segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Alheia

Eu reconheço, admito, confesso e me entrego. Talvez haja mais de mim espalhada por aí, nos ventos, flores e oceanos, do que aqui dentro desse corpo.
Como num fácil livro de magia, eu sempre faço-me poética nas palavras, nas músicas e no olhar. Faço-me deslumbrada com uma beleza quase inexistente de tão invisível que é nesses dias corridos de hoje. Eu me deixo levar pelos devaneios que surgem à cabeça e sei que isso te assusta, como se eu pudesse sair de mim a qualquer momento - o que não deixa de ser algo provável.
Sentada na cadeira de balanço, eu viajo até o mais profundo dos mares, e permito-me voar num céu mais azul, onde as nuvens falam, sussurram, cantam baixinho com suas vozes amarelo-ventadas de sino. E vou além, cultivando uma forma não conhecida de flor e colhendo frutos estranhos num campo imaginário enquanto algumas poucas palavras suas ecoam e quicam dentro da minha mente alheia ao mundo. Sabe, eu não gosto da idéia de não conseguir prestar a devida atenção às suas palavras, mas é só porque eu gosto do som da sua voz. Gosto da maneira como o rouco da sua garganta soa bem em dias de chuva. Mas é que, parando para pensar, há muito mais beleza naquilo que o olhos vêem quando vagam sem rumo, do que naquilo que nos focamos e fixamos o olhar para tentar encontrar algum tipo de razão. Há beleza na irracionalidade e é exatamente quando estamos inconscientes do ambiente ao redor, que vemos a verdadeira cor nele. Sem máscaras e sem disfarces, é só quando a insanidade assume o lugar da lucidez que conseguimos enxergar aquilo que a realidade esconde, por ser tão invejável e ofuscante; tão inigualável que faz com que o real se torne sem graça.
E eu gosto de ser assim, alucinada com o que está por baixo dos panos. Me faz feliz que eu consiga ir até o sol, tocar a lua e deixar esse corpo e essa matéria toda que me incomodam sem ter que tirar literalmente meus pés do chão. Mesmo sabendo que isso te intriga, te choca, te assusta e te deprime, eu gosto de não estar presa dentro de mim mesma. Tenho consciencia da maneira como seus olhos tornam-se pontos de interrogação quando me vêem despreender-me do humano e conectar a freqüência única e perturbadoramente bela do sentir, mas não posso evitar; não quero evitar.
Como naquela vez em que começou a chover e eu me inclinei em direção às gotas, fechando os olhos e respirando suavemente, derretendo conforme a àgua, saboreando o cheiro da terra molhada, o gosto úmido da grama verdinha e você, sempre racional demais para ver a aura cinza-branco-perolada que a chuva exala, perguntou se eu era mesmo deste planeta. É, talvez eu tenha sido apenas um produto acidental da matéria; produto esse que não foi feito para o fixo, o explicável. Produto que não é tocável, porque é ligado à cor, ao som; ligado à tudo aquilo que não é visível, comprovado racionalmente, palpável.
E agora sou eu quem pergunto porquê você, com essa racionalidade toda, não vê que o mais bonito está no além do que o mundo nos faz acreditar. Há vida do outro lado desse plano gasto e apagado, menino. Eu já não te disse que você tem que aguçar seus sentidos? Pode me chamar de louca, anormal ou estranha, porque eu não ligo. Prefiro essa minha loucura do que essa sua sanidade forçada que te cega enquanto você pensa estar evoluindo por ser mais racional. Essa lucidez que só te prende ao chão me causa repulsa.
E mesmo que isso implique em uma anormalidade, eu gosto do cheiro do por-do-sol e do gosto da pedra molhada. E tenho pena que você, como todos os outros, só veja o que está fácil de enxergar, bem em frente aos seus olhos. Tenho pena porque, pessoas assim, estarão sempre algemadas a si mesmas, impermeáveis à luz, imunes à verdadeira vida; à real beleza.
Enquanto eu, bom, sempre terei aquela minha porção de alegria bem escondida nos bolsos graças ao que vocês chamam de loucura.

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