terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Para 2012: apenas desembarques, por favor



Acontece que a gente demora para perceber quem nos quer bem, quem apenas nos quer e quem nos quer para seu próprio bem. E, talvez, precisemos amadurecer um pouco, sofrer um pouco, perder um pouco para poder aprender isso. Hoje, não é o dia da virada do ano, mas eu, desde agora, me despeço de alguns muitos defeitos que colecionei e pecados que cometi nesse 2011, e até mesmo nos anos anteriores. 
Defeitos e pecados como permitir, aceitar e agradecer a entrada de certos personagens no livro da minha vida. Personagens esses que entraram só para causar drama, suspense, bagunça. Só para aumentar minhas folhas. Me despeço desses porque eu tive uma luz muito brilhante e muito forte sobre mim essa noite e esses meus delitos foram perdoados, e eu prometi não cometê-los outra vez. 
As páginas ocupadas apenas com coisas e com gente que não vale a pena, eu arranquei. Eu estou arrancando, amassando e jogando fora os capítulos dedicados a quem não fez acontecer, a quem foi amado e não amou e a quem errou e não consertou. Meu livro começará em 2012 com as mesmas poucas páginas, contando apenas o que vale a pena ser contado, escrito e lembrado. Tudo que fez volume na estante e não fez no coração, irá direto para o lixo.
Porque estou no limite com essas pessoas que nos fingiram amizade, com esses caras que fingiram que não iam quebrar nossos corações e com essas falsidades. Não aguento mais toda essa gente indo embora de mim como se eu fosse algum tipo de filme que, quando acaba, deixa o cinema vazio. Não suporto mais olhar para trás e ver quantas pessoas passaram pela minha vida, abalaram minha estrutura, ensinaram-me costumes que eu não tinha, criaram em mim vícios que eu não possuía, fizeram-me acostumar com suas presenças, suas manias e partiram sem nem se importar com quem ficou, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira de mal gosto, de uma distração passageira. 
Cansei disso. Dessas pessoas que passaram por mim sem acrescentar nada à minha história, apenas sugando tudo que eu pude oferecer até secar a fonte e então, partiram. Simplesmente. Esgotei todas minhas forças tentando entender porque essas pessoas entram na minha vida sem pedir licença e saem dela sem comum acordo. Então que esse ano que vem vindo seja o ano das boas vindas apenas de quem vier para participar do "felizes para sempre". Que seja o ano do adeus para quem não faz diferença e nem faz questão de fazer. E o ano de, nem se quer, conhecer quem não valer a pena. Que eu seja invisível para esse passageirismo todo que invade os indivíduos robotizados de hoje.
Que tudo que entrou na nossa vida só para bagunçar, aparecer, enrolar e amargar nossos dias, que vá embora de vez nesse ano e não retorne para segundo round. Que aqueles que foram embora sem terminar o que começaram, não voltem, porque o final que construímos sem eles é, com certeza, muito mais feliz. Que a partir de hoje, deixemos de deixar qualquer um entrar na nossa vida sem ter a intenção de permanecer. Que venham aqueles que são para ficar e apenas esses. Os passageiros, que passem direto por nós, sem nem se apresentarem, sem nem dizerem seus nomes. Porque, sinceramente, eu estou cansada de pessoas passageiras, de alegrias momentâneas e amores rápidos. Acho que já deu isso de me fazerem de aeroporto, de portão de embarque. Eu quero me libertar de gente que me atrasa, me segura, me prende e me usa. Que venha só o que for ficar, o que for durar. Eu quero só o que vier de mudança e me usar apenas para desembarque. Quero só o que me quiser também, de igual para igual; recíproco.
E o resto, Deus-me-perdoe, mas que passe bem longe de mim.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Espírito Natalino

Então é isso, ninguém mais sente o "espírito natalino". Deixa eu contar uma coisa para vocês, somos nós quem criamos isso. Parem de achar que, para resgatar esse espírito, é preciso que todo mundo seja bom, feliz e as casas todas iluminadas. Façam-me o favor! Tratem de iluminar suas casas, mesmo que ninguém mais esteja fazendo isso. Tratem de dar Feliz natal para todos na rua, mesmo que ninguém responda. Tratem de parar de pedir para que alguém traga esse espírito natalino de volta, e façam ele existir dentro de vocês.
É assim que se faz um natal "como antigamente": começando por você mesmo. Umas luzinhas na janela podem fazer uma diferença enorme no coração de quem está passando na frente da sua casa. Iluminem as casas, as árvores, os corações. Parem de querer sentir o espírito natalino sem terem feito nada. Coloquem a mão na massa, e façam nascer esse espírito dentro de vocês, e compartilhem ele.
Você não vê felicidade nas ruas, nas casas ou nas pessoas? Seja você a felicidade. Enfeite sua calçada, adote cartinhas de crianças carentes e invente dentro de você um espírito natalino inabalável, que não precisa de ninguém para existir.
Qual o problema de vocês? Se a prefeitura não enfeita as praças, ninguém mais enfeita. Se a vizinha não colocou pisca-pisca na varanda, ninguém mais coloca. Parem de depender dos outros! Ou será que se a vizinha não for feliz, ninguém mais será? Vamos fazer esse natal mais mágico, mais bonito. Não precisamos que o clima esteja bom, nem que o mundo esteja perfeito, nem que todas as pessoas estejam felizes. Pelo menos um dia, esse dia, vamos fazer tudo isso, não por nós mesmos, mas por quem deveríamos celebrar essa data. Vamos nos alegrar com as pequenas coisas, não apenas com presentes, comidas a bebidas. Mas com os fogos de artifício lá fora, com o céu estrelado. Vamos tocar as campainhas das casas e desejar feliz natal!
Vamos lembrar, antes de qualquer coisa, que é aniversário de Jesus. E não importa que esta não seja a data oficial do nascimento dele, ou que algumas pessoas não acreditem nisso. O fato é que esse dia é para lembrar dEle, e adorá-lo. Lembrar do quão bom Ele foi na Terra e ainda é no Céu. Lembrar do amor que Ele teve e tem para com nós todos. E vamos, por favor, tentar resgatar um pouquinho disso nesse 25 de dezembro. Tentar seguir os passos daquele que trouxe salvação, e resgatar um pouquinho do seu amor. Passar esse amor adiante. Isso é o espírito de Natal. E eu posso senti-lo dentro de mim, não porque alguém fez ou deixou de fazer alguma coisa, não porque passei ou não no vestibular, não porque minha vida é perfeita ou complicada. Mas porque eu quis sentir isso. Eu busquei esse sentimento no mais profundo do meu coração, que permaneceu gelado durante todo o ano. Pedi a Deus que me amasse, achando que isso me faria sentir a emoção do natal, e Ele, mostrando todo seu amor por mim, me ensinou a amar e fazer com que outros pudessem sentir isso.
Espírito de Natal é isso, fazer quem está a sua volta, feliz. E essa felicidade pode começar com o mais simples dos atos: Enfeitando a sua casa, e a alma e o coração de quem passa na sua rua também serão enfeitados.


As luzes do natal aquecem até o mais frio dos corações e inspiram até o mais solitário dos homens.
Não deixe de enfeitar sua casa.



Feliz Natal :)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

She lock hearts



A minha estupidez dessa vez bateu todos os recordes.
Agora eu, orgulhosa que sempre fui, ando caçando você. Te procurando pelo nome, pelos olhos, pelo cheiro. Procurando nas ruas, nos rostos, nas páginas do facebook e inventado desculpas para perguntar sobre seu paradeiro. Ando pior que Sherlock, e você anda mais caçado que o cão dos baskervilles.
Eu estava tão bem antes da sua chegada e aposto como você estava melhor ainda. Eu estava lá, no escuro do lugar, assistindo o globo de luz fazer reflexo e ouvindo a batida da música, como se nada mais importasse no mundo. Então porque você não pôde simplesmente encontrar outra garota para encantar? Quem te deu o direito de chegar perto de mim, se apresentar e me fazer saber seu nome? De sentar do meu lado? Quem te deu o direito de ser tão legal comigo? Tão gentil, tão divertido? Por que você me disse seu nome mais de uma vez, e me fez decorá-lo?
Com tantas meninas, mulheres e pessoas interessantes e certas, você foi justamente escolher a garota errada. Eu, com meu coração molenga e gelado ao mesmo tempo e toda minha exigência. Você me escolheu, assim, a dedo, a olho. E eu caí assim, tão rápido, que em meio minuto de conversa eu já estava torcendo para o seu time.
Depois de certo tempo, lógico, eu já estava na sua mão, apesar de você achar que eu estava irredutivelmente difícil. Mal sabia que eu estava usando todas as minhas forças para me manter distante. Então, não se contentando em me ganhar apenas com seu papo, você perguntou porque eu não olhava para você enquanto conversávamos. Não acreditei e respirei fundo durante alguns segundos. Inventei uma piadinha para desconversar e te disse que era para você não se apaixonar por mim. Só eu ri da piada, e com um riso angustiado, porque sabia que era justamente o contrário. Não te olhei de frente porque, nos poucos segundos que tinha passado com você, já estava baixando a guarda. E, se eu encontrasse esses olhos tão verdes logo agora, meu coração não ia aguentar. Infelizmente, quando percebi sua mão no meu queixo virando meu rosto para você lentamente, já era tarde demais, e nossos olhos já estavam se admirando. E adivinha o que aconteceu? meu coração, estúpido, fraco e estilhaçado que estava, bateu feliz. Foi quando eu soube que a causa estava perdida de vez para mim. Não satisfeito, você chegou perto de mim, passou seus braços ao meu redor e cochichou no meu ouvido que tinha gostado de mim, de conversar comigo e que eu era linda. Nos olhamos por um tempo e você sorriu de um jeito gritante. E ficou lá, sorrindo para mim, fingindo que seu sorriso estonteante não era nada demais. Fingindo que seu sorriso, que é quase um atentado, não causa impacto.
Por honra, respeito e princípios, continuei firme, até o momento em que você disse que ia embora, me deu um beijo na bochecha, um no cabelo e um acima do meu olho direito. Me abraçou forte e se levantou. Entrei em desespero. A primeira coisa que quis fazer foi te impedir de sumir, impedir seu braço de deixar meu ombro; te segurar, te manter ali, perto de mim. Mas não o fiz.
Fiquei assistindo você ir, e só eu sei o quanto quis não ter feito isso. O quanto eu quis chutar o balde e dizer que sim, você tinha me encantado, me ganhado e fugido com meu coração. Você tinha me encantado com seus olhos e seu sorriso escancarado, me ganhado com seu jeito divertido e descontraído e levado embora meu coração só com o simples braço macio ao meu redor.
E eu queria gritar isso para você. Mas não pude, não consegui. Travei, porque sabia que a única pessoa a sair ferida dali, seria eu mesma. E só agora eu vejo que, os poucos minutos que estaríamos juntos ali, compensariam por séculos de coração partido. Você valia a pena. Mesmo que digam para eu não me deixar enganar, mesmo que digam que eu me iludi. Eu sei que você valia a pena.
Acontece que eu tranquei meu coração de um jeito, que não sei mais abrir. Você foi o único que, por alguns momentos, chegou a ter a chave. E eu a joguei fora. Joguei sua chave, minha chance e nossas possibilidades. Pior que isso, tranquei não só o meu coração, mas o seu também. Aposto que você se arrependeu de ter perdido tanto tempo com a garota que tranca corações e depois se arrepende e fica te procurando por aí.
Agora eu só queria te achar e cochichar no seu ouvido que também gostei de você e que só não disse isso antes por medo. Queria te encontrar e te abraçar do mesmo modo que nos abraçamos antes, só que dessa vez sem despedidas. Te abraçar e te contar que prometi não gostar de mais ninguém, não gostar demais de ninguém, e falhei de novo. 

'Agora, pra sempre, foi embora mas eu nunca disse adeus''

sábado, 17 de dezembro de 2011

O que eu ainda não sei

Eu passei a vida querendo te contar as coisas. Cada dia, cada nova descoberta e cada novo problema dessa minha infância turbulenta, eu quis te contar. Os medos que surgiram na adolescência, os caras que eu conheci e os sentimentos estranhos que me invadiram, e eu não sabia que podia sentir. Eu tive medo desses sentimentos, e dos pensamentos e da idade. E eu quis tanto te contar isso.
Mas você foi embora antes de saber tudo isso. Antes de me dizer como faço com esse caroço que está preso na minha garganta. Você foi embora antes que eu pudesse ter a chance de perguntar qual é a sensação de gostar de alguém. Antes que eu pudesse descobrir se você aprovava e entendia o que estava acontecendo comigo, e se era normal sentir tudo isso de forma tão intensa. Você, provavelmente, teria dito que é assim mesmo quando a gente é jovem. Mas não disse, porque não esteve lá para dizer. E eu descobri bem mais tarde, sozinha.
E agora, mesmo agora, que já estou assim, meio adulta, continuo querendo te contar essas coisas. Contar essas besteiras que acontecem no dia-a-dia e nos fazem chorar sem motivos. Contar que as vezes nos sentimos fracos e não sabemos o que fazer. Correr para os braços de alguém que realmente pudesse se importar um pouco.
Então porque, raios, você teve que ir? Teve que ir antes de poder me ensinar a viver. E sabe o que restou? Sabe quem restou para fazer sua parte? Ninguém. Mas o pior não é crescer sozinha. O pior é que estão todos cobrando que eu seja adulta, e responsável, e sinta do jeito que eles querem e não me envolva com o que não querem que eu me envolva. Mas ninguém parou para analisar se eu sei fazer tudo isso. Ninguém parou, nem por um segundo, para pensar sobre como eu me sinto deslocada e perdida no meio dessas coisas que tenho que fazer e não sei. Ninguém parou para pensar que eu não tive lições, não tive quem me mostrasse o caminho e a forma de percorrê-lo. Ninguém para me ensinar a viver, como você teria feito. Ninguém parou e estendeu os braços para mim, para me abraçar, quando meu primeiro amor quebrou meu coração. Ninguém quis me ouvir quando eu quis contar que tinha brigado com minha amiga e tinha tirado notas baixas em matemática. Ninguém compareceu às reuniões da escola, nem às festas, nem aos teatros que fiz. Eu agradecia sempre ao público alheio, aos pais dos outros alunos, aos amigos dos outros atores.
E estão todos me cobrando essas coisas, as quais não me ensinaram a fazer. Ninguém me ensinou sobre as coisas ruins do mundo, nem sobre o amor, nem sobre as falsas amizades, nem sobre como a saudade dói, nem sobre ter juizo. Se eu sei lidar com tudo isso, é porque aprendi sozinha, de um jeito meio torto, e de forma meio tardia. Então não é justo ser cobrada. Não é justo que me peçam ouvidos, braços, amor e paciência quando eu não tive nada disso.
Dizem que a adolescência é a pior fase da vida, é a fase em que precisamos de mais atenção. E eu não estou acima dessa regra. Eu posso ter sido forte, ter agido com maturidade e responsabilidade. Mas alguém se importou em perguntar se eu estava bem mesmo? Alguém se importou comigo, e com o que eu estava sentindo? Eu segurei a barra porque foi preciso, porque se eu não segurasse, ninguém mais o faria, como ninguém o fez. Eu me mantive adulta, porque os adultos de verdade foram incapazes de fazer isso. Eu fiz isso por amor, para não machucar mais, para não deixar pior as pessoas que já estavam abaladas.
Mas sabe, é injusto. Porque ninguém fez nada disso por mim. Ninguém teve amor o suficiente para segurar a minha barra. Nem paciência suficiente para me ouvir. Nem preocupação suficiente para perceber que eu era quem devia estar desmoronando e realmente estava. Ninguém teve ouvido suficiente para perceber que eu estava gritando por trás das palavras baixas e controladas. E eu sei que você teria notado, porque você se interessava pelas minhas coisas aleatórias e sem importância. Queria que você soubesse que não estão cumprindo bem o papel que você não pôde cumprir e brigasse com todos eles. Porque você brigava, se fosse preciso. Você brigava por mim.
E, hoje, eu queria muito te contar que conheci um cara. Que saí de noite, fui para um lugar desses que pessoas descoladas vão e cheguei em casa só depois das 4 da manhã. E conheci um cara. E eu queria poder te contar o quanto ele era lindo, gentil e inteligente. E o quanto nós rimos juntos. E eu queria poder perguntar o que faço com essa coisinha que estou sentindo, que me faz rir a toa. Queria poder te ouvir dizer que é só um cara que me encantou, e que muitos outros vão passar pela minha vida. Queria poder te ouvir dizer que os homens mentem, e que eles vão nos machucar algumas vezes. Queria te contar que tive medo de ficar perto dele, porque ele me deixava arrepiada até os pés. E queria que você não chamasse minha atenção por isso, mas me contasse o que fez quando isso aconteceu com você também.
Quer dizer, ta todo mundo vivendo a vida. E todo mundo sabe que não devemos acreditar em qualquer um, ou entrar em qualquer carro ou beber demais. Todo mundo sabe essas coisas, porque todo mundo aprende quando é criança. Mas eu não aprendi, eu ainda não sei e eu gostaria que alguém soubesse disso. Porque de todas as coisas que não aprendi e não sei fazer, viver é a pior delas.

"Por enquanto estou inventando a tua presença...
Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem"
(Clarice Lispector)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Colapso

É que eu to explodindo. Se não estou, vou explodir a qualquer momento. E é por isso que tenho estado assim, escrevendo sobre amores antigos que eu nem lembro mais, sobre problemas que não são meus e sobre banalidades do meu dia-a-dia, que eu transformo em dramas homéricos, só para tentar disfarçar. Falo demais e sobre nada em especial, só para manter minha boca ocupada a tal ponto dela parar com a mania de querer gritar toda hora. Penso na rachadura da parede, na vida rara da formiga, pergunto aos outros sobre as novelas e nunca entro no mérito de falar sobre mim mesma, não por muito tempo. Tudo isso só para não ter que tocar na ferida. Só para tentar distrair e distanciar a conversa do ponto que dói mais. Nem o telefone eu quero atender porque tenho medo da pergunta que vem inevitavelmente depois da identificação: "Tudo bem?", porque essa é a parte mais dificil. Me segurar quando a pessoa do outro lado está me perguntando justamente o que está me perturbando é tão pior e faz parecer que não vou conseguir. Sempre engasgo e tropeço nas palavras quando respondo, e é sempre mentira. Eu sei que, quando alguém pergunta se está tudo bem, é só para cumprir o protocolo, porque, na verdade, ninguém quer saber. 
Sei que tenho tagarelado demais, ando hiperativa, ansiosa, quicando pela casa feito uma bola de basquete. Me perdoem, mas tenho feito para poupá-los do dilúvio que anda ameaçando transbordar dentro de mim afogando e arrastando todos vocês junto. Tenho feito por medo. Medo de uma hora ou outra acabar tocando no assunto. Acabar falando das coisas que não quero falar. Tenho tanto medo de não aguentar, de novo, que fico assim. Fico fazendo piadas baratas e perguntando e falando sobre problemas fáceis do cotidiano como se fossem novelas mexicanas. Só porque tenho tentado mascarar os problemas reais. Estou me escondendo o máximo que posso de mim mesma, e do mundo. Mas, para conseguir me esconder dessa forma, preciso me manter ocupada. Com mãos, braços e pernas em movimento. Com a boca nunca vazia. Com a mente sempre trabalhando. Com os dedos sempre no teclado, digitando sem parar, ou no caderno, rabiscando qualquer coisa. 
Essa é a causa dos textos mal escritos, dos erros de digitação no msn, das palavras tropeçadas e rápidas que saem da minha boca. É porque estou sempre com pressa, sempre falando e fazendo tudo correndo para não dar tempo, não dar a minima chance, das coisas ruins que carrego saltarem boca afora e aflorarem no pensamento, fixando no meu coração. Não quero causar mais problemas. Estou me segurando ao máximo. Mas vou explodir, uma hora ou outra, com alguém por perto ou sozinha. Vou explodir, porque a ultima vez que eu entrei em crise, foi uma crise controlada e eu não cheguei a colocar tudo para fora. Agora vai ser uma explosão daquele tipo nuclear. Mas o momento é horrivel para isso, é o pior. Não posso fazer isso agora e tirar a questão mais importante do centro das atenções. Não posso exigir atenção agora, quando eu sei que temos coisas mais importantes e mais urgentes para resolver. Mas como eu faço, então? Quem me ajuda com essa explosão e quem vai poder se preocupar com as minhas coisas, quando tudo ao redor está virado de cabeça para baixo e eu não sou prioridade? Estou entrando em colapso e meu cérebro fica gritando por socorro sem parar dentro mim. Só tenho me mantido o mais quieta possível para não machucar ninguém, mais do que a situação atual já está machucando. Para não trazer outro problema para dentro de casa.
Acontece que eu estou sendo dilacerada com isso e estou prestes a ruir. E quem vai me segurar quando eu desabar? Meu Deus, e como posso cair quando sei que estarei levando mais gente comigo? Nem isso eu posso fazer. Nem entrar em crise mais, eu posso. Tenho me segurado, feito o máximo para me manter sã e calma, mas não tenho feito nada disso por mim. Porque, se dependesse de mim mesma, eu já teria desabado. Mas não posso desistir agora, porque vocês vão sair feridos disso. E, por mais dolorida que eu esteja, eu só estou aguentando por amor à vocês.
Só que não vou aguentar muito tempo, e quem irá segurar a barra por amor a mim? Não quero que ninguém o faça, mas estou perdendo o controle. Estou afundando e sinto que não vou conseguir subir para a superfície outra vez. Estou explodindo, definitivamente. Então só peço que corram para o mais longe possível, porque não quero mortos nem feridos. Não quero ser responsável por danos, nem temporários nem permanentes. Não quero ser como Chernobyl.

ignorem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Banquete farto

Então eu estou tentando aceitar quem sou. De todas as formas aceitáveis e possíveis que posso ser. Eu fiz isso a vida inteira de forma tão inconsciente que acabou me fazendo mal, e agora eu só quero fazer da maneira correta. Eu me aguento, eu me supero, me suporto, me engulo, me conformo e me aceito. E só eu posso fazer isso. Só eu sei o quanto é dificil estar comigo mesma sem tentar me mascarar. Sem correr para os anestésicos e dormir, para não ter que me aguentar. Aguentar minhas perguntas sem resposta, minhas crises, minhas vontades e minhas dores.
Tanta gente dizendo que é corajoso porque anda de avião, porque faz esporte radical, porque trabalha sei-lá-quantas horas por dia, porque perdeu os pais e se criou sozinho, porque teve um filho por parto normal sem anestesia. Mas coragem não é viver as coisas do mundo, ou aceitá-las, ou conviver com as peripécias do destino afinal, todo mundo sabe que a vida é assim mesmo, meio louca, e temos que vivê-la de qualquer forma. 
Coragem mesmo é se engolir sem vomitar. Porque somos um prato de cheio de porcariada, de memórias horríveis e lembranças felizes. Prato cheio e colorido, com sentimentos e pensamentos incoerentes, dúvidas e angustias frequentes e amores ausentes. Somos um misto de emoções e sensações que temperam o coração, por vezes, já partido. Somos um banquete inteiro, com direito aos melhores e piores sabores do mundo, às comidas mais salgadas e às bebidas quentes. 
Por isso, coragem é encarar a si mesmo e permanecer dentro de si, sem tentar jogar suas tristezas por aí. Coragem é se engolir nos piores e nos melhores dias. É sentir o que sente e aguentar sentir isso, enquanto o resto do mundo enche a cara, cheira e fuma por não conseguir lidar consigo mesmo e seus problemas, suas dúvidas e incertezas. Corajoso é fazer descer garganta abaixo, enquanto o resto do mundo simplesmente deita a cabeça na privada e joga fora.
Vai ver é por isso que dizem que os escritores são corajosos. Porque sentem o que sentem, mesmo quando não cabe no coração o tanto de coisa que sentem, e aceitam isso. Engolem o sentimento, lidam com ele, transformam-no em palavras e passam para o papel. Só para poderem ler o que sentem de forma mais coerente, e sentir de novo, tudo, mesmo que doa, só para entender. Só para enfrentar. Dão a cara a tapa para os sentimentos, e perguntam a que vieram. Os escritores, mesmo aqueles que não são famosos ou considerados "bons", escrevem porque aguentam ser quem são, ainda que a alma seja bem maior que o corpo e o sentimento seja o dobro do coração. Quem escreve é porque se atura. Não apenas se afoga na bebida ou nos vicios do mundo. Quem faz isso é quem não aguenta o tranco de sentir, de ser, de estar. Quem não segura a barra de ser humano, ser selvagem, ser racional, emocional, intenso e sentimental, ao mesmo tempo. 
Quem usa as drogas humanas é quem não suporta se olhar no espelho, e guarda tudo que não é conveniente, tudo que trouxer medo, angústia e incerteza, numa caixa. Enterra a caixa no fundo mais fundo da alma, para não ter que lembrar que essas sensações existem. Acontece, meus caros, que somos assim. Sentimos, independente de querermos sentir. Pensamos, mesmo quando tentamos não pensar. E somos, no auge do verbo ser. Não importa o quanto tentamos esconder.
E você, que se esconde nos bares, nas músicas ruins e nos remédios, você não está livre disso. E enquanto não aprender a lidar consigo mesmo, nunca vai conseguir lidar com coisa alguma na vida. A maior coragem é a de quem se enfrenta, porque o maior inimigo do homem é ele mesmo. Vai ver também, é por isso que escritores, geralmente, precisam de terapia. Porque se o tem no mundo já é difícil de carregar nas costas, imagine o que tem dentro de você.
Então, talvez por ter descoberto isso, eu parei de pedir desculpas por quem eu sou. Não vou mais me desculpar por sentir o que sinto, ou fazer o que faço. Porque é o que eu sou, e não vou me desculpar por sê-lo. Sei e reconheço que tenho meus problemas, meus excessos e minha deficiências. Mas eu quero apenas viver como sei, porque me ser, por si só, já basta. Engolir-me inteira, banquete farto que sou, já é um tremendo ato de coragem.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Meu erro

Onde foi o erro, afinal? Foi meu, foi seu ou não foi de ninguém?
Porque ainda que o tempo passe, só eu te reconheço a quilômetros de distância. Só eu te vejo e sei que é você, com seu jeito torto e tranquilo de andar, quando ainda está longe. Longe o bastante para nunca perceber que eu atravesso a rua e mudo de calçada só para não ter que te ver passar perto demais, e captar seus detalhes. Não ter que ativar o zoom do meu cérebro e perceber que você é o mesmo, e sua bermuda xadrez também. 
Você é o mesmo idiota, e sua bermuda ainda está suja de cerveja. Quando vai parar de beber e criar juizo? Quando vai deixar de ser tão convencido e tão errado? Quando eu vou parar de te ver pelas esquinas, enfurnado em um bar qualquer, enchendo a cara de tudo, menos de vergonha? Não sei quantas vezes mais vou conseguir suportar passar perto de você e fingir que te ignoro, ou que não estou em pânico. Qualquer dia desses, você vai estar andando na rua e vamos nos esbarrar de novo. Eu sei que vamos, porque essa cidade não é tão grande.  E eu vou simplesmente entrar na sua frente e falar tantas coisas que estão engasgadas, e  jogar tantas coisas na sua cara e brigar tanto com você, que você provavelmente não vai nem entender. Não vai nem saber do que eu estou falando. Porque o cenário, as personagens e o roteiro dessa história que chamo de "nossa", fui eu que criei. 
Você foi o modelo inspirador para o cara que interpreta o amor da vida da moça que eu interpreto, e só. Provavelmente vai pensar que sou louca. Mas então vai lembrar que teve uma introdução. Vai lembrar que não houve história, nem começo, nem meio e, final, menos ainda. Mas a introdução, e não podemos negar a existência dela. Então porque você caminha por aí fingindo que não me conhece? Porque, quando cruzamos o caminho um do outro, pedimos desculpa e seguimos em frente? Será que não vemos que não dá para seguir em frente, quando se tem uma pendência no passado? Talvez, o nosso pedido de desculpa esteja abrangendo mais que apenas uma trombada na calçada. Talvez estejamos pedindo desculpa por tudo, menos pelo encontrão no meio da rua.
Ou talvez, na pior e mais provável das hipóteses, eu esteja vendo um filme inteiro onde deveria ser apenas um curta metragem, daqueles de 5 minutos. Eu esteja, mais uma vez, achando que você pensa o mesmo que eu sobre o que aconteceu, sendo que eu sei que, na verdade, você não lembra de que aconteceu alguma coisa. E, se lembra, não se importa. E, se se importa, tem raiva.
Então, enquanto você passa por mim com mil coisas na cabeça, dezenas de lembranças, casos mal resolvidos, pessoas no coração e centenas de motivos de preocupação, e eu não apareço em nenhuma dessas categorias, porque comigo não pode ser igual? Você foi quem desistiu primeiro, você foi quem nem chegou a tentar e você foi aquele que foi embora. Então porque só eu entro em pânico, tranço as pernas, troco de calçada e entro em crise quando nos vemos? É tão ridiculamente injusto! Só eu sinto desse jeito. Só eu te guardo na memória.  Só eu penso que, talvez, em uma outra época, em algum outro contexto ou em outra vida, poderíamos existir juntos. Só eu penso em tanta coisa sobre nós, e sinto tanta coisa sobre o que passou. Talvez porque só eu me importava. 
Só eu errei, no fim das contas, mas vai ver foi porque só eu tentei acertar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Oração


Pai, me perdoa. Estou me perdendo de mim, porque estou me perdendo de Ti. E sem a Tua presença, que resta de mim mesma?
Tenho andado sem esperança, sem força, sem vontade alguma. Tenho andado desistindo das coisas da vida, desistindo de mim e da minha fé.
Pai, meus olhos estão embaçados e as suas tantas bençãos diárias, os tantos milagres que realizas todos os dias na minha vida, estão sendo ofuscados pelos problemas, pelas tristezas. Não estou mais conseguindo ver as maravilhas que fazes. E Tu sabes o quanto isso me decepciona, e eu sei o quanto minha decepção também Te decepciona.
Pai, meu pai, me perdoa. Me perdoa por sempre pedir tanto e me ajuda. Abre os olhos do meu coração, os olhos da minha alma. Vem com Tua presença, e não permita que eu perca a fé. De tudo que podes tirar de mim, de tudo que eu sou, que eu tenho e que é Teu por natureza, por favor, só não me tire a fé.
Não sei usar as palavras dos pastores de igreja. Não sei orar; por vezes, esqueço-me de agradecer. Quase sempre adormeço antes de concluir minha conversa contigo e minha fé é terrivelmente fraca. Não sou digna da Tua atenção, nem do Teu perdão, menos ainda da misericórdia que tens para comigo. Mas Pai, mesmo assim, peço que aceite minha oração hoje. Aceite porque não tenho mais a quem recorrer. Aceite porque sou fraca, sou humana e, sem Ti, não sou nada.
Senhor, muitos não creem na Tua palavra, mas eu quero crer. Eu acredito na Tua presença, porque sinto. Sinto a Tua beleza, o Teu poder e o Teu amor. Então me perdoe se as vezes me esqueço que andas comigo. Perdoa se esqueço que não devo temer, porque estás ao meu lado. Perdoa se esqueço de não me preocupar. Perdoa se eu insisto em querer fazer do meu jeito, quando sei que a Tua vontade é boa e agradável.
Me concede a força que preciso e a fé que anseio. A fé para não desistir, para não deixar de acreditar nas Tuas promessas. Me concede a fé inabalável para que eu nunca duvide da Sua presença. 
Hoje, Pai, me perdoa. Perdoa por ter pedido para não perder a fé, quando deveria ter pedido para não perder Tua presença, que é muito mais importante. E me concede a graça de perdoar também. 
E se as minhas palavras não forem boas o suficiente, me concede a presença do Teu espírito santo, para que ele possa traduzir meus sentimentos em palavras que mereçam ser ouvidas por Ti. 
Me ajuda a Te pedir ajuda, Pai. Me ensina a orar como se deve. Me ensina a Te ouvir antes de falar, e a Te agradecer antes de pedir. Me ensina a valorizar mais as bençãos do que os problemas. A aceitar a Tua vontade mesmo quando ela for oposta à minha. E a ansiar mais por Ti, do que por teus milagres. Me ensina a ver com o coração, e não mais com os olhos humanos e falhos que trago em meu rosto. 
Ensina meu coração a ficar completo e satisfeito apenas com Tua presença, sem precisar de absolutamente mais nada. Me me faz aprender a buscar sempre o reino dos céus em primeiro lugar, antes de todas as outras coisas.
Pai, me ensina, me perdoa, me ajuda. Não se afaste de mim, não se cale diante das minhas incessantes orações e, quando precisar ficar em silêncio, me faça compreender. Do mesmo modo, me faça compreender Tuas respostas às minhas tantas perguntas.
Se estiver pedindo muito, e sei que estou, então apenas me concede Tua presença. Porque antes do ar que respiro, antes do alimento que ingiro, é da Tua presença que vivo. Antes de me satisfazer com milagres, bençãos e todas as coisas que as Tuas mãos podem me dar, sei que estar contigo já basta. 
Então esteja presente. Apenas isso. E eu viverei anos feliz, ainda que sem água, sem alimento ou qualquer outro bem essencial. Porque mais essencial que tudo isso, é o Teu amor para mim.
Esteja presente, e nada mais me faltará. Nem fé, nem amor, nem alimento. E todo o resto que me entristece se dissipará diante da Tua majestade.
Esteja presente, por perto, de mãos dadas comigo. E eu atravessarei um mundo inteiro de sinal fechado e olhos vendados só de saber que Tua mão está na minha, me sustentando. Esteja do outro lado da rua da vida  esperando por mim, Pai, e eu passarei por carros, motos e caminhões sem temer.
Porque carrego comigo a certeza de que, ainda que caiam mil a minha direita, e dez mil a minha esquerda, eu não serei atingida.
Creio na força da minha oração, e creio que estás agora ao meu lado ouvindo cada palavra que emana do meu coração. Creio não porque te vejo, nem porque te ouço. Mas porque te sinto, e isso me basta, Pai. Para sempre.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cruelmente gentil

Antes que possa sair qualquer palavra doce de seus lábios, quero deixar claro que não há nada constante em mim. Portanto não vá se acostumando com esses meus olhos sorridentes e com essa minha simpatia momentânea. Não quero criar esperanças em você, já que amanhã eu posso não estar tão bonita, tão legal, tão divertida.  Te dou o meu pior, porque se der o melhor você vai se acostumar a ele e eu não quero decepcioná-lo quando eu acabar descendo do palco. Não quero me decepcionar. Te iludir com sorrisos temporários não me parece justo. Então não confie em nada que parecer receptível em mim, porque eu posso não corresponder às suas expectativas. Você pode me achar antipática, chata e acabar se afastando antes mesmo de se aproximar mas, acredite, é melhor assim. 
Eu crio essa barreira em minha volta justamente para que ninguém ouse ultrapassar o limite. Eu não quero ter que ouvir suas frustrações, seus porquês e nem quero ter que te ouvir dizer como eu o desapontei. Não há nada em mim de interessante, e eu deixo isso bem claro. Coloco as cartas na mesa, porque não vou tentar te conquistar com maquiagens bem feitas, roupas justas, frases decoradas e músicas mal ouvidas; simplesmente não vou fazer esforço nenhum para ser conveniente. Eu estou apenas sendo solidária com você; tentando não te fazer acreditar em algo que eu posso não ser sempre, só de vez em quando. Não vou ser simpática, porque todos têm essa mania de pensar que uma pessoa que te sorriu, vai te sorrir sempre. Desculpe, mas eu tenho meus dias de chuva, de furacão, de tsunami. Não serão sempre flores. Pode ser até que encha minha flora de espinhos secretamente. 
A questão é que eu estou tentando fazê-lo provar o meu pior veneno, porque se eu deixar você consumir minha mais doce dose, quando você experimentar qualquer outra essência de mim, não a acharás mais tão boa. Então por favor, por favor.. entenda! Eu tenho que ser cruel para não te machucar; eu estou sendo má para tentar ser gentil.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Um coração pequeno, um amor imenso



E agora meu gato chega devagarinho perto de mim e passa as patinhas em volta do meu pescoço, me abraçando em silêncio e me deixando ouvir apenas sua respiração baixa e regular, calmante para o corpo, relaxante para a alma. E fico pensando que isso é a única coisa que me alivia desse peso que carrego. Esses bracinhos rajados, quentes e macios, fininhos de um jeito que parece que vão quebrar. O abraço tão real que parece de gente, mas dez vezes dez melhor que o abraço de gente. Ele me abraça e não está nem aí que eu não seja boa em nada. Não está nem aí para qualquer coisa além do que eu realmente sou. 
E a cabecinha raspando de leve no meu queixo, como quem diz "Eu estou aqui com você". É a única coisa que faz sentido agora, que me traz paz. Me impede de morrer. Porque o resto é tão resto que já nem sei mais o que é. Só o que paira sobre a minha mente agora é a forma como estou protegida do mundo, presa nesses braços magrinhos e como esse é o melhor amor do mundo, que não exige nada em troca e que se dá assim, sem complicações. E, quem diria, um gato! Um animal desses que dizem ser irracional. Esse mesmo é o que me mantém viva todos os dias, que me segura firme e aquecida quando o mundo está virando gelo para mim. Esse animalzinho, com seu coração fisicamente pequeno e seu amor impossivelmente grande, me salva da maldade do mundo, me traz paz interior. E é ele quem me faz esquecer que existe escuridão, raiva e inveja. Esqueço até dos problemas da vida, como se a única coisa importante no mundo fosse respirar, simples e leve assim. Do que eu estava falando mesmo?

sábado, 29 de outubro de 2011

Mais cérebro, menos músculo

Você veio todo cheio de graça para o meu lado. Elogios, poesias, músicas "bonitinhas" e coraçõezinhos virtuais. Todo jogando charme, fazendo esse joguinho já manjado, achando que eu cairia. Aceitei suas brincadeiras, participei delas e levei na esportiva também. Concordei em te ver, em te encaixar na minha agenda apertada, só para ser legal com você; te dar uma chance. Confesso que, depois de um tempo, até comecei a gostar de você.
E então, um belo dia, a gente se esbarra no supermercado. Eu com meu short desbotado, meu chinelo de dedo branco e rosa. Eu, com minhas unhas roídas, meu cabelo desgrenhado e jogado ao vento, meu rosto sem nem um vestígio de maquiagem.
Você de bermuda caindo e com uma regata que mais parecia pijama. Você com seu cabelo bem mais desarrumado que o meu, com a barba de 3 dias, com cara de sono.
E então você vira a cara e finge que não me viu. E de repente, não somos mais amigos. Oi? Perdi alguma coisa?
Então você se baseava nas minhas fotos bem tiradas e editadas, nas roupas bonitas que visto quando estou a fim, e na maquiagem elegante que gosto de usar, vez em quando?
Então você só gostava de mim enquanto eu estava me apertando dentro de uma roupa justa, com meus pés doendo sob um sapato altíssimo? Quando visto meu moletom, prendo meu cabelo para trás e não passo maquiagem, eu não sou tão interessante? Não sou tão legal assim, quando uso meus óculos?
E eu que achei que era eu a neurótica, a vaidosa e egoísta que se esforça muito para ser simpática com certas pessoas.
Não faço seu tipo de altura? Seu tipo de corpo? Não sou do tipo que você esperava que eu fosse? Do tipo mulherão, cheia de silicone e uma barriga tanquinho?
Bom, você também passa bem longe de ser um cara bonitão, galã de novela. E eu devia ter notado que você tinha músculo demais para caber alguma massa cinzenta nessa cabeça oca.  Mas eu não julgo pela aparência. Gostava das nossas conversas, porque, para mim, você nunca precisou ser bonito para ter um papo legal. Sempre te achei interessante, engraçado e divertido sem nem reparar nas suas fotos.
E, hoje, te assisto me ignorar só porque, no dia em que nos vimos, eu não estava exatamente a Beyoncé.
E isso me decepciona tanto! Porque eu pensei que você fosse diferente. Você dizia ser e agia de forma diferente dos demais. Para que tudo isso, se era igualzinho qualquer homem solto no mundo?
Agora me pergunto se, talvez, tenha sido tudo mentira, tudo em vão, dito da boca para fora. Todas as nossas conversas, todas as coisas que você dizia. Afinal, qual é o seu problema, menino? Você quer mulheres saídas de capa de revista ou mulheres reais? Quer aparência ou inteligência? Porque eu, tentando não perder a humildade, posso lhe garantir que não sou feia e nem burra. Garanto que mesclo cérebro com beleza, na medida quase certa e, assim como sei me vestir como uma capa de revista, também sei conversar, argumentar e usar meu cérebro. Não tenho só pernas "torneadas", nem só uma barriga "sarada". Tenho idéias, atitudes, personalidade, caráter. Tenho mais que um simples par de peitos. Sou mais que um corpo bonitinho, ainda que o meu não seja perfeito.
Mas é por essas e por outras que muito homem morre sozinho. Enquanto vocês não entenderem que uma mulher não precisa usar salto 24 hrs para ser bonita, não precisa ter o cabelo arrumado para ser legal e não precisa estar bem vestida para ser inteligente, vão continuar sozinhos. 
Tudo que dizem é "Nós queremos meninas normais, leves, descomplicadas e fáceis de conviver". Mas é mentira. O que procuram são garotas bonitas, não "normais"; garotas vazias, não leves; que falem pouco e não tenham conteúdo, não descomplicadas.
Vocês querem meninas rasas porque são covardes e têm medo de altura; medo do abismo das garotas densas. Querem garotas caladas por não suportarem a profundidade das garotas intensas.
Eu sei que gostam das meninas radicais, lunáticas e quentes também, mas escolhem ficar com as mornas, o meio termo, porque têm medo de se queimar. Medo do extremo.
Vocês temem porque sabem que, ao cair do penhasco que paira sobre nosso olhos, não vão conseguir voltar à superfície, porque não vão querer subir depois que conhecerem a maravilha que há lá no fundo de nós.
Vocês, homens, deveriam aprender isso de uma vez por todas: o mesmo direito que vocês têm de não fazer a barba, nós temos de não usar maquiagem. O mesmo direito que vocês têm de não ser julgado pela aparência, nós também temos. Porque somos mulheres, andamos ao lado de vocês, não atrás, não embaixo. Mas ao lado.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Missão de hoje




- Vamos sair para ganhar hoje.
- Ganhar a guerra?
- Não. Ganhar alguns sorrisos.
- Por que?
- Porque um sorriso desarma o coração, ameniza as dores, espanta o frio e encerra guerras. Um sorriso cura, ilumina, encanta. Porque mostra o que há de mais bonito: o amor.
- Mas não vamos conseguir sorrir para o mundo todo, né?!
- Eu sei. Mas vamos sorrir e ensinar os outros a sorrir. E isso passará de pessoa para pessoa, nação para nação. Essa é nossa missão hoje.
- Sorrir?
- Não. Tornar o sorriso algo contagioso, e o amor, transmissível.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do que eu não abro mão

Nem precisa de muito. Bato o olho por meio segundo em algo que me encante, e já fecho os olhos. Viajo, canto melodias silenciosas e escrevo palavras desconhecidas. Aproveitando cada segundo desse momento tão meu, tão único e tão íntimo que fico até com medo de ser flagrada assim, lunática, distante. Na verdade, não é medo de ser vista assim, é mais vergonha que descubram que não sou lá muito normal.
Como dizia a Tati, veja você que um cara gostava de mim, até notar essas minhas esquisitices. Veja você que outro, mais tarde, também gostou de mim, até também notar minhas esquisitices.
Então, nesses poucos segundos que sei que tenho para ficar sozinha, me permito. Permito sonhar um pouco, como nos velhos tempos. Me deixo fascinar pelo cheiro da noite, do pôr-do-sol, da chuva, encantar pelas estrelas, pelos raios, pelo campo verde. E fico tentando entender o que é tão complicado para os outros. Porque sou tão complicada, tão esquisita aos olhos alheios.
Não me sinto lunática só porque sonho, não me sinto estranha porque sinto, nem me sinto louca só porque penso. Reconheço que, as vezes, faço tudo isso demais, intensa e compulsivamente, em ordens estranhas e desconexas. Sonho, sonho, sonho. Sinto, sinto, sinto. Penso, penso, penso. Sonho, penso, penso. Sinto, penso, sonho. Sonho, sinto.
Mas todo mundo é assim, de vez em quando, não é? Faz as coisas repetidas vezes para ter certeza que as fez? Ou, vai ver, minha memória é que é muito ruim e só eu precise gravar as mesmas coisas nela várias vezes, para fixar. Mas tanto faz. Todo mundo também é um pouco distraído e fica meio distante, as vezes, pensativo, não é?
Então porque eu sou a estranha, a louca, a lunática? O que há, afinal, de tão diferente em mim?
Não acho que eu seja assim, do jeito que me pintam. E, mesmo que fosse, qual seria o problema? Não entendo o porquê dos olhares tortos, quase acusadores, para cima de mim. Porque se contemplar o céu, e admirar a vida é ser anormal, então Deus me livre de ser normal. Qual o sentido da vida se não pudermos assisti-la de vez em quando, e simplesmente sorrir? Qual o sentido da vida, se você passa por ela sem notar a beleza estonteante que exala? Qual o sentido de passar por esse mundo, se você não pára nem um segundo para admirar o céu azul, o sol quente e a chuva bonita?
Sabe, se o que vocês acham estranho em mim é essa minha carência pelas estrelas e essa minha necessidade de ver o dia lá fora e admirar a paisagem, então continuarei sendo extremamente estranha para vocês. Porque não abro mão do vento passando pelos meus cabelos, não abro mão do sol no meu rosto e não abro mão da chuva na minha pele. Não me desfaço dos meus amores, das minha razões, nem das minhas dores. Não abro mão das minhas esquisitices, porque são elas que fazem minha vida valer a pena. Não abro mão das minhas loucuras, dos meus erros, das minha gírias, minhas manias. Não abro mão, não largo, não deixo, não me desfaço, não jogo fora. Não abro mão de ser estranha, porque não abro mão de mim.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

5 minutos do que vale a pena


É que tem dias que estamos tão estressados, tão deprimidos e tão fracos que esquecemos de olhar para o céu. O simples movimento de levantar os olhos parece que vai levar tempo demais, e não temos esse tempo. Estamos pagando as contas, lavando as roupas, os pratos e o chão. Estamos fazendo qualquer coisa, as vezes mínima, que nos impede de respirar um pouco. Os problemas, o cansaço, a vontade de desistir, a falta de ânimo. Tudo isso nos impede de ir lá fora, e simplesmente olhar para o céu, sem pensar em nada. Deixar o sol bater na nossa pele, o vento bagunçar nossos cabelos.
Porque, se toda vez que um problema surgisse, nós fizéssemos isso, não haveria mais problema algum. Respirar um pouco de ar puro, parar para pensar na beleza do mundo, da vida. Parar o que estiver fazendo para sentir o dia. 5 minutinhos que passamos do lado de fora, contemplando o tempo, já bastam.
5 minutos de sol, de céu azul, de brisa e até mesmo debaixo da chuva, resolvem qualquer problema. Clareiam qualquer pensamento.Vale a pena ter nascido, mesmo com tantos problemas nesse mundo, só por esses 5 minutos de ar livre. Só para ter, mesmo que apenas por 1 segundo, a brisa beijando seu rosto.
Vale a pena ter nascido só para ver o pôr-do-sol. Vale a pena viver uma vida inteira só de olhar para estrelas.
Mas enquanto o mundo não perceber isso; enquanto as pessoas não aprenderem que precisam de 5 minutos no dia para olhar o céu, o mundo continuará assim, cinza, desbotado e triste. Porque não importa quanto dinheiro você tenha, não importa o tamanho do seu sorriso hoje, não importa que você tenha uma ferrari na garagem, não importa que você seja linda, não importa que sua vida seja perfeita; um dia, a tristeza vai bater na porta, talvez sem motivo, e a vida vai parecer feia diante dos seus olhos. E se, nesse dia, você não for capaz de simplesmente olhar para o céu, deixar a chuva molhar seus cabelos e a sua pele absorver o sol, então, sinto muito, mas sua vida não vale mais a pena.
Vai lá fora um pouco, vai que ainda dá tempo de viver.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Boiando



A verdade é que sou fraca. E não tenho mais problema em admitir isso, exceto meu orgulho que sempre foi acima do padrão normal. Passo mais tempo pensando em desculpas e justificativas para ter fracassado, do que realmente tentando não fracassar. O pior é que as desculpas são para mim mesma, porque não me preocupo com o que os outros vão pensar se eu desistir. 
Preocupo-me com o que eu mesma pensarei de mim, e fico assim, inventado e bolando cada vez mais explicações falsas até que canso de tentar me redimir com minha consciência. Fico tentando provar que não conseguiria ultrapassar um ou outro obstáculo do caminho e, por isso, desisti, até abandonar, inclusive, as explicações. Mas, no fundo, sei que daria conta dos obstáculos, fossem quantos fossem. Daria conta de todos eles e passaria rindo até, debochando da facilidade, se realmente quisesse fazer isso. A questão é que o esforço que eu sei que vai custar, não me parece válido. Não acho que a medalha de ouro no final compense todo o trabalho de antes, todo o caminho percorrido, todas as gotas de suor perdidas, toda a dor muscular suportada. "Não vale a pena" é só o que ouço-me gritar para mim mesma. Talvez porque eu não queira que valha a pena. Talvez porque eu nem mesmo ligue se vale ou não.
Então não me esforço mais para nada, porque, com o tempo, comecei a achar todos os caminhos longos demais. Todos os prêmios finais aos quais os caminhos levavam, passei a encara-los como indignos de tanto suor, tanto trabalho. De repente, parece que nada mais vale a pena. Nada vale o esforço, nenhum prêmio é bom o bastante, nenhuma recompensa. E isso sim me desespera. Não eu inventar problemas e desculpas para não ir em frente, para ter fracassado. Mas me desespera que não haja mais nada que me faça levantar da minha posição confortável. Me desespera que eu não esteja mais disposta a lutar por alguma coisa, qualquer que seja. E eu tenho problema em admitir isso, porque detesto isso. Detesto não ir mais atrás de nada, ficar à deriva. Detesto não fazer mais as coisas e esperar que outros façam, e detesto não dar a mínima se ninguém fizer.
Talvez, por alguém que eu ame muito, eu fizesse alguma exceção; lutasse um pouco, voltasse a me esforçar. Mas não passa de uma possibilidade, uma hipótese. Há algum tempo já eu não batalho por absolutamente nada. Não corro atrás de nada. Deixo tudo ir, simplesmente.
Me assusta não tanto que eu não consiga dar conta do caminho, mas que eu nem se quer tente. Justo eu, que sempre fui teimosa, cabeça dura e determinada.
Fico o tempo todo parada, esperando que caia tudo do céu e, se não cair, continuo parada esperando. Com algum misto de angústia e desespero, somados à um vazio desconfortável e à uma presença insuportável de culpa.
Todo e qualquer esforço, por menor que seja, me parece demais. Todo caminho, longe demais. Todos os meus músculos, fracos demais. Andar exige muito, falar mais ainda. Mesmo respirar me cansa e, ironicamente, me tira o fôlego. Qualquer coisa parece ser uma tarefa impossível, que exige de mim muito mais que eu posso dar.  Mantenho meu coração batendo, com um esforço hercúleo, só para não causar mais estragos. E, mesmo assim, não o faço por mim. 
Acredito sinceramente que a única coisa que me mantém é o amor. Me impede de desistir de vez, de tudo e até de mim. É o alicerce que me impede de perder de vez o ar, de desmoronar ao invés de apenas cambalear. O combustível que me encoraja a prosseguir, mesmo que, no meu caso, isso signifique continuar sentada, inerte, só respirando. Só para não ver pessoas que amo sofrendo. Ainda assim, é um esforço tremendo me manter parada, viva, e sei que só o faço encorajada por esse sentimento. É melhor que não respirar, afinal.
Sobreviver, deixar que os que me amam vejam meu peito subindo e descendo, inspirando e expirando; deixar que sintam minha pulsação. É melhor que não existir.
Ficar à deriva, em segundo plano, esperando que as ondas me empurrem para frente e não fazendo esforço nenhum para ajudá-las. Simplesmente boiar é melhor que desistir de vez. Melhor que afundar. 

"Nem desistir nem tentar, agora tanto faz..."

sábado, 17 de setembro de 2011

Os 18

16/09/1993 - 16/09/2011


18 anos de sorrisos, de lágrimas, de dúvidas, de sentimentos, de emoções, de verdades, de descobertas.
18 verões, 18 invernos, 18 'agostos', 18 natais, 18 '16 de setembro'.
Um punhado de histórias, uma infinidade de mudanças, uma mistura de gostos e uma eternidade de verbos.
18 anos.
Depois de tanto aprender, tudo que sei é que sou. Não sei o que. Mas sou, e sou muito, compulsivamente.
Continuo querendo os sonhos, mas hoje quero muito mais realidades.
Então o que eu quero mesmo, o único pedido que faço hoje, assim como todas as vezes que apago a velinha, é que eu nunca deixe de querer; querer ir atrás, fazer, sonhar, realizar, lutar. Desejo querer! Mas que eu queira com muita intensidade. Mais ainda que isso, desejo que eu jamais deixe de ser. Independente do que for. Que eu seja, e seja muito, com todo o meu ser.



Top 10 músicas dos meus 18 anos:
1ª - Billy Joel - Vienna
2ª - Clarice Falcão - Australia
3ª - Zélia Duncan - Eu me acerto
4ª - Pink - Don't let me get me
5ª - Pink - Fuckin' Perfect
6ª - Zélia duncan - Por enquanto
7ª - Zélia Duncan - Me revelar
8ª - Capital  Inicial - Primeiros Erros
9ª - Capital  Inicial - Independência
10ª - Linkin Park - Numb

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Eu de dentro e eu de fora em: O amanhã

- O que você esta martelando na cabeça, tão forte que as paredes daqui de dentro estão balançando?
- Eu só queria muito que o tempo parasse agora. Bem aqui, bem hoje. 
- E você aguentaria ficar parada junto com ele?
- Talvez sim. Mas seria muito melhor se eu tivesse um viratempo igual ao da Hermione, e pudesse ir para o passado quando bem entendesse. Aí não teria problemas se o tempo quisesse passar, eu poderia voltar sempre.
- Afinal, o que tanto te aflige no dia de amanhã, logo você que estava querendo independencia?
- Acontece que isso não é sinônimo de independencia, mas de maturidade, responsabilidade.
- Mais um motivo para estar satisfeita. Logo você que sempre teve juizo demais na cabeça, responsabilidade demais, tanto que nunca precisei fazer sua consciência pesar.
- A questão não é essa. Eu sempre tive bastante disso mesmo, sempre pensei bastante nas consequências e no amanhã, no depois. Mas você bem sabe que eu sempre quis sair da linha, estourar todos os limites e regras impostas a mim, dar uma de louca, de rebelde.
- E não quer mais?
- Continuo querendo, até mais que antes, mas agora parece que não posso mais. Antes eu podia sair da linha, afinal, era uma adolescente, e é isso que adolescentes fazem; eu tinha uma justificativa se quisesse violar as leis. Mas agora, parece que tudo o que eu tenho que ser é adulta. E eu detesto essa palavra. 
- Mas não é bom ser adulta, independente?
- Adulta não, independente sim. É bom pagar suas próprias contas e comprar suas coisas com seu dinheiro. E só.
- E não é nisso que se resume a vida dos adultos?
- Não. Adultos não podem voltar chorando para casa, não podem pintar o cabelo de azul, fazer uma tatuagem, usar all star. Adultos não podem correr para os braços dos pais quando as coisas vão mal.
- Só porque a sociedade diz que não?
- Também por isso. Mas principalmente, porque adultos tem uma vida para cuidar, e não podem mais viver em função dos pais que já nem aguentam mais cuidar de ninguém. As funções são trocadas, os filhos cuidam dos pais.
- Você não quer cuidar dos seus?
- Cuido com todo prazer, feliz de poder ajudar. Mas não estou qualificada para isso, não estou pronta.
- Acho que você não quer estar pronta.
- Por que eu não iria querer?
- Porque eu sei que você acha que não viveu nada do que deveria ter vivido na adolescência, eu sei que você pensa que sua vida adulta não pode começar agora, porque sua fase infanto juvenil foi muito curta.
- Mas foi mesmo! Você sabe disso. Foi tudo tão rápido para mim que não deu tempo de nada. A vida me fez crescer rápido demais, e isso é muito injusto! Eu queria ter tido tempo de brincar mai, de sair mais, de ter mais amigos e mais história para contar. Queria ter ralado mais meu joelho, com todas as outras pessoas.
- Mas ser adulta vai te dar liberdade, vai te fazer dona da própria vida. E você nunca foi como as outras pessoas.
- Nunca tive uma vida só minha e não vou ter. Sou composta pelo amor das minhas pessoas, músicas, poesias. E porque exigir mais de mim?
- Porque você aguenta mais. Você suporta um peso maior que a maioria das pessoas pode suportar.
- Eu faço porque preciso, porque tenho que aguentar esse peso, tenho que ser forte. Não porque quero. Nunca quis carregar um mundo nas costas, ninguém quer.
- Ninguém quer e ninguém o faz. Você, mesmo não querendo, faz. E, afinal de contas, o que você quer ser?
- Sempre quis ser a pessoa mais feliz do mundo. Mas hoje me contento com uma felicidade boa de sentir, com a certeza de estar falando a verdade quando digo que está tudo bem. Me contento em fazer as pessoas a minha volta felizes, e ser feliz. Já é suficiente.
- Não é suficiente, você sabe que não. Nunca foi. Você sempre quis o mundo, para mudá-lo, melhorá-lo e entregá-lo às pessoas que ama.
- Mas eu posso me conformar com um pedacinho dele só. Eu posso.
- Desiste! Você sempre vai querer abraçar o mundo, porque você sempre gostou das coisas grandes.
-  Amar demais, querer demais, sonhar demais. Tudo é pouco e nada nunca é grande o bastante. É, vai ver é meu pior defeito.
- Ou sua melhor qualidade.
- Se fosse qualidade, eu ganharia alguma coisa com isso, não?
- Você pode não ganhar nada, mas as pessoas ganham.
- É. Talvez. Mas, de vez em quando, eu queria ganhar alguma coisinha, sabe? 
- Bom, já que é véspera do seu aniversário, pode pedir. O que você quer ganhar?
- Eu quero que não chegue esse amanhã que me mata de medo, de dúvidas e incertezas. O mundo onde vivo não será o mesmo amanhã. E esse é, para mim, o último dia da vida que eu conheço. Portanto, quero que ele dure para sempre.
- Isso não vale. Você sabe que é inevitável, parte da vida. E você sabe que, no fundo, você até quer que chegue o amanhã, só está com medo de não dar conta.
- .É, eu sei que é parte da vida, que é o ciclo que todos os seres humanos têm que cumprir. Mas você sabe que eu nunca gostei muito de seguir a massa. E que eu estou com medo, é obvio. Medo de não estar pronta.
- Não é questão de seguir a massa, é questão de viver em função de si mesma, não da sociedade. E seu medo de não estar pronta é a prova viva de que está.
- Não dá para conversar com você. Já cansei de falar que não consigo pensar assim, não consigo ignorar ninguém, ainda mais quando se trata de uma sociedade inteira. Quero viver em função de mim, mas não posso porque não vou conseguir lutar contra tudo isso sozinha.
- Você sempre me atacando né? Eu sei que é inútil dizer isso a uma nata "desassossegada", mas sossegue. A vida se ajeita com o tempo, para com essa ansiedade toda e vive. Só o que eu te ouço dizer é que não vai conseguir. Você não está sozinha, afinal, eu sou o que?
- Ta, ta, ta. Sem sermões e sem drama. Vamos encerrar essa conversa.
- Ainda quero saber o que você quer ganhar.
- Quer saber mesmo o que eu quero? Quero sentimentos intensos e leves, nada complexos e nem paradoxais. Quero vida digna para todos. Quero comida para quem tem fome, saúde e cura para quem está doente, educação para todos, fé para aqueles que ainda não a possuem. Eu quero mais seres pensantes, menos guerras, menos brigas, mais amor, mais compaixão e mais estrelas no céu. Mais esperança para esse mundo e menos importância para o dinheiro e as coisas materiais. Quero tanto, quero muito.
- Você sempre quer coisas demais, e quer com muita intensidade! Mas, pensando bem, eu quero que você nunca deixe de querer tudo isso.
- Eu também quero.
- Para variar, você quer. Mas...enfim, nos entendemos.
- E você, quer o que para amanhã?
- Quero mais você e mais eu dentro de nós. Mais discussões internas, para não perdermos a essência, a vontade de mudar e a sede de revolução. Para não nos perdermos. Quero mais alma, mais cor nela. Porque essa que temos está meio apagadinha.
- É, acho que posso tentar atender o seu pedido.
- E eu acho que posso te ajudar a não esquecer do seu pedido.
- Fechado.
- Pronta para amanhã?
- Não. 
- Nem eu.
- Vamos dar conta?
- Sempre damos. Nossa especialidade não é essa? Dar conta do recado?
- É, acho que sim.
- Fica tranquila que a gente dá um jeito.
- Você acha mesmo?
- Tenho certeza.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Por que não eu?


Eu olho as fotos muito bem tiradas, os textos muito bem escritos e as contas milimetricamente corretas no caderno de matemática da menina do cursinho. E eu olho e tenho vontade de morrer. O pior pensamento do mundo fica rondando a minha cabeça "Por que não eu?"
Por que? Por que? Fico repetindo incansavelmente para ver se descubro a resposta. Mas ela não vem. Assim como, há muito tempo, não sinto o doce da vida. Já nem sei mais se ela é doce ou se eu é que pensava que era. Não vejo a resposta, não sinto as coisas boas de sentir.
Acho que não estou cabendo mais dentro de mim mesma. Meu corpo cresceu demais e o eu aqui de dentro encolheu sem nem precisar dos cogumelos da Alice. Vai ver é por isso que ando tão vazia. Estou perdida dentro de mim, minúscula em algum canto. Meu coração está tão pequenininho que já não sinto bater, se é que ele o faz. Minha alma tão grande antes, agora pequenininha que está, sumiu. Junto com os sonhos.
Não acho que seja egoísmo, não acho mesmo. Porque eu só quero um pouquinho para mim, sem ter que tirar nada de ninguém. Não quero tomar o lugar de ninguém, mas quero muito ter um para mim. Um cantinho qualquer da vida, quarto e banheiro, nem precisa ter cozinha. Quero só ser alguém também, alguém que serve para alguma coisa, que faz alguma coisa e é bom nisso. E não entendo porquê não posso. Por que? Por que? é tão frustrante, tão angustiante, tanto tanto tanto que nem sei mais quanto. Isso de ficar perdida no mundo, à deriva, assistindo o navio da vida passar sem me levar junto.
Não é drama, não é melancolia e nem 'coisa de emo'. É só uma tristeza vazia e insuportavelmente grande de quem não faz diferença no mundo, não acrescenta por não ser útil em nada e não subtrai por princípios.
Talvez eu seja egoísta mesmo e tenha um quê de adolescente confusa e inconstante, ainda que não tenha mais idade para isso. Porque não vou negar, não quero simplesmente saber fazer, quero ser a melhor em alguma coisa, qualquer coisa. Ser reconhecida por um trabalho, por um dom, por qualquer coisa incomum. Quero me orgulhar de mim, afetar e atingir as pessoas, fazer alguma diferença na vida delas.
Vai ver isso é carência, eu que detesto depender e precisar dos outros. Vai ver eu queira ser importante na vida de alguém, mexer com a cabeça de alguém e mudar o coração de alguém.
Mas isso é o que todo mundo diz. Eu acho que só quero um pouco de emoção, mais que isso, quero emocionar pessoas. Acho que gosto tanto de tudo e todos, que quero cuidar, ensinar, falar, mudar. Seja através da música, através da dança, da arte ou politica. O problema é que eu sempre esqueço que não estou qualificada em nenhuma dessas categorias.
Enquanto tem gente fazendo tudo, cantando, tocando, pintando, ensinando e vivendo, eu só sobrevivo. E penso: Por que, raios, não eu? Me contentaria com uma coisa apenas; seria extremamente feliz em ser boa, realmente boa, em alguma coisa. Talvez me satisfizesse até mesmo em ser alguma coisa, mesmo que não fosse boa. Mas não.
Eu sou só um punhado de sentimentos complexos, pensamentos confusos e movimentos descoordenados. Sou só uma mochila nas costas, um óculos a frente dos olhos e um dor no coração de tanto que dói não ser nada em particular, e, ainda assim, ser plenamente nada.
Acho que nem existo.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Para setembro



Vem calmo, mas vem pisando forte. Determinado e com vontade. Vem com os dias mais leves e os sentimentos mais intensos. Vem com mais sorrisos e, pelo amor de Deus, menos problemas, menos confusões. Porque seu vizinho, Agosto, já se encarregou dessa parte.
Vem sereno, com uma melodia que canta devagar. Faça com que tudo volte a ser bonito.  Traz o horário bonito das 18 horas, com um sol quentinho e uma chuva fina que dá vontade de ficar para sempre olhando e sentindo o cheiro da terra molhada. Faz igual aos outros anos e vem, me leva junto.
Eu quero você, setembro, por inteiro, pleno. Quero os seus dias ensolarados, azuis e não muito quentes. Eu quero te ver florido, folhado, mudado e feliz. 
Vem bater na minha porta e me trazer a encomenda do dia: o sorriso. Vem logo, porque você chegou, mas não se mostrou. Estamos quase na metade dos seus dias, e você está aí, todo morno, agridoce e cinza. Por que não colore? você, que sempre soube fazer isso tão bem! Traz as cores de novo e leva embora esse tom pálido de agosto.
Vem, setembro, cheio de amor correspondido, de felicidade não apenas momentânea e de sorriso verdadeiro. Traz as gargalhadas incontroláveis e as lágrimas só de alegria. Vem e vê se não vai embora ou, pelo menos, se demora para ir.
Por favor, meu querido setembro, não passe assim por mim, como quem não acrescenta nada. Não me ignore mais. Vem ser o que eu sei que você sabe ser e me faz ser o que eu sei que sou, antes que me perca de vez nos restos mortais que trago de agosto.
Vem, setembro, vem limpar essa bagunça, essa sujeira, esse preto fosco e descascado dos últimos 8 meses. Estou esperando, de coração aberto e olhos ansiosos, para sentir o arrepio dos seus dias. Sentir o beijo da sua brisa leve, o toque do seu pôr de sol, o cheiro da sua garoa fina. Estou esperando o som das árvores cantando para você. Não vai embora sem mim. Me espera, setembro, que eu te espero também.


                                                                                                                 

domingo, 4 de setembro de 2011

Pensadores

Não pensar talvez seja a solucão. Quem pensa demais acaba descobrindo verdades feias, que não deveriam ser descobertas. Acaba construindo teorias que, para as demais pessoas, parece ser loucura, mesmo que sejam verdadeiras. E, depois, acaba contestando suas proprias teorias. Criticando as solucões que criou para os próprios problemas. Quem pensa demais se frustra demais. Porque o mundo é triste e decepcionante demais para quem o desvenda. É aterrorizante para quem o compreende. E os pensadores sabem disso. Os pensadores não gostam de pensar, porque sabem o quanto isso é ruim. Pensar nunca foi uma dádiva, sempre esteve muito longe de ser algo bom. 
O mundo deveria ser apenas sentido e, ainda assim, pouco. Nada de sentimentos intensos, confusos ou inexplicáveis. Nada de complicações. 
Tudo assim, rápido e fácil, 'Bom dia, vou bem e você? também!', sem delongas.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Curto-circuito




De repente me vejo cheia. Emoções, sentimentos, talvez frescuras. Só sei que fico a ponto de explodir. Acabo não suportando tudo tão dentro de mim, começo a transbordar e preciso parar toda e qualquer coisa que estiver fazendo e correr para o papel, o lápis, a borracha, uma página em branco no word. 
Nesse momento tudo some, entro em algum tipo de transe, tela azul, pane total. Perco a noção de tempo e espaço, perco o controle. Só acordo depois, desnorteada, esbaforida e com a nítida impressão que estive sem respirar durante esse apagão particular, quando à minha frente já tem uma página pronta cheia de palavras, frases e versos. Então fico pensando o que será que eu perdi, quando e como foi que tudo aquilo foi parar ali. Leio, releio e não me reconheço no que está escrito. Vejo palavras que, se eu pensar bem no ato de escrever, sei que jamais seria capaz de usar; de lembrar de usar. 
Depois de regulada a respiração, tudo volta ao normal, eu volto ao estado vazio do cotidiano e sinto algo muito distante, tão vago que nem sei se realmente existe. Como um deja vu.
Olho para o texto gigante e reconheço apenas a caligrafia garranchosa. Concluo que, de fato, o escrevi, mesmo achando essa idéia completamente absurda e mesmo não lembrando de tê-lo escrito. 
Fico pensando se, talvez, eu não tenha algum tipo de defeito genético que faz com que, de tempos em tempos, meu cérebro entregue o controle do meu corpo para o coração. Porque realmente não sei de onde vem essa tsunami de sentimentos, esse desespero para escrever; e não sei porquê, enquanto escrevo, entro em curto circuito. 
Minha mente lê as palavras que escrevi e não as identifica como minhas, como se outro alguém as tivesse escrito e não eu. Meu coração, porém, reconhece cada letra que usei e bate tão forte preso numa bolha de euforia por ter enfim colocado aquilo para fora, que quase perco o controle de mim mesma novamente. Acho que, talvez, cabeça e coração estejam em conflito dentro de mim, me disputando, um tentando invadir as terras do outro e conquistar o território. E enquanto essa guerra não termina, eu fico assim, alternando entre razão e loucura, momentos de lucidez e momentos de inconsciência completa. Parecendo uma louca, compulsiva, desvairada.
Contudo, ainda que eu assuma a autoria desses textos, se me perguntassem se escrevo, não saberia responder. Porque não sei se o faço, minha razão diz que não, meu coração diz que sim. A única coisa que sei é que sinto. Não sei o que, mas sei que é muito.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Raça dos Desassossegados



"À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito."

(Martha Medeiros)


Eu sou dessa raça, e ainda não sosseguei porque não aceitei. Fazer o que?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Como nossos pais

Tento tanto mudar alguma coisa, fazer qualquer coisa útil para o mundo e só me frustro mais. 
Me perguntam porque escrevo sobre mim, mas sobre o que mais posso escrever? Critico, questiono, contesto e só para me estressar. Estou cansada de tentar mudar o mundo, de tentar salvar tudo isso que, se for analisar, já está perdido. 
Cansei de colocar a mão na massa, de me disponibilizar para fazer qualquer coisa que ajude, de gritar ao mundo o quanto certas coisas estão erradas e não ser ouvida. Então escrevo sobre o tempo, sobre banalidades, sobre "como vai você?" e espero que, pelo amor de Deus, me responda "Bem". Porque, sinceramente, estou esgotada, no limite.
Tentei ajudar, tentei fazer alguma coisa que fizesse diferença, mas, como já dizem, uma andorinha só não faz verão. E, vejam só, logo eu, que sempre acreditei que para mudar o mundo, era preciso começar por si mesmo. Logo eu, que nunca acreditei nesses ditados, sempre achei que eram apenas desculpas esfarrapadas. Eu, que sempre coloquei fé em tudo que fazia, ainda que sem ajuda. Mas acho que acordei desse sonho e vi que, sozinha, não faço nada. Vi que nada está mudando, porque não vai mudar. Essa humanidade sempre foi assim, e permanecerá assim, robotizada, desumana. 
Enquanto isso eu fico aqui, escrevendo sobre meu ego e minhas futilidades cotidianas, tentando abstrair e não acreditar nesse absurdo que é o mundo. Fico aqui, consciente de minhas mãos atadas e morrendo de medo que isso seja apenas o começo de uma fase adulta moderna, dessas em que as pessoas param de querer fazer alguma coisa pelo mundo e começam a se acomodar com tudo desse jeito que está, correndo atrás apenas de coisas para o bem estar próprio. Aqui estou eu, morrendo de medo que esse cansaço e essa vontade de desistir seja apenas o fim da adolescência que vivi, com sede de revolução, com fome de mudança. Eu que sempre disse que não deixaria de querer mudar o mundo, ainda que a adolescência passasse. Que sempre tive essa sede de melhorias, esse sangue quente correndo pelas veias e jurei não deixar a idade mudar isso. Agora penso que, talvez, nossos pais também fossem assim, também quisessem mudar o mundo, também tivessem essa sede de revolução, essa fome de justiça. Provavelmente eles mudaram também, e nem notaram.
E o pior para mim também não é ter mudado, porque nem senti a mudança. O pior é perceber que algo está diferente, e não é o que eu queria que estivesse, não é o aquecimento global e nem os politicos corruptos. Sou eu. E agora? Agora sou simplesmente tudo que sempre disse que não seria. Sou o que não queria ser. E, afinal, consegui fazer algo que realmente queria fazer, que realmente precisasse ser feito?
E o mais dificil, a parte que mais me dói, é admitir que pertenço a essa massa de pessoas egoístas; que faço parte desse grupo de hipócritas, como qualquer um e todos na multidão. Dificil é ver que mudar o mundo está fora do meu alcance.
Lá no fundo, apesar do cansaço e do stress, eu ainda existo e ainda tenho o mesmo desejo de fazer alguma coisa em prol desse planeta, dessas pessoas, desses seres vivos. Mas acho que, a partir de agora, vou precisar de alguém para me dar a mão, para esticar os braços e me tirar desse 'fundo', me puxar de volta para a superfície; para dizer que não me deixará desistir. Alguém que não permita que o medo se apodere de mim, e que esteja lá só para garantir que eu também estarei. 
Porque acho que agora não sou mais tão independente, tão cheia de mim. Não sou mais tão auto-suficiente. Talvez nunca tenha sido e só percebi agora.

Elis Regina tinha razão, somos como nossos pais. Sábias palavras.


"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não."

domingo, 7 de agosto de 2011

Banco de reservas


Eu quero as sapatilhas, os movimentos e as cordas de violão calejando meus dedos. Quero de volta a arte dos palcos, a leveza dos passos ensaiados, a beleza da música, dos versos, de cada acorde, de cada movimento. 
Quero mostrar o que eu sinto na dança, como eu costumava fazer. Quero voltar a conversar com o violão e quero contar o que eu penso para o papel, como eu fazia tão bem antes, e agora já não consigo mais. Tentei mudar as posições, tentei me expressar não nos movimentos, mas no papel. Não deu certo. Porque o que eu quero mesmo é a dança que habita em mim, inegável e irreversível. Quero não precisar trocar nada de lugar, mas que tudo esteja em sua devida posição. Quero as notas, a melodia do violão, que canta não para mim, mas em mim. Quero as cordas do meu antigo violão, o verdadeiro, aquele caro e pesado, maior que minha mão podia segurar. Quero os movimentos que fazia para Deus, os que fazia para mim, ambos que sei decorados, mas não posso usá-los. E, embora goste muito das chuteiras, dos sapatos de valsa e dos tênis de vôlei, eu quero as sapatilhas. Apertadas, machucando.
Mais que as sapatilhas, eu quero meus pés doloridos nelas; quero senti-las me apertando enquanto teimo em fazer errado o mesmo movimento. Elas ainda estão aqui, na mochila, guardadas de qualquer jeito, na pressa de quem sempre as experimenta só para ver se ainda serve. Não as aposentei, não as pendurei como se faz com a chuteiras. Mas estão no banco, entre os reservas. Assim como o violão, assim como o teatro e assim como toda essa arte inspiradora que vive em mim. 
Estão no banco, com a promessa por mim feita de que, um dia, entrarão em campo novamente. E só eu sei, só eu sinto, o quanto quero cumprir essa promessa. O quanto queria poder cumpri-la.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Abstrata


Eu não estou distante, porque não sou naturalmente próxima. Eu estou apenas eu. E sou distante, sou longe, sou abstrata. Porque sou como o vento que você sente cortar seu rosto, arrastar seu corpo e esparramar seus cabelos...intocável, invisível, mas inevitável. Sou fácil de sentir, porque te obrigo a me perceber. Mas sou uma fruta alta, que você não alcança, sou um fugitivo que você sabe que está a solta, por aí, mas não vê. 
Eu sou como o vento, chego sem pedir licença, te sopro sem permissão, te faço fechar os olhos...sou vendaval, que te varre inteiro, te percorre e te empurra. Sou brisa leve, que te beija, te envolve. Sou vento, que vem quente para te ganhar de dia e frio para te deixar com saudade de noite. Vento que não te deixa dormir, bate suas janelas, balança as roupas do varal. 
Sou como vento, que você não vê, não toca, não segura. Chego numa rajada forte e rápida e vou embora devagar, sem pressa, como a água que escorre por entre seus dedos, transparente, invisível, fazendo você acreditar que nunca, se quer, existi.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Insatisfação crônica

Eu queria ser lógica. Buscar uma meta na vida, ter uma para ir atrás. E atingi-la, ficar feliz com isso, sentir-me realizada, satisfeita. Queria ter planos, concretizar meus sonhos. Quero ter sonhos, objetivos. Casar com um homem bom, ter filhos comuns, e trabalhar num qualquer lugar mediano. Queria que isso fosse uma vida feliz. E seria, porque eu saberia onde está minha felicidade e iria atras dela.
Mas eu não sei, enquanto todo mundo estuda para passar no vestibular, eu deito na grama e fico olhando as estrelas. Não vejo sentido no significado que deram para a palavra inteligência. Não vejo sentido em provas e estudos concretos, exatos. Gosto do abstrato palpável, palatável. Gosto de sentir as verdades, não de estudá-las. E eu queria, de verdade, não ser assim. Eu queria saber para onde devo ir e me determinar a seguir esse caminho. Só que não faço ideia de que caminho é esse, não conheço meu projetos, porque não os tenho.
Não consigo participar muito da sociedade, me integrar à ela, ter esse padrão de vida. Eu sempre quero o que não deveria querer, o que não posso ter. E a insatisfação nesse caso, é crônica. Nada disso que o mundo me oferece é o que eu quero. E eu queria tanto querer tudo isso. Estar estudando para ser alguém na vida, e não escrevendo poesia, contando estrelas. Queria estar preocupada com o trabalho, os estudos e o vestibular, e não aqui deitada na grama, admirando o céu, assistindo a vida passar.


"... E então eu me pergunto se não deveria lobotomizar meu cérebro pra pensar menos, lobotomizar meu coração pra sentir menos, lobotomizar meu espírito pra estar agora menos obcecada pelo seu joelho magrelo. E então eu falaria pouco, teria alguma profissão sonsa dessas que a pessoa fica em cima de apostilas na madrugada ao invés de estar abaixo das estrelas."
 (Tati Bernardi)

sábado, 16 de julho de 2011

Cartas a Harry Potter



Querido Harry, 
estive pensando em uma maneira de dizer Adeus. Alguma forma que mostre a saudade insana que, desde agora, me atormenta ou a nostalgia que me invade, tão forte que beira a loucura. Mas antes que eu pudesse ter a chance de me despedir, você o fez. Com excessiva classe; elegância de um rei. Deu lugar às lágrimas, aos risos, angústias e, enfim, ao Felizes para sempre. Realizou tudo sabendo que o fazia pela última vez. O último suspiro, a última batalha, a última euforia por estar em uma fila por 8 horas.
Ah, Harry! Você disse adeus de uma forma tão solene, tão nobre, que eu mesma não conseguiria fazer melhor.
E agora só posso registrar o quanto isso tudo significou e sempre significará para mim. 
A carta de Hogwarts nunca chegou, nem aos 11 anos, nem nos anos seguintes. A varinha que carrego não é de sabugueiro e não funciona. E não importava tanto antes, porque só de saber que isso tudo fazia parte do seu mundo, Harry, eu já ficava feliz, porque você fazia parte da minha vida também, do meu mundo. Mas agora você foi embora, e levou toda a magia, toda a fantasia. Levou o que já estava tão dentro de mim, que já considerava meu. Esqueci que era tudo fornecido por você, que era tudo seu. 
Sinto uma tristeza sem fim, um vazio nunca sentido antes. Logo você, que esteve comigo desde o começo, que preencheu os outros vazios que a vida deixou em mim. 
Você, Harry, completou o que faltava em mim, todos esses anos. Ao longo dessa década inteira, foi meu porto seguro. Você foi meu melhor amigo, Harry, o melhor de todos. E ainda é.
Então não me culpe por estar tão triste. Eu sei que o fim era tudo que você queria, o final feliz, o descanso e paz merecidos. Mas, por mais feliz que seja, é final. E, você sempre soube, eu nunca gostei de finais. Gosto menos ainda agora, por saber que é o fim não da sua história, mas da nossa. Você continua, e eu também continuo, mas cada um para um lado. E eu tinha esquecido como é ruim seguir sozinha.
Apesar das minhas serem bastante reais, não quero ver ou pensar que lágrimas podem estar em seu rosto. Vou sentir sua falta, Harry, bem mais do que imaginei que sentiria. Bem mais do que gostaria de sentir; mais que já senti de qualquer outra coisa nessa vida. Mas sou grata, extremamente grata, por você ter estado todo esse tempo comigo. Por termos passado nossa adolescência inteira juntos. 
Estivemos juntos desde a infância e, agora, parece que, por estarmos separados, somos adultos demais. Você não acha isso estranho, Harry? De repente, não ser mais criança, adolescente? De repente, ter crescido? Eu acho. Mas espero que seja bom ser grande, tão bom quanto foi ser criança. Espero que sejamos tão legais amanhã, quanto fomos ontem. E que essa nova fase seja tão maravilhosa e épica, quanto a que vivemos.
Apesar de você ter se despedido de maneira bem melhor, é aqui mesmo que deixarei meu Adeus. Sei que é um Adeus, e não apenas um até logo como foi das outras vezes. Mas sei também que é inevitável. Então só espero que, de agora em diante, tenhamos maturidade suficiente para dar conta de seguirmos sozinhos. E que seja como dizem que é, o fim de uma coisa boa para inicio de uma melhor ainda.
Tenho que ressaltar uma última vez(tudo é último agora, né?): vou sentir sua falta, porque ela já está presente em mim, nessa vazio que você deixou. 
E como isso é um último pedido, sinta-se obrigado a realiza-lo, Harry: não vá para muito longe da minha memória, porque quero lembrar de você, das piadas do Fred e do Jorge, das expressões do Rony e da sabedoria da Hermione. Quero lembrar dos ensinamentos dos professores e dos óculos em meia lua, do Dumbledore. Quero lembrar da arrogância e do heroísmo do Snape, dos sarcasmos da Mcgonagall, das observações curiosas da Luna, da coragem do Neville e dos olhinhos doces de Doby, o elfo livre.
Não me deixe esquecer. Esteja sempre por perto das minhas lembranças, porque do coração você nunca vai sair.



Adeus, Harry.


"Aqueles que realmente nos amamnunca nos deixam de verdade." 
      (Sirius Black - Harry Potter e o Prisioneira de Azkaban)