sábado, 17 de dezembro de 2011

O que eu ainda não sei

Eu passei a vida querendo te contar as coisas. Cada dia, cada nova descoberta e cada novo problema dessa minha infância turbulenta, eu quis te contar. Os medos que surgiram na adolescência, os caras que eu conheci e os sentimentos estranhos que me invadiram, e eu não sabia que podia sentir. Eu tive medo desses sentimentos, e dos pensamentos e da idade. E eu quis tanto te contar isso.
Mas você foi embora antes de saber tudo isso. Antes de me dizer como faço com esse caroço que está preso na minha garganta. Você foi embora antes que eu pudesse ter a chance de perguntar qual é a sensação de gostar de alguém. Antes que eu pudesse descobrir se você aprovava e entendia o que estava acontecendo comigo, e se era normal sentir tudo isso de forma tão intensa. Você, provavelmente, teria dito que é assim mesmo quando a gente é jovem. Mas não disse, porque não esteve lá para dizer. E eu descobri bem mais tarde, sozinha.
E agora, mesmo agora, que já estou assim, meio adulta, continuo querendo te contar essas coisas. Contar essas besteiras que acontecem no dia-a-dia e nos fazem chorar sem motivos. Contar que as vezes nos sentimos fracos e não sabemos o que fazer. Correr para os braços de alguém que realmente pudesse se importar um pouco.
Então porque, raios, você teve que ir? Teve que ir antes de poder me ensinar a viver. E sabe o que restou? Sabe quem restou para fazer sua parte? Ninguém. Mas o pior não é crescer sozinha. O pior é que estão todos cobrando que eu seja adulta, e responsável, e sinta do jeito que eles querem e não me envolva com o que não querem que eu me envolva. Mas ninguém parou para analisar se eu sei fazer tudo isso. Ninguém parou, nem por um segundo, para pensar sobre como eu me sinto deslocada e perdida no meio dessas coisas que tenho que fazer e não sei. Ninguém parou para pensar que eu não tive lições, não tive quem me mostrasse o caminho e a forma de percorrê-lo. Ninguém para me ensinar a viver, como você teria feito. Ninguém parou e estendeu os braços para mim, para me abraçar, quando meu primeiro amor quebrou meu coração. Ninguém quis me ouvir quando eu quis contar que tinha brigado com minha amiga e tinha tirado notas baixas em matemática. Ninguém compareceu às reuniões da escola, nem às festas, nem aos teatros que fiz. Eu agradecia sempre ao público alheio, aos pais dos outros alunos, aos amigos dos outros atores.
E estão todos me cobrando essas coisas, as quais não me ensinaram a fazer. Ninguém me ensinou sobre as coisas ruins do mundo, nem sobre o amor, nem sobre as falsas amizades, nem sobre como a saudade dói, nem sobre ter juizo. Se eu sei lidar com tudo isso, é porque aprendi sozinha, de um jeito meio torto, e de forma meio tardia. Então não é justo ser cobrada. Não é justo que me peçam ouvidos, braços, amor e paciência quando eu não tive nada disso.
Dizem que a adolescência é a pior fase da vida, é a fase em que precisamos de mais atenção. E eu não estou acima dessa regra. Eu posso ter sido forte, ter agido com maturidade e responsabilidade. Mas alguém se importou em perguntar se eu estava bem mesmo? Alguém se importou comigo, e com o que eu estava sentindo? Eu segurei a barra porque foi preciso, porque se eu não segurasse, ninguém mais o faria, como ninguém o fez. Eu me mantive adulta, porque os adultos de verdade foram incapazes de fazer isso. Eu fiz isso por amor, para não machucar mais, para não deixar pior as pessoas que já estavam abaladas.
Mas sabe, é injusto. Porque ninguém fez nada disso por mim. Ninguém teve amor o suficiente para segurar a minha barra. Nem paciência suficiente para me ouvir. Nem preocupação suficiente para perceber que eu era quem devia estar desmoronando e realmente estava. Ninguém teve ouvido suficiente para perceber que eu estava gritando por trás das palavras baixas e controladas. E eu sei que você teria notado, porque você se interessava pelas minhas coisas aleatórias e sem importância. Queria que você soubesse que não estão cumprindo bem o papel que você não pôde cumprir e brigasse com todos eles. Porque você brigava, se fosse preciso. Você brigava por mim.
E, hoje, eu queria muito te contar que conheci um cara. Que saí de noite, fui para um lugar desses que pessoas descoladas vão e cheguei em casa só depois das 4 da manhã. E conheci um cara. E eu queria poder te contar o quanto ele era lindo, gentil e inteligente. E o quanto nós rimos juntos. E eu queria poder perguntar o que faço com essa coisinha que estou sentindo, que me faz rir a toa. Queria poder te ouvir dizer que é só um cara que me encantou, e que muitos outros vão passar pela minha vida. Queria poder te ouvir dizer que os homens mentem, e que eles vão nos machucar algumas vezes. Queria te contar que tive medo de ficar perto dele, porque ele me deixava arrepiada até os pés. E queria que você não chamasse minha atenção por isso, mas me contasse o que fez quando isso aconteceu com você também.
Quer dizer, ta todo mundo vivendo a vida. E todo mundo sabe que não devemos acreditar em qualquer um, ou entrar em qualquer carro ou beber demais. Todo mundo sabe essas coisas, porque todo mundo aprende quando é criança. Mas eu não aprendi, eu ainda não sei e eu gostaria que alguém soubesse disso. Porque de todas as coisas que não aprendi e não sei fazer, viver é a pior delas.

"Por enquanto estou inventando a tua presença...
Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem"
(Clarice Lispector)

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