quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Muda

O papel continua o mesmo, branco e mudo a me esperar e olhando-me como quem acusa. O que você quer que eu faça? Eu simplesmente cansei dessas palavras repetidas e desses mesmos temas, e não me culpe por eu não saber mais lidar com isso. Não me culpe por eu não saber mais como preencher esse espaço e essas linhas.
Saiba que eu não gosto mais disso do que você. Eu não gosto desse branco vazio. Não gosto de não gostar mais dos meus textos e de não ter mais frases boas. Afinal, o que anda acontecendo por aqui?
Eu não sei traduzir o sentimento estranho que andou me consumindo nesses tempos. Eu canso só de pensar em tentar explicar essa sensação inexplicável. E como fazemos quando isso acontece?
Eu simplesmente travei, como se fosse uma porta trancada com a chave jogada fora. E o que mais me frustra é não conseguir colocar isso em ordem. Mas eu não posso e não quero perder a única coisa que me fez feliz nesses tempos, não posso e não quero deixar minhas palavras bonitas que restaram se esvoaçarem junto ao vento.
Será que minha pequenina parte que prestava não vai mais prestar? Eu dediquei tudo o que sabia e o que podia para chegar até aqui e descobrir que eu poderia, enfim, contribuir com palavras. E se as palavras eram as únicas coisas que tinha a oferecer, porque não oferecê-las? Mas então, depois de me mostrarem a maravilha de seus significados, elas resolveram me deixar. Minhas próprias palavras decidiram deixar-me muda. E agora? Eu queria poder ter alguém para perguntar se um dia isso vai passar. Mas e se não passar?
Por favor, não me deixem também, porque vocês são o que restou para mim. Venham para ficar, desta vez. Venham para fazer com que eu e o papel façamos as pazes, porque eu já não aguento mais as informações guardadas dentro de mim. Não aguento mais toda essa angústia de saber que existe nome para o que me cerca e sou eu que não o encontro. Voltem para mim e não me deixem como todo o restante fez, por favor, só não vão embora.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Superficialmente rasa

- Tudo bem?

(Não. Ta tudo uma droga. E eu detesto esse calor insuportável que tem feito esses dias. Você já reparou como o mundo está de cabeça para baixo? Eu vejo crianças sendo torturadas e animais sendo mortos. Eu vejo indiferença no olhar das pessoas e ouço apenas o barulho de tiros. Não gosto dessas caras fechadas, desses dias corridos, dessas lágrimas falsas. Você ainda me pergunta se está tudo bem? Não gosto de ter que mentir que estou bem, mas que saída tenho eu? Como vou te explicar o quanto isso tudo tem me entristecido? E por que você entenderia? Seria uma contradição minha contar meus problemas quando eu acabei de citar a quantidade de conflitos que já existem no mundo. E o que eu faço? A verdade é que eu não estou bem, que eu quero explodir. Mas a verdade nem sempre é agradável e ninguém está disposto a conversar sobre isso. E se eu disser que cansa essa futilidade toda dessas conversas mornas que sempre perguntam as mesmas coisas inúteis esperando respostas pré-estabelecidas? E se eu disser que não estou bem e você, por tradição, me perguntar porquê? Eu sei que não quer mesmo ouvir minha ladainhas; sei que você não está realmente ligando para o que acontece com o resto da população mundial, assim como todas as outras pessoas. Ninguém liga para ninguém.  Sei também que você arranjaria uma maneira de fugir enquanto eu explico a causa disso.
Seria tanta tolice minha dizer isso à você? E, quer saber, claro que seria. Seria bobagem tentar dizer qualquer coisa que não seja confortável a seus ouvidos. Porque parece que ninguém se importa mesmo, todo mundo age com esse mesmo superficialismo sem se preocupar com isso. E me irrita, mesmo que eu esteja errada em ser assim. Me irrita que essas conversas sejam rasas, sem grandes conclusões e morais por trás. Então, tentando deixar para trás essa minha mania de ser extremamente densa e profunda, eu apenas digo o que você espera ouvir; digo o que todo mundo quer escutar para não precisar pensar demais em coisas que não lhes interessam e tento ser mais rasa, nem que seja apenas superficialmente)

- Tudo e você?

Garotas grandes não choram

E talvez, essa minha ansia por liberdade, independencia e vida própria seja apenas a causa de meu medo. Porque por mais adulta que eu tente ser, e por mais racional que eu tente agir, ainda assim sou criança.
Tenho inseguranças quando não vejo um rosto conhecido. Tenho medo do que há por trás do armário. E quando me vejo só, tenho vontade de gritar pelo nome que costumava ser meu refúgio; e que ainda é. 
Mas o relógio não me deixa mentir, e eu não permito enganar-me mais. O tempo passou, e me levou junto. Então aqui estou com minhas decisões a serem tomadas, caminhos a serem percorridos e problemas a serem resolvidos. Agora aqui estou eu, sozinha comigo mesma, e repetindo em minha cabeça que é só o escuro, e dele não vai sair nenhum monstro. Mesmo querendo correr amedrontada, eu me obrigo a permanecer parada, controlando-me. Eu reconheço que cresci e que não posso mais te deixar resolver minha vida, como era antes. Tenho que trilhar minha própria estrada mesmo sabendo que, de vez em quando, eu vou dar uma fugidinha para seus braços acolhedores. Mas isso não poderá acontecer com a mesma frequencia mais. A vida continua comigo e daqui para frente seremos apenas eu e minhas conclusões, meus passos perdidos e minha circunstância. Enfrentando as consequencias de meus erros e aprendendo com meu tropeços, eu sigo sozinha. 
Estou começando a andar com meus próprios pés, aprendendo a caminhar carregando meus pesos comigo e não deixando mais minhas malas nas suas costas. É assim que tem que ser agora. Já estava na hora de nossas mãos se separarem e eu atravessar a rua sem sua orientação. É só que eu estou insegura, com medo e cheia de incertezas. Mas não quero ver seus olhos preocupados, porque quero vê-los sorrindo com orgulho. Mesmo tendo plena consciencia de você me olhando, acenando com uma mão e desejando com todas as forças para que dê tudo certo, eu quase fracasso e corro de volta. É, eu sei que isso é tolice minha. Ainda assim, quero que saiba que eu estou até feliz de saber que consigo lidar comigo mesma. E eu vou te deixar só para poder continuar com minha vida, a partir do ponto em que você a entregou totalmente a mim. Vou sentir saudades e as lembranças sempre vão doer um pouco, mas agora é a hora de aceitar as mudanças. Agora é a hora de ser gente grande e deixar para trás esses medos infantis. É o momento de trocar as lágrimas por conquistas, de aprender ser forte e seguir em frente. É hora de crescer.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O que nós somos

Amar é coisa de bobo. Porque é isso que sei, é isso que eu sinto.
Nós dois conversando, o meu riso debochado e a sua mão flutuando pela janela do carro. É o que nós somos. Quando eu cedo espaço em mim para caber você. É isso que é, independente de como chamam por aí.
Amor, afinal, não é nenhuma palavra importante. É só uma entre tantas outras. "Eu te amo" não é especial, no fim das contas. Mas você segurando minha mão, isso é diferente. Você me carregando nas costas e me roubando um beijo, isso é especial.
E é isso que eu sei, não é simplesmente amor. Amor é pouco demais, pequeno e fácil demais.
Somos nós e o modo como nos tocamos. Eu e você, e o encaixe perfeito de nosso braços. É isso que te torna tão meu. Não o amor.
Não esse amor que não pode significar tanto sorriso, tanta lágrimas, tantas brigas e tanta compreensão mútua. Não essa mera palavra curta e sem grande abrangência, que só absorve carinho, além de si mesma.
Nossas mãos entrelaçadas. É o que me torna tão sua. Não esse conjunto de quatro letras, que não se estende para a amizade que cultivamos, para a raiva - algumas vezes - ou para a quantidade de equilíbrio que precisamos.
Amar é uma palavra vaga demais para caber tanto significado, um sentimento pouco demais para abrigar tudo isso que nós temos. E talvez seja por isso que eu gosto tanto de você. Porque você não simplesmente ama, você é tudo que o amor não consegue agregar, você é o que as palavras não conseguem distinguir. E assim como eu sou, você é, apenas.  
E ser é muito melhor.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

'[o fim do] Terceiro ano'

Esse texto já foi postado aqui, mas estou postando de novo com algumas modificações, já que agora o fim realmente chegou. E como já dizia o torto, "Estou meramente praticando dizer adeus a vocês"


Hoje é segunda feira e meu despertador tocou - Mais 10 minutinhos só - Eu pulei da cama e voei pro banheiro. Atrasada, de novo! 
O ônibus escolar passou buzinando e eu saí parecendo uma louca sem pentear o cabelo. Disse o Bom dia de sempre para o Andreo. Sentei do lado da mesma menina simpática de sempre.
Quando cheguei na sala, o pessoal da frente já estava lá.
Bom dia Noemi;
Oi Gui;
Gaaaby, tudo bem?;
Oi Torto?;
Mônicããão!;
- Oi Marianão!;
Bom dia Lary;
Oooooooi, gabí;
Oi, barata.
Joguei meu material no chão e me joguei na carteira. É tudo sempre tão igual que eu não percebo o tempo passando de um jeito assim, meio anormal.
Eu falo oi e sorrio para algumas pessoas, no dia seguinte eu não cumprimento ninguém e percebo que aquela menina do outro lado da sala está me encarando. No outro dia, nós tiramos fotos e na aula seguinte, é prova.
Tudo vai simplesmente acontecendo numa ordem de fatores desiguais. E eu, bom, não vejo a hora de ir embora.
Mas de repente me vem um nó na garganta. E agora está todo mundo assim, extasiado.
É um junção de todas as emoções possíveis e imagináveis, misturadas com o vazio do nada.
É uma loucura para acabar logo tudo isso e um aperto por saber que vai acabar. Uma alegria por saber que é um recomeço, e uma tristeza por saber que também é um fim.
É um sentimento tão estranho, uma mistura de tudo e nada, que só um adolescente poderia sentir.
Quase uma insanidade. Nossa cabeça gira tão cheia de recuperações, matérias, vestibulares e conteúdos que parece que vai explodir. Parece que não vamos aguentar chegar até o final e queremos desistir a toda hora. Ao mesmo tempo, tudo parece estar dizendo adeus. Todos os armários e bebedouros e até mesmo as carteiras. Todas as pessoas te olham como se nunca mais fossem te ver. É tudo tão intenso que choca, pasma. E tudo começa a virar 'último'. 'Ultimo' trabalho, 'ultima' vez que você está entrando naquela sala, 'ultima' olhada nos bancos, funcionários, professores e alguns colegas.
E embora seja aquilo que todos estavam loucos para chegar logo, quando chega, deixa todo mundo nesse estado de choque, com medo.
É o terceiro ano.
Enfim, aqui estamos. Nos perguntamos como foi que chegamos até aqui. Onde foi parar nosso giz de cera? E nossos cadernos de caligrafia?
Agora com a mesma intensidade da ansiedade que tínhamos para esse ano chegar logo, sentimos a tristeza por ele passar tão rápido.
E o que vamos fazer? Não haverá mais aquele friozinho na barriga no começo do ano para saber o que mudou na escola. Não haverá mais aquele abraço apertado nos colegas que você não viu duante as férias. Nem o conhecido desespero antes das provas. Não haverá mais dedos cruzados para a escolha dos seus professores. As carteiras estarão vazias e o despertador, bom, esse não tocará mais.
Alguns amigos também vão sumir. Aquele com quem você conversa pouco, mas que tem um sintonia com seus pensamentos. Aquela que senta do seu lado, e só abre a boca pra dizer bom dia. Os meninos que não perdem a piada e nem a chance de te zoar. Aqueles todos que você gosta tanto que chega a ser amor, mas que não são tão seus amigos e que nem mesmo o telefone deles você tem.
Pensando nisso, eu senti umas poucas lágrimas escaparem por meus olhos. Imaginei como seriam meus dias sem o Oi tímido da Noemi. Como serão os meus dias sem os chiliques do Vilarinho e as piadas idiotas do Mesquiari. Como serão os dias sem as conversas rápidas com a Flávia, o Gabriel, o Gênio, o Takano, e o pessoal do outro lado da sala, que, mesmo que eu não tenha tanto contato assim, sei que farão uma falta absurda. Como serão os dias quando eu não tiver mais a Gabrielle pra perguntar depois de todas as provas: "E aí? MB né?". E como será a vida, quando não houver mais o Torto para tirar com a minha cara ou o barata lendo mangás para eu dizer que ele está derretendo o cérebro? Como será a vida sem as meninas distribuídas em quatro carteiras a minha volta, passando bilhetes, colas e coisas de uma para outra? Já posso sentir, desde agora, um desfalque dentro mim.
Porque eu sei que aquelas boas e intimas amizades vão durar, pelo menos vão durar mais do que aquelas não tão próximas. Eu sei que aqueles amigos que andam comigo no intervalo vão continuar ali, talvez um pouco mais distantes, talvez com um pouco menos de contato, mas ainda assim, vão estar por ali.
Mas e aqueles outros? E os meninos do fundo, que sempre falam aquelas besteiras impossíveis de não rir? E o 'bora domingo beber'? E as pérolas da Camylle? E os nerds, que costumam fazer piadas de nerd e nós nunca entendemos nada? E as músicas bem boas que nós cantamos em coral? E nós todos, 3º A inteiro, como ficaremos separados? Sabe, o que vamos fazer quando não precisarmos mais bolar roteiros de ultima hora para entregar para a Gisele? O que faremos com as colas e os gabaritos, passados e repassados pela sala inteira? Me digam, o que vai acontecer com nossas boas e velhas risadas? Com as palhaçadas da Lary? Ou os infindáveis debates que quase sempre causavam polêmica na sala? E a "dancinha da vitória" da Gabi? O que vai acontecer com a moleza da Mari sem as nossas mãos para apertar? E as agressões da Mônica às outras pessoas, quem vai conter? Quem vai dizer ao Torto que ele está derretendo o cérebro? E quem vai bagunçar o cabelo do barata?
Não sei mais. Talvez daqui a alguns anos, alguém venha me contar que o Gênio virou professor de matemática. Ou talvez eu veja fotos tiradas pela Lary em algum jornal ou revista.
Talvez um dia, eu fique sabendo que a Amanda se formou em artes e ilustrou a nova edição do livro da alice ou que o Jão se tornou escritor de mangás, ilustrados também pela Amanda. Talvez também, eu veja o Barata na TV falando algo sobre jogos eletrônicos. E quem sabe eu não veja até mesmo o Torto no jornal ganhando prêmios com alguma grande descoberta química, logo ao lado de uma matéria sobre algum movimento revolucionário liderado pela Gabi.
E eu vou lembrar de como eramos todos muito bons juntos. De como parecia que a nossa sintonia era uma só e que o único motivo para nos dividirmos em panelinhas e grupos, era a timidez. Porque só conhecemos as pessoas direito e vemos o quão boas elas são, quando estamos prestes a deixá-las e, mesmo que isso seja injusto, é a maior certeza que podemos ter na vida.
Enfm, vou me lembrar dos dias memoráveis. Vou inevitavelmente esquecer alguns nomes. E vou descobrir que nunca quis ter deixado essa época. Vamos todos descobrir isso. Descobrir que, mesmo aqueles com quem não nos dávamos, farão falta.
Enquanto o tempo vai se esgotando, vamos nos despedindo silenciosamente uns dos outros. Em cada piada, em cada olhar e em cada sorriso, ouvimos o adeus mudo na garganta das pessoas. Esperando que conosco seja diferente e acreditando que ainda viveremos muita coisa juntos.
Infelizmente, é só para nos reconfortar, porque a separação é inevitável e sabemos que a maioria desses que estão sentados agora na nossa frente, nunca mais veremos. Ainda assim, nos olhamos com esperança, tendo a plena certeza que tudo valeu a pena e de que nada nunca vai apagar essa época do nosso coração. 
Porque o tempo vai passar, a memória vai esquecer e as fotos vão se perder, mas a maior lembrança vai ficar no coração.
E mesmo que hoje as diferenças sejam grandes, tenho certeza que, se pudéssemos escolher uma sala entre todas, seria essa: 3ºA 2010 - ETECAP.
Mesmo querendo gritar, pedir e implorar para que não vão embora, eu só digo um "Adeus", na esperança de que sirva como "Até logo" e torcendo para que a vontade de nos reencontrar seja maior que a saudade que deixamos uns nos outros.
Estranho dizer isso, mas obrigada por fazerem parte da minha vida. E mesmo que não pareça; mesmo que vocês duvidem disso; mesmo que eu não tenha citado alguns nomes aqui; Digo e repito como uma única certeza na vida: amo todos vocês e a saudade já começa a me sufocar desde agora.
Hoje é segunda feira, e meu despertador não tocou.


[ Video turma A 2008/2010 - ETECAP]




PS: Vocês são a coisa mais bonita que eu poderia levar comigo.

" E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz                                         Teremos coisas bonitas pra contar.                                                                                          E até lá vamos viver, temos muito ainda por fazer                                                                  Não olhe pra trás, apenas começamos, o mundo começa agora!" 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sobrevida

Não sai. Engasga. Pára antes que possa começar a existir.
Bloqueia a passagem e não arreda o pé. Não tem início e não tem fim. É para sempre. Não muda, não se mexe, não se altera. Deita e não levanta. Mata e não ressurge. Gruda na garganta, nos pulmões e envenena o coração. Espanca por dentro e se recusa a se retirar, enquanto ela está parada com os olhos desfocados e olheiras fundas.
Alguém que está passando na rua pergunta curioso: O que ela tem?
Um homem velho responde: Ela morreu.
E o primeiro alguém fala de novo: Mas ela ta andando, e comendo, e respirando.
O velho, então, muito sábio, diz: Isso não quer dizer que ela vive.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Palavras ao vento

Eu poderia escrever para vocês, mas estaria mentindo. As palavras são escritas para me libertar e, ainda que eu coloque nelas o sentimento que a outro pertence, elas serão sempre para mim mesma.
Porque, talvez, escrever seja, enfim, uma escapatória. Talvez eu não esteja beneficiando ninguém além de mim mesma, com essas palavras sincronizadas. E ainda seja como dizem que é, seja salvação; a minha própria salvação. Mesmo que haja pouco sentido e muita contradição. Mesmo que as palavras de outros corações, de outros textos e de outras pessoas falem tanto por mim e para mim, talvez o meu modo de escrever não atinja mais ninguém.
Então eu escrevo, talvez, para poder ter a chance de ser inocentada desse meu egoísmo. Para poder ter a chance de ser absolvida ao colocar não só os acertos para fora, mas também os erros.
Escrevo, quem sabe, para que possa apagar aquilo que não for coerente e não me agradar. Coloco no papel para poder transformar e moldar o que eu sinto até que esteja bom o bastante para voltar para mim.
Mas talvez eu só seja perdoada quando aprender a deixar as palavras fluírem através de mim em prol de outra pessoa, não para minha própria liberdade e salvação, mas para tentar iluminar outro caminho e guiar outros corações.
E, se quer saber, talvez sejam apenas palavras, e não traduzam certo o que era para elas representarem. Apenas palavras perdidas ao vento; jogadas ao mar, sem qualquer valor.
Talvez, quem sabe, seja só ilusão nossa pensar que as pessoas ao redor entendem o que escrevemos; o que realmente queremos dizer através das linhas. Na verdade, não me importa tanto assim; apesar do meu encanto pela escrita, eu sei bem que certas coisas não servem para escrever. Porque, mesmo que o lápis risque com força, o papel não entenderia a intensidade de alguns sentimentos, e as palavras jamais poderiam expressar certas emoções.
Então, por mais que eu tente ajudar alguém com meus textos e minhas teorias, eu sei que é preciso mais que palavras para descrever o que habita dentro de um coração e mais, muito mais, que lápis e papel para poder confortar uma alma. E espero que vocês saibam disso também.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Adolescente

Tenho que confessar que não me incomodaria em não ter rugas, mas não é esse o principal motivo para essa agonia toda que anda me rondando. O que significa ter 18 anos para você? Independencia? Ou talvez liberdade? Ouvi dizer que é apenas o começo da vida, da verdadeira vida. Mas o que seria essa vida? Se for trabalhar, casar, ter filhos e viver supostamente feliz, me desculpe, mas eu dispenso. 
Eu quero o sangue fervente correndo por minhas veias. Quero cometer erros e ter o direito de cometê-los, afinal o que mais seria essa fase senão a experimental? Quero agir de forma desconexa e não ser culpada por isso. Sim, eu quero ser rebelde sem causas e não ter que lidar com as conseqüências. Não quero ouvir que eu sou grande o bastante para resolver meus próprios problemas, ou que já sou velha demais para usar meu all star sujo. Eu quero ser adolescente e justificar a essência dessa fase. Poder falar gírias e gingar por aí sem ter que me preocupar. Irresponsável e teimosa. Eu quero gritar quando tiver vontade sem ter que parecer uma louca na menopausa e ouvir as pessoas em volta dizerem que "tudo bem, ela é só uma adolescente". Cantar músicas estranhas e inventar novos estilos. Por que uma mulher de mais de 20 anos, não pode ter o cabelo azul? Sabe, eu estou bem feliz com essa minha idade, e não quero que ela fique para trás. Quero ouvir as pessoas colocando a culpa por esse meu comportamento inadequado na adolescencia e somente nela. Ser insana e falar palavras sem sentido. 
Quero criticar a sociedade, fazer a revolução e não ter que me justificar, afinal, eu sou uma adolescente e é assim que tenho que ser, para sempre. Eu quero não precisar de motivos para surtar. Não precisar de razões para explodir. Quero poder pintar minhas unhas de cores flúor apenas porque é legal, sem ter que parecer aquelas senhoras querendo dar uma de eu sou jovem e antenada.
Eu gosto de poder me expressar e me revoltar com a vida. Gosto de ser insana e contraditória, as vezes. Gosta dessa falta de responsabilidades e contas a pagar. Porque eu gosto mesmo é de chocar essa sociedade passiva de sorrisos amarelados e mostrar que nós somos jovens e que vamos mudar o mundo. Eu quero continuar aqui, com meu jeans rasgado e minha regata desbotada. Continuar extrapolando e extravasando. Extravagando. Sabe, continuar com essa ânsia por liberdade e independencia. Com essa ânsia por revolução e por colo de mãe. 
Eu quero ser assim para sempre. Ser chorona, explosiva e intensa como uma adolescente deve ser. Nem sempre ser levada a sério, nunca ter cem por cento de certeza e viver em constante dúvida, delirante paradoxo e inegável anormalidade. Eu quero mesmo ser adolescente, ser chamada de louca e sair por aí inconseqüente. Adolescente que reclama, que contesta, que briga por besteira. Que bate o pé e chora de raiva e não de tristeza. Adolescente que se contradiz, se estranha, se ensina as porcariadas. Eu quero. 
Quero, quero, quero. Preciso e anseio. Na íntegra, completa e totalmente, incondicionalmente e plenamente. Essencial e fundamentalmente, eu quero é ser adolescente.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mariana

Era Mariana não pelo nome sozinho, mas porque a mãe queria Maria e o pai gostava de Ana.
Mariana que andava na rua, por causa da leveza herdada da mãe, mas se agarrava às calçadas devido a segurança do pai. Teimosa e birrenta, um retrato falado daquela que a colocara no mundo, mas compreensiva e obediente, só para contrariar. Bossa nova e rock'n'roll. A mistura mais doce, feita do mais amargo sabor. Mariana que era duas em uma só. O alcool do pai com o açúcar da mãe.
A mãe com o sorriso leve, e o pai sempre sério, e Mariana, que nada mais era além da soma dos pais, mantendo-se bipolar.
Ela que era a Mariana, mas não deixava de ser um pouco mais Maria e um pedaço maior de Ana. O pai que era bravo, e a mãe que era sossegada, e, juntos, levavam Mariana a ser contraditória.
A mãe que insistia no sim, e o pai que trovejava um não, enquanto Mariana, que era a junção pura dos dois, sempre pensava: "E se..?"