quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Familiar

Soltei a porta devidro atrás de mim e congelei. Encarei paralisada e boquiaberta o novo, mas tão estranhamente conhecido, lugar onde eu me encontrava. Já estivera aqui antes? Parecia uma lembrança muito distante, quase como se não fosse minha, mas era confortadora. Jorros de flashs, conversas altas de senhoras rabugentas, e vozes infantis preencheram minha mente no que durou uma fração de segundo. Fui andando até os sofás azuis e sentei, analisando os fatos. Era a mesma hora, só que muitos dias, meses e anos depois. Talvez fosse até o mesmo relógio impiedoso que nunca se deu comigo, o mesmo sofá em que me esmaguei horas, as mesmas paredes branco-sujo em que eu desenhava carinhas felizes com a ponta dos dedos e até o balcão permanecia o mesmo em que, tanto tempo atrás, eu me estiquei para conseguir ver acima dele. Tudo tão familiar e tão diferente. Como se o angulo tivesse sido ajustado, aprimorado e adequado a minha nova visão, mas o foco fosse o mesmo.
Traços jovens e rostos inexperientes me disseram que as atendentes eram outras, não tão cansadas e nem tão simpáticas; educadas é um termo cabível, e só.
Desta vez o lugar estava vazio, desprovido das ondas de tensão geradas pelos seres humanos que circulavam por entre os corredores, à espera do negativo, no bom sentido. Vazio, silencioso e ondulando o tédio comum da manhã de sábado. Ficha concluída, procedimento pago e pouca espera foram seguidas pela voz rouca e com anos aparentes de uso da enfermeira. A tensão agora preenchia o cômodo, mas tinha uma única fonte - eu.
E depois do sacrifício, do medo e da tensão, passou. Não havia mais o déjà vu assaltando meu estômago e minhas memórias. Tudo normal, mesmo que curioso.
Uma ultima olhada e um ultimo flash me desarmou antes que eu atravessasse a porta de vidro para o lado de fora - a tão conhecida mão, segura e acolhedora, me segurava macia contra a sua enquanto a outra limpava minhas lágrimas. A pessoa que eu tentava ver através dos pequenos olhos molhados estava mentindo com um sorriso no rosto sobre a suposta 'picada' no meu braço e afirmava impacientemente que já estávamos indo embora.
Mas então sumiu. Se desfez no ar. Num piscar de olhos vertiginoso, percebi que a mão não estava mais na minha e que o 'ir embora' morreu ali, junto com aquela ultima lembrança, como se estivéssemos até hoje tentando encontrar o caminho para casa. Enquanto isso, eu entrei no carro e disse adeus à clínica, mais uma vez.

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