sexta-feira, 27 de maio de 2011

Não desista

Eu estava caindo, despencando de um precipício sem fim, apenas com a ponta dos dedos presa à uma pedra molhada e escorregadia. Enquanto estive ali, cheguei a pensar em soltar-me de vez e enfim cair, ser levada pela gravidade até não sentir mais o chão sob meus pés, até passar a dor em meu corpo já todo arranhado. Afinal, que mais me prendia ali se não eu mesma? Não havia corda para me puxar, nem ninguém para me salvar, não havia nada. Meus dedos deslizavam devagarinho, até chegar no ultimo ponto que eu ainda podia me apoiar; perguntei-me silenciosamente se, acaso, doeria muito. Dentro de mim, parecia uma queda livre infinita, mas fora era apenas um monte de água e pedra. Talvez fosse doer mais por dentro, de qualquer forma. Respirei fundo, olhei para cima.. e vacilei. Seus olhos estavam ali desesperados, desamparados; na sua boca, meu nome saiu tropeçando nas palavras e no ar que você respirava com força, ao mesmo tempo que tentava falar, como quem estava afogando e acaba de encontrar a superfície.
Vacilei. Porque, então, havia alguém ali; ainda que fosse tarde demais para mim, que já havia soltado a pedra quase que inteiramente. Ainda assim, você estava lá, quando eu pensei que não houvesse ninguém. E, na fração de segundo que minha mão finalmente se abriu e se desprendeu da rocha, você surgiu perto de mim. Inclinou-se sobre a água corrente e esticou-se até alcançar meu braço, o qual agarrou com toda força, com vontade, com medo. Foi quando eu percebi que, não importava quanto esforço isso pudesse lhe custar, você não soltaria da minha mão, não me deixaria cair. E não deixou. Ali, pendurada de forma torta e dolorosa, o coração martelando contra o peito que fazia força para respirar através das pedras que o pressionavam, com os músculos já fraquejando e o nervosismo beirando a loucura, eu descobri a razão que estive procurando. Somente ali, naqueles poucos minutos que me pareceram séculos, pude encontrar o sentido pelo qual agora vivo e que, antes, desconhecia. Você segurou minha mão firme o bastante para me dar a certeza de que não iria soltá-la. Nos seus olhos assustados e vermelhos do esforço, eu vi a determinação. Vi a verdade incontestável que, ainda que ambos caíssemos, sua mão estaria presa à minha. E, mais que tudo isso, eu enxerguei a segurança, a paz e o caminho para casa que estive procurando todo esse tempo, mas que sei que encontrei agora. Você me salvou. Não das pedras afiadas, não da água que corria com força e nem da queda sob a corredeira. Você me salvou do abismo particular em que eu me encontrava; me salvou da queda não na água, mas na escuridão. E me tirou de dentro do precipício, que me empurrava cada vez mais para baixo. 
O que eu ganhei com isso? não foi uma nova chance para viver, nem um aprendizado, nem alguns arranhões, embora eles tenham vindo no pacote. Mas eu ganhei a  certeza de que tenho um sentido para viver, a garantia que o ar que entra em meus pulmões não o faz e vão. E essa é a melhor e única salvação que eu poderia receber. 
Por isso, agora que é você quem está preso na borda do abismo eu imploro, com os mesmos olhos desesperados e desamparados que você implorou a mim, com as mesmas palavras tropeçadas na falta de fôlego: não solte a pedra. Por mais molhada, fria e escorregadia que esta possa estar. Ainda que seus músculos reclamem, seu corpo não queria reagir e seu coração diga para você soltar. Ainda assim, não solte. Obrigue-se a aguentar, e continue remando contra a corrente, nadando sem parar a caminho da superfície. Continue respirando, assim como eu o fiz por você. Porque, assim como sua mão me segurou, a minha também está te segurando, e eu não vou te soltar, como você também não me soltou. Não desista de si mesmo, por favor, porque eu não desisti. Eu nunca vou desistir.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Permaneço

Eu ando trocando as palavras, trançando as pernas e cambaleando em esquinas escuras. Sempre desconfiada, olhando em volta, fugindo. Os nervos sempre à flor da pele me permitem saber que não são coisas da minha cabeça. O medo, aflição que não diminui, e a angústia; ansiedade para descobrir se, no fim, as coisas vão mesmo se ajeitar ou não. Deixo as horas passarem, indistintas, esperando que levem consigo a verdade cruel que anda me sondando. E corro, com o coração aos saltos, na boca, gritando de desespero, implorando por uma pausa. Ignoro o coração que grita, os pulmões que exigem mais oxigênio e o sangue que pulsa feito uma corrente elétrica, me deixando tonta. Continuo a correr, cada vez mais para dentro de mim, construindo uma cápsula protetora e intuitiva, que me alerta e me esconde de tudo que eu não quero ouvir, mas preciso saber. Os músculos cansados da tensão, reclamam. Mas não paro, porque tenho que conseguir fazer um chão sólido dentro de mim. Fujo antes que a instabilidade dessa vida me derrube, porque não acho que haja maneira alguma de me levantar se eu cair novamente, e não quero cair. Pior ainda, não posso deixar-me cair. Ao mesmo tempo em que não tenho nada onde apoiar-me, nada para me segurar. O que tem me mantido sã optou por não me manter também segura. Estou ao meu próprio alcance, desprotegida de meus próprios braços, sem nada para impedir a carnificina entre eu e meu coração. E permaneço, simplesmente, porque tenho que fazê-lo. Não sem esforço, mas sem forças, tendo que ficar aqui e, ao mesmo tempo, me obrigando a manter ligação com o lado externo, inacessível. Permaneço, presa e acorrentada dentro de mim mesma e correndo solta pelo mundo; desesperada.