sábado, 23 de outubro de 2010

Ovelha negra

Eu realmente levava uma vida sossegada, pelo menos com relação a isso. Gostava do pouco, não precisava de muito para ficar impressionada, fascinada; deslumbrada. Tinha um sorriso fácil brincando nos lábios, que não precisava de nada para existir.
Eu cresci assim, não mudei. Mesmo sem a lama nas mãozinhas pequenas e com os livros ocupando espaço, tempo e mente, eu ainda estava lá com o mesmo lábio frouxo. Talvez o erro tenha ocorrido aí, nesse ponto. Porque mesmo que, por dentro, eu fosse a mesma, por fora eu havia mudado. E a antiga frase de não julgar um livro pela capa nunca foi obedecida. Todos me olhavam como se estivessem esperando; esperando pela troca de menina para mulher que não aconteceu plenamente. Talvez o erro foi crescer sem isso que vocês chamam de noção de realidade. Ou que eu chamo de pessismismo.
Foi quando a ficha caiu, sem que ninguém precisasse me dizer. Aprendi que no mundo dos adultos não existe confiança de olhos vendados, e ninguém gosta dos que ainda estendem a mão. Não entendem a verdade que alguns ainda levam ao sorrir.
A duras penas aprendi que a boba, errada e fora do contexto era eu, o tempo todo. Sozinha me dei conta de que só existe aceitação na inocência quando se é criança. E, por mais que tenha descoberto isso, não entendia. Não compreendia porquê não podia sorrir da mesma forma como fazia antes, e porque a mania de abraçar desses meus braços mal acostumados, não agradava mais ninguém. E me machucava que eu não pudesse mais mostrar meus desenhos de castelo, e que ninguém mais sorrisse para mim.
Percebi então que a peça torta era eu. Aquela que não encaixava e deixava o quebra-cabeças incompleto. E não notei isso sozinha, porque olhares me seguiam por toda a parte como quem pergunta: Você não vai crescer?
Mas eu nunca achei que crescer fosse reprimir o amor excessivo que eu sentia e guardá-lo apenas para mim. Agora que não há mais motivos para mascarar o inevitável fato, todos me perguntam quando eu vou deixar esses sonhos idiotas. Mas então isso se fez incoerente. Porque fazer crianças acreditarem em contos de fada, papai noel e coelho da páscoa? Só para depois deixarem que elas descubram sozinhas que nada disso existe? Isso é o que vocês dizem fazer parte do 'amadurecimento'? Pois eu continuo achando um tanto cruel que não possamos mais confiar uns nos outros e acreditar no que se sonha.
Mas o tempo passou e eu reformulei meus objetivos, deixando-os um pouco menos ilusórios; tentando enquadrar-me no padrão. Ainda assim, quando eu contei dos meus planos, só pude ouvir críticas e pessoas se perguntando onde eu estava com a cabeça, e onde eu pensava que vivia. Eu sei que não é o país das maravilhas, mas isso não me impede de tentar. Sei também que niguém mais acredita nem nos próprios sonhos, mas nem isso me impede de seguir em frente com os meus. Mesmo se eu quebrar a cara no final, eu sei que valerá a pena. E não vou tirar isso da cabeça.
Por o resto no lugar? Que resto? O que restou depois de jogar todas as esperanças no lixo? Então sou eu a ovelha negra só porque não deixei de acreditar no amor de verdade, na sinceridade de um abraço? Desculpe se eu não acredito nesse farsa de que ninguém é inocente e todos estão sendo falsos e agindo de má fé.
Porque, depois de tantas tentaivas de me adequar a essa sociedade cinzenta, eu acabi por decidir que prefiro acreditar nas minhas cores particulares que todos sempre me fizeram esconder. Mesmo que eu esteja errada, ou me iludindo com isso. Ainda assim, eu prefiro essa minha certeza de que, apesar de tudo, ainda somos humanos o suficiente para amar e sermos amados. Assumo que penso assim, mas nem por isso vou sumir. Gosto do amarelo, acredito no azul promissor e é bem aqui que vou ficar.
E se isso faz mesmo de mim ovelha negra, eu aceito e agradeço porque, se quer mesmo saber, eu não ligo e até prefiro.

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