quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um dia comum

Quando virei a primeira esquina pude ver um senhor sentado na calçada, com uma placa dizendo que era cego e pedindo comida, acelerei o passo com medo de ser assaltada. Continuei andando, mas fui interrompida por um homem que passou correndo com uma bolsa na mão e um capuz na cabeça. Quando tentei atravessar a rua, um carro desgovernado passou no sinal vermelho e atropelou um menino de 10 anos, que estava indo comprar pão. O motorista tinha se enbebedado porque pegara sua mulher com outro homem e este, por sua vez, era casado. A mulher dele tinha câncer e dois de seus filhos foram presos em flagrante. Bom, pelo menos foi o que a Dona Cleusa me contou, mas sabe como é, não se pode confiar muito nessas fofoqueiras do bairro.
Retomei minha caminhada e fui novamente interrompida por um senhor que tentou me agarrar, mas acabou caindo em um bueiro destampado na rua, e eu achei muito bem feito e agradeci secretamente ao prefeito por ter atrasado a obra. Chegando em frente ao Bar do Seu Zeca, sentei um pouco e logo fui notada pelos homens que ali bebiam. Eles se sentaram comigo e nós ficamos conversando enquanto bebíamos. O mais novo da mesa, chamado Wesley, começou uma briga com o cara do seu lado, Fernando, porque ambos tentavam contratar a prostituta que estava na porta. Deixei eles lá e, cansada como estava, peguei meu carro que estava no estacionamento e tomei o caminho de volta. Fui parada por uma blitz que insistia em dizer que meus documentos estavam irregulares, mas acabei conseguindo dar um jeitinho na situação e segui viagem.
Cheguei finalmente em casa, liguei a TV no jornal nacional, onde vi que os dois homens que estavam brigando no bar acabaram matando a prostituta da porta com um tiro no peito, mas eu achei é pouco para uma mulher fácil dessas. Fiquei mudando de canal toda hora, porque o jornal estava um tédio hoje. Enfim começou a novela e eu me esparramei no tapete macio da minha sala e fiquei pensando, enquanto assistia. Lembrei de todo o caminho, de como o céu estava azul e de como o povo anda feliz esses tempos. Pensei até poder concluir, satisfeita, o relatório do meu dia que não teve nada de especial nem de diferente, mas que me deu a mesma certeza que todos os dias me dão: O Rio de Janeiro continua lindo, não é?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O tipo de amor que eu quero


Nem sempre a gente quer um amor. Uma paixonite, um compromisso ou um rolo qualquer. 
As vezes, quase sempre, eu me vejo querendo um amigo, daqueles para quem se conta absolutamente tudo na vida. Só um amigo, para quem você não precisa dar satisfação, mas dá mesmo assim porque quer. Porque amigos não ligam se você sair com roupa de ficar em casa, te chamam de chata, te carregam nas costas, te protegem de corações partidos e enxugam suas lágrimas. Amigos te fazem rir de tudo, rir até doer a barriga; cuidam de você quando fica bêbada, dão risada de seus tombos e te dão a maior bronca quando você é irresponsável demais; te ensinam a jogar futebol, trocar pneu e andar de skate. Amigos te irritam, te xingam, perdem a paciência, brigam com você e te batem. Amigos homens sempre querem bater no cara que partiu seu coração, estão sempre prontos para te ouvir, sempre te abraçam tão forte que te deixam sem ar e nunca se importam de serem vistos com uma menina.
Então, por melhor que possa ser essa coisa de se apaixonar, eu ainda prefiro ter um amigo.
Porque, pensando bem, a amizade é muito mais fácil que o amor, e ao mesmo tempo, muito mais complexa. Amizade é um tipo de amor que não acaba, não machuca. E é isso que eu quero, alguém para amar sem essa parte complicada, de ciúmes, alianças e compromissos. Alguém para me amar sem nenhum outro interesse. Uma pessoa com quem você vai andar de mãos dadas não por obrigação, mas por vontade própria. Um amigo, desse melhores, sabe? Um bom amigo, desses que são para sempre. Desses que, quando te perguntarem se ele é seu amigo, você faça questão de dizer:
- Não. Ele é meu melhor amigo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Apego

Quem se apega fácil demais, perde fácil demais. Porque sente como se fosse seu, aquilo que nunca foi. Perde, porque pensa que um dia possuiu. E, quando vê tudo indo embora, acha que está sendo roubada, abandonada; acha que foi enganada, e deixada para trás, esquecida. Mas nunca houve promessa. Ninguém nunca disse que ficaria. Foi você quem confundiu as coisas e achou que, por um momento, houvesse amizade. 
Nunca houve, porque não deu tempo. As conversas compartilhadas, os amigos em comum e os Oi's trocados foram suficientes para te fazer gostar, mas isso não quer dizer que foram suficientes para tornar amigo alguém que é tido como mero conhecido. Foi simplesmente superestimado de sua parte pensar que havia algo além de cordialidade. 
Andei na contra mão de novo, peguei o caminho errado e, não satisfeita, pulei as etapas iniciais; coloquei o carro à frente dos bois. Só para poder ver que agora os bois fugiram e o carro parou de andar, estacou. Só para variar.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O que as meninas não aprendem




A gente entende que um dos furos da nossa orelha, a mulher vai furar errado. A gente entende que, quando finalmente conseguimos fazer com que todas as unhas fiquem grandes e uniformes, lindas e deslumbrantes, uma delas vai quebrar. Entende que temos que passar por uns 10 ginecologistas até achar aquele que gostamos e, depois de um tempo, vamos perder o endereço e telefone dele e ter que procurar de novo um que nos agrade.
Aprendemos que o cabelo nunca vai nos obedecer e deixar de nos envergonhar em público. Aprendemos a sempre ter um plano B quando estamos naqueles dias e nossa calça mancha. A gente entende também que nosso coração será quebrado inúmeras vezes. Somos capazes de aprender quase qualquer coisa que esteja diante de nós. A única coisa que não aprendemos é a controlar nosso próprio coração. Foge à compreensão feminina isso de não se apegar. O modo como perdoamos, voltamos atrás, nos reconstruímos novamente, obrigando-nos a ser inteiras só para ver outro homem nos fazer metade outra vez. Como se, por um momento, não soubéssemos que aquele que está ali no batente da porta não é diferente do outro que nos machucou; como se não soubéssemos que o homem da vez enxugará nossas lágrimas só para fazê-las cair de novo. Porque as meninas não aprendem a não se apaixonar.
Juntamos os pedaços do coração, voltamos a nos produzir e nos deixamos encantar novamente, como na primeira vez. Nos iludimos com sorrisos, acreditamos em promessas falsas e confiamos em palavras fáceis.
E, como na primeira vez, voltamos para casa com os mesmos olhos inchados, o nariz vermelho, a maquiagem borrada e o coração partido. Porque não importa quantas vezes isso aconteça, essa é uma lição que nós nunca vamos aprender.

domingo, 10 de abril de 2011

O mundo perde o freio

O mundo perde as rédeas. As pessoas boas sofrem, e as más são felizes. O amor começa a habitar no coração de apenas um dos lados enquanto só há amizade na outra pessoa.
As vezes, parece que o mundo se empolga demais e perde o freio, o controle, a razão; esquece que tem que girar devagar. Esquece que tem um eixo a seguir, e acaba andando na contra-mão. Bagunçando e embaralhando vidas que eram para ser bonitas, longas e felizes. Transformando valores, invertendo-os, e matando os princípios.
Mas, de repente, o relógio para e o mundo parece que acorda e vê o que fez. Volta a girar sem pressa, e entra de novo na velha rotina, tentando equilibrar tudo outra vez. Mas agora é tarde, vidas já foram alteradas, futuros já deixaram de existir e destinos já tomaram outro rumo porque, mesmo que haja remendo, não há como voltar atrás e desfazer aquilo que está feito. Não existe segunda chance; não para viver.

sábado, 9 de abril de 2011

Abismo

Tem um canto nosso que é inacessível. Não por permissão, mas por dor. Porque dói você esbarrar nesse canto e, como se não bastasse, assusta. E, por saber disso, nós o deixamos lá, com as portas trancadas, como se assim fosse machucar menos. Mas, quando enfim nos encontramos acidentalmente dentro desse lugar, é tão pior do que imaginamos que quase mata; nos faz cair numa queda livre sem fim. Sufoca, fere como fogo e queima como gelo.
E, morrendo de medo, nos vemos batendo bem de leve na porta do céu, e pedindo se podemos entrar um pouquinho, deitar a cabeça num colo que não nos expulse e ouvir algumas palavras doces e sinceras, de quem quer mesmo nos ajudar. Nos vemos procurando desesperadamente alguém para nos segurar e nos manter sãos, alguém que não nos deixe continuar caindo nesse abismo. 
Porque as vezes cansa ter que se virar sozinha, cansa ser forte e cansa fingir que está tudo bem. E quando isso acontece, tudo o que queremos são braços nos envolvendo e uma voz calma dizendo que isso vai passar. Tudo o que precisamos é de uma mão para nos arrancar desse buraco em que caímos. Mas então nada disso aparece, e continuamos sem chão, descendo mais e mais fundo no escuro, às cegas e nos perguntando se, algum dia, vamos enfim ver a luz novamente.

domingo, 3 de abril de 2011

Interrompida


O celular avisa que tem alguém ligando, mas é engano. Alguém grita seu nome na rua, mas ao olhar para trás, ela vê que é outra pessoa que chamam.
Enquanto isso, alguém vasculha as coisas da menina, e vê que ela tem mais textos inacabados do que prontos. Vê que tem mais rascunho do que arte. Em meio à bagunça de seu quarto, ele vê seus projetos sem conclusão, seus desenhos sem pintar e suas histórias sem final. E vê que ela é apenas metade. Meio engraçada, meio bonita, meio legal. Ela não é inteira. Não é pronta. Ela é só uma garota sem desfecho; com começo e meio, mas sem fim. Ela é como uma gravidez indesejada; interrompida. Que estaca para sempre num mesmo lugar e, em vez de crescer, diminui até não existir mais. Ela burla todas as leis do mundo só pelo fato de existir. Porque ela chegou até aqui aos tropeços, acidentalmente; por um descuido. Seu destino era mesmo ter ficado lá atrás, quando foi barrada pela vida. Mas teimosa que é, insistiu e fugiu da sentença. E agora está aí, vivendo uma vida que não era para ser vivida. Quebrando as regras e o coração que nem deveria estar batendo. E ela, por pirraça, ainda está tentando ser inteira, recuperar a outra parte que se perdeu; a parte que arrancaram dela. Mas não dá, porque o mundo não deixa, a natureza a esta barrando. Não dá para recuperar-se porque, quando se trata dela, não há perdão. Não dá para ser inteira, porque ela está destinada a ser metade. Não dá para seguir em frente. Simplesmente não dá para se mexer, porque ela está paralisada, presa em uma camisa de forças invisível. 
Ela está sendo interrompida, outra vez.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Viajante do tempo



Eu acordo durante a noite e tomo um café. Olho o relógio impiedoso.Tamborilo os dedos pela mesa. Corro a mão pelas paredes. E sinto o vazio de novo, que se repete noite após noite. A madrugada continua me condenando. 
Falta aquele frio na barriga. A coisa simples e extraordinária que me fazia gostar tanto daquilo tudo. As vezes inesperadas que você chegava de madrugada e inventava de sair para algum lugar novo. As noites que passávamos andando sem rumo, correndo pelas praças escuras. Os dias em que você me surpreendia, me levava a algum show e entrávamos escondidos. 
Falta as aventuras que você me fez viver, mesmo sendo eu sempre tão medrosa; falta essa mágica que você tinha de me fazer querer o impossível, de me fazer achar que tudo estava ao meu alcance.
Mas agora, sempre me pego indo mentalmente para onde você costumava me levar. Vou viajando por aí, tentando te encontrar. Procurando incessantemente, sempre buscando algum vestígio seu e sempre fingindo que você está atrás de alguma árvore, escondido de mim para poder me pegar de surpresa. Só que então me dou conta de que estou sozinha novamente. E pergunto por você ao céu, ao tempo, à grama. 
Viajante do tempo, onde você está? O velho ponteiro do relógio de parede está te esperando pacientemente e eu faço companhia. Me acordando entre sonhos. Porque você não me levou junto desta vez? Fico aqui esperando e esperando, e notando que isso não muda. Eu continuo a esperar e você continua sem vir. Dia após dia, noite após noite. Intercalando minha espera entre xícaras de café frio e cobertores quentes para tentar abrigar esse coração que costumava ser aquecido por você. Fico aqui rindo de piadas sem graça enquanto lembro de como você costumava me fazer rir até chorar. Continuo assim, com meus batimentos normais, enquanto sinto saudade do tempo em que meu coração vivia pulando do peito só por estar perto de você.
E então, vendo que o sol está prestes a nascer, eu repito o mesmo ritual. Olho pela janela, deixo algumas lágrimas escaparem e sorrio esperançosa para a estrada, perguntando ansiosa se você não vem, enquanto o vento frio da 'quase-manhã' sopra por meu rosto, e eu te vejo desaparecer de novo diante de meus olhos, respondendo sussurrando com uma voz conhecida: Me espera, que eu volto para te buscar.