sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cicatrizada

Eu ainda sinto aqueles olhos em mim. Aqueles muitos pares de olhos com expressões curiosas e até mesmo esperançosas. Como se me perguntassem porque eu ainda estou calma. Como se esperassem que eu fosse enlouquecer a qualquer momento. Um bomba prestes a explodir.
Antes eu não entendia, e ficava com raiva dessas pessoas que me encaravam. Mas agora eu percebo que, em dadas ocasiões, isso é mais frequente. Talvez agora eu seja vista meio de lado, olhada pela janela daquela vizinha fofoqueira. Quase consigo ouvir as mães cautelosas sussurando para que seus filhos não se aproximem da garota, daquela que está aparentemente perdida no mundo, sem rumo certo. Em geral, elas disfarçam e desviam o olhar, talvez tenham medo de mim.
Não me lembro de ter sido alguma vez muito diferente do que é agora, porque isso tudo começou cedo demais para que eu me recordasse dos tempos normais. Ainda assim, ressalto que piorou desde aquele fatídico dia. Dali em diante, os olhos sempre me acompanharam. Sorrateiros, intrigados e escondidos atrás de uma camada de falsidades e palavras solidárias de mentira. Na verdade, ninguém nunca se importou com o fato. Não como nós daqui, não como eu. O que esses olhares procuram é fogo para poder fofocar. Procuram um sinal de medo em mim, alguma prova de um possível distúrbio. Sinto decepcionar, mas ainda não cheguei a esse ponto. Ou quem sabe, eu tenha passado direto por ele; esquecido de freiar nessa minha fuga descontrolada de pupilas dilatadas.
Agora, porém, eu entendo. Sei que não passa de desafios. Esses olhos apostam comigo, me provocam. Eles querem que eu perca o controle, querem me ver insana, rebelde e drogada, só para poder ter o que comentar.  Poder dizer uns aos outros: "É, coitada. Essa não teve sorte na vida."
Porque eu sei que o fato de eu estar seguindo em frente com a minha cabeça bem levantada, incomoda; intriga e assusta. Eu sei que, no meu lugar, muitos perderiam a razão, a sanidade; perderiam a cabeça. E sei que é por isso que essas pupilas ainda esperam por mim; esperam por um eu que não serei.
Esses meus olhos vermelhos só provam que foi ótimo enquanto durou. Provam que foi tão bom, tão maravilhoso e tão indescritível, que acabou. Porque sabemos que tudo que é bom demais dura pouco.
Esse meu soluço é apenas por saber que a saudade vai doer mais do que fogo queimando na pele, não agora; mas vai doer mais, bem mais, quando eu chegar em casa e encontrá-la vazia. Eu choro sim, da mesma forma como chorei das outras vezes, com a mesma intensidade. Mas eu faço isso aqui e agora, faço enquanto posso e enquanto devo. Porque amanhã a vida continua, e se eu não sofrer tudo o que tiver para sofrer hoje, nesse momento, eu vou guardar isso dentro de mim; vou carregar essa mágoa, esse peso. Então, ao contrário do que pensam, essa é a forma como eu me mantenho sã.
Eu não vou sair gritando e enchendo a cara. Não vou causar mais problemas, quando já temos o suficiente para uma vida. Entendam: eu não vou pirar.
A Brenda, aquela das piadas mal formuladas e da risada descontrolada, continua aqui. A diferença é que eu aprendi a crescer, porque não se cresce apenas assim, crescendo. É preciso aprender a amadurecer, e eu aprendi sim...da pior forma, mas aprendi. Eu convivi com tantas perdas que acabei por simplesmente aceitá-las e me conformar com o presente. Aprendi a parar de agarrar o passado; ele foi tudo o que poderia ter sido, mas me trouxe até aqui e me mandou assumir o controle, sozinha. E é isso que estou fazendo.
Então, parem com essas expressões de frustração, de piedade e de surpresa. Parem com isso de achar que eu estou sendo muito passiva, parecendo muito conformada. Eu sei o que acontece dentro mim, e não preciso que me digam o que fazer. Sei dos meus conflitos internos, e das minhas crises. Mas entendam de uma vez por todas: Eu não vou explodir.
Não sou uma bomba relógio. E sei muito bem o caminho para o qual estou indo. Não estou perdida, não estou sem rumo. Eu sei quem eu sou, e sei que o mundo lá fora não pára para que eu conserte o que foi quebrado. Então aceitem que, por mais que tenha me machucado, não me matou. E não vai me matar. Tratem de parar com essa mania de psicólogo. Eu não preciso de ninguém para cuidar dos meus problemas; eu mesma os resolvo. Parem com esse jeito de achar que há algo errado e que, mais hora menos hora, isso vai acabar por estourar feito um balão e vocês vão apenas dizer presunçosos: "Eu sabia que isso iria acontecer."
Não há absolutamente nada errado aqui. E eu não tenho que provar isso a ninguém. Basta eu saber que a saudade presente em mim é só para me lembrar do quão feliz eu fui, e para me ensinar o quanto eu ainda posso ser. As minhas perdas, lágrimas e feridas serviram apenas para um aprendizado; para um plano maior do que eu podia ver na época e, por isso, eu as guardo dentro de mim; cada memória e cada lembrança. Sim, as cicatrizes estão aqui dentro ainda, mas como o próprio nome diz, elas estão cicatrizadas.
Então desculpe, mas não adianta esperar por mim com uma camisa de força nas mãos.
Guarde-a  para quando eu der a volta por cima, porque vocês provavelmente vão precisar quando virem que a garota que vocês diziam estar perdida, está vivendo a vida dela; satisfeita e de queixo erguido.

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