sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Abrigo

Tão perto que chega a ser quase palpável; quase, se não encontrasse um jeito de escapar novamente toda vez que eu me aproximo.
É praticamente uma ofensa que você esteja tão perto de mim. Um insulto, quando sou obrigada a respirar perto de você, e sentir esse perfume absurdo, unicamente seu. Não é justo nem o jeito que você anda.
Mas do outro lado da moeda, no seu território, só há indiferença. Enquanto eu me desmancho no vento toda vez que o vejo, você está simplesmente vivendo sua vida.
E na mesma linha que eu descrevo suas expressões tão conhecidas por mim, você rabisca alguns poucos bonecos-palito. No mesmo livro em que eu conto a sua rotina que já memorizei, as suas mãos deslizam distraidamente apenas para passar o tempo, sem notar que do outro lado da página eu te observo, te leio; interpreto.
Como quando segui e contei cada passo seu; pegada por pegada na areia enquanto você vagava sem rumo pela beira da praia. Ou quando você pediu um suco de laranja para o moço do quiosque e ele não soube contar o troco. Até que seus olhos mudaram de direção e focaram em mim, perdida nos seus movimentos. E desde aquela vez, você não deixou mais de cruzar o seu olhar pelo meu caminho, desviando sempre que eu estou perto de corresponder. Mas o que isso quer dizer? Que você gostava de mim e ainda gosta? Quer dizer que ainda há alguma razão que te faz olhar para mim?
Ei! Porque você precisou complicar tanto as coisas? Não estava bom só com o fato de eu continuar a te observar enquanto você fingia indiferença? Então porque agora você resolveu que queria olhar em meus olhos de novo? Só para me dar esperanças falsas? Porque motivo seu olhar constantemente me encontra, mas não me deixa encontrá-lo de volta? Me irrita como você realmente pensa que eu não percebi.
Então diz, admita na minha frente que, depois de tanto me roubar olhares perdidos, não percebeu como eu estou sempre aqui, por perto. Confesse que seus olhos não me procuram também, de vez em quando, como um desabrigado pedindo refúgio, mesmo que você tente disfarçar.
Mesmo com essa sua mania de fugir sempre que eu estou quase lá, tornando você quase meu. Ainda que, ao tocar minha mão, você se transfome em líquido e se esvaia pelas frestas de meus dedos.
E não há razão para que eu continue a te contornar, desenhar e pintar com meus olhos já que não existe borracha no mundo que possa apagá-lo. Você se importa com a forma como fica bem mais feio no meu desenho? Espero que não perceba isso, do mesmo modo como não nota que as palavras me fogem. Por que eu estava brava com você mesmo? Ah, menino. Minha raiva não dura nem o tempo que eu demoro para escrever essa palavra. E agora, mesmo sabendo o quanto eu deveria odiar isso, eu só consigo pedir que você nunca tire seus olhos dos meus. Me deixe brincar na borda desse seu abismo mais um pouco, e tudo ficará bem. Talvez o infinito acabe aqui, bem no seu sorriso torto, mas eu não me importo desde que você siga comigo nele, de mãos dadas. E depois a gente resolve o que faz com a sua nova garota e meu novo menino; ambos sabemos que eles estão apenas de passagem e que, além de nós mesmos, ninguém mais vem para ficar na nossa vida. Porque mesmo que você sempre corra mais rápido que eu, mesmo que você fuja sempre que eu estou perto de te encontrar e mesmo que você desvie o olhar, ainda assim, eu sei que, se há um lugar para o qual você sempre quis fugir e refugiar-se, bem, aqui está... estampado em castanho claro bem embaixo de minhas pálpebras, como um abrigo que espera por seu ocupante.

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