terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Para 2012: apenas desembarques, por favor



Acontece que a gente demora para perceber quem nos quer bem, quem apenas nos quer e quem nos quer para seu próprio bem. E, talvez, precisemos amadurecer um pouco, sofrer um pouco, perder um pouco para poder aprender isso. Hoje, não é o dia da virada do ano, mas eu, desde agora, me despeço de alguns muitos defeitos que colecionei e pecados que cometi nesse 2011, e até mesmo nos anos anteriores. 
Defeitos e pecados como permitir, aceitar e agradecer a entrada de certos personagens no livro da minha vida. Personagens esses que entraram só para causar drama, suspense, bagunça. Só para aumentar minhas folhas. Me despeço desses porque eu tive uma luz muito brilhante e muito forte sobre mim essa noite e esses meus delitos foram perdoados, e eu prometi não cometê-los outra vez. 
As páginas ocupadas apenas com coisas e com gente que não vale a pena, eu arranquei. Eu estou arrancando, amassando e jogando fora os capítulos dedicados a quem não fez acontecer, a quem foi amado e não amou e a quem errou e não consertou. Meu livro começará em 2012 com as mesmas poucas páginas, contando apenas o que vale a pena ser contado, escrito e lembrado. Tudo que fez volume na estante e não fez no coração, irá direto para o lixo.
Porque estou no limite com essas pessoas que nos fingiram amizade, com esses caras que fingiram que não iam quebrar nossos corações e com essas falsidades. Não aguento mais toda essa gente indo embora de mim como se eu fosse algum tipo de filme que, quando acaba, deixa o cinema vazio. Não suporto mais olhar para trás e ver quantas pessoas passaram pela minha vida, abalaram minha estrutura, ensinaram-me costumes que eu não tinha, criaram em mim vícios que eu não possuía, fizeram-me acostumar com suas presenças, suas manias e partiram sem nem se importar com quem ficou, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira de mal gosto, de uma distração passageira. 
Cansei disso. Dessas pessoas que passaram por mim sem acrescentar nada à minha história, apenas sugando tudo que eu pude oferecer até secar a fonte e então, partiram. Simplesmente. Esgotei todas minhas forças tentando entender porque essas pessoas entram na minha vida sem pedir licença e saem dela sem comum acordo. Então que esse ano que vem vindo seja o ano das boas vindas apenas de quem vier para participar do "felizes para sempre". Que seja o ano do adeus para quem não faz diferença e nem faz questão de fazer. E o ano de, nem se quer, conhecer quem não valer a pena. Que eu seja invisível para esse passageirismo todo que invade os indivíduos robotizados de hoje.
Que tudo que entrou na nossa vida só para bagunçar, aparecer, enrolar e amargar nossos dias, que vá embora de vez nesse ano e não retorne para segundo round. Que aqueles que foram embora sem terminar o que começaram, não voltem, porque o final que construímos sem eles é, com certeza, muito mais feliz. Que a partir de hoje, deixemos de deixar qualquer um entrar na nossa vida sem ter a intenção de permanecer. Que venham aqueles que são para ficar e apenas esses. Os passageiros, que passem direto por nós, sem nem se apresentarem, sem nem dizerem seus nomes. Porque, sinceramente, eu estou cansada de pessoas passageiras, de alegrias momentâneas e amores rápidos. Acho que já deu isso de me fazerem de aeroporto, de portão de embarque. Eu quero me libertar de gente que me atrasa, me segura, me prende e me usa. Que venha só o que for ficar, o que for durar. Eu quero só o que vier de mudança e me usar apenas para desembarque. Quero só o que me quiser também, de igual para igual; recíproco.
E o resto, Deus-me-perdoe, mas que passe bem longe de mim.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Espírito Natalino

Então é isso, ninguém mais sente o "espírito natalino". Deixa eu contar uma coisa para vocês, somos nós quem criamos isso. Parem de achar que, para resgatar esse espírito, é preciso que todo mundo seja bom, feliz e as casas todas iluminadas. Façam-me o favor! Tratem de iluminar suas casas, mesmo que ninguém mais esteja fazendo isso. Tratem de dar Feliz natal para todos na rua, mesmo que ninguém responda. Tratem de parar de pedir para que alguém traga esse espírito natalino de volta, e façam ele existir dentro de vocês.
É assim que se faz um natal "como antigamente": começando por você mesmo. Umas luzinhas na janela podem fazer uma diferença enorme no coração de quem está passando na frente da sua casa. Iluminem as casas, as árvores, os corações. Parem de querer sentir o espírito natalino sem terem feito nada. Coloquem a mão na massa, e façam nascer esse espírito dentro de vocês, e compartilhem ele.
Você não vê felicidade nas ruas, nas casas ou nas pessoas? Seja você a felicidade. Enfeite sua calçada, adote cartinhas de crianças carentes e invente dentro de você um espírito natalino inabalável, que não precisa de ninguém para existir.
Qual o problema de vocês? Se a prefeitura não enfeita as praças, ninguém mais enfeita. Se a vizinha não colocou pisca-pisca na varanda, ninguém mais coloca. Parem de depender dos outros! Ou será que se a vizinha não for feliz, ninguém mais será? Vamos fazer esse natal mais mágico, mais bonito. Não precisamos que o clima esteja bom, nem que o mundo esteja perfeito, nem que todas as pessoas estejam felizes. Pelo menos um dia, esse dia, vamos fazer tudo isso, não por nós mesmos, mas por quem deveríamos celebrar essa data. Vamos nos alegrar com as pequenas coisas, não apenas com presentes, comidas a bebidas. Mas com os fogos de artifício lá fora, com o céu estrelado. Vamos tocar as campainhas das casas e desejar feliz natal!
Vamos lembrar, antes de qualquer coisa, que é aniversário de Jesus. E não importa que esta não seja a data oficial do nascimento dele, ou que algumas pessoas não acreditem nisso. O fato é que esse dia é para lembrar dEle, e adorá-lo. Lembrar do quão bom Ele foi na Terra e ainda é no Céu. Lembrar do amor que Ele teve e tem para com nós todos. E vamos, por favor, tentar resgatar um pouquinho disso nesse 25 de dezembro. Tentar seguir os passos daquele que trouxe salvação, e resgatar um pouquinho do seu amor. Passar esse amor adiante. Isso é o espírito de Natal. E eu posso senti-lo dentro de mim, não porque alguém fez ou deixou de fazer alguma coisa, não porque passei ou não no vestibular, não porque minha vida é perfeita ou complicada. Mas porque eu quis sentir isso. Eu busquei esse sentimento no mais profundo do meu coração, que permaneceu gelado durante todo o ano. Pedi a Deus que me amasse, achando que isso me faria sentir a emoção do natal, e Ele, mostrando todo seu amor por mim, me ensinou a amar e fazer com que outros pudessem sentir isso.
Espírito de Natal é isso, fazer quem está a sua volta, feliz. E essa felicidade pode começar com o mais simples dos atos: Enfeitando a sua casa, e a alma e o coração de quem passa na sua rua também serão enfeitados.


As luzes do natal aquecem até o mais frio dos corações e inspiram até o mais solitário dos homens.
Não deixe de enfeitar sua casa.



Feliz Natal :)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

She lock hearts



A minha estupidez dessa vez bateu todos os recordes.
Agora eu, orgulhosa que sempre fui, ando caçando você. Te procurando pelo nome, pelos olhos, pelo cheiro. Procurando nas ruas, nos rostos, nas páginas do facebook e inventado desculpas para perguntar sobre seu paradeiro. Ando pior que Sherlock, e você anda mais caçado que o cão dos baskervilles.
Eu estava tão bem antes da sua chegada e aposto como você estava melhor ainda. Eu estava lá, no escuro do lugar, assistindo o globo de luz fazer reflexo e ouvindo a batida da música, como se nada mais importasse no mundo. Então porque você não pôde simplesmente encontrar outra garota para encantar? Quem te deu o direito de chegar perto de mim, se apresentar e me fazer saber seu nome? De sentar do meu lado? Quem te deu o direito de ser tão legal comigo? Tão gentil, tão divertido? Por que você me disse seu nome mais de uma vez, e me fez decorá-lo?
Com tantas meninas, mulheres e pessoas interessantes e certas, você foi justamente escolher a garota errada. Eu, com meu coração molenga e gelado ao mesmo tempo e toda minha exigência. Você me escolheu, assim, a dedo, a olho. E eu caí assim, tão rápido, que em meio minuto de conversa eu já estava torcendo para o seu time.
Depois de certo tempo, lógico, eu já estava na sua mão, apesar de você achar que eu estava irredutivelmente difícil. Mal sabia que eu estava usando todas as minhas forças para me manter distante. Então, não se contentando em me ganhar apenas com seu papo, você perguntou porque eu não olhava para você enquanto conversávamos. Não acreditei e respirei fundo durante alguns segundos. Inventei uma piadinha para desconversar e te disse que era para você não se apaixonar por mim. Só eu ri da piada, e com um riso angustiado, porque sabia que era justamente o contrário. Não te olhei de frente porque, nos poucos segundos que tinha passado com você, já estava baixando a guarda. E, se eu encontrasse esses olhos tão verdes logo agora, meu coração não ia aguentar. Infelizmente, quando percebi sua mão no meu queixo virando meu rosto para você lentamente, já era tarde demais, e nossos olhos já estavam se admirando. E adivinha o que aconteceu? meu coração, estúpido, fraco e estilhaçado que estava, bateu feliz. Foi quando eu soube que a causa estava perdida de vez para mim. Não satisfeito, você chegou perto de mim, passou seus braços ao meu redor e cochichou no meu ouvido que tinha gostado de mim, de conversar comigo e que eu era linda. Nos olhamos por um tempo e você sorriu de um jeito gritante. E ficou lá, sorrindo para mim, fingindo que seu sorriso estonteante não era nada demais. Fingindo que seu sorriso, que é quase um atentado, não causa impacto.
Por honra, respeito e princípios, continuei firme, até o momento em que você disse que ia embora, me deu um beijo na bochecha, um no cabelo e um acima do meu olho direito. Me abraçou forte e se levantou. Entrei em desespero. A primeira coisa que quis fazer foi te impedir de sumir, impedir seu braço de deixar meu ombro; te segurar, te manter ali, perto de mim. Mas não o fiz.
Fiquei assistindo você ir, e só eu sei o quanto quis não ter feito isso. O quanto eu quis chutar o balde e dizer que sim, você tinha me encantado, me ganhado e fugido com meu coração. Você tinha me encantado com seus olhos e seu sorriso escancarado, me ganhado com seu jeito divertido e descontraído e levado embora meu coração só com o simples braço macio ao meu redor.
E eu queria gritar isso para você. Mas não pude, não consegui. Travei, porque sabia que a única pessoa a sair ferida dali, seria eu mesma. E só agora eu vejo que, os poucos minutos que estaríamos juntos ali, compensariam por séculos de coração partido. Você valia a pena. Mesmo que digam para eu não me deixar enganar, mesmo que digam que eu me iludi. Eu sei que você valia a pena.
Acontece que eu tranquei meu coração de um jeito, que não sei mais abrir. Você foi o único que, por alguns momentos, chegou a ter a chave. E eu a joguei fora. Joguei sua chave, minha chance e nossas possibilidades. Pior que isso, tranquei não só o meu coração, mas o seu também. Aposto que você se arrependeu de ter perdido tanto tempo com a garota que tranca corações e depois se arrepende e fica te procurando por aí.
Agora eu só queria te achar e cochichar no seu ouvido que também gostei de você e que só não disse isso antes por medo. Queria te encontrar e te abraçar do mesmo modo que nos abraçamos antes, só que dessa vez sem despedidas. Te abraçar e te contar que prometi não gostar de mais ninguém, não gostar demais de ninguém, e falhei de novo. 

'Agora, pra sempre, foi embora mas eu nunca disse adeus''

sábado, 17 de dezembro de 2011

O que eu ainda não sei

Eu passei a vida querendo te contar as coisas. Cada dia, cada nova descoberta e cada novo problema dessa minha infância turbulenta, eu quis te contar. Os medos que surgiram na adolescência, os caras que eu conheci e os sentimentos estranhos que me invadiram, e eu não sabia que podia sentir. Eu tive medo desses sentimentos, e dos pensamentos e da idade. E eu quis tanto te contar isso.
Mas você foi embora antes de saber tudo isso. Antes de me dizer como faço com esse caroço que está preso na minha garganta. Você foi embora antes que eu pudesse ter a chance de perguntar qual é a sensação de gostar de alguém. Antes que eu pudesse descobrir se você aprovava e entendia o que estava acontecendo comigo, e se era normal sentir tudo isso de forma tão intensa. Você, provavelmente, teria dito que é assim mesmo quando a gente é jovem. Mas não disse, porque não esteve lá para dizer. E eu descobri bem mais tarde, sozinha.
E agora, mesmo agora, que já estou assim, meio adulta, continuo querendo te contar essas coisas. Contar essas besteiras que acontecem no dia-a-dia e nos fazem chorar sem motivos. Contar que as vezes nos sentimos fracos e não sabemos o que fazer. Correr para os braços de alguém que realmente pudesse se importar um pouco.
Então porque, raios, você teve que ir? Teve que ir antes de poder me ensinar a viver. E sabe o que restou? Sabe quem restou para fazer sua parte? Ninguém. Mas o pior não é crescer sozinha. O pior é que estão todos cobrando que eu seja adulta, e responsável, e sinta do jeito que eles querem e não me envolva com o que não querem que eu me envolva. Mas ninguém parou para analisar se eu sei fazer tudo isso. Ninguém parou, nem por um segundo, para pensar sobre como eu me sinto deslocada e perdida no meio dessas coisas que tenho que fazer e não sei. Ninguém parou para pensar que eu não tive lições, não tive quem me mostrasse o caminho e a forma de percorrê-lo. Ninguém para me ensinar a viver, como você teria feito. Ninguém parou e estendeu os braços para mim, para me abraçar, quando meu primeiro amor quebrou meu coração. Ninguém quis me ouvir quando eu quis contar que tinha brigado com minha amiga e tinha tirado notas baixas em matemática. Ninguém compareceu às reuniões da escola, nem às festas, nem aos teatros que fiz. Eu agradecia sempre ao público alheio, aos pais dos outros alunos, aos amigos dos outros atores.
E estão todos me cobrando essas coisas, as quais não me ensinaram a fazer. Ninguém me ensinou sobre as coisas ruins do mundo, nem sobre o amor, nem sobre as falsas amizades, nem sobre como a saudade dói, nem sobre ter juizo. Se eu sei lidar com tudo isso, é porque aprendi sozinha, de um jeito meio torto, e de forma meio tardia. Então não é justo ser cobrada. Não é justo que me peçam ouvidos, braços, amor e paciência quando eu não tive nada disso.
Dizem que a adolescência é a pior fase da vida, é a fase em que precisamos de mais atenção. E eu não estou acima dessa regra. Eu posso ter sido forte, ter agido com maturidade e responsabilidade. Mas alguém se importou em perguntar se eu estava bem mesmo? Alguém se importou comigo, e com o que eu estava sentindo? Eu segurei a barra porque foi preciso, porque se eu não segurasse, ninguém mais o faria, como ninguém o fez. Eu me mantive adulta, porque os adultos de verdade foram incapazes de fazer isso. Eu fiz isso por amor, para não machucar mais, para não deixar pior as pessoas que já estavam abaladas.
Mas sabe, é injusto. Porque ninguém fez nada disso por mim. Ninguém teve amor o suficiente para segurar a minha barra. Nem paciência suficiente para me ouvir. Nem preocupação suficiente para perceber que eu era quem devia estar desmoronando e realmente estava. Ninguém teve ouvido suficiente para perceber que eu estava gritando por trás das palavras baixas e controladas. E eu sei que você teria notado, porque você se interessava pelas minhas coisas aleatórias e sem importância. Queria que você soubesse que não estão cumprindo bem o papel que você não pôde cumprir e brigasse com todos eles. Porque você brigava, se fosse preciso. Você brigava por mim.
E, hoje, eu queria muito te contar que conheci um cara. Que saí de noite, fui para um lugar desses que pessoas descoladas vão e cheguei em casa só depois das 4 da manhã. E conheci um cara. E eu queria poder te contar o quanto ele era lindo, gentil e inteligente. E o quanto nós rimos juntos. E eu queria poder perguntar o que faço com essa coisinha que estou sentindo, que me faz rir a toa. Queria poder te ouvir dizer que é só um cara que me encantou, e que muitos outros vão passar pela minha vida. Queria poder te ouvir dizer que os homens mentem, e que eles vão nos machucar algumas vezes. Queria te contar que tive medo de ficar perto dele, porque ele me deixava arrepiada até os pés. E queria que você não chamasse minha atenção por isso, mas me contasse o que fez quando isso aconteceu com você também.
Quer dizer, ta todo mundo vivendo a vida. E todo mundo sabe que não devemos acreditar em qualquer um, ou entrar em qualquer carro ou beber demais. Todo mundo sabe essas coisas, porque todo mundo aprende quando é criança. Mas eu não aprendi, eu ainda não sei e eu gostaria que alguém soubesse disso. Porque de todas as coisas que não aprendi e não sei fazer, viver é a pior delas.

"Por enquanto estou inventando a tua presença...
Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem"
(Clarice Lispector)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Colapso

É que eu to explodindo. Se não estou, vou explodir a qualquer momento. E é por isso que tenho estado assim, escrevendo sobre amores antigos que eu nem lembro mais, sobre problemas que não são meus e sobre banalidades do meu dia-a-dia, que eu transformo em dramas homéricos, só para tentar disfarçar. Falo demais e sobre nada em especial, só para manter minha boca ocupada a tal ponto dela parar com a mania de querer gritar toda hora. Penso na rachadura da parede, na vida rara da formiga, pergunto aos outros sobre as novelas e nunca entro no mérito de falar sobre mim mesma, não por muito tempo. Tudo isso só para não ter que tocar na ferida. Só para tentar distrair e distanciar a conversa do ponto que dói mais. Nem o telefone eu quero atender porque tenho medo da pergunta que vem inevitavelmente depois da identificação: "Tudo bem?", porque essa é a parte mais dificil. Me segurar quando a pessoa do outro lado está me perguntando justamente o que está me perturbando é tão pior e faz parecer que não vou conseguir. Sempre engasgo e tropeço nas palavras quando respondo, e é sempre mentira. Eu sei que, quando alguém pergunta se está tudo bem, é só para cumprir o protocolo, porque, na verdade, ninguém quer saber. 
Sei que tenho tagarelado demais, ando hiperativa, ansiosa, quicando pela casa feito uma bola de basquete. Me perdoem, mas tenho feito para poupá-los do dilúvio que anda ameaçando transbordar dentro de mim afogando e arrastando todos vocês junto. Tenho feito por medo. Medo de uma hora ou outra acabar tocando no assunto. Acabar falando das coisas que não quero falar. Tenho tanto medo de não aguentar, de novo, que fico assim. Fico fazendo piadas baratas e perguntando e falando sobre problemas fáceis do cotidiano como se fossem novelas mexicanas. Só porque tenho tentado mascarar os problemas reais. Estou me escondendo o máximo que posso de mim mesma, e do mundo. Mas, para conseguir me esconder dessa forma, preciso me manter ocupada. Com mãos, braços e pernas em movimento. Com a boca nunca vazia. Com a mente sempre trabalhando. Com os dedos sempre no teclado, digitando sem parar, ou no caderno, rabiscando qualquer coisa. 
Essa é a causa dos textos mal escritos, dos erros de digitação no msn, das palavras tropeçadas e rápidas que saem da minha boca. É porque estou sempre com pressa, sempre falando e fazendo tudo correndo para não dar tempo, não dar a minima chance, das coisas ruins que carrego saltarem boca afora e aflorarem no pensamento, fixando no meu coração. Não quero causar mais problemas. Estou me segurando ao máximo. Mas vou explodir, uma hora ou outra, com alguém por perto ou sozinha. Vou explodir, porque a ultima vez que eu entrei em crise, foi uma crise controlada e eu não cheguei a colocar tudo para fora. Agora vai ser uma explosão daquele tipo nuclear. Mas o momento é horrivel para isso, é o pior. Não posso fazer isso agora e tirar a questão mais importante do centro das atenções. Não posso exigir atenção agora, quando eu sei que temos coisas mais importantes e mais urgentes para resolver. Mas como eu faço, então? Quem me ajuda com essa explosão e quem vai poder se preocupar com as minhas coisas, quando tudo ao redor está virado de cabeça para baixo e eu não sou prioridade? Estou entrando em colapso e meu cérebro fica gritando por socorro sem parar dentro mim. Só tenho me mantido o mais quieta possível para não machucar ninguém, mais do que a situação atual já está machucando. Para não trazer outro problema para dentro de casa.
Acontece que eu estou sendo dilacerada com isso e estou prestes a ruir. E quem vai me segurar quando eu desabar? Meu Deus, e como posso cair quando sei que estarei levando mais gente comigo? Nem isso eu posso fazer. Nem entrar em crise mais, eu posso. Tenho me segurado, feito o máximo para me manter sã e calma, mas não tenho feito nada disso por mim. Porque, se dependesse de mim mesma, eu já teria desabado. Mas não posso desistir agora, porque vocês vão sair feridos disso. E, por mais dolorida que eu esteja, eu só estou aguentando por amor à vocês.
Só que não vou aguentar muito tempo, e quem irá segurar a barra por amor a mim? Não quero que ninguém o faça, mas estou perdendo o controle. Estou afundando e sinto que não vou conseguir subir para a superfície outra vez. Estou explodindo, definitivamente. Então só peço que corram para o mais longe possível, porque não quero mortos nem feridos. Não quero ser responsável por danos, nem temporários nem permanentes. Não quero ser como Chernobyl.

ignorem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Banquete farto

Então eu estou tentando aceitar quem sou. De todas as formas aceitáveis e possíveis que posso ser. Eu fiz isso a vida inteira de forma tão inconsciente que acabou me fazendo mal, e agora eu só quero fazer da maneira correta. Eu me aguento, eu me supero, me suporto, me engulo, me conformo e me aceito. E só eu posso fazer isso. Só eu sei o quanto é dificil estar comigo mesma sem tentar me mascarar. Sem correr para os anestésicos e dormir, para não ter que me aguentar. Aguentar minhas perguntas sem resposta, minhas crises, minhas vontades e minhas dores.
Tanta gente dizendo que é corajoso porque anda de avião, porque faz esporte radical, porque trabalha sei-lá-quantas horas por dia, porque perdeu os pais e se criou sozinho, porque teve um filho por parto normal sem anestesia. Mas coragem não é viver as coisas do mundo, ou aceitá-las, ou conviver com as peripécias do destino afinal, todo mundo sabe que a vida é assim mesmo, meio louca, e temos que vivê-la de qualquer forma. 
Coragem mesmo é se engolir sem vomitar. Porque somos um prato de cheio de porcariada, de memórias horríveis e lembranças felizes. Prato cheio e colorido, com sentimentos e pensamentos incoerentes, dúvidas e angustias frequentes e amores ausentes. Somos um misto de emoções e sensações que temperam o coração, por vezes, já partido. Somos um banquete inteiro, com direito aos melhores e piores sabores do mundo, às comidas mais salgadas e às bebidas quentes. 
Por isso, coragem é encarar a si mesmo e permanecer dentro de si, sem tentar jogar suas tristezas por aí. Coragem é se engolir nos piores e nos melhores dias. É sentir o que sente e aguentar sentir isso, enquanto o resto do mundo enche a cara, cheira e fuma por não conseguir lidar consigo mesmo e seus problemas, suas dúvidas e incertezas. Corajoso é fazer descer garganta abaixo, enquanto o resto do mundo simplesmente deita a cabeça na privada e joga fora.
Vai ver é por isso que dizem que os escritores são corajosos. Porque sentem o que sentem, mesmo quando não cabe no coração o tanto de coisa que sentem, e aceitam isso. Engolem o sentimento, lidam com ele, transformam-no em palavras e passam para o papel. Só para poderem ler o que sentem de forma mais coerente, e sentir de novo, tudo, mesmo que doa, só para entender. Só para enfrentar. Dão a cara a tapa para os sentimentos, e perguntam a que vieram. Os escritores, mesmo aqueles que não são famosos ou considerados "bons", escrevem porque aguentam ser quem são, ainda que a alma seja bem maior que o corpo e o sentimento seja o dobro do coração. Quem escreve é porque se atura. Não apenas se afoga na bebida ou nos vicios do mundo. Quem faz isso é quem não aguenta o tranco de sentir, de ser, de estar. Quem não segura a barra de ser humano, ser selvagem, ser racional, emocional, intenso e sentimental, ao mesmo tempo. 
Quem usa as drogas humanas é quem não suporta se olhar no espelho, e guarda tudo que não é conveniente, tudo que trouxer medo, angústia e incerteza, numa caixa. Enterra a caixa no fundo mais fundo da alma, para não ter que lembrar que essas sensações existem. Acontece, meus caros, que somos assim. Sentimos, independente de querermos sentir. Pensamos, mesmo quando tentamos não pensar. E somos, no auge do verbo ser. Não importa o quanto tentamos esconder.
E você, que se esconde nos bares, nas músicas ruins e nos remédios, você não está livre disso. E enquanto não aprender a lidar consigo mesmo, nunca vai conseguir lidar com coisa alguma na vida. A maior coragem é a de quem se enfrenta, porque o maior inimigo do homem é ele mesmo. Vai ver também, é por isso que escritores, geralmente, precisam de terapia. Porque se o tem no mundo já é difícil de carregar nas costas, imagine o que tem dentro de você.
Então, talvez por ter descoberto isso, eu parei de pedir desculpas por quem eu sou. Não vou mais me desculpar por sentir o que sinto, ou fazer o que faço. Porque é o que eu sou, e não vou me desculpar por sê-lo. Sei e reconheço que tenho meus problemas, meus excessos e minha deficiências. Mas eu quero apenas viver como sei, porque me ser, por si só, já basta. Engolir-me inteira, banquete farto que sou, já é um tremendo ato de coragem.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Meu erro

Onde foi o erro, afinal? Foi meu, foi seu ou não foi de ninguém?
Porque ainda que o tempo passe, só eu te reconheço a quilômetros de distância. Só eu te vejo e sei que é você, com seu jeito torto e tranquilo de andar, quando ainda está longe. Longe o bastante para nunca perceber que eu atravesso a rua e mudo de calçada só para não ter que te ver passar perto demais, e captar seus detalhes. Não ter que ativar o zoom do meu cérebro e perceber que você é o mesmo, e sua bermuda xadrez também. 
Você é o mesmo idiota, e sua bermuda ainda está suja de cerveja. Quando vai parar de beber e criar juizo? Quando vai deixar de ser tão convencido e tão errado? Quando eu vou parar de te ver pelas esquinas, enfurnado em um bar qualquer, enchendo a cara de tudo, menos de vergonha? Não sei quantas vezes mais vou conseguir suportar passar perto de você e fingir que te ignoro, ou que não estou em pânico. Qualquer dia desses, você vai estar andando na rua e vamos nos esbarrar de novo. Eu sei que vamos, porque essa cidade não é tão grande.  E eu vou simplesmente entrar na sua frente e falar tantas coisas que estão engasgadas, e  jogar tantas coisas na sua cara e brigar tanto com você, que você provavelmente não vai nem entender. Não vai nem saber do que eu estou falando. Porque o cenário, as personagens e o roteiro dessa história que chamo de "nossa", fui eu que criei. 
Você foi o modelo inspirador para o cara que interpreta o amor da vida da moça que eu interpreto, e só. Provavelmente vai pensar que sou louca. Mas então vai lembrar que teve uma introdução. Vai lembrar que não houve história, nem começo, nem meio e, final, menos ainda. Mas a introdução, e não podemos negar a existência dela. Então porque você caminha por aí fingindo que não me conhece? Porque, quando cruzamos o caminho um do outro, pedimos desculpa e seguimos em frente? Será que não vemos que não dá para seguir em frente, quando se tem uma pendência no passado? Talvez, o nosso pedido de desculpa esteja abrangendo mais que apenas uma trombada na calçada. Talvez estejamos pedindo desculpa por tudo, menos pelo encontrão no meio da rua.
Ou talvez, na pior e mais provável das hipóteses, eu esteja vendo um filme inteiro onde deveria ser apenas um curta metragem, daqueles de 5 minutos. Eu esteja, mais uma vez, achando que você pensa o mesmo que eu sobre o que aconteceu, sendo que eu sei que, na verdade, você não lembra de que aconteceu alguma coisa. E, se lembra, não se importa. E, se se importa, tem raiva.
Então, enquanto você passa por mim com mil coisas na cabeça, dezenas de lembranças, casos mal resolvidos, pessoas no coração e centenas de motivos de preocupação, e eu não apareço em nenhuma dessas categorias, porque comigo não pode ser igual? Você foi quem desistiu primeiro, você foi quem nem chegou a tentar e você foi aquele que foi embora. Então porque só eu entro em pânico, tranço as pernas, troco de calçada e entro em crise quando nos vemos? É tão ridiculamente injusto! Só eu sinto desse jeito. Só eu te guardo na memória.  Só eu penso que, talvez, em uma outra época, em algum outro contexto ou em outra vida, poderíamos existir juntos. Só eu penso em tanta coisa sobre nós, e sinto tanta coisa sobre o que passou. Talvez porque só eu me importava. 
Só eu errei, no fim das contas, mas vai ver foi porque só eu tentei acertar.