quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Curto-circuito




De repente me vejo cheia. Emoções, sentimentos, talvez frescuras. Só sei que fico a ponto de explodir. Acabo não suportando tudo tão dentro de mim, começo a transbordar e preciso parar toda e qualquer coisa que estiver fazendo e correr para o papel, o lápis, a borracha, uma página em branco no word. 
Nesse momento tudo some, entro em algum tipo de transe, tela azul, pane total. Perco a noção de tempo e espaço, perco o controle. Só acordo depois, desnorteada, esbaforida e com a nítida impressão que estive sem respirar durante esse apagão particular, quando à minha frente já tem uma página pronta cheia de palavras, frases e versos. Então fico pensando o que será que eu perdi, quando e como foi que tudo aquilo foi parar ali. Leio, releio e não me reconheço no que está escrito. Vejo palavras que, se eu pensar bem no ato de escrever, sei que jamais seria capaz de usar; de lembrar de usar. 
Depois de regulada a respiração, tudo volta ao normal, eu volto ao estado vazio do cotidiano e sinto algo muito distante, tão vago que nem sei se realmente existe. Como um deja vu.
Olho para o texto gigante e reconheço apenas a caligrafia garranchosa. Concluo que, de fato, o escrevi, mesmo achando essa idéia completamente absurda e mesmo não lembrando de tê-lo escrito. 
Fico pensando se, talvez, eu não tenha algum tipo de defeito genético que faz com que, de tempos em tempos, meu cérebro entregue o controle do meu corpo para o coração. Porque realmente não sei de onde vem essa tsunami de sentimentos, esse desespero para escrever; e não sei porquê, enquanto escrevo, entro em curto circuito. 
Minha mente lê as palavras que escrevi e não as identifica como minhas, como se outro alguém as tivesse escrito e não eu. Meu coração, porém, reconhece cada letra que usei e bate tão forte preso numa bolha de euforia por ter enfim colocado aquilo para fora, que quase perco o controle de mim mesma novamente. Acho que, talvez, cabeça e coração estejam em conflito dentro de mim, me disputando, um tentando invadir as terras do outro e conquistar o território. E enquanto essa guerra não termina, eu fico assim, alternando entre razão e loucura, momentos de lucidez e momentos de inconsciência completa. Parecendo uma louca, compulsiva, desvairada.
Contudo, ainda que eu assuma a autoria desses textos, se me perguntassem se escrevo, não saberia responder. Porque não sei se o faço, minha razão diz que não, meu coração diz que sim. A única coisa que sei é que sinto. Não sei o que, mas sei que é muito.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Raça dos Desassossegados



"À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito."

(Martha Medeiros)


Eu sou dessa raça, e ainda não sosseguei porque não aceitei. Fazer o que?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Como nossos pais

Tento tanto mudar alguma coisa, fazer qualquer coisa útil para o mundo e só me frustro mais. 
Me perguntam porque escrevo sobre mim, mas sobre o que mais posso escrever? Critico, questiono, contesto e só para me estressar. Estou cansada de tentar mudar o mundo, de tentar salvar tudo isso que, se for analisar, já está perdido. 
Cansei de colocar a mão na massa, de me disponibilizar para fazer qualquer coisa que ajude, de gritar ao mundo o quanto certas coisas estão erradas e não ser ouvida. Então escrevo sobre o tempo, sobre banalidades, sobre "como vai você?" e espero que, pelo amor de Deus, me responda "Bem". Porque, sinceramente, estou esgotada, no limite.
Tentei ajudar, tentei fazer alguma coisa que fizesse diferença, mas, como já dizem, uma andorinha só não faz verão. E, vejam só, logo eu, que sempre acreditei que para mudar o mundo, era preciso começar por si mesmo. Logo eu, que nunca acreditei nesses ditados, sempre achei que eram apenas desculpas esfarrapadas. Eu, que sempre coloquei fé em tudo que fazia, ainda que sem ajuda. Mas acho que acordei desse sonho e vi que, sozinha, não faço nada. Vi que nada está mudando, porque não vai mudar. Essa humanidade sempre foi assim, e permanecerá assim, robotizada, desumana. 
Enquanto isso eu fico aqui, escrevendo sobre meu ego e minhas futilidades cotidianas, tentando abstrair e não acreditar nesse absurdo que é o mundo. Fico aqui, consciente de minhas mãos atadas e morrendo de medo que isso seja apenas o começo de uma fase adulta moderna, dessas em que as pessoas param de querer fazer alguma coisa pelo mundo e começam a se acomodar com tudo desse jeito que está, correndo atrás apenas de coisas para o bem estar próprio. Aqui estou eu, morrendo de medo que esse cansaço e essa vontade de desistir seja apenas o fim da adolescência que vivi, com sede de revolução, com fome de mudança. Eu que sempre disse que não deixaria de querer mudar o mundo, ainda que a adolescência passasse. Que sempre tive essa sede de melhorias, esse sangue quente correndo pelas veias e jurei não deixar a idade mudar isso. Agora penso que, talvez, nossos pais também fossem assim, também quisessem mudar o mundo, também tivessem essa sede de revolução, essa fome de justiça. Provavelmente eles mudaram também, e nem notaram.
E o pior para mim também não é ter mudado, porque nem senti a mudança. O pior é perceber que algo está diferente, e não é o que eu queria que estivesse, não é o aquecimento global e nem os politicos corruptos. Sou eu. E agora? Agora sou simplesmente tudo que sempre disse que não seria. Sou o que não queria ser. E, afinal, consegui fazer algo que realmente queria fazer, que realmente precisasse ser feito?
E o mais dificil, a parte que mais me dói, é admitir que pertenço a essa massa de pessoas egoístas; que faço parte desse grupo de hipócritas, como qualquer um e todos na multidão. Dificil é ver que mudar o mundo está fora do meu alcance.
Lá no fundo, apesar do cansaço e do stress, eu ainda existo e ainda tenho o mesmo desejo de fazer alguma coisa em prol desse planeta, dessas pessoas, desses seres vivos. Mas acho que, a partir de agora, vou precisar de alguém para me dar a mão, para esticar os braços e me tirar desse 'fundo', me puxar de volta para a superfície; para dizer que não me deixará desistir. Alguém que não permita que o medo se apodere de mim, e que esteja lá só para garantir que eu também estarei. 
Porque acho que agora não sou mais tão independente, tão cheia de mim. Não sou mais tão auto-suficiente. Talvez nunca tenha sido e só percebi agora.

Elis Regina tinha razão, somos como nossos pais. Sábias palavras.


"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não."

domingo, 7 de agosto de 2011

Banco de reservas


Eu quero as sapatilhas, os movimentos e as cordas de violão calejando meus dedos. Quero de volta a arte dos palcos, a leveza dos passos ensaiados, a beleza da música, dos versos, de cada acorde, de cada movimento. 
Quero mostrar o que eu sinto na dança, como eu costumava fazer. Quero voltar a conversar com o violão e quero contar o que eu penso para o papel, como eu fazia tão bem antes, e agora já não consigo mais. Tentei mudar as posições, tentei me expressar não nos movimentos, mas no papel. Não deu certo. Porque o que eu quero mesmo é a dança que habita em mim, inegável e irreversível. Quero não precisar trocar nada de lugar, mas que tudo esteja em sua devida posição. Quero as notas, a melodia do violão, que canta não para mim, mas em mim. Quero as cordas do meu antigo violão, o verdadeiro, aquele caro e pesado, maior que minha mão podia segurar. Quero os movimentos que fazia para Deus, os que fazia para mim, ambos que sei decorados, mas não posso usá-los. E, embora goste muito das chuteiras, dos sapatos de valsa e dos tênis de vôlei, eu quero as sapatilhas. Apertadas, machucando.
Mais que as sapatilhas, eu quero meus pés doloridos nelas; quero senti-las me apertando enquanto teimo em fazer errado o mesmo movimento. Elas ainda estão aqui, na mochila, guardadas de qualquer jeito, na pressa de quem sempre as experimenta só para ver se ainda serve. Não as aposentei, não as pendurei como se faz com a chuteiras. Mas estão no banco, entre os reservas. Assim como o violão, assim como o teatro e assim como toda essa arte inspiradora que vive em mim. 
Estão no banco, com a promessa por mim feita de que, um dia, entrarão em campo novamente. E só eu sei, só eu sinto, o quanto quero cumprir essa promessa. O quanto queria poder cumpri-la.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Abstrata


Eu não estou distante, porque não sou naturalmente próxima. Eu estou apenas eu. E sou distante, sou longe, sou abstrata. Porque sou como o vento que você sente cortar seu rosto, arrastar seu corpo e esparramar seus cabelos...intocável, invisível, mas inevitável. Sou fácil de sentir, porque te obrigo a me perceber. Mas sou uma fruta alta, que você não alcança, sou um fugitivo que você sabe que está a solta, por aí, mas não vê. 
Eu sou como o vento, chego sem pedir licença, te sopro sem permissão, te faço fechar os olhos...sou vendaval, que te varre inteiro, te percorre e te empurra. Sou brisa leve, que te beija, te envolve. Sou vento, que vem quente para te ganhar de dia e frio para te deixar com saudade de noite. Vento que não te deixa dormir, bate suas janelas, balança as roupas do varal. 
Sou como vento, que você não vê, não toca, não segura. Chego numa rajada forte e rápida e vou embora devagar, sem pressa, como a água que escorre por entre seus dedos, transparente, invisível, fazendo você acreditar que nunca, se quer, existi.