quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Meio campo

Você, aquele do tipo engraçadinho, galinha e pentelho; que dava uma vida para não perder a piada; uma vida para não perder o jogo. Eu, com minhas músicas alternativas e risos incontidos; eu, que permanecia fria e intocável, fazendo questão de me garantir no primeiro lugar, orgulho intacto, cálculo perfeito. Os dois mal acostumados, com essa mania incessante de querer ganhar.
Até que nos esbarramos numa esquina qualquer, como dois estranhos que estranhamente se gostam. Mas éramos durões demais para nos deixar cair um pelo outro, ou talvez para admitir isso. E então começaram as trapaças.
Você pegava minha mão escondido, longe dos olhares, e eu sorria para você sem que percebessem. Uma piscada aqui, e um riso disfarçado ali.
Suas mãos percorrendo meu cabelo e reclamando pela falta da minha. Eu sempre insistindo em continuar essa historinha de chove não molha, e você querendo partir para os finalmentes. Eu te achando engraçado e você rindo da minha raiva. Você fazendo juras de amor e eu te mandando parar de mentir. Eu, por algum motivo desconhecido, nunca dizendo não para você. Deixando tudo na base da possibilidade.
Você tentando incansavelmente me ganhar com seu sorriso malandro, e eu quase não resistindo.
Brigávamos todos os dias, e se tivessemos um casa, nós a explodiríamos. Mas nem sequer tinhamos algo estável, nem mesmo tínhamos algo. Discutiamos feito um casal, eu sempre na defesa e você constantemente no ataque. Até que nos encontramos no meio campo. Descobrimos nossas mesmas besteiras. Descobrimos que éramos diferentes e nada parecidos, mas tão bons juntos.
Mesmo minhas amigas até hoje dizendo que você não presta, e os seus amigos te mandando constantemente 'dar um jeito nisso'. Você sabe tanto quanto eu como nós éramos bons juntos.
Você sempre com seus fieis escudeiros e eu com minhas parceiras de crime. Olhares trocados e destrocados sem que alguém mais notasse. Mãos dadas escondidas e sempre a sua dúvida contra a minha. Eu lembro das suas tantas tentativas e das minhas tantas negações. Você levando a sério até certo ponto, e eu disfarçando para descobrir que ponto era esse.
Mas a graça estava em como nós jogávamos um com o outro. Na nossa eterna mania de querer ser melhor. E ninguém entendia isso. Essa nossa necessidade orgulhosa de vencer.
O primeiro olhar que eu procurava quando chegava era o seu, e você sempre estava sentado lá no seu lugar perto de mim, me esperando com um sorriso presunçoso; sabendo que eu nunca resistia a tentação, bem como você também não.
Por fim, você se cansou desse beco sem saída e eu enjoei desse caso sem solução. Mas eu queria algo diferente do que você me supôs. Você queria apenas vencer o jogo, e eu queria um bônus por te deixar ganhar. Tão orgulhosos e tão covardes. Sempre brigando por algo que nem chegou a começar. Um prêmio que nem chegamos a disputar.
E, depois de anos, ainda esbarramos nos mesmos corredores e ainda nos olhamos com um brilho meio apagado no olhar. Com o brilho escondido de uma possibilidade improvável. Eu com minhas atuais descobertas e você com seus problemas mal resolvidos. Seus amigos sempre te jogando contra um 'nós', e minhas amigas sempre dizendo o quanto você é errado.
Seus olhos caídos e ansiosos ainda roubando uma olhada minha disfarçadamente enquanto eu ainda te fito pelo canto do olho. Porque sozinhos sabemos que poderia ter dado certo se não complicássemos tanto a equação; teríamos virado alguma coisa se não tivéssemos transformado em problema o que era para ser a solução. Podíamos ter nos apaixonado, como pessoas normais fazem. Queríamos ter nos apaixonado. Porque, no final das contas, você sabe que minha vida é um saco sem você e seus truques baratos; da mesmo foma como eu tenho certeza que o seu dia é sem graça sem minhas piadas contadas errado. Parados aqui no corredor e analisando os fatos, descobrimos o quanto poderíamos ser se não fosse o medo de tentarmos. Se não fosse o medo de colocar as palavras para fora, em vez de permitir o pairar desse silêncio desconfortável.
E agora, retomando meu caminhar na direção contrária da sua e olhando furtivamente essa sua forma gingada de andar, só consigo ver o quanto estava enganada em pensar que isso tudo terminaria com um final feliz. E o quanto você estava errado em suas previsões de um futuro que eu queria e você gostava. Então aqui estamos nós, até hoje, tentando sair dessa bifurcação que nos leva a caminhos opostos e encontrar uma estrada em que possamos seguir juntos, nem tão perto para brigarmos e nem tão longe para sentirmos falta um do outro.
Até hoje, competindo pelo primeiro lugar, você com sua mania de insistir no 0x0 e eu brigando por 1x1. Você exigindo um sim ou um não. E eu sempre te propondo um se.
Ambos irredutíveis; Ambos, como sempre, empatados no meio campo.

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