sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Do fogo ao gelo

E então elas voltaram. Quentes, úmidas e pegajosas. Não posso reclamar, visto que cheguei a desejar que voltassem. Implorei que se fizessem presentes de novo, e agora me arrependo amargamente porque elas voltaram com tamanha intensidade que me impediram de respirar em intervalos de tempo. Intervalo de uma para outra. Até que todas juntas resolveram apostar um drift, correndo sem parar pelas curvas sinuosas das minha bochechas. Sim, as lágrimas estão de volta.
A conhecida dor esmagadora pressionou meu peito e minhas mãos trêmulas envolveram-me apertadas, tentando segurar um prédio prestes a desabar, porém como se ninassem um bebê. As chamas dançavam pelo meu rosto já inchado e vermelho; marcado pelo sentimento estranhamente dolorido e culpado. Os soluços saltavam por entre meus lábios sem a minha permissão. Sufocavam-me e emitiam sons guturais, roucos e tristes. Era incontrolável. Eu queria que parasse, queria poder cessar as lágrimas e essa dor esmagadora, mas não conseguia. Meu coração batia acelerado e descompassado, feito uma bomba relógio. E era crescente; ia aumentando conforme o tempo passava. Parecia que eu estava prestes a explodir. Tranquei minha boca, obrigando-a a calar-se; aquietar-se. Eu tinha plena consciencia do grito preso em minha garganta, esperando o momento oportuno para irromper. A força que eu fazia para colocar aquilo para fora sem deixar transparecer era tanta que, depois de horas, me deixou cansada. Joelhos exaustos foram cedendo vagarosamente até o piso frio e duro. Não era mais explosão; agora eu havia implodido. Involuntariamente meu rosto relaxou e suavizou, mandando embora as expressões de insanidade. Consegui, enfim, respirar. Puxei o ar como uma pessoa que estivesse afogando faria; ofegante. A água quente e salgada que escorria pela borda de meu rosto cessou, limitando-se apenas a permanecer nos meus olhos, sem transbordar. Eu agradeci silenciosamente.
Eu sabia que seria assim, mas havia me esquecido da sensação exata que era chorar. Já fazia algum tempo desde que eu havia decidido nunca mais deixar isso acontecer. E eu cumpri a promessa que fiz a mim mesma durante um longo período de tempo. Nenhuma gota havia caído de meus olhos, até agora. Embora isso não me agradasse, fiquei aliviada. Deixe-me escorregar pela parede até conseguir sentir o mesmo piso frio e duro, só que desta vez sob meus cabelos. Olhei em volta e vi o mesmo cenário; o mesmo palco de tantas outras atuações dramáticas particulares. Me vi novamente no mesmo papel que sempre fiz.
Eu estava lá, trancafiada no banheiro de novo, escondendo-me da coragem. Permitindo a entrada apenas da fraqueza e de ninguém mais. Só que meu tempo estava se esgotando. As vozes lá embaixo chamavam freneticamente. Chamavam por meus afazeres ainda não feitos, e por minhas tarefas não cumpridas; nunca por mim. Não foi diferente das outras vezes e nem mesmo sei porque eu esperava que fosse.
Levantei e tentei manter minha respiração o mais estável possível. Estranhei a maneira como me sentia rígida; como se pudesse fuzilar alguém apenas com o olhar. Geralmente a mágoa superava a raiva, mas dessa vez eu sabia que havia mais gritos e palavrões dentro de mim do que água salgada. Talvez eu estivesse secando, finalmente; desidratando-me para poder tapar a fonte inesgotável. Talvz fosse só casualidade.
Dei de ombros; eu não me importava o suficiente com isso para me preocupar.
Enxuguei as lágrimas traiçoeiras e me virei para o espelho, verificando o tamaho do estrago. Assustei. Quem era essa que me encarava friamente do outro lado do vidro? Que olhos sólidos e impiedosos eram esses que me esquadrinhavam? Aquilo não era eu. Ou era? E se fosse a nova versão de mim, aquela que eu sempre tive medo que acabasse por ser predominante? Eu sabia que um dia isso aconteceria, mas ainda assim estranhei. Porque, na realidade, nada ao meu redor mudou; a situação permanece a mesma. A transformação ocorreu do lado de dentro, embora tenha refletido por fora. Analisei-me com cuidado e pude sentir a mudança vindo de dentro para fora, envolvendo-me como uma casca sólida e inquebrável; assenti, era assim que era para ser. Senti o peso dessa decisão sendo tomada entendendo que, infelizmente, não havia opção, visto que meu coração já estava em pedaços pequeninos demais para se partir novamente.
Então eu era inabalável; inatingível. A menina no espelho não tinha mais o conhecido sorriso frouxo, nem era dona dos olhos castanhos líquidos, doces e permeáveis. A expressão presente no novo rosto era lívida. Calma; porém com um aviso invisível, mas notável: Atenção! Perigo.
Ela ainda era ela; e elas ainda eram eu, mas não havia ternura, nem inocência. Elas agora eram mais eu, do que eu havia sido alguém um dia. Aceitei isso com um riso malicioso no rosto; eu não era mais quebrável, rasgável e nem descartável. Não havia mais fogo em mim. Eu era gelo; puro e sólido.
As mãos, desta vez firmes, giraram a chave pela fechadura da porta até que ela se abrisse por inteiro. Abri os novos olhos e me deparei com a verdade, com a coragem e com a realidade. Aceitei também e caminhei determinada porta a fora, deixando no chão do mesmo banheiro aquela garota que entrou a algumas horas atrás chorando. A garota frágil, sensível e boba; cheia de dúvidas e incertezas; a garota magoável demais. Deixei-a lá, com sua vida morna e seu all star desamarrado. Porque, no final das contas, eu desconfiava que seria assim. Ninguém consegue continuar batendo na mesma tecla quando essa tecla já está inativa a muito tempo. Não há mais coração suficiente para suportar tudo outra vez.
Então, como um ultimo recurso de auto proteção, eu decido não deixar-me mais exposta a esse tipo de ataque. Decido não deixar mais que água amargas apaguem o fogo vibrante dentro de mim e, por isso, restou-me o gelo; o qual eu aceito de bom grado e agradeço. O mesmo gelo que aparenta ser refrescante mas que, se tocado, queima e fere.
Não mais o fogo; apagável, maleável, manuseavel. Nem as lágrimas que, por algum motivo, eu tinha certeza que não voltariam por nada; por ninguém.
Não mais o sensível. Nem o molhado.
Agora, só o que restou foram os olhos secos e o bloco firme e fixo em volta de um orgão fragmentado, porém não mais destrutível.

Um comentário:

Toda ação gera uma reação. Eu agi, agora é vez de vocês reagirem. :)