segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Covardia

Sabe, na verdade, todo esse negócio de blog é uma grande besteira. Essa coisa de escrever.
Todos esses textos muito bem editados e todas essas palavras bonitas escolhidas a dedo servem apenas para esconder o verdadeiro sentimento. Usamos o poder de metáforas e entrelinhas para que não aparentemos toda essa fragilidade que carregamos conosco; para não demonstrarmos a quantidade exata de sensações que nos percorrem e, assim, não mostrarmos o quanto somos fracos as vezes. Sempre pensamos que isso basta para nos esconder, e definitivamente não acreditamos que alguém realmente nos veja como somos e entenda o que está escrito e o que não está.
Por isso escrever, talvez, seja fruto da pura covardia. Para não contar tudo, e deixar subentendido, ou para poder usar de reticências e não falar que, no fim, você quebrou a cara.
E, como se não bastasse, somos ainda mais covardes ao seguir, ler e gostar de blogs e textos alheios. Porque os textos são apenas retratos mascarados da realidade em que se vive. Um espelho sujo da atual circunstância. Usando as palavras, nós acabamos por fazer de nossas vidas e nossos conflitos, dramas cinematográficos, daqueles de novela que até dá vontade de viver e, ao ler esses dramas escritos por outra pessoas, estamos apenas tentando mergulhar na realidade do escritor e fugir da nossa própria. Estamos apenas praticando nossa covardia. E somos quase atores ao interpretar esse papel dramático em que nos colocamos quando a vida ao redor é bem mais dura e intensa conosco do que descrevemos, e nós somos bem mais frágeis na vida real do que contamos no papel.
Contudo, a pior de todas as covardias talvez seja essa: usar indiretas e relatividade para podermos desmentir se alguém descobrir o que realmente está por trás da palavras. Porque a grande verdade, nua e crua, é que temos medo do que sentimos, e mais medo ainda de que o mundo saiba. Criamos uma cápsula protetora, nos escondendo atrás de palavras, e descarregamos tudo no papel para não termos que lidar com nossos próprios sentimentos. E sempre tentamos fazer com que o drama de filme nos garanta na posição de heróis no final quando, na realidade, somos apenas figurantes; pessoas normais que seguem a vida aos tropeços, mas sem interferir em nada.
Eu sinto que olhos esbugalhados, assustados e atônitos passarão por esse texto. E tudo bem, porque eu também pensava que estava apenas escrevendo aleatoriamente, para descontrair e descarregar; para me agradar. Porém percebi que havia mais a ser lido nas entrelinhas do que nas linhas. Percebi que as palavras e textos nunca serviram muito para dizer e transmitir o que eu realmente sinto, mas apenas para me esconder. E, talvez, sem nem notar, acabei acrescentando meu medo às palavras e obtendo o efeito contrário àquele buscado originalmente; me expondo, mesmo que implicitamente. Acho que descobri agora também que não consigo e não quero dizer a verdade total sobre o que se passa no meu coração - até porque ninguém o faz - mesmo que isso escape todas as vezes, de forma um pouco mais que implícita e um pouco menos que explícita. Quero apenas relacionar, comparar e desvendar, tudo nas entrelinhas para que não seja descoberta; tudo com palavras bem escolhidas para não assustar quem as lê. Afinal, que mais seria de mim agora, se não uma louca instável, bipolar e volúvel, visto que falo sobre minhas próprias falhas e fraquezas com a mesma elegância que uso para transformar meus conflitos em dramas? Edito e conserto tudo sim, para que não saia com o mesmo tom de insanidade que carrego.
Nada do que eu digo é da boca para fora, vem tudo de dentro, é só que os detalhes mais sórdidos e as verdades mais dolorosas eu deixo no caminho, na trajetória entre as curvas do meu coração até minhas cordas vocais, implícito e subentendido. Só posso garantir que não há nada garantido em mim. Minhas palavras, atitudes, opiniões e conlusões nunca são coerentes, bem como meus sentimentos e pensamentos.
Então aí vai outra verdade que, embora dita de forma crua, ainda esconde muitos significados e propósitos por trás: eu sou uma total e completa covarde e acho que vou continuar sendo.
E isso sim talvez seja um ato de coragem.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Sufocada

Eu não sei mais o que faço, por onde eu vou. Estou, mais uma vez, perdida em uma encruzilhada, que se repete em quase todos os capítulos que eu termino na minha vida.
Não sei mais como vai ser, porque me sufoca tentar descobrir. Me sufoca essa saudade absurda que já me invade antes mesmo da real separação.
Me sufoca não passar mais pelo quadrado e pelo aquário, com aqueles passos meio tortos e aquela cara de sono, e parar ali para falar bom dia.
Me sufoca ouvir as nossas músicas, e saber que não tenho mais vocês para cantá-las junto comigo. Me sufoca imaginar que, um dia, muitas dessas memórias vão desaparecer da minha mente. Sufoca saber que vou esquecer do tom das risadas durante a aula do Vilarinho, e da sintonia das conversas na aula de PA. Porque eu sei que, no fim, as lembranças vão virando flashs, ficando embaçadas, díficeis de lembrar; perdendo o áudio aos poucos, perdendo os detalhes mínimos até sobrar só o essencial.
E isso me sufoca mais que tudo, saber que vou perdê-los na memória. Sufoca e prende.
Ainda estou aqui, presa nas fotos, com sorrisos e abraços congelados na memória, me agarrando a qualquer detalhe que dê indício de estar sendo esquecido ou lembrado errado. Aqui; me agarrando na borda do abismo que vocês deixaram e que insiste em me puxar para baixo.
Sufoca lembrar dos jogos de futebol, e de vôlei. Sufoca lembrar do quanto fingiamos fazer educação fisica. Sufoca lembrar das idas à feira, para comer pastel e perder a aula do mesquiari.
Sufoca lembrar dos trabalhos, provas, teatros e seminários que nos deixavam loucos insanos. Sufoca lembrar dos debates e acertos de contas. Sufoca demais lembrar do primeiro dia, a primeira impressão e o amor e amizade mútua que todos tivemos quase que instantaneamente. Sufoca lembrar da harmonia e da união. Mata aos poucos. Me faz pensar o que será de mim agora, sem o despertador para tocar e me fazer xingar em silêncio. O que será sem os olhos de sono de todo mundo durante a aula super animada do Airton.
Sufoca crescer, e saber que agora vem a contagem regressiva. Faculdade,trabalho, casamento, filhos. Sufoca ter quase certeza de que terei que seguir sozinha por essa contagem esmagadora que me consome aos poucos, roubando a minha felicidade em ser adolescente. Sufoca as responsabilidades sem ter vocês para compartilhá-las comigo e dizerem que sentem o mesmo. Sufoca ter que dar adeus a essa ETECAP, que me devolveu a felicidade, que me deu as melhores pessoas do mundo. Sufoca dizer adeus, enquanto os bixos e bixetes estão dizendo Olá. Sufoca saber que ela também me da adeus, e da as boas vindas ao primeiro ano, que sempre entra com aquela euforia, aquela animação do começo, e desperdiça o tempo, deixa passar sem perceber que não vai mais voltar. Dói saber que agora eu estou velha demais para fazer parte de toda essa maratona pré vestibulinho, da ansiedade para saber se passou. Dói a saudade da vontade de saber quem caiu na sua sala. Dói lembrar de como todo mundo sempre foi diferente, cada um morando em um lugar, cada um com uma história de vida, cada um vindo de uma escola e uma cidade diferente, mas  todos sempre muito bons quando se juntavam.
E eu sei que esse nó na garganta é para sempre, daqueles que se tem de engolir. A causa da primeira ruga que aparecer. É apenas a primeira lembrança de muitas que virão, mas a mais marcante delas. Mas parece que o nó está aumentando cada dia, e me faz perguntar se vou conseguir respirar amanhã, mais um dia, sem ter de volta tudo aquilo o que era tão meu e fazia tão parte de mim, sem ter minha rotina etecapiana, minhas risadas com vocês, nossas conversas mais aleatórias e nossas piadas e micos, tombos e montinhos, teatros e ensaios. Não ter vocês de volta, logo vocês que eram tão meus e minhas que parece que, ao deixá-los, deixei junto metade do meu coração, da minha alma e de mim, de quem eu sou.
Mal respiro. E quem diria, a menina que sempre quis sair logo, mudar, voltar atrás, agora chora pela época que não gostava, agora sente saudade daquilo que queria que passasse logo e agora quer voltar para o passado do qual, quando era presente, queria fugir. Quem diria, não é? Que o que tanto me fazia respirar, agora me sufoca, tira o fôlego.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Escreva

Escreva. Não qualquer palavra vazia. Escreva tudo o que você quer ser, mas não pode. Escreva tudo o que queria dizer para o mundo, mas sabe que não soaria bem em voz alta.
Escreva e, no papel, seja quem você é. Entre as linhas do caderno, seja quem você quer ser, porque o papel não se importa com quem escreve, mas com o que está sendo escrito. O papel te aceita quando você quer escrever felicidade, e te aceita da mesma forma quando queres rabiscar a raiva dentro de você. O papel aceita seus sentimentos e permite que você conte à ele tudo o que te perturba; não é cego, mas vê beleza e igualdade entre todos que o riscam.
Para que psicólogo, afinal, quando o papel é uma companhia muito melhor? É ele quem sente suas lágrimas e te pergunta em silêncio sobre seus problemas. É ele quem te ouve sem te julgar.
O lápis te ouve também, te sente; te entende. Deixa que você o manipule enquanto seus pensamentos fluem através de suas mãos.
Então, escreva. Porque, se todo o mal do mundo resolvesse ser escrito, talvez pudéssemos apagá-lo e reescrevê-lo em forma de bem.
Escreva porque, quando se escreve, o coração é quem guia sua mão para formar palavras que te traduzem, mas você nem sabia que estavam aí dentro. A alma flui para o papel.
Deixe-se escrever inteira e vê se assim consegue tirar o errado, torto e amassado de dentro de você. Escreva de um jeito para que, quem ler, sinta suas dores e suas delícias. E sinta com a intensidade que você sente.
Escreva tudo o que se passa, o que se quer, o que incomoda e o que faz bem. Permita-se fluir de corpo, alma e coração. Porque é o papel, e só o papel, que te aceita assim, escrevendo o que escreve, fazendo o que faz e sendo quem é.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

5 dicas para descarregar a raiva ...

... sem explodir nada e nem bater em ninguém.




  -  Pegue um elástico ou alguma coisa que estique muito, e force-o até arrebentá-lo. Garanto que você vai passar tanto tempo tentando fazer isso, que acabará por esquecer o motivo de toda a raiva. A vantagem é que você fará exercício enquanto tenta arrebentar o elástico.

2º  -  Coloque 5 chicletes push na boca, e mastigue com força.

  -  Escreva. Passe toda a raiva para o papel. Xingue, se achar necessário. Vale rabiscar também. Quando terminar, jogue o papel fora.

  -  Grave um vídeo. Ligue a câmera e fale tudo que você gostaria de dizer para o objeto de sua raiva. Grite, chore e brigue. Não assista o video depois de pronto, delete-o.

  -  Por ultimo, mas não menos importante, coloque no ultimo volume uma música que te faz querer dançar e dance sozinha no quarto, de qualquer jeito, sem se preocupar em fazer movimentos bonitos e coerentes.


Se nenhuma das 5 dicas funcionar, toque a campainha de uma casa e saia correndo, passe um trote ou faça qualquer babaquice que te envergonhe ou te dê medo. A adrenalina que o medo desperta é tão alta, que vai te fazer esquecer rapidinho da raiva.



P.S: Eu sei que esse tema não tem nada a ver com o Imagíneos.
Essas 5 dicas eu inventei enquanto tentava acalmar a minha raiva,
mas aí eu decidi que poderia simplesmente compartilhá-las com o restante do mundo,
ou quem quer que leia isso. :D

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fora do contexto

Durante muito tempo, eu segui com grande esforço para me esconder. Me fiz comum e normal por fora. Passiva e paciente, feita basicamente de sonhos fáceis e alcançáveis; de dramas sobrevivíveis. À vista, apenas o basico, simples e o andar reto de uma menina criada por um mundo que gira em torno dessa sociedade cor-de-rosa-bebê-enjoativo. Disfarcei bem, confesso. Para que ninguém desconfiasse do que eu sempre guardei, deixei sair apenas o essencial e necessário. Mas aqui, dentro de mim, estive gritando por explicações e respostas.
Num lugar bem escondido, eu delirei, questionei, briguei, discuti e exigi saber os motivos. Enquanto meu silêncio preenchia o mundo ao redor, meus sonhos ilusórios e impossíveis foram moldados dentro da minha cabeça. Minha raiva da hipocrisia e falsidade dessa sociedade maquiada tomou forma. Meu lado adolescente e geneticamente revolucionário gritou à plenos pulmões por educação, respeito, honestidade e compaixão. Afinal de contas, nunca quis alvos fáceis de alcançar, não busco amores mornos com vidas certas.
Eu quero o que eu não vejo, não entendo e nem mesmo sei o que é. Quero bem mais que o máximo de tudo que puder me dar. Quero viver mais, me expressar mais, e fazer valer bem mais do que vale hoje em dia.
Agora, e só agora, eu vejo que o que eu mostrei a vida inteira é só um reflexo do mundo. Essa vida mais ou menos, com uma alegria pequena que caiba dentro dos bolsos; com um jeito comportado, delicado e responsável. Tudo uma mentira.
Porque, lá no fundo, eu sempre fiz coisas proibidas, tive um cabelo azul, pintei minhas unhas de verde limão e fui meio irresponsável. E essa sou eu, todo esse meu eu, que esteve por tanto tempo escondido no lado oculto, invisível e disfarçável; no lado de dentro, para que não causasse tragédias do lado de fora. Todo esse tempo, eu deixei de me ser, para que não descobrissem que sempre fui totalmente fora do contexto. Mas hoje o dia amanheceu mais claro e eu aprendi que posso sim contestar e questionar o sistema e tenho o direito de dizer a verdade.
Eu acordei essa manhã e parei de ser esse espelho sujo do mundo, para poder mostrar o que realmente faço, sou e acredito. Libertei-me dessa maquiagem e dessas falas muito bem ensaiadas, e vejo que ainda sou a menina da sociedade rosa, mas do rosa berrante; que se autodeclara diferente.
Hoje, não só dentro de mim, mas fora também, eu sou por inteiro. De corpo, alma, coração e mente.
Então, agora que eu confessei que não sou nada rasa e maleável, não me venha mais com superfícies, porque eu parei de fingir aceitá-las. Eu quero é o mergulho em águas profundas, em idéias e ideais densos. Quero esse abismo de palavras e sentimentos reais, palpáveis. Eu sempre quis isso e, na verdade, é o que todo mundo quer. E quem diz que quer outra coisa, é só para ser aceito como "normal".
Eu não quero sua piscina, mas um mar para me jogar de roupa e tudo. E pouco me importa se, ao libertar esse meu lado interno, eu cause espanto e choque, porque, na verdade, é essa a intenção; chocar esse mundo de sorrisos amarelos e palavras decoradas, mostrando que isso que eu sou agora é a melhor definição do verbo ser, ainda que esteja fora do padrão habitual. E deixar bem claro que eu não deixarei de sê-lo novamente apenas para não desencadear uma guerra. Afinal de contas, na minha guerra, eu luto apenas por paz. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Desajeitada e sem freio

Então você acha que pode dizer quando vai chover, ou quando as nuvens vão se dissipar. Essa sua mania de ser grande nunca lhe favoreceu e, mesmo assim, continua aí em você. 
Vá devagar, criança. O mundo pode ser maior do que aquilo que já está fora de seus limites. Sinta o vento bater e entenda que existe alguém que o sopra dessa forma para que ele bagunce seus cabelos.
Onde você pensa que está indo, garota? Os degraus desse mundo são mais altos que seus joelhos ralados. Como você faz com que isso seja real, quando sabe que não é? Apenas pare e olhe para o céu, porque ele está lá por você. É só um ponto de vista arriscado. E quem sabe o que não é verdade nesse mundo? 
Mas não há data marcada para a sua chegada. Não há lugares marcados. Vá com calma. Por qual motivo essas lágrimas quentes rolam por suas bochechas rosadas? Não se apresse assim, você sabe que é tudo tão passageiro quando as nuvens de verão. E que não há motivos suficientes para deixar-se entristecer. Ambos sabemos que tudo é tão incerto quanto o dia de amanhã. 
Então levante-se e amarre esses seus cadarços soltos que a fizeram cair por diversas vezes enquanto você insistia em correr com eles desamarrados. Assuma sua posição e aprenda que é assim que a vida vai indo; desajeitada e sem freio. Você sabe que no final das contas é tudo dessa forma. Junte seus livros, suas lágrimas e seus motivos para sorrir e vá em frente. Porque na próxima parada, você terá chegado ao seu destino e, antes mesmo que se dê conta, terá alcançado os degraus da escada que você escolheu.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Recomeçar

Vocês continuam. E eu paro aqui para terminar meus textos interrompidos. Eu volto para consertar as coisas quebradas que abandonei pelo caminho. Enquanto, um passo a frente, suas mãos acenam para mim; mãos que já recolheram cacos do que deixaram para trás também, e agora estão partindo da mesma forma como eu deveria partir.
Mas perdi a hora. Perdi a cabeça nas palavras e o coração deixei cair em uma esquina qualquer. Talvez por isso seja obrigada a retornar; recolher o que escapou de meus braços enquanto eu corria desenfreadamente e não deixar que caia de novo. E é sozinha que eu sigo, porque não vou em frente, e quem quer saber de voltar? Voltar é desistir, e desistir é fraquejar.
Desistir do caminho pelo qual você seguiu durante muito tempo acreditando que levaria a algum lugar é como desistir de um sonho. E quem diz que desistir é mais fácil que continuar é porque nunca desistiu de nada na vida. Porque coragem mesmo é, não só perceber, mas saber admitir para si mesmo que as coisas mudaram e o lugar para onde o atual caminho leva, não é mais o lugar para onde você quer ir, para onde tem que ir. Coragem é saber quando é a hora de parar, dar um tempo; voltar.
Mas, apesar do sentimento de fracasso, quem sabe seja essa a solução para mim: recomeçar. Mesmo que seja bem mais difícil ter que parar, voltar todo o caminho que percorri, escolher outra estrada e começar novamente enquanto eu poderia apenas continuar na mesma trilha de sempre. Afinal, ninguém nunca disse que seria fácil, não é mesmo?  
E, de repente, pode até ser que seja bom e faça bem. Quem sabe eu até encontre e resgate o pedaço que roubaram do meu coração e coloque novamente no lugar. Depois, posso tentar encontrar uma maneira de prosseguir. Esbarrar talvez em um novo amor, que não machuque. Achar minha passagem perdida para o futuro e, vai saber, até levar alguém comigo.
É, vai ver é isso mesmo que eu tenho que fazer. Parar com essa estrada torta, cheia de curvas, buracos, lágrimas e corações partidos. Pegar o retorno. Deixar para trás essas minhas dores particulares, meus sonhos frustrados e jogar fora esses papéis amassados de textos e rabiscos mal acabados. Começar do zero, apenas com um lápis bem apontado e um papel na mão. E, se quer saber, eu vou é me deixar inteira - ou o que sobrou de mim - para trás e me reiniciar, nascer de novo.
Renascer para ver se aprendo a não mais pular etapas.
E agora, bem mais confiante que antes, eu crio coragem e digo e repito para quem quiser ouvir, não com orgulho por ter falhado no primeiro caminho, mas com convicção e de cabeça erguida, cara e coragem, sabendo que nem sempre andar para frente significa seguir em frente: Eu desisto.
Desisto dessa estrada, desse meio de transporte, dessa vida. Desisto do suposto prêmio que estaria na linha de chegada me esperando, mas que agora não me parece mais atraente. Desisto de tudo para poder começar de novo, do nada. E desisto dessa metade que sobrou de mim, para recomeçar inteira.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Estranho

Aonde você foi parar? Só o que eu vejo agora são rostos estranhos, e eu não gosto deles.
Você não vai voltar e dizer que nunca quis ter partido? Porque as pessoas não gostam mais de sorrir para mim?
Eu não estou gostando desses olhos tristes. Eu não gosto de perceber que o banco ao lado permanece vazio.
Para onde você foi? E porque não me levou? Pode parecer estranho, mas eu não ligo para tudo isso desde que você venha e me leve embora.
Eu queria te contar que andei sonhando e que acabei me iludindo, e queria que você me abraçasse e dissesse que é assim mesmo.
Eu também queria te contar que você era a única pessoa que se sentava perto de mim e me ouvia por mais que alguns rápidos minutos. Estranho como parecia fazer sentido.
Sabe, agora nada disso parece estar muito certo. E talvez não esteja, mas porque?
Eu não deveria pensar tanto nisso, eu sei. Sei que se estivésses aqui, este seria o seu conselho.
Então me ensine a ser de outra forma, porque ninguém gosta dessa que sou e eu não quero mais as testas franzidas para mim. Quando isso vai parar? E cadê você nesse momento, para me perguntar a causa das lágrimas? Por que ninguém mais fala comigo e ri do meu cabelo desgrenhado? Por que todos resolveram ir embora? Estranho como isso não me surpreende.
Não quero ter que te contar que perdi as esperanças e que nada mais faz sentido. Não suporto a idéia de ter que confessar a você que eu provavelmente estou enlouquecendo sozinha. Mas o que eu posso fazer? Se eu descobri que a solidão não é algo desejável, mas que é inevitável agora que ninguém mais me quer por perto. Eu sei que voê provavelmente diria que são coisas da minha cabeça, mas eu sinto a maneira como todos se afastam. E então como vai ser? Depois que você se foi, as nuvens não deixaram mais meu céu particular, fazendo com que toda a beleza que eu enxergava, se embaçasse.
Estranho como eu sinto que posso resolver isso mesmo sabendo que não posso.
Estranho como eu criei pessoas na minha cabeça por falta de seres humanos reais, e como eu fiz delas meus melhores amigos e até transformei-as em personagens de livros.
Ei, fui eu que te inventei também? Por que você não pode existir?
Estranho como eu descobri que todas as nossas conversas nunca existiram e como eu sinto saudade de coisas que nunca aconteceram.
Estranho como depois que você apareceu na minha mente, eu pareço estar diferente; e mais estranho ainda como meus textos, desde sua partida, permanecem incoerentes.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Uma mulher inteira

Vamos. Levanta. Pode ir tirando esse cobertor da cara. Acorda, abre bem os olhos, descobre as pernas. Levanta, penteia o cabelo e dá um jeito nessa cara de sono. Joga uma água no rosto, limpa esse lápis todo borrado do olho. Enxuga essas lágrimas de ontem. Passa um batom nessa boca sem cor e coloca um sorriso aí. Vai, ta esperando o que? Ta achando que o mundo parou? Ta pensando que o Silvio Santos vai deixar de apresentar o programa dele para vir te ver? Anda, coloca uma roupa decente e um salto alto. Não demora não, ou você acha que seu chefe vai tolerar um atraso seu só porque tu tá na fossa? Vai, menina. Sacode o lençol, arruma essa cama e vai preparar o café. Não sei se te contaram, mas o mundo ainda gira e ele não vai deixar de girar só porque você está triste. Nesse momento, a Dilma está se apossando do novo cargo de presidente, as pessoas do mundo todo ainda estão sentindo o vestígio de ressaca do ano novo e você está aí parada, feito uma garota de coração partido. Ta querendo o que? Ta aí torcendo para o mundo acabar? Pode ir deixado esse travesseiro aí e tratando de juntar seus pedaços. Arruma tua bolsa, coloca uns óculos escuros nessa cara amassada e pega as chaves do carro. Ta pensando que só você tem problemas na vida? Acorda e olha ao redor, guria, porque tem gente pior que você. Reconstrói o coração e dá a volta por cima.
O carro não quer ligar? Pega um onibus. Ou tu é feita de açúcar? Vai, anda logo, da um jeito nessa vida, resolve esses teus problemas, porque ninguém ta preocupado com isso não. O ano mal começou e você já quer desistir? Pois trate de levantar essa cabeça bem alto, desmanchar essa cara de garotinha perdida e assumir o controle da mulher que tem aí dentro. Ou o que? É metade mulher agora? Pois pode começar a se reconstituir. Não demora não, porque a vida é uma só. Tira esse esmalte descascado e pare de roer as unhas. Segura o coração, engole a lágrima. Abra a porta lá fora e mostre que você é mais valente do que todo esse choro aí. Mostre que, por trás de toda a tristeza, ainda existe força, ainda habita esperança e ainda há uma mulher inteira.