quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Obrigada

Eu não te trago flores, porque elas murcham. Não falo nada, porque você não pode mais me ouvir. E não venho uma vez ao ano, porque não vejo motivo. Estou aqui agora por livre e espontânea pressão e nada além disso.
Converso agora com uma placa, e sei que é apenas uma placa. Mesmo que, secretamente, eu permita-me acreditar que você está ao meu lado, passando seus dedos macios pelo meu cabelo. Ainda que, de vez em quando, eu finja que é verdade o que dizem. Finja que você me ouve e que me acompanha aonde quer que eu vá. Finja que suas mãos estão nas minhas.
Só que eu olho ao redor e não vejo nada além de obrigação. Eles todos vêm 'te ver', porque é dia de fazer isso. É dia de ver a placa com seu nome, e nada mais. É o mês em que temos o costume de acender umas poucas velas e deixar uma flor qualquer só para poder dormir a noite com a certeza de missão cumprida.
Ninguém faz porque se importa, ou por algum motivo especial. Apenas faz porque tem que fazer; faz para mostrar ao mundo que fez sua parte.
E, pensando bem, eu mesma nunca quis vir até aqui. E continuo não querendo. Porque não vejo sua presença em nenhum lugar deste jardim, e sei que não vou ver nunca mais. Mesmo que eu tente acreditar na sua existência sobrenatural, não consigo porque tenho plena consciência de que ela não existe. Não sei o que faço aqui, parada ao lado de um quadro de nomes pregado na grama. Não sei porque tenho que vir e fingir que você está feliz por eu ter vindo, sendo que não gosto dessa farsa.
Afinal, o que eles esperam que eu diga? O que querem que eu faça? Mesmo que eu grite seu nome e ainda que lágrimas escorram por minha face, nada vai mudar; nada disso trará de volta. E será, mais uma vez, tudo em vão.
Então me desculpe, mas eu não quero voltar a este lugar. Não quero ter que ver os mesmo cravos que te levaram embora e sentir esse cheiro repulsivo se não for por uma causa justa.
Porque eu não gosto nada desse jeito como as pessoas agem agora, como se se importassem.
Então eu só deixo registrado o óbvio, para não perder o costume e na remota esperança de que, um dia, você tome nota disso. Digo que sinto sua falta com a mesma intensidade que senti no primeiro dia. Digo que o seu espaço ainda está vivo dentro de mim; você ainda existe e respira dentro do meu coração. E deixo um sorriso forçado, não porque acredito que você o está vendo, mas porque sei que gostaria de vê-lo estampado em meu rosto se estivesses aqui.
E essa é e sempre será a única razão para que eu não reaja quando for obrigada a voltar aqui.

Um comentário:

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)