sábado, 29 de outubro de 2011

Mais cérebro, menos músculo

Você veio todo cheio de graça para o meu lado. Elogios, poesias, músicas "bonitinhas" e coraçõezinhos virtuais. Todo jogando charme, fazendo esse joguinho já manjado, achando que eu cairia. Aceitei suas brincadeiras, participei delas e levei na esportiva também. Concordei em te ver, em te encaixar na minha agenda apertada, só para ser legal com você; te dar uma chance. Confesso que, depois de um tempo, até comecei a gostar de você.
E então, um belo dia, a gente se esbarra no supermercado. Eu com meu short desbotado, meu chinelo de dedo branco e rosa. Eu, com minhas unhas roídas, meu cabelo desgrenhado e jogado ao vento, meu rosto sem nem um vestígio de maquiagem.
Você de bermuda caindo e com uma regata que mais parecia pijama. Você com seu cabelo bem mais desarrumado que o meu, com a barba de 3 dias, com cara de sono.
E então você vira a cara e finge que não me viu. E de repente, não somos mais amigos. Oi? Perdi alguma coisa?
Então você se baseava nas minhas fotos bem tiradas e editadas, nas roupas bonitas que visto quando estou a fim, e na maquiagem elegante que gosto de usar, vez em quando?
Então você só gostava de mim enquanto eu estava me apertando dentro de uma roupa justa, com meus pés doendo sob um sapato altíssimo? Quando visto meu moletom, prendo meu cabelo para trás e não passo maquiagem, eu não sou tão interessante? Não sou tão legal assim, quando uso meus óculos?
E eu que achei que era eu a neurótica, a vaidosa e egoísta que se esforça muito para ser simpática com certas pessoas.
Não faço seu tipo de altura? Seu tipo de corpo? Não sou do tipo que você esperava que eu fosse? Do tipo mulherão, cheia de silicone e uma barriga tanquinho?
Bom, você também passa bem longe de ser um cara bonitão, galã de novela. E eu devia ter notado que você tinha músculo demais para caber alguma massa cinzenta nessa cabeça oca.  Mas eu não julgo pela aparência. Gostava das nossas conversas, porque, para mim, você nunca precisou ser bonito para ter um papo legal. Sempre te achei interessante, engraçado e divertido sem nem reparar nas suas fotos.
E, hoje, te assisto me ignorar só porque, no dia em que nos vimos, eu não estava exatamente a Beyoncé.
E isso me decepciona tanto! Porque eu pensei que você fosse diferente. Você dizia ser e agia de forma diferente dos demais. Para que tudo isso, se era igualzinho qualquer homem solto no mundo?
Agora me pergunto se, talvez, tenha sido tudo mentira, tudo em vão, dito da boca para fora. Todas as nossas conversas, todas as coisas que você dizia. Afinal, qual é o seu problema, menino? Você quer mulheres saídas de capa de revista ou mulheres reais? Quer aparência ou inteligência? Porque eu, tentando não perder a humildade, posso lhe garantir que não sou feia e nem burra. Garanto que mesclo cérebro com beleza, na medida quase certa e, assim como sei me vestir como uma capa de revista, também sei conversar, argumentar e usar meu cérebro. Não tenho só pernas "torneadas", nem só uma barriga "sarada". Tenho idéias, atitudes, personalidade, caráter. Tenho mais que um simples par de peitos. Sou mais que um corpo bonitinho, ainda que o meu não seja perfeito.
Mas é por essas e por outras que muito homem morre sozinho. Enquanto vocês não entenderem que uma mulher não precisa usar salto 24 hrs para ser bonita, não precisa ter o cabelo arrumado para ser legal e não precisa estar bem vestida para ser inteligente, vão continuar sozinhos. 
Tudo que dizem é "Nós queremos meninas normais, leves, descomplicadas e fáceis de conviver". Mas é mentira. O que procuram são garotas bonitas, não "normais"; garotas vazias, não leves; que falem pouco e não tenham conteúdo, não descomplicadas.
Vocês querem meninas rasas porque são covardes e têm medo de altura; medo do abismo das garotas densas. Querem garotas caladas por não suportarem a profundidade das garotas intensas.
Eu sei que gostam das meninas radicais, lunáticas e quentes também, mas escolhem ficar com as mornas, o meio termo, porque têm medo de se queimar. Medo do extremo.
Vocês temem porque sabem que, ao cair do penhasco que paira sobre nosso olhos, não vão conseguir voltar à superfície, porque não vão querer subir depois que conhecerem a maravilha que há lá no fundo de nós.
Vocês, homens, deveriam aprender isso de uma vez por todas: o mesmo direito que vocês têm de não fazer a barba, nós temos de não usar maquiagem. O mesmo direito que vocês têm de não ser julgado pela aparência, nós também temos. Porque somos mulheres, andamos ao lado de vocês, não atrás, não embaixo. Mas ao lado.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Missão de hoje




- Vamos sair para ganhar hoje.
- Ganhar a guerra?
- Não. Ganhar alguns sorrisos.
- Por que?
- Porque um sorriso desarma o coração, ameniza as dores, espanta o frio e encerra guerras. Um sorriso cura, ilumina, encanta. Porque mostra o que há de mais bonito: o amor.
- Mas não vamos conseguir sorrir para o mundo todo, né?!
- Eu sei. Mas vamos sorrir e ensinar os outros a sorrir. E isso passará de pessoa para pessoa, nação para nação. Essa é nossa missão hoje.
- Sorrir?
- Não. Tornar o sorriso algo contagioso, e o amor, transmissível.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do que eu não abro mão

Nem precisa de muito. Bato o olho por meio segundo em algo que me encante, e já fecho os olhos. Viajo, canto melodias silenciosas e escrevo palavras desconhecidas. Aproveitando cada segundo desse momento tão meu, tão único e tão íntimo que fico até com medo de ser flagrada assim, lunática, distante. Na verdade, não é medo de ser vista assim, é mais vergonha que descubram que não sou lá muito normal.
Como dizia a Tati, veja você que um cara gostava de mim, até notar essas minhas esquisitices. Veja você que outro, mais tarde, também gostou de mim, até também notar minhas esquisitices.
Então, nesses poucos segundos que sei que tenho para ficar sozinha, me permito. Permito sonhar um pouco, como nos velhos tempos. Me deixo fascinar pelo cheiro da noite, do pôr-do-sol, da chuva, encantar pelas estrelas, pelos raios, pelo campo verde. E fico tentando entender o que é tão complicado para os outros. Porque sou tão complicada, tão esquisita aos olhos alheios.
Não me sinto lunática só porque sonho, não me sinto estranha porque sinto, nem me sinto louca só porque penso. Reconheço que, as vezes, faço tudo isso demais, intensa e compulsivamente, em ordens estranhas e desconexas. Sonho, sonho, sonho. Sinto, sinto, sinto. Penso, penso, penso. Sonho, penso, penso. Sinto, penso, sonho. Sonho, sinto.
Mas todo mundo é assim, de vez em quando, não é? Faz as coisas repetidas vezes para ter certeza que as fez? Ou, vai ver, minha memória é que é muito ruim e só eu precise gravar as mesmas coisas nela várias vezes, para fixar. Mas tanto faz. Todo mundo também é um pouco distraído e fica meio distante, as vezes, pensativo, não é?
Então porque eu sou a estranha, a louca, a lunática? O que há, afinal, de tão diferente em mim?
Não acho que eu seja assim, do jeito que me pintam. E, mesmo que fosse, qual seria o problema? Não entendo o porquê dos olhares tortos, quase acusadores, para cima de mim. Porque se contemplar o céu, e admirar a vida é ser anormal, então Deus me livre de ser normal. Qual o sentido da vida se não pudermos assisti-la de vez em quando, e simplesmente sorrir? Qual o sentido da vida, se você passa por ela sem notar a beleza estonteante que exala? Qual o sentido de passar por esse mundo, se você não pára nem um segundo para admirar o céu azul, o sol quente e a chuva bonita?
Sabe, se o que vocês acham estranho em mim é essa minha carência pelas estrelas e essa minha necessidade de ver o dia lá fora e admirar a paisagem, então continuarei sendo extremamente estranha para vocês. Porque não abro mão do vento passando pelos meus cabelos, não abro mão do sol no meu rosto e não abro mão da chuva na minha pele. Não me desfaço dos meus amores, das minha razões, nem das minhas dores. Não abro mão das minhas esquisitices, porque são elas que fazem minha vida valer a pena. Não abro mão das minhas loucuras, dos meus erros, das minha gírias, minhas manias. Não abro mão, não largo, não deixo, não me desfaço, não jogo fora. Não abro mão de ser estranha, porque não abro mão de mim.