quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do que eu não abro mão

Nem precisa de muito. Bato o olho por meio segundo em algo que me encante, e já fecho os olhos. Viajo, canto melodias silenciosas e escrevo palavras desconhecidas. Aproveitando cada segundo desse momento tão meu, tão único e tão íntimo que fico até com medo de ser flagrada assim, lunática, distante. Na verdade, não é medo de ser vista assim, é mais vergonha que descubram que não sou lá muito normal.
Como dizia a Tati, veja você que um cara gostava de mim, até notar essas minhas esquisitices. Veja você que outro, mais tarde, também gostou de mim, até também notar minhas esquisitices.
Então, nesses poucos segundos que sei que tenho para ficar sozinha, me permito. Permito sonhar um pouco, como nos velhos tempos. Me deixo fascinar pelo cheiro da noite, do pôr-do-sol, da chuva, encantar pelas estrelas, pelos raios, pelo campo verde. E fico tentando entender o que é tão complicado para os outros. Porque sou tão complicada, tão esquisita aos olhos alheios.
Não me sinto lunática só porque sonho, não me sinto estranha porque sinto, nem me sinto louca só porque penso. Reconheço que, as vezes, faço tudo isso demais, intensa e compulsivamente, em ordens estranhas e desconexas. Sonho, sonho, sonho. Sinto, sinto, sinto. Penso, penso, penso. Sonho, penso, penso. Sinto, penso, sonho. Sonho, sinto.
Mas todo mundo é assim, de vez em quando, não é? Faz as coisas repetidas vezes para ter certeza que as fez? Ou, vai ver, minha memória é que é muito ruim e só eu precise gravar as mesmas coisas nela várias vezes, para fixar. Mas tanto faz. Todo mundo também é um pouco distraído e fica meio distante, as vezes, pensativo, não é?
Então porque eu sou a estranha, a louca, a lunática? O que há, afinal, de tão diferente em mim?
Não acho que eu seja assim, do jeito que me pintam. E, mesmo que fosse, qual seria o problema? Não entendo o porquê dos olhares tortos, quase acusadores, para cima de mim. Porque se contemplar o céu, e admirar a vida é ser anormal, então Deus me livre de ser normal. Qual o sentido da vida se não pudermos assisti-la de vez em quando, e simplesmente sorrir? Qual o sentido da vida, se você passa por ela sem notar a beleza estonteante que exala? Qual o sentido de passar por esse mundo, se você não pára nem um segundo para admirar o céu azul, o sol quente e a chuva bonita?
Sabe, se o que vocês acham estranho em mim é essa minha carência pelas estrelas e essa minha necessidade de ver o dia lá fora e admirar a paisagem, então continuarei sendo extremamente estranha para vocês. Porque não abro mão do vento passando pelos meus cabelos, não abro mão do sol no meu rosto e não abro mão da chuva na minha pele. Não me desfaço dos meus amores, das minha razões, nem das minhas dores. Não abro mão das minhas esquisitices, porque são elas que fazem minha vida valer a pena. Não abro mão das minhas loucuras, dos meus erros, das minha gírias, minhas manias. Não abro mão, não largo, não deixo, não me desfaço, não jogo fora. Não abro mão de ser estranha, porque não abro mão de mim.

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