sábado, 30 de outubro de 2010

Instantaneo

Andando na rua, eu sigo o mesmo roteiro de sempre. A mesma rotina.
Mas, ao perceber alguém me observando e erguer os olhos para tentar localizar o individuo, eu me deparo com você. Transformo-me em estátua, fixo o olhar e paro de respirar. Perco o chão, o senso, o batimento, a razão. Perco tudo que havia construído desde a sua partida e me dou conta do inegável: você voltou.
Com força e intensidade total, como um furacão; tsunami que invade a cidade antes que alguém se dê conta. Renasceu do pó das cinzas; ressurgiu do fundo falso de um baú esquecido.
Como se atreve? Depois de anos. Depois do tempo que eu demorei para te colocar para fora dos meus sonhos, aqui está você novamente, pronto para o segundo round.
É perceptível a mudança. Não tão bonito, não tão irresistível. Não mais insuportavelmente charmoso. Mas não mudou de verdade; o mesmo corpo magrelo e alto continua aí, as mesma roupas e o mesmo estilo. E o cabelo, ah, o cabelo! A razão pela qual eu olhei para você naquele primeiro dia, tanto tempo atrás. Um pouco mais curto sim, mas do mesmo amarelo suave de sempre. Talvez seja eu que tenha mudado, no fim das contas. Porque agora, com seus olhos colados em mim e não mais o contrário, eu percebo que nós acabamos por inverter nossos papéis na trama. Eu não sou mais o patinho feio que só ganhava olhares insatisfeitos e debochados. E você, bem, não é mais o cisne lindo e maravilhoso que matava só com um sorriso.
Entendo, porém, que os papéis foram trocados apenas parcialmente. Você não se tornou um patinho feio, nem eu me fiz cisne. Agora, quem sabe, estejamos no mesmo patamar; iguais.
Mas isso não muda a situação, menino. Ainda parada aqui, sem fôlego e desnorteada, eu me dou conta do que está acontecendo. Você não percebeu que voltaram também os sonhos, ilusões e a pontinha de esperança? Não é justo que você faça isso comigo. Não dessa maneira, não outra vez.
Então me diz que não lembra de nada, nem do meu rosto e nem das minhas tentativas idiotas de me aproximar de você. Diz que nunca me viu na vida e acaba logo com esse teatro. Acaba com essa farsa; destrói o pouco de expectativa que eu acabei criando sem querer ao te olhar nesse milésimo de segundo que parece uma eternidade.
Eu sei que não é como era antes. Eu não sou mais louca por você e não tenho crises de abstinência. Mas eu tenho medo de fraquejar. Você voltou sem um aviso prévio, me pegou de guarda baixa. E agora eu não sei o que faço.
Eu estou empacada de novo?! Presa ao mesmo conflito de antes. Só que nós crescemos, e eu não posso mais sustentar esse platonismo absurdo. Porque você? Justo agora que eu estava conseguindo seguir com a minha vida de novo; justo quando eu finalmente assumi o controle sobre meus sonhos, planos e metas você vem e destrói tudo novamente. Como se estivesse apenas esperando eu reconstruir o castelo de cartas, colocar a última, para então vir e assoprar o trabalho de anos. Como se minha sorte e você fossem cúmplices nessa piada de mal gosto que pregaram em mim. E agora até minha mente se faz incoerente.
Ar. Você está roubando meu ar novamente? O que mais quer de mim? Meu coração, minha alma, meus pensamentos, meu ar e o que?
Então eu percebo - com um estalo tão alto que quase me deixa surda - que ainda estou no meio da rua, segurando um côco gelado e o troco; prendendo a respiração e boquiaberta. Meus olhos fixos, presos e escravizados na visão impossível; no quadro que pintei tantas vezes em minha mente: nós dois nos olhando, ambos admirando um ao outro e não apenas eu roubando olhadelas furtivas.
E depois de apenas milésimos de segundos que levei para encontrar seu olhar, ter esse discussão interna e criar esperanças, eu apenas pisco meus olhos - já secos de tão vidrados no improvável - e acordo do transe, ofegante pelo tempo sem respirar, atordoada; completa e totalmente perdida. Mas surpreendentemente inteira.
Não pela metade, não desiludida e não empacada como pensei que estaria quando me desse conta do fato, quando absorvesse a realidade que está bem diante de meus olhos.
Apenas inteira, constituída, inalterada.
Com outro estalo, porém mais parecido com um "POP", percebo que nada aconteceu realmente. Você me viu e eu, quando percebi quem estava me olhando, tive um breve momento de deja vu. Uma breve recaída pela surpresa e somente por isso. Nada mais. Porque agora até você percebeu que aquela menina frágil e inocente, tornou-se essa mulher para quem você está olhando agora. Essa mesma por quem seu queixo caiu.
E mesmo notando que você ainda está aí vidrado e imóvel, com certeza reconhecendo esse rosto quadrado que sempre tentara te fazer notá-lo, eu vejo que não ligo. Não me importo que você ainda esteja me olhando descaradamente, atônito, bobo, com a boca escancarada e os olhos arregalados, porque ainda não se recuperou do choque. Não dou a mínima se causei algum impacto em você, como frequentemente acontecia comigo naquele tempo.
E, por isso, eu - totalmente curada - apenas continuo meu caminho pela calçada, surpresa por esse encontro imprevisto e estranhamente engraçado enquanto seus olhos ainda me contornam, fazendo seu pescoço dobrar para que possam me acompanhar até a esquina. Viro-me mais uma vez para trás para me certificar que você está aí mesmo e ter certeza de que eu estou mesmo te deixando; encontro seus olhos e não me perco neles, apenas rio comigo mesma, percebendo que você é passado e que eu aceitei isso inconscientemente.
Dou-me conta de que não há mais nada que me prenda nessas íris absurdamente verdes. Nunca houve, na verdade. Porque agora, é o meu castanho claro que está te hipnotizando, e é você quem sorri convidativo para mim. Mas descubro apenas que eu sou bem melhor sem você, e sigo meu caminho pela mesma trilha, porem dessa vez tendo certeza de que te deixei para trás, enterrado com uma rosa em um buraco bem fundo e distante, perdido no meu passado. E concluo, finalmente, que esse foi só um encontro casual, uma queda momentânea e uma lembrança divertida. Um sentimento instantaneo que me atingiu no breve segundo que te flagrei do outro lado da rua, mas que passou assim que pisquei meus olhos. Instantâneo, momentâneo; daquele tipo que passa e não volta mais. Mesmo que seja cedo para dizer jamais, sei que não é tarde demais para te dar adeus - definitivamente.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Utopia

A ansiedade, espera que me mata. Sonha acordada com o encontro que não é feito de dois corpos, mas sim dois corações. Centenas de indivíduos, porém, soando como uma única canção, sendo separados de outro grupo - não tão grande - mas que, por sua vez, forma outro batimento conjunto; uníssono. Palco e platéia. O pulso e o pulsar.
A vontade de sobressair entre os tantos que sentem o mesmo que você. Gritar mais alto, com mais fôlego. Mostrar-se mais admiradora que os outros que estão presentes.
Querer ser notada por eles, que nada mais são, além de pessoas normais; como eu, como você.
Querer abraçá-los e dizer que os ama. Mesmo sabendo que não ama, assim, como amam. Ama a música, o jeito de tocar, meio virado de lado, fazendo careta. Ama as roupas,e o modo debochado de cantar canções protestantes. Ama porque gosta, admira, inveja até, de vez em quando.
Achar bonito não pela beleza, mas pela sonoridade das vozes e instrumentos que lhes foram dados. Pela maneira como soam todos juntos, uniformes, convincentes, decididos.
Gritar porque transborda. Chega a superfície a emoção, e salta dos seus lábios mesmo que você não permita-se esse tipo de reação.
E gritar mais ainda; com pulmões, alma e coração, quando os vê ali, apenas alguns passos de distancia. Não suportar a explosão dentro de você e acabar por perder o controle, jogar as mãos para o alto e, com a maior euforia, deixa-se gritar junto com a maré da multidão que canta em um única voz, um único som, sem parar:

TI-TÃS,  TI-TÃS,  TI-TÃS.

 
22/10/2010 - Campinas Hall

São pessoas como você; comem como você, agem como você. Mas são também os Titãs, que tocam um rock debochado; aqueles das letras protestantes. Aqueles que você se esmaga, entorta, estica e empurra, só para poder ver um pedacinho do palco onde pisam. Mesmo que seja indiferente para eles todo o seu esforço e mesmo que saiba disso, faz um mundo de diferença para você o pouquinho que pode vê-los em ação.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ovelha negra

Eu realmente levava uma vida sossegada, pelo menos com relação a isso. Gostava do pouco, não precisava de muito para ficar impressionada, fascinada; deslumbrada. Tinha um sorriso fácil brincando nos lábios, que não precisava de nada para existir.
Eu cresci assim, não mudei. Mesmo sem a lama nas mãozinhas pequenas e com os livros ocupando espaço, tempo e mente, eu ainda estava lá com o mesmo lábio frouxo. Talvez o erro tenha ocorrido aí, nesse ponto. Porque mesmo que, por dentro, eu fosse a mesma, por fora eu havia mudado. E a antiga frase de não julgar um livro pela capa nunca foi obedecida. Todos me olhavam como se estivessem esperando; esperando pela troca de menina para mulher que não aconteceu plenamente. Talvez o erro foi crescer sem isso que vocês chamam de noção de realidade. Ou que eu chamo de pessismismo.
Foi quando a ficha caiu, sem que ninguém precisasse me dizer. Aprendi que no mundo dos adultos não existe confiança de olhos vendados, e ninguém gosta dos que ainda estendem a mão. Não entendem a verdade que alguns ainda levam ao sorrir.
A duras penas aprendi que a boba, errada e fora do contexto era eu, o tempo todo. Sozinha me dei conta de que só existe aceitação na inocência quando se é criança. E, por mais que tenha descoberto isso, não entendia. Não compreendia porquê não podia sorrir da mesma forma como fazia antes, e porque a mania de abraçar desses meus braços mal acostumados, não agradava mais ninguém. E me machucava que eu não pudesse mais mostrar meus desenhos de castelo, e que ninguém mais sorrisse para mim.
Percebi então que a peça torta era eu. Aquela que não encaixava e deixava o quebra-cabeças incompleto. E não notei isso sozinha, porque olhares me seguiam por toda a parte como quem pergunta: Você não vai crescer?
Mas eu nunca achei que crescer fosse reprimir o amor excessivo que eu sentia e guardá-lo apenas para mim. Agora que não há mais motivos para mascarar o inevitável fato, todos me perguntam quando eu vou deixar esses sonhos idiotas. Mas então isso se fez incoerente. Porque fazer crianças acreditarem em contos de fada, papai noel e coelho da páscoa? Só para depois deixarem que elas descubram sozinhas que nada disso existe? Isso é o que vocês dizem fazer parte do 'amadurecimento'? Pois eu continuo achando um tanto cruel que não possamos mais confiar uns nos outros e acreditar no que se sonha.
Mas o tempo passou e eu reformulei meus objetivos, deixando-os um pouco menos ilusórios; tentando enquadrar-me no padrão. Ainda assim, quando eu contei dos meus planos, só pude ouvir críticas e pessoas se perguntando onde eu estava com a cabeça, e onde eu pensava que vivia. Eu sei que não é o país das maravilhas, mas isso não me impede de tentar. Sei também que niguém mais acredita nem nos próprios sonhos, mas nem isso me impede de seguir em frente com os meus. Mesmo se eu quebrar a cara no final, eu sei que valerá a pena. E não vou tirar isso da cabeça.
Por o resto no lugar? Que resto? O que restou depois de jogar todas as esperanças no lixo? Então sou eu a ovelha negra só porque não deixei de acreditar no amor de verdade, na sinceridade de um abraço? Desculpe se eu não acredito nesse farsa de que ninguém é inocente e todos estão sendo falsos e agindo de má fé.
Porque, depois de tantas tentaivas de me adequar a essa sociedade cinzenta, eu acabi por decidir que prefiro acreditar nas minhas cores particulares que todos sempre me fizeram esconder. Mesmo que eu esteja errada, ou me iludindo com isso. Ainda assim, eu prefiro essa minha certeza de que, apesar de tudo, ainda somos humanos o suficiente para amar e sermos amados. Assumo que penso assim, mas nem por isso vou sumir. Gosto do amarelo, acredito no azul promissor e é bem aqui que vou ficar.
E se isso faz mesmo de mim ovelha negra, eu aceito e agradeço porque, se quer mesmo saber, eu não ligo e até prefiro.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Familiar

Soltei a porta devidro atrás de mim e congelei. Encarei paralisada e boquiaberta o novo, mas tão estranhamente conhecido, lugar onde eu me encontrava. Já estivera aqui antes? Parecia uma lembrança muito distante, quase como se não fosse minha, mas era confortadora. Jorros de flashs, conversas altas de senhoras rabugentas, e vozes infantis preencheram minha mente no que durou uma fração de segundo. Fui andando até os sofás azuis e sentei, analisando os fatos. Era a mesma hora, só que muitos dias, meses e anos depois. Talvez fosse até o mesmo relógio impiedoso que nunca se deu comigo, o mesmo sofá em que me esmaguei horas, as mesmas paredes branco-sujo em que eu desenhava carinhas felizes com a ponta dos dedos e até o balcão permanecia o mesmo em que, tanto tempo atrás, eu me estiquei para conseguir ver acima dele. Tudo tão familiar e tão diferente. Como se o angulo tivesse sido ajustado, aprimorado e adequado a minha nova visão, mas o foco fosse o mesmo.
Traços jovens e rostos inexperientes me disseram que as atendentes eram outras, não tão cansadas e nem tão simpáticas; educadas é um termo cabível, e só.
Desta vez o lugar estava vazio, desprovido das ondas de tensão geradas pelos seres humanos que circulavam por entre os corredores, à espera do negativo, no bom sentido. Vazio, silencioso e ondulando o tédio comum da manhã de sábado. Ficha concluída, procedimento pago e pouca espera foram seguidas pela voz rouca e com anos aparentes de uso da enfermeira. A tensão agora preenchia o cômodo, mas tinha uma única fonte - eu.
E depois do sacrifício, do medo e da tensão, passou. Não havia mais o déjà vu assaltando meu estômago e minhas memórias. Tudo normal, mesmo que curioso.
Uma ultima olhada e um ultimo flash me desarmou antes que eu atravessasse a porta de vidro para o lado de fora - a tão conhecida mão, segura e acolhedora, me segurava macia contra a sua enquanto a outra limpava minhas lágrimas. A pessoa que eu tentava ver através dos pequenos olhos molhados estava mentindo com um sorriso no rosto sobre a suposta 'picada' no meu braço e afirmava impacientemente que já estávamos indo embora.
Mas então sumiu. Se desfez no ar. Num piscar de olhos vertiginoso, percebi que a mão não estava mais na minha e que o 'ir embora' morreu ali, junto com aquela ultima lembrança, como se estivéssemos até hoje tentando encontrar o caminho para casa. Enquanto isso, eu entrei no carro e disse adeus à clínica, mais uma vez.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Abrigo

Tão perto que chega a ser quase palpável; quase, se não encontrasse um jeito de escapar novamente toda vez que eu me aproximo.
É praticamente uma ofensa que você esteja tão perto de mim. Um insulto, quando sou obrigada a respirar perto de você, e sentir esse perfume absurdo, unicamente seu. Não é justo nem o jeito que você anda.
Mas do outro lado da moeda, no seu território, só há indiferença. Enquanto eu me desmancho no vento toda vez que o vejo, você está simplesmente vivendo sua vida.
E na mesma linha que eu descrevo suas expressões tão conhecidas por mim, você rabisca alguns poucos bonecos-palito. No mesmo livro em que eu conto a sua rotina que já memorizei, as suas mãos deslizam distraidamente apenas para passar o tempo, sem notar que do outro lado da página eu te observo, te leio; interpreto.
Como quando segui e contei cada passo seu; pegada por pegada na areia enquanto você vagava sem rumo pela beira da praia. Ou quando você pediu um suco de laranja para o moço do quiosque e ele não soube contar o troco. Até que seus olhos mudaram de direção e focaram em mim, perdida nos seus movimentos. E desde aquela vez, você não deixou mais de cruzar o seu olhar pelo meu caminho, desviando sempre que eu estou perto de corresponder. Mas o que isso quer dizer? Que você gostava de mim e ainda gosta? Quer dizer que ainda há alguma razão que te faz olhar para mim?
Ei! Porque você precisou complicar tanto as coisas? Não estava bom só com o fato de eu continuar a te observar enquanto você fingia indiferença? Então porque agora você resolveu que queria olhar em meus olhos de novo? Só para me dar esperanças falsas? Porque motivo seu olhar constantemente me encontra, mas não me deixa encontrá-lo de volta? Me irrita como você realmente pensa que eu não percebi.
Então diz, admita na minha frente que, depois de tanto me roubar olhares perdidos, não percebeu como eu estou sempre aqui, por perto. Confesse que seus olhos não me procuram também, de vez em quando, como um desabrigado pedindo refúgio, mesmo que você tente disfarçar.
Mesmo com essa sua mania de fugir sempre que eu estou quase lá, tornando você quase meu. Ainda que, ao tocar minha mão, você se transfome em líquido e se esvaia pelas frestas de meus dedos.
E não há razão para que eu continue a te contornar, desenhar e pintar com meus olhos já que não existe borracha no mundo que possa apagá-lo. Você se importa com a forma como fica bem mais feio no meu desenho? Espero que não perceba isso, do mesmo modo como não nota que as palavras me fogem. Por que eu estava brava com você mesmo? Ah, menino. Minha raiva não dura nem o tempo que eu demoro para escrever essa palavra. E agora, mesmo sabendo o quanto eu deveria odiar isso, eu só consigo pedir que você nunca tire seus olhos dos meus. Me deixe brincar na borda desse seu abismo mais um pouco, e tudo ficará bem. Talvez o infinito acabe aqui, bem no seu sorriso torto, mas eu não me importo desde que você siga comigo nele, de mãos dadas. E depois a gente resolve o que faz com a sua nova garota e meu novo menino; ambos sabemos que eles estão apenas de passagem e que, além de nós mesmos, ninguém mais vem para ficar na nossa vida. Porque mesmo que você sempre corra mais rápido que eu, mesmo que você fuja sempre que eu estou perto de te encontrar e mesmo que você desvie o olhar, ainda assim, eu sei que, se há um lugar para o qual você sempre quis fugir e refugiar-se, bem, aqui está... estampado em castanho claro bem embaixo de minhas pálpebras, como um abrigo que espera por seu ocupante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Isabela

Nós nunca fomos assim, do tipo amigas-inseparáveis. Acho que nem nunca fomos melhores amigas, apesar de que já estivemos bem próximas disso. Mas mesmo assim, eu sinto sua falta como se você fosse minha irmã.
Talvez seja até estranho isso. Porque sempre foi assim. Longe ou perto, você sempre foi aquela de sempre. Mesmo com tantas pessoas a nossa volta. E as vezes eu me pergunto: "Por que você?". Poderia ser qualquer uma, mas não é.
Eu não sei explicar o que nos une, mas só de saber que você existe e que está feliz, eu já fico feliz também. Como se houvesse uma ligação desconhecida, que me faz acreditar que nada nunca esteve entre nós duas e que fomos nós mesmas que colocamos algumas barreiras nessa amizade talvez por não termos mais tantos assuntos em comum. E eu entendo isso, ainda que não goste dessa distância; eu entendo que agora você tem suas amigas e seus segredos com elas; entendo que você tem um namorado e que nós duas crescemos, infelizmente, separadas. Mas eu queria mesmo que você me desculpasse por muitas vezes não ter te dado a atenção que devia. Me desculpasse por nunca ligar para você, quando você me ligava quase todos os dias só para bater papo. Me desculpasse por ter deixado você sozinha a maior parte do primeiro ano, sabendo que você não tinha ninguém conhecido na sua sala. E me desculpasse, antes de qualquer coisa, por não ser nem metade da amiga que você foi e ainda é para mim.
Me desculpa mesmo por nunca ter feito tudo o que você fez por mim.
Ah Isa! Você foi a única que esteve comigo no pior momento da minha vida, e isso não é algo que se esquece assim, fácil. Você foi a única que aceitou ser minha amiga naquela época em que eu era "a estranha'. E nada no mundo pode retribuir isso, nada mesmo.
Por isso tudo, só queria mesmo que você soubesse que tem um lugar insubstituível no meu coração da mesma forma que sempre teve. Porque eu amo você muito e o que mais gosto em você ainda está aí dentro do seu coração. Eu sei que pode parecer besteira, mas sinto que só você sempre me aceitou, de bom grado e sem pedir nada em troca, exatamente como eu sempre fui; meio idiota, meio tapada, meio palhaça-de-circo-mal-sucedido.
E nós nos tornamos amigas assim, eu sendo eu mesma e você sendo você mesma; sem adicionais.
Então eu acho que, antes de qualquer coisa, você precisa saber que, para mim, essa é a verdadeira amizade. Aquela que não exige mudanças, ou transformações. Esse é o verdeiro sentimento que une pessoas. Amizade que é amor, que é irmandade. Mesmo você sendo uma pessoa dez mil vezes melhor que eu, ainda assim, você continua aqui perto de mim.
Eu amo você, Isabela. Desse jeito, dessa forma. Exatamente como você é.
Para sempre, e sempre assim.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mas passa

Não esconda mais essas suas lágrimas, menina. Chora, arranca com as unhas; põe para fora. Rasga o pedacinho que ficou grudado; tira tudo que ainda resta. Ninguém nunca disse que seria fácil, mas também nunca te disseram que era tão difícil assim. Eu sei, pequena. Mas não se pode levar nada ao pé da letra.
Sei que as palavras parecem vãs agora; ilusórias e impossíveis. Mas passa; passa sim. Você sabe disso. Demora, dilacera, sangra até quase não haver mais sangue. Tudo isso só para você ver que, no fim das contas, não era nada demais. Hoje ainda dói, e amanhã vai doer mais ainda. Semana que vem vai corroer, e nos próximos meses vai queimar numa brasa que parece infinita. Mas, quando acordar pela manhã, verá que deixou de existir essa parte que doía em você, e a vida vai seguir como sempre foi.
Pode ser que as memórias ainda machuquem um pouco, e o incomodozinho no estômago volte de vez em quando, mas vai passar também. Da mesma forma que passou quando seu primeiro amor mudou de escola. Como quando você cortou o joelho e achou que nunca mais iria parar de arder, e parou.
Não vai ser para sempre, não, não vai. Dói agora, sufoca e faz mal, mas não mata. E talvez você pense que a morte seja até melhor; menos dolorosa. Só que não é. Porque a vida passa, mas a morte fica empacada na mesma dor para o resto da eternidade.
Passa a vida, assim como o tempo, as estações, a idade. Passa a dor também, mesmo que não dê indícios de que vai passar.
Mesmo que, por enquanto, seja infinito.
Machuca, faz chorar, faz gritar e quebra teu coração em pedaços menores que areia, eu sei, acredite.
Mas, ainda assim, passa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pombeando

Depois de tantas indas e vindas, confusões e difusões e perspectivas de vida diferentes, que se alteram rapidamente enquanto transito de uma casa para outra, talvez eu tenha desenvolvido um tipo de proteção. Porque antes era angustiante, desgastante e me consumia por inteiro. Antes, me desesperava e fazia-me perder a esperança. Era torturante ouvir que havia cada vez mais problemas, e cada vez menos soluções no meio daqueles que eu amava mais que a mim mesma e ainda amo. Ouvir os dilemas caseiros alheios e descobrir que eu me importava com eles mais do que com os meus próprios casos sem solução.
Então eu encontrei meu centro; meu ponto de ebulição. Resolvi que podia tentar focar mais essa agonia em algo que fosse realmente importante; algo que estivesse mesmo com defeito e que eu pudesse consertar. Algo solucionável.
Porque, bem a tempo, eu descobri também que tudo não passava de patifaria e exagero de indivíduos sem nada além de reclamações para preencher o dia. Não passava de mera distração e casualidade. Era normal comentar sobre uma dor aqui ou um dia chuvoso ali, reclamar sobre a inflação e tentar arrancar do próximo algum tipo de olhar piedoso. Era normal e ainda é essa auto piedade que alguns sentem. A diferença é que eu não entendia isso, não compreendia porque pareciam todos estar tão tristes e tão decepcionados com a própria vida. Porque, olhando ao redor, eu via sim algumas falhas, mas também reconhecia a beleza do pão quente de manhã em um mundo que morre de fome todos os dias; a maravilha de ter uma casa enquanto muitos dormem na rua. Ainda assim, me fazia querer explodir o mundo quando via tantos rostos conhecidos distorcidos, chorando por algum tipo de dor.
Felizmente eu cresci e percebi que não há nada tão errado; não dessa forma como me contam. A questão em si está em como o ser humano nunca está satisfeito, e em como pessoas que amam demais tem a necessidade de ver sorrisos nos rostos das pessoas que as cercam, não entendendo que, para essas pessoas, não há infelicidade nas reclamações, mas prazer.
Por isso, eu me tornei imune a toda essa ladainha e essas lágrimas falsas. Elas ainda me surpreendem e me pegam de guarda baixa, mas não me fazem querer arrancar os cabelos de angústia por achar que alguém que eu amo está sofrendo. Eu finalmente entendi que não há sofrimento em toda essas conversa fiada, há apenas a falta de conteúdo na hora de elaborar uma conversa. Eu entendi que ninguém está realmente triste com determinado problema; apenas está tentando se fazer de coitado.
Agora, eu passei a encarar a realidade e não mais a fantasia criada por trás dela.
Agora, eu continuo pombeando pelas casa familiares, entrando e saindo de lares com humores diferentes em curtos períodos constantes, mas sem deixar afetar o interno, como se fosse impermeável. Como se não absorvesse a essência do problema, do sentimento; a essência da essência.
E não, eu vejo que isso não é bom. Porque, por mais que pareçam banais, não são. Mas nós permanecemos nessa eterna mania de nos preocupar apenas com nossos próprios problemas; nossa mania de minimizar o sofrimento alheio.
Agora, depois de tantos calos, eu percebo minha humanidade sendo deixada para trás para poder assumir a coisificação da nova era; a desumanização.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Alheia

Eu reconheço, admito, confesso e me entrego. Talvez haja mais de mim espalhada por aí, nos ventos, flores e oceanos, do que aqui dentro desse corpo.
Como num fácil livro de magia, eu sempre faço-me poética nas palavras, nas músicas e no olhar. Faço-me deslumbrada com uma beleza quase inexistente de tão invisível que é nesses dias corridos de hoje. Eu me deixo levar pelos devaneios que surgem à cabeça e sei que isso te assusta, como se eu pudesse sair de mim a qualquer momento - o que não deixa de ser algo provável.
Sentada na cadeira de balanço, eu viajo até o mais profundo dos mares, e permito-me voar num céu mais azul, onde as nuvens falam, sussurram, cantam baixinho com suas vozes amarelo-ventadas de sino. E vou além, cultivando uma forma não conhecida de flor e colhendo frutos estranhos num campo imaginário enquanto algumas poucas palavras suas ecoam e quicam dentro da minha mente alheia ao mundo. Sabe, eu não gosto da idéia de não conseguir prestar a devida atenção às suas palavras, mas é só porque eu gosto do som da sua voz. Gosto da maneira como o rouco da sua garganta soa bem em dias de chuva. Mas é que, parando para pensar, há muito mais beleza naquilo que o olhos vêem quando vagam sem rumo, do que naquilo que nos focamos e fixamos o olhar para tentar encontrar algum tipo de razão. Há beleza na irracionalidade e é exatamente quando estamos inconscientes do ambiente ao redor, que vemos a verdadeira cor nele. Sem máscaras e sem disfarces, é só quando a insanidade assume o lugar da lucidez que conseguimos enxergar aquilo que a realidade esconde, por ser tão invejável e ofuscante; tão inigualável que faz com que o real se torne sem graça.
E eu gosto de ser assim, alucinada com o que está por baixo dos panos. Me faz feliz que eu consiga ir até o sol, tocar a lua e deixar esse corpo e essa matéria toda que me incomodam sem ter que tirar literalmente meus pés do chão. Mesmo sabendo que isso te intriga, te choca, te assusta e te deprime, eu gosto de não estar presa dentro de mim mesma. Tenho consciencia da maneira como seus olhos tornam-se pontos de interrogação quando me vêem despreender-me do humano e conectar a freqüência única e perturbadoramente bela do sentir, mas não posso evitar; não quero evitar.
Como naquela vez em que começou a chover e eu me inclinei em direção às gotas, fechando os olhos e respirando suavemente, derretendo conforme a àgua, saboreando o cheiro da terra molhada, o gosto úmido da grama verdinha e você, sempre racional demais para ver a aura cinza-branco-perolada que a chuva exala, perguntou se eu era mesmo deste planeta. É, talvez eu tenha sido apenas um produto acidental da matéria; produto esse que não foi feito para o fixo, o explicável. Produto que não é tocável, porque é ligado à cor, ao som; ligado à tudo aquilo que não é visível, comprovado racionalmente, palpável.
E agora sou eu quem pergunto porquê você, com essa racionalidade toda, não vê que o mais bonito está no além do que o mundo nos faz acreditar. Há vida do outro lado desse plano gasto e apagado, menino. Eu já não te disse que você tem que aguçar seus sentidos? Pode me chamar de louca, anormal ou estranha, porque eu não ligo. Prefiro essa minha loucura do que essa sua sanidade forçada que te cega enquanto você pensa estar evoluindo por ser mais racional. Essa lucidez que só te prende ao chão me causa repulsa.
E mesmo que isso implique em uma anormalidade, eu gosto do cheiro do por-do-sol e do gosto da pedra molhada. E tenho pena que você, como todos os outros, só veja o que está fácil de enxergar, bem em frente aos seus olhos. Tenho pena porque, pessoas assim, estarão sempre algemadas a si mesmas, impermeáveis à luz, imunes à verdadeira vida; à real beleza.
Enquanto eu, bom, sempre terei aquela minha porção de alegria bem escondida nos bolsos graças ao que vocês chamam de loucura.