domingo, 7 de agosto de 2011

Banco de reservas


Eu quero as sapatilhas, os movimentos e as cordas de violão calejando meus dedos. Quero de volta a arte dos palcos, a leveza dos passos ensaiados, a beleza da música, dos versos, de cada acorde, de cada movimento. 
Quero mostrar o que eu sinto na dança, como eu costumava fazer. Quero voltar a conversar com o violão e quero contar o que eu penso para o papel, como eu fazia tão bem antes, e agora já não consigo mais. Tentei mudar as posições, tentei me expressar não nos movimentos, mas no papel. Não deu certo. Porque o que eu quero mesmo é a dança que habita em mim, inegável e irreversível. Quero não precisar trocar nada de lugar, mas que tudo esteja em sua devida posição. Quero as notas, a melodia do violão, que canta não para mim, mas em mim. Quero as cordas do meu antigo violão, o verdadeiro, aquele caro e pesado, maior que minha mão podia segurar. Quero os movimentos que fazia para Deus, os que fazia para mim, ambos que sei decorados, mas não posso usá-los. E, embora goste muito das chuteiras, dos sapatos de valsa e dos tênis de vôlei, eu quero as sapatilhas. Apertadas, machucando.
Mais que as sapatilhas, eu quero meus pés doloridos nelas; quero senti-las me apertando enquanto teimo em fazer errado o mesmo movimento. Elas ainda estão aqui, na mochila, guardadas de qualquer jeito, na pressa de quem sempre as experimenta só para ver se ainda serve. Não as aposentei, não as pendurei como se faz com a chuteiras. Mas estão no banco, entre os reservas. Assim como o violão, assim como o teatro e assim como toda essa arte inspiradora que vive em mim. 
Estão no banco, com a promessa por mim feita de que, um dia, entrarão em campo novamente. E só eu sei, só eu sinto, o quanto quero cumprir essa promessa. O quanto queria poder cumpri-la.

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