sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Meu erro

Onde foi o erro, afinal? Foi meu, foi seu ou não foi de ninguém?
Porque ainda que o tempo passe, só eu te reconheço a quilômetros de distância. Só eu te vejo e sei que é você, com seu jeito torto e tranquilo de andar, quando ainda está longe. Longe o bastante para nunca perceber que eu atravesso a rua e mudo de calçada só para não ter que te ver passar perto demais, e captar seus detalhes. Não ter que ativar o zoom do meu cérebro e perceber que você é o mesmo, e sua bermuda xadrez também. 
Você é o mesmo idiota, e sua bermuda ainda está suja de cerveja. Quando vai parar de beber e criar juizo? Quando vai deixar de ser tão convencido e tão errado? Quando eu vou parar de te ver pelas esquinas, enfurnado em um bar qualquer, enchendo a cara de tudo, menos de vergonha? Não sei quantas vezes mais vou conseguir suportar passar perto de você e fingir que te ignoro, ou que não estou em pânico. Qualquer dia desses, você vai estar andando na rua e vamos nos esbarrar de novo. Eu sei que vamos, porque essa cidade não é tão grande.  E eu vou simplesmente entrar na sua frente e falar tantas coisas que estão engasgadas, e  jogar tantas coisas na sua cara e brigar tanto com você, que você provavelmente não vai nem entender. Não vai nem saber do que eu estou falando. Porque o cenário, as personagens e o roteiro dessa história que chamo de "nossa", fui eu que criei. 
Você foi o modelo inspirador para o cara que interpreta o amor da vida da moça que eu interpreto, e só. Provavelmente vai pensar que sou louca. Mas então vai lembrar que teve uma introdução. Vai lembrar que não houve história, nem começo, nem meio e, final, menos ainda. Mas a introdução, e não podemos negar a existência dela. Então porque você caminha por aí fingindo que não me conhece? Porque, quando cruzamos o caminho um do outro, pedimos desculpa e seguimos em frente? Será que não vemos que não dá para seguir em frente, quando se tem uma pendência no passado? Talvez, o nosso pedido de desculpa esteja abrangendo mais que apenas uma trombada na calçada. Talvez estejamos pedindo desculpa por tudo, menos pelo encontrão no meio da rua.
Ou talvez, na pior e mais provável das hipóteses, eu esteja vendo um filme inteiro onde deveria ser apenas um curta metragem, daqueles de 5 minutos. Eu esteja, mais uma vez, achando que você pensa o mesmo que eu sobre o que aconteceu, sendo que eu sei que, na verdade, você não lembra de que aconteceu alguma coisa. E, se lembra, não se importa. E, se se importa, tem raiva.
Então, enquanto você passa por mim com mil coisas na cabeça, dezenas de lembranças, casos mal resolvidos, pessoas no coração e centenas de motivos de preocupação, e eu não apareço em nenhuma dessas categorias, porque comigo não pode ser igual? Você foi quem desistiu primeiro, você foi quem nem chegou a tentar e você foi aquele que foi embora. Então porque só eu entro em pânico, tranço as pernas, troco de calçada e entro em crise quando nos vemos? É tão ridiculamente injusto! Só eu sinto desse jeito. Só eu te guardo na memória.  Só eu penso que, talvez, em uma outra época, em algum outro contexto ou em outra vida, poderíamos existir juntos. Só eu penso em tanta coisa sobre nós, e sinto tanta coisa sobre o que passou. Talvez porque só eu me importava. 
Só eu errei, no fim das contas, mas vai ver foi porque só eu tentei acertar.

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