sábado, 29 de janeiro de 2011

Sufocada

Eu não sei mais o que faço, por onde eu vou. Estou, mais uma vez, perdida em uma encruzilhada, que se repete em quase todos os capítulos que eu termino na minha vida.
Não sei mais como vai ser, porque me sufoca tentar descobrir. Me sufoca essa saudade absurda que já me invade antes mesmo da real separação.
Me sufoca não passar mais pelo quadrado e pelo aquário, com aqueles passos meio tortos e aquela cara de sono, e parar ali para falar bom dia.
Me sufoca ouvir as nossas músicas, e saber que não tenho mais vocês para cantá-las junto comigo. Me sufoca imaginar que, um dia, muitas dessas memórias vão desaparecer da minha mente. Sufoca saber que vou esquecer do tom das risadas durante a aula do Vilarinho, e da sintonia das conversas na aula de PA. Porque eu sei que, no fim, as lembranças vão virando flashs, ficando embaçadas, díficeis de lembrar; perdendo o áudio aos poucos, perdendo os detalhes mínimos até sobrar só o essencial.
E isso me sufoca mais que tudo, saber que vou perdê-los na memória. Sufoca e prende.
Ainda estou aqui, presa nas fotos, com sorrisos e abraços congelados na memória, me agarrando a qualquer detalhe que dê indício de estar sendo esquecido ou lembrado errado. Aqui; me agarrando na borda do abismo que vocês deixaram e que insiste em me puxar para baixo.
Sufoca lembrar dos jogos de futebol, e de vôlei. Sufoca lembrar do quanto fingiamos fazer educação fisica. Sufoca lembrar das idas à feira, para comer pastel e perder a aula do mesquiari.
Sufoca lembrar dos trabalhos, provas, teatros e seminários que nos deixavam loucos insanos. Sufoca lembrar dos debates e acertos de contas. Sufoca demais lembrar do primeiro dia, a primeira impressão e o amor e amizade mútua que todos tivemos quase que instantaneamente. Sufoca lembrar da harmonia e da união. Mata aos poucos. Me faz pensar o que será de mim agora, sem o despertador para tocar e me fazer xingar em silêncio. O que será sem os olhos de sono de todo mundo durante a aula super animada do Airton.
Sufoca crescer, e saber que agora vem a contagem regressiva. Faculdade,trabalho, casamento, filhos. Sufoca ter quase certeza de que terei que seguir sozinha por essa contagem esmagadora que me consome aos poucos, roubando a minha felicidade em ser adolescente. Sufoca as responsabilidades sem ter vocês para compartilhá-las comigo e dizerem que sentem o mesmo. Sufoca ter que dar adeus a essa ETECAP, que me devolveu a felicidade, que me deu as melhores pessoas do mundo. Sufoca dizer adeus, enquanto os bixos e bixetes estão dizendo Olá. Sufoca saber que ela também me da adeus, e da as boas vindas ao primeiro ano, que sempre entra com aquela euforia, aquela animação do começo, e desperdiça o tempo, deixa passar sem perceber que não vai mais voltar. Dói saber que agora eu estou velha demais para fazer parte de toda essa maratona pré vestibulinho, da ansiedade para saber se passou. Dói a saudade da vontade de saber quem caiu na sua sala. Dói lembrar de como todo mundo sempre foi diferente, cada um morando em um lugar, cada um com uma história de vida, cada um vindo de uma escola e uma cidade diferente, mas  todos sempre muito bons quando se juntavam.
E eu sei que esse nó na garganta é para sempre, daqueles que se tem de engolir. A causa da primeira ruga que aparecer. É apenas a primeira lembrança de muitas que virão, mas a mais marcante delas. Mas parece que o nó está aumentando cada dia, e me faz perguntar se vou conseguir respirar amanhã, mais um dia, sem ter de volta tudo aquilo o que era tão meu e fazia tão parte de mim, sem ter minha rotina etecapiana, minhas risadas com vocês, nossas conversas mais aleatórias e nossas piadas e micos, tombos e montinhos, teatros e ensaios. Não ter vocês de volta, logo vocês que eram tão meus e minhas que parece que, ao deixá-los, deixei junto metade do meu coração, da minha alma e de mim, de quem eu sou.
Mal respiro. E quem diria, a menina que sempre quis sair logo, mudar, voltar atrás, agora chora pela época que não gostava, agora sente saudade daquilo que queria que passasse logo e agora quer voltar para o passado do qual, quando era presente, queria fugir. Quem diria, não é? Que o que tanto me fazia respirar, agora me sufoca, tira o fôlego.

Um comentário:

  1. "Porque eu sei que, no fim, as lembranças vão virando flashs, ficando embaçadas, díficeis de lembrar; perdendo o áudio aos poucos, perdendo os detalhes mínimos até sobrar só o essencial."

    se conseguiu escrever tudo isso,jamais apagará da memória todos esses momentos.Eu ficaria muito feliz se tivesse vivido tudo isso,ou melhor,se tivesse vivido metade disso.
    como já dizia aquela música :
    nada vai conseguir mudar o que ficou.

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