lidar com dificuldades, não aguento mais ter que lidar com elas - eu fujo do que é difícil. É mais fácil lidar com a menina de 13 anos e seus problemas típicos da idade do que lidar com essa de 19 que vive do avesso.
A vida já tem sido pesada demais durante um longo espaço de tempo e aqui é o único lugar que dá pra pegar mais leve, que dá pra tentar esquecer das coisas tristes e difíceis e tornar tudo um sonho bobo, e é isso que tenho feito. Aqui é uma espécie de fuga, abrigo; um lugar onde eu posso esquecer um pouco das decisões que preciso tomar, escolhas que preciso fazer e barras que tenho que enfrentar. Onde eu posso ser apenas a menininha que não sabe que o mundo está bem longe de ser bom.
É fácil escrever sobre esses amores, porque eu não sou mais tão romântica e iludida quanto era aos treze e, por isso, escrever sobre eles não me machuca. Lido meio friamente, meio calculista e meio distante com toda essa coisa de amor, embora minhas palavras vivam carregadas de romantismo - aliás, acho que isso acontece só porque guardo um vestígio de fantasia infantil de quem assistia "A Bela e a Fera" e chorava quando a fera virava principe, porque gostava mais da fera. Mas hoje em dia, tirando esse pequeno vestígio de ilusão que herdei da infância, sou bem prática com o amor e só compartilho com ele as informações que são estritamente necessárias. Fora isso, o guardo na parte mais rasa de mim, mantido sob vigilância constante só pra não me deixar esquecer de sua existência irreal. 
Na verdade, tem muita coisa que guardo bem mais dentro de mim e que não tem nada a ver com essas paixonites, e que até gostaria de colocar em palavras, mas não dá, não consigo, porque a grande maioria dessas coisas são dores, e felicidades poucas e intensas que me trazem saudade demais, tanto que também acabam doendo no fim. E acontece que depois de alguns tombos doídos, algumas perdas muito grandes e algumas lágrimas gordas, peguei um trauma absurdo de sofrer. Toda e qualquer coisa que possa me magoar eu já descarto, mesmo sem ter certeza, só por precaução.
Aí acontece que eu acabo escrevendo sobre o amor, acabo fantasiando sobre ele e criando um mundo ilusório, um universo paralelo, só pra fugir de tanta sujeira que esse mundo carrega, só pra me distrair um pouco. Escrevo sobre o amor e sobre o quanto ele me detesta e o quanto isso me deixa triste - e realmente deixa. Mas, na verdade, das coisas todas que me entristecem, essa - o amor - é a que menos me afeta. Eu prendo ele lá naquele mundinho que criei e nunca esqueço que ele é só imaginação e aí fica tudo bem; aí ele não me atinge. Mas não dá pra fazer o mesmo com a dor, porque ela é bem mais que imaginação e ela sempre foge dos universos em que a prendo, porque sabe que é realidade e não quer ficar presa em mundos surreais. A dor é sempre mais esperta.
Desculpem por, talvez, não ter sido totalmente sincera até agora, mas é que não dá pra mexer nessas cicatrizes. Não dá pra escrever sobre elas, nem sobre o dia lá fora que me lembra o quanto eu queria poder aproveitá-lo com a pessoa que mais doeu perder, nem sobre os planos para o futuro que me trazem mais dor e aumentam a distância entre a realidade e os meu sonhos, já bem escassos. Não dá pra tocar nesse assunto.
Sinto muito, mas não dá pra falar sobre a menina de 19 anos que está escrevendo e, quase sempre, sendo parcialmente escrita. Não dá pra falar de seus medos reais, de suas angústias e dramas. Por isso falo sobre aquela de 13, que ainda acreditava que o mundo era perfeito e a vida era só amor e chocolate. Porque é fácil falar dela, e de seus sonhos utópicos, e de seus desejos distantes e de seus olhos brilhantes, que sempre acreditavam que tudo podia ser bom e todos podiam ser gentis.
Não dá pra falar dessa que finge ainda estar na adolescência e ainda gostar de sonhar, porque é difícil falar nela. Difícil falar dessa menina que fica escrevendo num blog só pra fingir que é menina ainda, e tem problemas normais de meninas. Difícil ser essa que escreve por não querer sê-la, e querer ser apenas uma menina normal, mas que nunca vai ser normal, porque nem menina mais ela é.. já cresceu além da conta pra receber essa classificação.
Hoje, estou escrevendo para que saibam que não sou essa futileza toda que finjo ser, e nem acho que o mundo se resume em amores e paixonites absurdas - quem dera, aliás - como eu sei que faço parecer em meus textos. Hoje, quem escreve não é a menina de 13 anos, mas a moça de 19. E escrevo só para saberem que realmente queria poder entretê-los com assuntos e textos e palavras divertidos, descontraídos e leves, como fazem os escritores. Mas não tenho esse dom, meu amores, e só eu sei o quanto queria tê-lo. Hoje estou escrevendo e sendo eu mesma, e assumindo a responsabilidade por isso, mas, pela manhã, tenho certeza, já terei voltado para as minhas diversas personagens, me vestido de alguma e voltado a escrever sobre amores. Porque é isso que eu faço e sei fazer: lidar com o fácil, com o que não dói, com o que é fantasia - nunca realidade. Desculpem, mas sou fraca e o mundo é pesado demais pra mim; as coisas muito difíceis eu prefiro largar pra não ter que lidar com elas, e sofrer, e chorar, e sabe-Deus-o-quê, tudo outra vez. Como eu disse, tenho trauma disso. Tenho medo de me escrever como realmente sou, e me ler e descobrir o tamanho do buraco negro que me tornei. Por isso, prefiro não me escrever, consequentemente não me ler e, felizmente, não saber a profundidade dessa cratera.
Desculpem, mais uma vez, mas sou medrosa mesmo, talvez até covarde. Amanhã voltarei a ser a menina apaixonada e a usar palavras fofas, porque não consigo mais ser sincera comigo mesma durante tanto tempo e hoje já esgotei as reservas. Voltarei a viver no mundo encantado e idealizado e não falarei mais dessa feiura que é o mundo real, ou a realidade do meu mundo. Amanhã, eu sei, voltarei a ser a menina apaixonada de treze anos, e não mais esse poço desiludido e amargo de dezenove.
Daqui a pouco, eu volto a falar de amor como se nunca tivesse contado pra vocês que, na verdade, não sou romântica assim. Porque sei que ninguém gosta da dor, nem pra ler, nem pra escrever e menos ainda pra sentir, e eu também não faço questão nenhuma de falar dela, então, nem amanhã, mas hoje mesmo, volto a ser a menininha e escrevo, de novo, sobre o amor.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Encharcada

Quantas vezes eu vou desistir de você? Eu digo que não quero, eu finjo que esqueço, mas no dia seguinte lá estou puxando assunto e inventando maneiras de me aproximar. Lá estou, no instante seguinte, sorrindo pra você como se nada tivesse mudado. Como se, na noite anterior, eu não tivesse molhado meu travesseiro de lágrimas e prometido para todas as pessoas e coisas e santos do mundo que não queria te ver nunca mais. Mas eu não consigo não querer te ver. E, quando te vejo, não consigo fingir que não vi, e passar reto, e ignorar o sorriso imediato que meus lábios desenham na sua direção.
Quantas vezes vou fingir que desisti de você? Por que sempre que eu estou realmente tentando, e estou conseguindo não me sabotar, você aparece? Só pra me mostrar que não sou tão forte assim pra te manter longe quando você não quiser também estar longe? Mas é egoísmo isso! Lembra quando eu te perguntei se você vai me amar ou deixar que eu me ame? Então, porque você nunca decide? Porque você some, e me ignora e para de falar comigo e me faz desistir de você, e treinar viver longe de você, se depois você volta, me abraça apertado, me sorri bonito, e deixa de fazer suas coisas pra me dar atenção e me faz acostumar com sua presença outra vez?
Você está me confundindo desse jeito! Parece que faz de propósito. Parece que gosta de me ter por perto só pra se sentir gostado, e toda vez que me afasto, vai me buscar novamente só pra alimentar seu amor próprio. Mas você não é assim, mas eu queria que fosse só pra ter um motivo pra te odiar.
Quantas vezes vou ter que te tirar da minha vida e da minha rotina pra vida perceber que não quero ficar esbarrando com você em cada esquina? Porque cada vez que esbarro em você, quero esbarrar novamente, e diariamente. Quantas vezes vou precisar desistir para o acaso notar que não gosto dessas coincidências que nos unem? Porque cada coincidência dessas me dá esperança de acontecer amanhã de novo, cada acaso desses me faz acreditar que é um "sinal", desses que a gente acredita existir quando tem 12 anos de idade, sabe? E esses sinais só servem pra me fazer voltar a acreditar em nós, e aí eu volto a acreditar, e aí tudo volta a ser como era antes - um mar de nadas. Você não acha que isso já virou um ciclo vicioso?
Não gosto de ficar te vendo por aí, porque gosto demais de te ver, e te vendo assim, perco a coragem de tentar querer não te ver mais. Não gosto desses dias que nossos passos se cruzam sem querer, e eu sou obrigada a ouvir sua voz simpática comigo, obrigada a te abraçar e cumprimentar como se te soltar depois não fosse doer nem um pouquinho.
Eu detesto te encontrar assim, porque eu amo nossos encontrões. Eu detesto parar no meio da calçada do centro da cidade, atrapalhando a passagem das pessoas, para perder horas do dia conversando e rindo com você, porque eu amo nossas conversas e risadas no meio dos nossos dias corridos. Aliás, por que, raios, você tem que colocar sempre aquela mesma camisa xadrez desbotada? Só porque eu amo te ver dentro dela? Por que você faz tanta questão em me abraçar quando nos cumprimentamos? Será que não dava pra ser só um oi descompromissado pra não correr o risco de eu não conseguir te soltar mais? Por que foi que eu tive que te conhecer? Quem foi o infeliz que nos apresentou? E por que você sempre escolhia sentar perto demais, conversar demais, rir demais?
E hoje, você apareceu de novo. E eu tinha, de novo, desistido de você. Fico pensando até se, quem sabe, eu parar de tentar desistir de você, você pare de aparecer assim, do nada. Enfim, mesmo querendo te xingar por estar ressuscitando uma esperança que eu demorei tempos para conseguir matar, tudo que consegui fazer ao te ver foi sorrir e emanar coisas bonitas na sua direção. Porque perto de você é tão fácil sorrir, e dizer palavras boas de se ouvir que até esqueço de ficar triste. É tão mais fácil respirar, e o mundo parece ser tão melhor quando a gente tá junto, que eu nem lembro que tenho que ter raiva, porque você preenche os espaços dentro de mim, como se meu coração fosse um rio que enche tanto que transborda na sua presença, me fazendo quase afogar em tanta água. Porque você definitivamente não é o cara que vai me aquecer quando estiver frio, ou que vai me dar seu guarda chuva. Você é a tempestade, o furacão, a neve. Você é o cara que me transborda. E eu acho que gosto de me afogar em você, porque você é tormenta, e eu nunca gostei de calmaria.
E a gente ficou lá, conversando sobre tudo no mundo e não se importando com a chuva que ia nos molhando aos poucos, que eu nem percebi que caía. Permanecemos ali como se a vida tivesse parado pra esperar nossa conversa, como se todo o resto pudesse esperar, os professores, a faculdade, o sinal para entrar, os estudos todos, meus e seus; como se o mundo tivesse estacado em seu giro, e como se você não tivesse perdido uns três ou quatro ônibus que, antes de nos encontrarmos, você esperava impaciente.
Ficamos ali, como se eu não soubesse que você tinha aparecido só para me balançar e que, depois de restaurar as esperanças, ia sumir de novo. Continuamos lá, como se eu tivesse esquecido que ia doer quando você se despedisse, porque eu saberia que não saberia quando te veria novamente.
Como se eu tivesse esquecido que a chuva caía e molhava minha roupa, a unica parte seca em mim, já que eu já estava encharcada mesmo antes dela cair. Você já tinha me encharcado, pra variar, e não era o cabelo ou o moletom, mas desde os olhos até o coração. 


" Why you wanna
show up in a old t-shirt that I love?
Why you gotta 
tell me that I'm looking good
 and don't know what?
You were thinkin'
You were doing
Moving in for a hug 
like you don't know I'm coming unglued
Why you gotta, why you wanna
 make me keep wanting you? "
(Jana Kramer - Why you wanna)

sábado, 1 de dezembro de 2012

" Attraversiamo "


Atravessei. O período, a fase, a situação, o problema. Você. Ou, pelo menos, um dos muitos periodos e problemas, uma das muitas fases e situações, um dos alguns "você" que tive. Travessia é o mais importante, e acho que cheguei nesse momento. Caminhei tanto, tanto, e acho que só quando parei pra descansar, pude me dar conta que a ponte estava ali, na minha frente. Talvez tenha estado ali o tempo todo e eu só a tenha ignorado por acreditar tolamente que a história ainda não tinha acabado. Mas o ponto final já aconteceu há muitos e muitos parágrafos atrás, e você percebeu isso antes de mim mesmo que eu tenha encontrado um novo alguém para gostar antes que pudesses fazer o mesmo.
Você seguiu com sua vida, e quando te vi seguindo fiquei perdida, porque achava que seguiríamos juntos e nem sabia que achava isso. Porque eu te enterrei dentro de mim, e estava certa que aquilo havia sido um ponto final, mas só porque você estava sozinho, e eu também. Quando te vi com ela, caiu a ficha que eu havia colocado apenas reticências nessa quase história e, inconscientemente, ainda esperava que retomássemos de onde paramos. Infelizmente, eu me enganei todo esse tempo, dizendo e acreditando ter superado você. Mas, sabe, no fundo foi bom te ver com alguém, e ver que você encerrou esse capítulo, virou a página e tem ao seu lado um amor. Foi bom te ver assim, de bem com alguém que não complica as coisas.
Eu queria ter feito o mesmo, e não ter dispensado todos os possíveis amores que me surgiram ao longo desses anos achando que o fazia por querer, não por ainda te esperar. Sabe, por incrível que pareça, não dói. Assustei no inicio, tive um momento de pânico e me senti profundamente sozinha quando vi o novo casal. Mas foi bom porque, apesar do choque, não machucou, não entristeceu, apenas me fez acordar desse sonho louco que eu tinha preparado pra nós sem nem me dar conta.
Hoje, isso tudo que aconteceu apenas me traz alivio e me permite gostar por inteiro de quem eu já gostava pela metade antes. Agora me parece não apenas saudável e sensato, mas muito bom, atravessar. De todas as coisas que eu preciso superar na vida, atravessar você foi a mais importante porque foi o primeiro passo para as próximas pontes que terei que enfrentar; graças a você, eu estou andando pra frente novamente, eu perdi o medo do que vou encontrar do outro lado e dos buracos e pedras que vou ter que aguentar no caminho. Acho até que fico te devendo essa, porque você, meu bem, foi só a primeira travessia, e eu gostei muito dessa coisa de atravessar, sabe. Na próxima, se eu demorar muito pra achar a ponte, eu mesma construo uma porque descobri que, as vezes, o que tem do outro lado não é tão bom quanto você imaginou... é melhor.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sobre você

A primeira frase acho que já foi. E agora a segunda. Será que chego na terceira? Acho que dessa vez consigo, porque as vezes me parece fácil substituir você por algumas palavras, mas veja bem, já te inclui no texto sem nem terminar o primeiro parágrafo. Como faço? Comecei fingindo que ia ser diferente, mas nunca é. Eu sempre falo de mim, e de você, e de nós e de como o resto do mundo gira em torno disso. E de como as crianças na áfrica torcem pela gente, e como os publicitários do mundo todo inspiram sua criatividade em você. Em como todos os outdoors gritam que a gente nasceu pra existir junto.
To pensando em você, e aceitando o fato que os padres e pastores e bispos pregam que eu não sei falar sobre outro assunto que não te inclua; e sabendo que o mundo só está em crise porque estamos separados e que os EUA vão entrar em guerra se continuarmos longe um do outro. E assim eu comecei já me complicando, te explicando que não sei usar palavras que não são sobre você. To sabendo que é demais, que tá um exagero só, que tá tudo gritando e morrendo sufocado de tanto que eu aperto tudo pra caber no espaço que é você dentro de mim. E tem mais você do que eu.
Agora eu parei, de verdade, e eu paro toda vez. Hoje eu vou falar sobre qualquer outra coisa, mas todas as coisas e outras coisas clamam, pedem, imploram e choram pra eu falar sobre você. E sou boba, lembra? Não sei dizer não. A plantinha do seu Orfeu, que tem sido uma ótima amiga, me sussurrou que você era o assunto preferido dela, e as laranjas da quitanda da esquina, sem que a Dona Vilma escutasse, confessaram que queriam te ler mais vezes nas minhas linhas. E elas sabem que você está nas minhas linhas, entrelinhas, frases, rabiscos, escritos e palavras soltas. E isso acontece não porque eu sou louca, acredite, mas porque ta todo mundo querendo te saber, porque o mundo todo só se importa com você e dane-se todo o resto.
Já avisei que temos outras coisas para nos preocupar, tipo a violência, a fome e a greve dos setores públicos, mas não me ouvem. Só querem saber de você, e como está bagunçado seu cabelo hoje, e com quem você anda falando, e que musica tocou no seu instrumento grave e como acordou. As eleições aí, e eles me perguntando com que roupa você vai estar, em quem vai votar, e o que quer fazer amanhã. Mas não vou usar tudo isso de espaço e gastar tudo isso de tempo te escrevendo, já avisei, porque, apesar do planeta viver em sua função, eu tenho consciência que a vida não é só escrever sobre você. Eu tenho mais o que fazer, aliás. Eu tenho mais sobre o que escrever, inclusive.
Dessa vez, eu sei, eu prometo, juro e afirmo, não vou escrever pra você porque escrever serve pra alimentar sonhos, e eu detesto me iludir. Escrever é afirmar que sente, mas eu não quero sentir mais nada. Não vou escrever pra não parecer a maluca do parque que, em vez da machadinha, tem um lápis na mão. Não vou escrever pra não parecer louca e estranha demais. 
Dessa vez eu vou lá fazer o almoço que já devia estar pronto a horas; vou lá passar a roupa que se acumula faz mais de uma semana; vou lá fazer as mil e uma coisas que deveria estar fazendo e você não deixa, e o mundo me impede de tanto que quer ouvir falar de você.
Se eu disser que talvez, quem sabe, pode ser que eu meio goste de você, o que você faz? Acho que foge, que corre, que morre, porque eu sou essa mania toda de achar que posso ser especial no seu coração. Essa mania de pensar que escrevo algo que valha a pena ser lido, algo que não seja sobre você e seus problemas, e suas veias e seus poros.  Essa mania de achar que posso ser normal. Mas não sou. E acho que gosto de você. Olha a tragédia! Eu, no seu lugar, teria medo de mim. Não vou escrever, agora eu parei, sério. Não vou escrever porque já estou escrevendo. Não vou escrever porque, droga, já escrevi.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Morrer de arte

Tenho certa repulsão pelas pessoas as vezes, pelas suas crueldades, e sujeiras e nós. Não nego, não, porque seres humanos são mesmo complicados. Mas quando esqueço de ver a parte feia, me emociono com esses seres. Ouço uma musica bonita, e tenho dores no coração de tanta felicidade instantânea. Vejo as artes: poesias, músicas, pinturas e belezas que essas mãos tão falhas e tão humanas foram capazes de criar, e fico encantada. Porque, para fazer arte, é preciso um coração tão delicado a ponto de sentir os mais leves e sutis sentimentos, e isso é tão raro entre nós! Por isso, escrevo sobre essa magia que, vez ou outra, invade os poucos corações nobres que ainda circulam e batem por aí. 
Vejo, ouço e sinto as pessoas, e seus corações, e suas canções e suas formas de se expressar. E tenho vontade de chorar. Um choro de alma, um choro de gratidão e felicidade por ter sido tão forte e delicadamente tocado. Um choro de amor, de beleza excessiva, de excesso de poesia. Um choro de quem reconhece que a humanidade é suja e podre, mas, vez ou outra, sabe ser pura também.
Quando vejo uma pessoa expressando sentimentos verdadeiramente, sinto leveza na alma. Porque a arte é isso, libertação de espírito e não há quem não morra um pouco disso. Eu, por exemplo, morro bem mais que só um pouco, e morro diariamente, e morro feliz, porque não há felicidade maior que morrer de arte.

domingo, 11 de novembro de 2012

Somente nos cinemas

Eu quero agora uma mudança. Rasgar esse roteiro porco e sujo que escrevi pra ter uma vida mediana e insossa, e escrever tudo outra vez, do começo.
Vou começar pelos meus amores - ou falta deles. Mas eu quero amor que acontece junto e de repente. Um amor que possa nascer das risadas que daremos juntos ao pôr-do-sol; das madrugadas que iremos virar andando pelas praças mal iluminadas da cidade feito dois perdidos, e ouvindo e cantando com o Renato que somos tão jovens. Que possa nascer das lágrimas derramadas e, um pelo outro, enxugadas. Que esse choro típico da idade de quem acha que o mundo vai acabar amanhã possa, na presença do outro, virar o riso comum e incontrolável e alto que carregam as pessoas jovens demais para entender a vida. Que nasça um amor de uma amizade despreocupada, leve e rápida, daquelas que quando você bate o olho na pessoa já sabe que vai gostar dela e, depois de dois minutos de conversa, gosta tanto que quer ser melhor amigo. Que o amor consiga nascer em saídas divertidas em grupo, nos trocadilhos bobos e nas piadas tão sem graça que nos farão rir. Que haja aquele momento de risada tão alta e forte, seguido do momento que pararemos para pegar ar, olharemos um para o outro, e caiamos na gargalhada outra vez.  Que possa começar a existir sem que percebamos, primeiro se parecendo apenas com muita simpatia, alguns toques de sintonia, depois com amizade, mais tarde com carinho, amanhã com um gostar absurdo da presença do outro e no futuro com um não conseguir estar longe. Que venha fácil e espontâneo como uma risada, que é fundamental. Porque amor nada mais é que conseguir rir junto toda hora, todo momento, qualquer instante, de qualquer coisa. Amor é engraçado porque é absurdo.
Eu busco um amor que eu não encontre e reconheça de cara, mas que aconteça sem aviso. Que eu o conheça assim, como quem não quer nada e que não haja segundas intenções à primeira vista. Que possamos ser apenas pessoas legais no inicio para que haja espontaneidade nas palavras, no ser e no estar. Que comecemos sem perceber que começamos, apenas sendo nós mesmos e esquecendo de tentar agradar. E que, ao longo de abraços em manhãs tristes e chuvosas, através de sorrisos em tardes ensolaradas na praia e por meio de gargalhadas incontidas nas noites que passaremos dançando até o amanhecer nas avenidas da cidade dormente, possamos ir nos descobrindo e nos gostando até que, sem querer, troquemos um desses beijos bonitos, que não estavam escritos para acontecer, que não foram programados por nenhum dos dois.
Que a partir daí possa haver leveza e simplicidade, e possamos deixar acontecer como tem que acontecer, sem interferir, sem forçar, sem pressionar.  Até que possa nascer amor conjunto, de mesma intensidade, com mesma frequência, em dois corações. Brotar amor, para que possamos regá-lo com tudo que há de bonito. E crescer aos poucos como aconteceu com o gostar. 
Eu quero esse amor, mesmo que, no fim, ele não vire amor e continue sendo essa coisa bonita que é sentir algo bonito por alguém. Não importa. Eu só não quero continuar vivendo esse livrinho que escrevi pra viver; esse livrinho que vive inventando sentimento onde não pode existir, seja em mim, seja em outra pessoa.  Esse livrinho que tá sempre planejando demais, criando expectativa onde não cabe esperança. Cansei de viver essa historinha morna que nunca me deixa amar e ser amada, esse filminho de sessão da tarde que sempre acontece de um começar gostando, e tentar fazer o outro gostar, e planejar, e querer induzir um sentimento. Cansei disso, porque nunca gostei desse negócio de fazer alguém gostar de você. Quero um amor para o qual eu não precise ficar dando provas do quanto sou amável, e que não tenha necessidade de me mostrar o quanto eu posso gostar dele.
Mas não sei se esse roteiro que estou tentando escrever hoje pode se adaptar para algo mais real que uma sala de cinema, um palco de teatro. Porque lendo tudo assim, rápido, me pareceu muito uma comédia romântica com uma trilha sonora do rock brasileiro dos anos 80 e 90, daquelas que passam no Telecine Pipoca e acontecem nas inúmeras temporadas de Malhação. Ainda que não eu não queira um senhor principe montado em seu cavalo branco, ainda que eu não me importe com esse romantismo meloso e inexistente, e ainda que eu não seja uma mocinha que espera ser salva da torre, esse roteiro está se parecendo muito com um filme água-com-açúcar.
Acontece que, no cenário atual que eu construí para minha vida, qualquer pedacinho de chão que haja mãos dadas, qualquer risada muito larga e natural e conjunta ou qualquer sentimento que possa ser mútuo já parece conto de fadas demais pra mim, com direito até à final feliz e "Coming soon" escrito na frente. Coisa de cinema, não de vida real. Coisa para os outros, nunca pra mim. Sabe aquela frase que vemos quando um filme entra em cartaz?  Então, acontece que amor assim, pelo visto, é só assim, somente nos cinemas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Tempo perdido

Nós somos jovens e acidentes acontecem, e pessoas morrem e fazemos umas merdas de vez em quando. Falamos demais, de menos ou ficamos em silêncio e nenhuma dessas coisas fazemos em momentos apropriados. Queremos o tempo todo sair da rotina, temos ânsia de viver como se fossemos morrer amanhã, de experimentar como se tudo fosse degustável, de não apenas assistir a vida. Queremos ir pra todos os lugares do mundo ao mesmo tempo. Dormimos muito e tentamos ao máximo ficar acordados pra não perder nada da vida. Viramos noites, desviramos dias, colecionamos olheiras, mas isso não nos preocupa porque somos jovens, e isso é mais experiência pra por na bagagem. Não nos condene, não nos culpe, não nos julgue. Vocês já foram jovens também, então porque repreendem tanto isso tudo que já fizeram? Será que esqueceram como era boa a sensação de andar descalço na rua enquanto a cidade está dormindo? Como era bom o gosto da risada, enquanto vocês e seus amigos se apertavam pra caber no mesmo carro?
Nós somos jovens, com muito juizo, mas muito mais vontade de viver. Somos jovens, cheios de dúvidas sobre o amanhã, cheios de certezas sobre a vida. Cheios de saudade da infância e cheios de vontade do futuro. Temos nosso próprio caminho para seguir e, definitivamente, não pretendemos seguir os passos de vocês, por melhores e mais corretos que esses tenham sido. Queremos formar novas pegadas na areia, pisar onde ninguém mais ousou, falar o que nunca foi dito e fazer o que ninguém teve coragem ainda. Sonhamos com uma sociedade cheia de regras, para que possamos quebrar todas. Gostamos de ser exceção, fazer diferença, lutar pelo que acreditamos. E acreditamos em muitas coisas que vocês também acreditavam e que, hoje, nem se lembram mais. Gostamos da musica porque ela nos leva a lugares que só a imaginação pode criar. Amamos a liberdade porque ela é a única que confia que saberemos criar nossos próprios limites. Somos muitos. Apaixonados pelas artes, porque ela nos permite expressar o que vocês tanto reprimem, nos permitem falar o que vocês não querem ouvir, e fazer o que não fazem. Gostamos da noite, do sereno, da calçada e das risadas entrecortando o Renato Russo em suas melodias que não saem dos nossos ouvidos. Mas crescemos, e perdemos a vida, e perdemos o tempo, porque o tempo passou. Éramos tão jovens!
Esses nossos atuais, sérios e adultos tons pastéis estão enjoando, estão desbotando. Da tempestade que éramos, viramos essa brisa. Mas eu quero o furacão, que bagunça tudo. Preciso me bagunçar um pouco, porque to organizada demais. To responsável demais, e gostei tanto de passar a madrugada na rua, deitada no chão, como se o mundo não importasse. Como fazíamos quando eramos jovens, e despreocupados, e inconsequentes, e com ânsia de mudar o mundo. Lembra?
E hoje fiquei velha, e o trabalho não me deixa cantar, me cegam os olhos essa sociedade passiva. E onde foi parar nosso tempo? Nossa coragem pra arriscar?
Éramos tão fortes, tão poéticos, tão simples, tão felizes ao acreditar no amanhã, ou ao não pensar nele. E quanto tempo faz que não paramos para sentar na calçada e discutir nossos planos para o futuro? Quanto tempo passamos sem sentir o sereno da noite mergulhar em nossas peles quentes como se não houvesse futuro algum? Quanto tempo passamos perdendo o tempo que nos perdeu? Temos tanto tempo a perder ainda! Desde que sejamos sempre jovens, e nos percamos da perda de perder tempo perdido, tudo vai ser novo, porque somos jovens, tão jovens, então vamos viver esse juventude! Porque perder nosso tempo eterno sendo jovens não é tempo perdido, é tempo vivido.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

[Muda]nça

Eles correm por todos os lados, vencem tantos obstáculos e, por alguns, deixam-se cair. O caminho ora fica torto, ora fica louco. Todo o mundo corre atrás, mas ninguém liga de verdade. E não importa que chova, que molhe, que corra, que chore. A vida segue, o tempo continua, porque o mundo não pára de girar e girar e girar, e tudo gira junto, e tudo fica do avesso. Quando abrem os olhos, e tudo é paraíso de novo, e a água é límpida novamente, e as flores são aromas outra vez, e o sol começa a nascer. Até que, talvez, chegue a tempestade. Até que, quem sabe, venha o furacão. Porque as belezas acabam, e tudo fica triste só para que, no instante seguinte, possamos sorrir, as vezes mais, as vezes nem tanto. Mas o sol sempre aparece, mas o céu é sempre azul, mas as nuvens sempre choram. Pra ver se vira o tempo, e fica do avesso e atravessa o mar pra chegar no deserto. E tudo vira nada, porque tudo é muito e nada é muito pouco. Aí chega o que não foi, e cai o que nunca parou em pé. Até que começa a mudar, porque mudança muda e muda tanto que acaba ficando mudada. Acaba ficando assim: igual. Assim, muda.


Não sei mais escrever e nada tá fazendo sentido nenhum, se é que algum dia já fez. Sinto muito.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Paralelos

Eu abri mão de você. Não me envergonho de dizer isso, não; aprendi a aceitar o que a vida me propõe, e a acatar o que o destino me sugere. Não é nenhum absurdo cansar de gostar sem ser gostado. Soltei sua mão, deixei você ir, porque só eu estava segurando, de fato. Só meus dedos estavam entrelaçados enquanto os seus, frouxos, escorregavam devagarinho. Aprendi que não posso te manter guardado dentro da gaiola que criei no meu coração pra não te deixar fugir. Aceitei, simplesmente. Não somos, nunca fomos. Não éramos pra ser, porque você nunca desejou ser alguma coisa comigo. Nem estar, nem permanecer.
Eu estou abrindo todos os cadeados que usei pra te segurar aqui, todas as besteiras que inventei pra te manter comigo. Leve em consideração todo esforço que fiz, todo sacrifício, pra te ver e ter um pouquinho da sua presença, de vez em quando. Ou não. Esqueça, porque nada nunca significou pra você. E isso não é uma acusação. Eu entendo que seu caminho te puxou pra outro lado e que, quando a placa indicou que, talvez, eu poderia ser um dos caminhos alternativos da sua vida você preferiu escolher aquele já conhecido. Por medo, quem sabe, ou só por preferir. Eu entendo, mesmo. Abrir mão de você é só uma escolha de quem se conforma e entende que a vida segue. É um decisão talvez absurda, talvez dolorosa, talvez triste, mas talvez libertadora. Acho que já passou o tempo de te esperar, então pode ir. 
Com tantos caminhos bonitos, eu espero que você siga por um que te faça feliz, e que eu siga para um que me faça sorrir. Depois, vou ver se me acho na estrada onde te conheci; onde me perdi. Se me resgato e recomeço. Abri mão de você, meu bem, pra não ter que abrir mão de mim. É assim que as coisas acontecem, e nós estamos virando fim, pra não virar dor. Para que não me atinja mais com tanta violência, eu estou evoluindo e criando uma cápsula protetora ao meu redor. Não é como se não me afetasse mais; afeta e intriga sim, decepciona. Mas não desarma. Não dá continuidade a uma série de crises. Não mata. Não mais. Porque, depois de uns tombos doloridos, a gente aprende a continuar amando por inteiro, mas só quando conseguimos esquecer por inteiro.
Eu continuo a ser um caminho alternativo, uma estrada nova, um pedaço de pista escondido entre as árvores que Deus-sabe pra onde pode levar. Mas só me atravessa quem tem coragem de querer conhecer o desconhecido, quem gosta de não ver pra onde está indo e se satisfaz só com a possibilidade dessa abertura na mata ser uma trilha. Não é o seu caso, meu amor, você gosta dos caminhos abertos, curvas sinuosas, placas, radares, pedágios e tudo nos conformes. Não é o meu caso, meu amor. Nossos casos nunca bateram, e os acasos nunca foram nossos. Nossas estradas nunca se cruzaram.
Eu continuo sendo o livro de capa misteriosa, sem título, sem índice. O livro que só conhece quem tem a paciência e curiosidade de abrir e ler por inteiro. Mas você nem gosta de livros assim. Acho que nem gosta de ler. Por isso, eu acho que é melhor acabarmos por aqui, antes de começar.
Talvez, confesso, até sinta a sua falta quando estiver contando as estrelas e perceber que as observo sozinha ou quando ver alguém bebendo o matte gelado que você tanto gostava,  mas tenho certeza de que ela será bem vinda. Sabe aquele negócio que dizem sobre não conseguirmos viver sem amor? Pois é mas, na minha pirâmide, o amor só está no topo quando acompanhado da palavra recíproco e, como não é este o caso, vou parar de tentar interceptar a reta da sua vida... Com tantas no mundo, escolhi justo a que não é compatível comigo. Admito, reconheço: somos paralelos. Se nos encontrarmos, será apenas no infinito e eu não tenho todo esse tempo. Sinto muito, mas adeus.

"Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também"
(Marisa Monte - Depois)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Pra dar sorte



Eu fui criada assim: sempre dois parabéns por aniversário, porque um era meu e outro era do meu vô. Algumas vezes, para fazer graça, eu apagava a vela dele e ele a minha, e então eu avançava para a terceira idade, e ele retornava à adolescência. Os presentes nunca eram apenas para mim, nem apenas para ele. Tudo era dividido: o bolo, nas vacas magras, era compartilhado e, nas vacas gordas, duplicado.
Acostumei a ter duas velas, uma azul e outra rosa. Acostumei a trocar olhares risonhos e envergonhados com ele enquanto todos batiam palmas e cantavam para nós. Acostumei a abraçar não só para receber as felicitações, mas também para desejá-las. Acostumei a segurar a faca do bolo sempre com a mão dele em cima da minha e a ouvir ele cantando do meu lado "pom pom pom pom", enquanto todos batiam palmas. Acostumei também com o som da gaita dele, instrumento nunca estudado, mas que ninguém no mundo nunca vai saber tocar bonito daquele jeito, tocar tocando a gente como ele fazia.
Esse ano, porém, foi diferente. Não comemoramos em casa, não cantamos duas vezes e não havia velas. Não desejei feliz aniversário para ninguém, só agradeci. Não pude olhar para ninguém durante o parabéns, e sorrir da situação. Não presenteei ninguém. Dessa vez eu cortei o bolo sozinha, e me pareceu muito difícil fazê-lo. Dessa vez, teve apenas um primeiro pedaço e foi só pra comer, porque ninguém perguntou se era pavê. Dessa vez eu não fiz duas idades, 17 e 79 anos, nem 18 e 80 anos, porque dessa vez eu fiz só 19 e eu sei que vou ter que me acostumar com isso de agora em diante. Mas eu queria ter feito 81 também. E isso me entristeceu um pouco. Isso me fez lembrar que eu sempre gostei de fazer aniversário acompanhada e não ser a única atrás da mesa do bolo. Dessa vez, a gaita estava em casa, guardada numa caixa, e não emitia som nenhum.
Dessa vez, quando o parabéns começou, eu corei de leve e sorri, mas não foi a mesma coisa porque eu corei sozinha. Na hora de cortar o bolo solitário, minha mão ficou frouxa e eu quase quebrei a tradição. Comecei o corte de cima mesmo. Depois disso, enquanto terminavam de distribuir os pedaços de bolo, eu pensei comigo mesma, desejando dar um pulinho no passado: "Quando será que vamos cantar parabéns juntos de novo, hein?", e, surpreendentemente, a resposta me veio: "Eu sou peão, eu lá sei? Mas corta de baixo pra cima, que dá sorte".